Infâncias Plurais: produções culturais para todas as crianças

Publicado em: 24.08.2021

Para inspirar artistas e educadores e fomentar suas produções culturais, o Instituto Alana e o Itaú Cultural promoveram, em 2020, a jornada Infâncias Plurais, um ciclo de encontros e criação de novos projetos sobre infância e adolescência.

A jornada proporcionou a troca de saberes sobre culturas da infância por meio de palestras com especialistas de diferentes áreas e de um laboratório de projetos para a produção de peças audiovisuais. A ideia surgiu com a intenção de apoiar o mercado cultural para a infância tão fortemente impactado pela pandemia.

Dos 440 participantes da jornada, 220 entregaram uma produção audiovisual e 50 delas foram selecionadas. Foram contemplados curtas-metragens de todas as regiões do país, revelando uma grande variedade de temas e abordagens. “Ao longo da jornada fui dimensionando a diversidade enorme não só geográfica ou étnica, mas também de práticas, experiências, trajetórias, áreas de interesse e atuação”, conta Luciana Fleischman, uma das tutoras dos laboratórios de criação que acompanhava e auxiliava na construção criativa das produções audiovisuais.

Entrevistamos cada um dos idealizadores dos 50 projetos para saber sobre como foi participar do Infâncias Plurais. Para além dos desafios encontrados para a produção do conteúdo em meio à pandemia, são comuns os relatos sobre os ensinamentos trazidos pela experiência, sua relação com o tema da infância e de que modo a temática pautou o desenvolvimento do trabalho.

Voltados para famílias, educadores, artistas interessados e crianças, os vídeos abordam temas como contação de histórias lúdicas; crianças como protagonistas; a importância do brincar livre; a defesa do meio ambiente; o universo infantil como disparador de histórias; o brincar com elementos da casa; a importância do contato da criança com a natureza; entre outros. Para que seja possível conhecer os trabalhos de maneira mais aprofundada, categorizamos os vídeos por assuntos, como você pode ver abaixo.

Os vídeos – curtos e potentes – buscam, sob diversas perspectivas, ver o mundo a partir dos olhos das crianças, levando em conta suas diferentes realidades.

Acompanhe aqui semanalmente as produções audiovisuais, chame toda a família e divirta-se!

A bisa precisa ficar em casa

Gustavo Guimarães Gonçalves - São Paulo/SP

A bisa precisa ficar em casa conta a história de uma família de acessórios eletrônicos. O protagonista é Pen, um pen drive filho de uma fita cassete e de um CD e cuja bisavó é uma fita VHS. Quando um vírus infecta parte das mídias, todas ficam  muito preocupadas com a situação. Para proteger sua família e os demais eletrônicos, Pen pensa num aplicativo. Gustavo Guimarães Gonçalves, idealizador do vídeo, destaca que a própria pandemia fez com que o tema viesse à tona: “Achei pertinente para o momento”.

“Brincar com o impossível, como um pen drive que ganha vida, é instigar o mundo fantasioso do universo infantil”, diz. O vídeo conta com recursos de stop-motion, fotografias digitais e efeitos de animação. Para o artista, o maior desafio foi roteirizar uma história extensa em 2 minutos. Animar as bocas das personagens também não foi tarefa fácil.

Gustavo começou a fazer teatro aos 13 anos, na Cia. Paideia, onde assistiu muitas apresentações de obras teatrais voltadas para a infância e a juventude. Depois de estudar teatro de animação, humor e máscaras, começou a trabalhar mais intimamente com o tema da infância ao fundar o grupo Ciclistas Bonequeiros, projeto que leva o teatro de bonecos para crianças que não têm acesso a essas apresentações. Hoje ele também estuda pedagogia. 

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De que é feita a lua?

Luana de Souza Cavalcante - Sobradinho/DF

Você já imaginou outras histórias e origens para as coisas? De que é feita a lua? é um convite à imaginação. Ao som do xequerê, questionamentos poéticos vão dando início à criação de uma narrativa alegórica da formação do astro.

Luana de Souza Cavalcante, autora do curta-metragem, é artista visual e aprendiz da pedagogia griô, cujo foco  é a expressão da identidade, o vínculo com a ancestralidade e a celebração do direito à vida, havendo uma grande valorização das histórias e das mitologias pessoais. A partir disso, Luana desenvolveu um interesse pela criação de histórias e refletiu sobre como se daria uma elaboração simbólica e mitológica da origem do astro que tem em seu nome.

O vídeo foi inteiramente realizado por ela. Após escrever o roteiro, buscou imagens que pudessem compor a narrativa, sendo o seu principal desafio a parte mais técnica, de edição. Luana acredita que uma das principais contribuições do trabalho para a discussão do tema da infância não está na narrativa em si, mas na própria produção.

Como mulher com deficiência, ela considera que, no que diz respeito ao debate sobre os direitos do grupo, a representatividade ainda precisa ser discutida com maior profundidade. “Eu cresci sem referências de que pessoas com deficiência poderiam ser o que quisessem. Passei por diversos momentos de questionamento das minhas capacidades […] por isso, entendo esta produção como uma oportunidade para que crianças com deficiências – que geralmente têm as infâncias muito pautadas em diagnósticos médicos e veem suas vidas cerceadas por essa narrativa única – tenham a chance de refletir sobre a potência que elas têm, de fazer o que quiserem e de recontar suas histórias sob diversas perspectivas”.

Foi nesse sentido que se deu a participação da autora na jornada Infâncias plurais, a partir também do desejo de se aprofundar no tema e de experimentar novos formatos de produção artística, como o audiovisual. Como arte-educadora em museus, estudante de pedagogia e integrante de programas educativos, ela busca compreender as infâncias para desenvolver e propor atividades com e para as crianças.

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Histórias da roça - garupa

Tobias Rezende Strogoff de Matos - Campinas/SP

Histórias da roça – garupa é um curta-metragem de animação baseado em uma lenda ouvida na zona rural de Ervália, em Minas Gerais. Na narrativa, um sujeito carrancudo montado em seu cavalo, por ironia do destino, acaba oferecendo garupa para o próprio coisa-ruim.

Tobias Rezende Strogoff de Matos conta que se inspirou nas histórias que ouvia de seus avós durante a sua infância no interior. O vídeo foi produzido também como uma maneira de pensar em modos de preservar, transmitir e salvaguardar elementos de culturas regionais, seus saberes e suas tradições, sujeitos ao esquecimento com a morte de seus detentores.

Sua ênfase foi na construção sonora do vídeo, que deveria remeter a esse universo da roça e aos medos dos que ali habitam. Com a peça sonora editada, foram realizadas a animação das ilustrações e a finalização da produção. Entre os principais desafios, o autor destaca as limitações impostas pela pandemia e o tempo curto para conclusão do vídeo. Ao mesmo tempo, acrescenta: “Compartilhar essa experiência com os colegas que participaram do Infâncias plurais possibilitou encarar as restrições de maneira criativa e motivadora”.

A proposta da jornada ecoou em outros projetos e estudos que Tobias vem desenvolvendo ao longo de sua trajetória profissional, de modo que sua participação possibilitou que colocasse tudo isso em perspectiva, impulsionando-o, diz. O mergulho no tema da infância vem desde o seu primeiro curta-metragem, Coisa-Malu, por meio do qual também realizou oficinas de vídeo com crianças e participou de atividades que o encaminharam para a criação da primeira mostra de cinema infantojuvenil de Ervália, a Recria Cine.

Hoje, “é no terreno da infância que cultivo os meus maiores sonhos”, revela o autor. Para ele, a produção audiovisual tem a missão de criar pontes entre as infâncias, a memória oral e a cultura viva de diferentes territórios e regiões.

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Monster live

Daniela Fossaluza - Rio de Janeiro/RJ

Já pensou em assistir a uma live reunindo monstros de vários lugares do planeta? De diferentes dimensões, eles poderão se manifestar sem perigo de conflito, cada um no seu quadrado, e com segurança também para quem vai acompanhá-los do conforto do seu lar. Monster live apresenta o lobisomem, a sereia, a medusa, a bruxa, a cabra-cabriola e várias outras criaturas de alta e de baixa monstruosidade. Com humor e música, o vídeo revela os medos de muitas crianças personificados nesses personagens.

Apesar do desconforto, muitas crianças têm necessidade de ver representados seus medos, seus pavores e suas dúvidas por meio do humor, sendo assim possível ressignificar esses sentimentos, acredita Daniela Fossaluza, criadora do vídeo. “Crianças sempre me solicitaram histórias de dar medo ou sobre monstros durante minha trajetória como artista e pesquisadora das infâncias”, conta. Segundo ela, outra motivação para fazer o vídeo foi o fato de seu sobrinho estar internado, o que a fez refletir sobre os medos que as crianças sentem em momentos como esse.

Para a produção, foram utilizados monstros feitos de pano, e as gravações foram feitas com o próprio celular de Daniela. Sua maior dificuldade foi em relação à edição do material, mas sua filha Diana, de 17 anos, conseguiu ajudá-la com os aplicativos que domina: “Foi um alinhavo entre gerações, a arte da costura e da narração que venho praticando há anos com a leveza e o conhecimento audiovisual que minha filha vem exercitando com a produção dos vídeos que ela publica em suas redes sociais”.

Graduada em artes cênicas, ela trabalha com crianças desde a sua formação e atualmente coordena um grupo chamado Costurando Histórias. Sua principal motivação para participar do Infâncias plurais foi a possibilidade de ouvir diferentes profissionais falando sobre infância e trocar experiências.

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O menino e o monstro

Ana Elizabeth Japia Mota - Camaragibe/PE

O menino e o monstro conta a história de Luca, um garoto que navega com seu barco em alto-mar à procura de aventuras! Certo dia, ele se depara com uma ilha deserta cheia de caveiras e ossos, e suspeita que por ali exista um monstro… A criatura de mil metros de altura e 4 mil quilos logo aparece, Luca consegue capturá-la e decide vender sua pele. Mas será que é mesmo uma boa ideia? Ao ficar cara a cara com Carantoia, nome que deu ao monstro, o menino lê seus pensamentos e muda o rumo da história.

A narrativa e os desenhos do vídeo foram criados também por Luca, de 8 anos, filho de Ana Elizabeth Japia Mota, idealizadora da produção. “O curta abre espaço para a expressão de uma criança, invertendo a lógica adultocêntrica de quem conta e quem ouve ou vê histórias”, comenta. Para ela, essa é uma das maiores contribuições do trabalho.

“Hoje, minhas criações para o teatro nascem sempre de uma relação dialógica com o universo infantil, abrindo espaço para as expressões das crianças e para as representações da pluralidade das infâncias”, revela Ana, cujo interesse pela infância veio antes mesmo de se tornar arte-educadora e realizadora de teatro. Foi com sua primeira filha que se desenvolveu na contação de histórias, depois passando a adaptar as narrativas para o teatro. Foi nesse contexto que percebeu a capacidade de sua filha de se expressar com palavras e descobriu a criança como grande produtora de cultura.

Os desafios foram muitos, já que a autora nunca havia trabalhado com linguagem audiovisual em stop-motion – técnica escolhida depois de conhecer processos de outros artistas do Infâncias plurais. “Participar da jornada foi um alento para mim em meio à crise vivida como artista de teatro ao longo do primeiro ano de pandemia. O que fazer diante do distanciamento social necessário, se o teatro é a arte do encontro? Descobrir a possibilidade de criação artística na linguagem do audiovisual e ter meu trabalho selecionado foi um verdadeiro presente!”

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Pipa pai, pipa filho

Carlos Henrique Morais Reis - Osasco/SP

O que uma pipa pode ensinar? Pipa pai, pipa filho conta a história de pai e filho que costumam soltar pipa na periferia. A brincadeira revela o quão prazeroso e difícil pode ser empinar um simples papagaio. A narrativa propõe uma analogia com a própria vida e os conflitos que a permeiam, além de enfatizar a importância dos vínculos entre pai e filho.

O falecimento do pai de Carlos Henrique Morais Reis trouxe uma enxurrada de memórias afetivas que permeou seu processo criativo. Ao notar que o  céu, antes cheio de pipas, havia se tornado um grande vazio com a pandemia, ele se lembrou de uma história vivida com o pai. “Trabalhar com essa temática me fez perceber que tudo o que ele foi ainda se faz presente em mim.”

Pipa pai, pipa filho foi desenvolvido como uma contação de histórias, mas utiliza outros recursos e linguagens artísticas, como música, teatro de sombras e manipulação de desenhos. Carlos revela que o principal desafio foi adaptar o texto para apenas dois minutos sem que a ludicidade se perdesse: “Com o tempo, percebi que a mesma dificuldade se tornou uma grande aliada para deixar a narrativa mais dinâmica e permitir que as crianças construam as suas próprias ligações de entendimento e reflexão”.

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Casa em jogo [amarelo]

Ieltxu Ortueta - Cunha/SP

O que é possível fazer com todos os objetos amarelos que temos em casa? Casa em jogo, de Ieltxu Ortueta, convida crianças e adultos a criarem, de forma livre e lúdica, a partir de itens como uma meia, uma banana, um pincel, um lápis, um escorredor de macarrão – tudo amarelo! “Não costumo trabalhar com temas predeterminados, instiga-me mais a experimentação com materiais que não narram uma história, mas convidam a uma experiência aberta que se completa com a ação e a descoberta de cada criança”, conta Ieltxu.

O que criar depois de estar com tudo amarelo em mãos? Para o autor, a ideia é pensar em jogos ativos e analógicos que estimulem as crianças a saírem das telas e começarem a brincar. A própria gravação do vídeo foi uma brincadeira: com uma gambiarra, Ieltxu colocou a câmera no teto para gravar suas ações; intercalou os planos gravados com obras de arte famosas nas quais predomina o amarelo, mantendo a ideia do convite à criação artística.

Ele também fala da importância de ver a infância de forma horizontal: “Não podemos criar arte tutelada, precisamos olhar e agir junto com as crianças, como sujeitos singulares e protagonistas que são; propor experimentação não para ensinar nada, mas para estabelecer um diálogo”.

O artista, que trabalha com crianças desde 2015 – data também de seu primeiro trabalho, Flou! –, revela que busca a ação no tempo presente, de modo que o acontecimento se dê na relação direta com os pequenos. Seu interesse se estende igualmente ao papel dos adultos, que também fazem parte do que Ieltxu chama de “acontecimento criativo”. 

 

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Fio da meada

Sabrina Costa Barros e Edilene Aparecida Ferreira - Vinhedo/SP

Com a pandemia do novo coronavírus, fomos todos convocados a nos isolar dentro de nossas casas. Em Fio da meada, a partir dessa realidade e de uma valorização de memórias e estados de infância, duas artistas e educadoras constroem narrativas corporais que se relacionam e ressignificam o que há de cotidiano e familiar no ambiente da casa, explorando seu potencial lúdico e poético.

Sabrina Costa Barros e Edilene Aparecida Ferreira produziram o vídeo com a técnica de stop-motion, usando seus próprios celulares e um aplicativo para a captação. No processo de pós-produção, contaram com a orientação artística da equipe da jornada Infâncias plurais]. Segundo elas, “pensar na relação entre a forma e o conteúdo e realizar todas as etapas de produção foi bastante desafiador, cheio de testes e estudos”.

Sua participação na jornada se deu no intuito de valorizar a troca plural entre pessoas, profissionais, territórios, projetos e linguagens. Segundo as autoras, que já pesquisavam juntas o trabalho artístico, pedagógico e cultural para as infâncias, o Infâncias plurais chegou na hora certa como uma possibilidade de irem mais longe nesse caminho, com o suporte, a orientação e a inspiração de profissionais de referência.

Sabrina revela, aliás, que o tema faz parte de sua vida desde a licenciatura em dança, quando começou a observar as crianças para relembrar “aquele mesmo prazer pelo movimento, o desejo de expressão e a disponibilidade corporal para a vida” que tinha na infância e que a levou a traçar o seu percurso na área artística. Edilene também trabalha com a promoção de “encontros que considerem o brincar, as expressões singulares de cada criança e o seu protagonismo”.

A ideia das autoras é que o vídeo possa transmitir a mensagem de que a casa pode ser um brinquedo, de que “a imaginação é capaz de transpor os limites físicos das paredes que nos rodeiam e nos separam do mundo lá fora, quiçá cocriando um outro, melhor e mais amigável para todos”.

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Partes móveis: um pequeno ensaio sobre mover em casa

Fernanda Bertoncello Boff - Porto Alegre/RS

Partes móveis: um pequeno ensaio sobre mover em casa é uma videodança voltada para o público infantil que propõe uma ressignificação da casa e da sua mobília a partir de movimentos corporais. A própria infância de Fernanda Bertoncello Boff foi inspiração para a criação do vídeo. Para ela, investigar a casa em uma relação extremamente sensorial e inventiva era, sem dúvida, uma das coisas que mais gostava de fazer quando pequena. “Algumas das memórias mais marcantes que carrego comigo são de vezes em que estive em casa sozinha por longos períodos de tempo e, então, me permitia transformar os cômodos em universos mirabolantes, deixando a imaginação fluir”, destaca.

Em apenas um quarto com seus móveis, Fernanda experimenta movimentos na cama, no armário, no chão e revela que o essencial foi a espontaneidade, combinada a algumas estratégias de composição coreográfica. “Por meio da experimentação de movimentos, pude fazer registros prévios e elencar os momentos mais interessantes para a proposta e os que melhor dialogavam com as ferramentas do audiovisual”, explica a artista e educadora.

Durante a pandemia, a casa ganhou ainda mais funções e significados. Assim, o vídeo apresenta-se como um incentivo para que crianças e seus familiares explorem suas casas “com um olhar curioso, resgatando movimentos, dando atenção a esse corpo criativo”.

Fernanda conta que seu envolvimento com a temática da infância aconteceu principalmente quando entrou na universidade e começou a se dedicar aos campos da dança e da educação. Trabalha desde 2010 com a produção para e com o público infantil, atuando em inúmeros espetáculos.

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Riscação

Camila Storck Leroy e Maria Beatriz Carneiro da Cunha de Souza Lima - ColetivaRecife/PE

Riscação é o registro de uma performance em que acontecem diversos jogos envolvendo corpo, grafismo e gravura. Com um grande rolo de papel branco esticado no chão e na parede do corredor de casa, lápis e tinta na mão, é hora de riscar!

Camila Storck Leroy e Maria Beatriz Carneiro da Cunha de Souza Lima, autoras do vídeo, fazem um convite para refletir sobre a ideia de que o movimento também é desenho e pode se manifestar de formas variadas. “Tudo que é vivo deixa rastro e o papel se torna campo de pouso do gesto.” A inspiração veio do projeto Varal, que desenvolvem juntas desde 2018, das palestras e dos debates oferecidos pelo Infâncias plurais e das experiências proporcionadas pelas aulas dadas de casa na pandemia, contam as educadoras.

O vídeo foi feito na casa da Camila e contou com a participação de sua filha, Morena. As autoras definiram que, enquanto a mãe filmava, a menina dividiria as cenas com Maria Beatriz, para que se sentisse mais à vontade. No fim das contas, tudo virou um processo só e as coisas foram fluindo “de uma forma dinâmica e muito bonita”, contam. Elas também escolheram conduzir as imagens com ângulos diferentes, propondo uma conversa com a trilha do vídeo. O principal desafio foi justamente “compor algo que fosse para, por, de e com criança”.

Camila e Maria Beatriz revelam que sempre tiveram o desejo de criar um projeto audiovisual artístico e que a participação no Infâncias plurais foi fundamental para conseguirem realizá-lo. Elas acrescentam que a atuação do Itaú Cultural e do Instituto Alana se alinha com suas pesquisas e práticas e é de extrema relevância para quem procura refletir sobre uma educação acessível para todos. “Nossa proposta é expandir e desautomatizar as produções infantis, pois acreditamos que são potenciais para um amanhã mais plural.”

Professoras de crianças de diferentes faixas etárias, as duas trabalharam com esse público também em galerias e museus desde o início de suas carreiras. Assim, o tema da infância sempre esteve presente em suas vidas profissionais e consideram que se trata de um território que precisa de atenção e respeito. Para elas, a infância não pode ser completamente romantizada, mas vista também como um espaço de discussão e desenvolvimento de valores fundamentais na sociedade atual e nas futuras: o respeito às diversidades, a empatia, o senso crítico e a autonomia.

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Ana e a feira

Caio Túlio Duque - Caruaru/PE

Ana trabalha com a tia na Feira de Caruaru, vendendo calcinhas. Mas ela gosta mesmo é das cores, das pessoas e dos cheiros. Na verdade, ela quer ser doutora de bichinhos e tem muitas emergências para atender. Caio Tulio Duque, criador de Ana e a feira, explica que a ideia foi chamar a atenção para a pauta do trabalho infantil: “Aqui no Agreste pernambucano tem intensa exploração da mão de obra infantil na indústria têxtil e no comércio nas grandes feiras, como a de Caruaru, a de Toritama e a de Santa Cruz do Capibaribe”.

Desde 2015, Caio dirige um coletivo de artistas na cidade, a Cia. Bacurau Cultural, que produz conteúdo voltado à infância: “Refletir sobre os malefícios do trabalho infantil para as crianças é urgente”. Apesar do tema, o curta-metragem foi realizado com muita leveza e humor. Para ele, o brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil, sendo o momento em que “surgem as experiências, a comunicação evolui, os pensamentos se tornam mais complexos e os sonhos se realizam. A infância deve ser protegida para florescer”, enfatiza.

Gravado em meio à pandemia, Ana e a feira  enfrentou o desafio de seguir os protocolos de segurança. “O fato de contar com uma atriz mirim na produção foi um complicador. Tenho experiência em trabalhar com crianças e acho que isso facilitou, mas o momento não é dos melhores”, acrescenta. Feliz com o resultado, Caio diz ter sido muito enriquecedor participar do Infâncias plurais.

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Chegadas, encontros e partidas da infância!

Joice de Jesus Malta Ribeiro - Ilha de Vera Cruz/BA

O que será que pode acontecer quando crianças têm seus direitos de fala respeitados em vez de obedecer a tudo sem questionar? Chegadas, encontros e partidas da infância!, de Joice de Jesus Malta Ribeiro, revela que, quando se trata de respeito, não existe idade certa. Ela registrou questionamentos e afirmações de seus três filhos, Cauane, Isaque e Pedro Gabriel: “O dia a dia no primeiro ano de pandemia trouxe à tona temas importantes que quase não se pergunta às crianças, embora elas tenham muito a nos ensinar”.

A ideia do vídeo surgiu ao observar o crescimento de seus filhos e de outras crianças. Joice começou a perceber os conflitos e os prazeres gerados com as novas descobertas, o encontro entre as fases da infância e da adolescência e como esse percurso se dá. E assim ela foi registrando as trocas e os aprendizados de cada um dos filhos. “Passava o dia com a câmera na mão e as coisas iam acontecendo.”

A participante do Infâncias plurais chama a atenção para a importância de se ter um olhar atencioso para as necessidades básicas e individuais das crianças. “Uma infância respeitada, em todas as suas fases, é crucial na formação de uma sociedade sã. E retratar isso no vídeo de forma genuína, com falas próprias e situações do cotidiano de toda família, é fomentar a autonomia das crianças, o que não as torna ‘sem limites’ ou ‘impossíveis’, como muito se prega, mas lhes dá confiança para ser quem são.”

 

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Escuta-me

Christiane Teixeira Sampaio - Salvador/BA

Uma menina que deseja ser escritora inventa um galo para ter com quem conversar. Depois de inventado, o galo decide lutar por suas ideias. Inspirado no livro A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, Escuta-me traz um trecho documental, com imagens do II encontro nacional de meninos e meninas de rua, realizado em Brasília, em 1989 – momento de intensa mobilização social pela aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

“A escritora, o galo e a criança que reivindica seus direitos e questiona a exploração da sua força de trabalho me lembram que o desejo de cada um de nós pode ser transformador. Numa sociedade patriarcal, autoritária e colonialista, há muitas desconstruções que precisamos fazer para que nossas relações com as crianças sejam mais democráticas e menos violentas”, ressalta Christiane Teixeira Sampaio, autora do vídeo.

Ela conta que a produção resgata um momento de alegria e utopia na vida pública brasileira, quando o ECA reconhece a criança como sujeito. Revela que escolheu falar de infâncias e política porque a compreensão a-histórica e moralista que está novamente em curso no campo das políticas públicas retira da criança a sua condição de cidadã.

Feito a muitas mãos, Escuta-me contou com a participação dos vizinhos do bairro onde Christiane vive, Acupe de Brotas, em Salvador (BA). Junto com o filho Akin, a comunicadora encontrou o galinheiro que buscava nos arredores de casa e a vizinhança acabou se mobilizando para a criação do vídeo. Segundo ela, o mapeamento acabou sendo uma desculpa para estabelecer conexão com as pessoas num momento em que todos estavam isolados em casa. “Tudo foi feito com muito cuidado e respeito, seguindo todos os protocolos de segurança.”

Quando questionada sobre sua relação com a infância, Christiane enfatiza: “O que me trouxe até aqui foi a criança que mora em mim e suas inquietações”. Mãe de dois meninos, ela relembra também como inspiração a trajetória da mãe, Maria Eneide Teixeira, pedagoga que atuou como liderança nacional do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e fundou o Circo de Todo Mundo (www.circodetodomundo.org.br), organização que defende o direito ao brincar. “Interessa-me identificar entre crianças e adolescentes um fazer orientado pela mudança: práticas autônomas, geradoras e promotoras de descobertas e buscas. As autonomias nascem das lutas concretas de povos, comunidades, coletivos e subjetividades em suas formas de viver e habitar o mundo.”

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Experiências radiofônicas - colheita de vozes: onde vivem os sons dos nossos sonhos?

Juliana Rosa de Sousa - São Paulo/SP

Processo criativo, aberto, experimental e vivo, Experiências radiofônicas – colheita de vozes: onde vivem os sons dos nossos sonhos? reúne áudios de crianças e adolescentes contando quais são seus sonhos. Além das falas, muitos outros sons compõem o repertório agrupado por Juliana Rosa de Sousa, responsável pela produção. “As nossas crianças estão conseguindo sonhar? Se sim, com o quê? Há espaço para escuta nas infâncias?”

A artista e educadora conta que todo o processo de convite e contato com as famílias participantes foi feito via WhatsApp.Depois das gravações de áudio com as respostas e as considerações das crianças, foi a vez de inserir as imagens, que são da própria família da Juliana – sua mãe grávida, seu irmão e ela mesma quando criança. Há uma intrínseca relação com a busca da autora por uma voz própria.

O curta-metragem teve como ponto de partida um trabalho realizado em 2020 em parceria com educadoras do Programa de Iniciação Artística da Cidade de São Paulo (Piá). Elas criaram uma rádio chamada Hipopótamo Rinoceronte. “De encontros semanais e na construção de relações em plena pandemia com as crianças e as famílias, nasciam nossas primeiras experiências radiofônicas. Foi quando surgiu a possibilidade de fazer a jornada Infâncias plurais.” 

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O que você quer ser

Liana Yuri Shimabukuro - São Paulo/SP

Nem cisne, nem patinho. Qual a melhor imagem para me representar? O que você quer ser conta a história de um adolescente que, não muito contente com a sua própria identidade, procura outra em seu celular. O vídeo propõe uma profunda reflexão sobre identidade e sobre como as mídias sociais têm impactado o seu desenvolvimento.

O objetivo de Liana Yuri Shimabukuro foi criar um vídeo que pudesse dialogar com quem está entrando na adolescência sobre o tema da aceitação e da identidade. “Procurei criar uma ponte me lembrando de quando passei por isso e tentando compreender como as crianças de hoje lidam com o mesmo sentimento, principalmente porque agora têm acesso às redes sociais.” Serviram de material de pesquisa para o vídeo histórias como O patinho feio e Alice através do espelho.

E desafios não faltaram para a sua elaboração. Liana utilizou a técnica do stop-motion, que consiste em criar uma simulação de movimento por meio de uma sequência de imagens fixas. “Achei muito interessante visualmente misturar algo bem artesanal com um tema tecnológico.” Foi a primeira vez que ela utilizou a técnica, sem ter espaço ou equipamento: “tudo foi feito pelo celular, em uma pequena mesa na qual montei uma plataforma de vidro com um quadro velho que encontrei na rua. Prendi o celular nas alturas para que tivesse um bom ponto de vista”.

Sobre a participação na jornada Infâncias plurais, além de ter sido precioso ver pessoas do Brasil inteiro reunidas para falar de questões tão importantes, Liana revela que sua principal motivação foi tentar compreender melhor a produção cultural para crianças em tempos de pandemia: “Não estava confortável em ver crianças tão mergulhadas em telas. Quais seriam, então, as possibilidades?”. 

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Odara

Elisa Bastos Araujo - Salvador/BA

Odara é uma menina alegre, espontânea e que gosta de afirmar sua identidade negra nas redes sociais. O vídeo que leva o nome da garota propõe uma reflexão sobre como as infâncias contemporâneas se relacionam com o audiovisual, sobretudo no ambiente digital. “A inspiração veio da observação das postagens da própria Odara, que usa esse espaço para reafirmar a sua identidade negra, mesmo que sem perceber totalmente. Gosto de pensar que a expressão dessas crianças no espaço das redes sociais é um importante fator de construção de identidades e de infâncias”, revela Elisa Bastos Araujo, criadora do vídeo.  

Odara foi feito a partir de uma coletânea de vídeos publicados por Odara em suas redes sociais, com autorização da mãe, responsável pela gravação e pela publicação. De acordo com Elisa, o principal desafio foi fazer com que a garota mantivesse a espontaneidade durante o seu depoimento inicial, único momento gravado especificamente para o filme.

O curta-metragem mostra que as crianças podem falar por si mesmas, mesmo sob influência ou direcionamento dos pais. “Mostra que a liberdade de ser quem se é transborda e que as redes sociais podem conferir visibilidade a essas crianças, sem a necessidade de atribuição exclusivamente negativa ao uso das tecnologias digitais por elas”, pondera Elisa, que enfatiza ainda a importância de se ouvir as crianças e suas próprias criações durante a infância, momento de construção de subjetividades e identidades.

O tema da infância entrou em sua vida com o nascimento de seus filhos, quando resolveu conciliar a pesquisa de doutorado com o papel de mãe: “Passei a estudar a infância e me apaixonei pelo tema! A maternidade não é definidora de quem eu sou, mas me oportuniza chegar a um lugar além no meu processo de estudo, pois me oferece um lugar analítico privilegiado”.

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Pequenos pensantes

Fernando Cestonari Galeane e Rodrigo César Vulcano dos Santos - Araraquara/SP

Ler é preciso, é urgente e divertido! Em Pequenos pensantes, o garoto Gabriel Galeane lê trechos de livros e de músicas de forma lúdica. Entre as leituras estão autores como Machado de Assis, José Saramago, Emicida e Gabriel, o Pensador. Fernando Cestonari Galeane, que produziu o curta-metragem ao lado de Rodrigo César Vulcano dos Santos, revela que se trata de uma provocação para que educadores e pais repensem a forma como o mundo literário é apresentado para os pequenos. “Ler é muito prazeroso e ler o que está embutido nas músicas é ainda mais bacana e divertido.”

O vídeo foi gravado no estúdio de Fernando e contou com a participação de seu filho como protagonista. A maior dificuldade foi introduzir, de maneira lúdica e em apenas 1 minuto, o mundo da literatura e a poesia que existe em algumas músicas, conta.

Os autores possuem um projeto de produção de conteúdo infantil chamado Dois Palitos, em que realizam vídeos com histórias em animação. Depois de participarem do Infâncias plurais, a dupla revela o desejo de continuar com o projeto de Pequenos pensantes: “o produto criado exclusivamente para essa jornada agora faz parte do nosso radar e temos a intenção de transformar em uma série, trazendo outras provocações e tudo mais que conseguirmos agregar!”.

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Eu vim de lá!

Wagner Aparecido Miguel - Pradópolis/SP

O videoclipe musical Eu vim de lá traz a força da ancestralidade inserida nas brincadeiras e nas vivências do cotidiano de crianças e adolescentes negros. “Em um mundo em que as realidades são tão distintas, vale frisar quem somos, de onde viemos e onde vivemos”, comenta Wagner Aparecido Miguel, responsável pela produção.

Imagens de crianças tocando violão, ajeitando o cabelo ou jogando bola, e de adolescentes tocando tambor e dançando com suas saias rodadas e os pés no chão, acompanham a música “Seio d’África”, da produtora cultural Annuar, que valoriza a negritude, as histórias e os trabalhos construídos por pessoas que impactam o seu entorno e o mundo com uma vida de resistência.

O interesse de Wagner pela área musical vem desde a infância, tendo se tornado membro da banda marcial do seu município de origem, Pradópolis, e responsável pelo ensino musical dos novos integrantes do grupo. Há algum tempo, ele assumiu uma participação total e efetiva no Ponto de Cultura Jovens Pesquisadores, projeto que busca fortalecer e apoiar crianças e adolescentes das áreas descentralizadas da cidade. Além disso, atua no Fulôs do Pé Vermelho, grupo percussivo de mulheres que também aborda temas como a luta racial e de gênero e o resgate da ancestralidade.

Seu maior desafio foi passar a mensagem de modo que todo o público infantojuvenil, envolvido ou não em projetos culturais, vindo ou não do seio da África, pudesse absorvê-la.

O objetivo em participar do Infâncias plurais  foi trocar conhecimentos com profissionais e especialistas de diferentes áreas. Segundo Wagner, a experiência o fortaleceu como pessoa e como educador, além de proporcionar uma bagagem única para a criação de um conteúdo audiovisual por aqueles que, assim como ele, “voltaram às suas infâncias para  entender como explicar o mundo em que vivemos de forma atualizada”.

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O sagrado futuro ancestral

Claudinéia de Souza Silva - Pradópolis/SP

“Tava durumindo, Cangoma me chamou / Tava durumindo, Cangoma me chamou / Disse: levanta, povo, cativeiro já acabou.” Em O sagrado futuro ancestral, uma criança desenha e cantarola a música criada pelos escravizados no Brasil, imortalizada na voz de Clementina de Jesus. Na sequência, ela vê fotos de sua família e dança o jongo. “Mostro um pouco das vivências de Maria Júlia, de 10 anos, que traz em seu cotidiano, com olhar e ouvidos atentos, as memórias e a força dos seus ancestrais”, conta Claudinéia de Souza Silva, autora da produção e mãe da menina.

A intenção é estar em conexão com a nossa história, saber de onde viemos e carregar a força e a sabedoria dos nossos antepassados que abrem caminhos para a compreensão de nós mesmos e da ancestralidade. “Para isso, é preciso ter um olhar para dentro, mas também saber olhar para trás.”

“Com este vídeo, quero que cada um olhe para si, para a sua criança, para o seu passado e o seu futuro e enxergue que todos nós seremos os ancestrais do amanhã, e que podemos deixar um legado de amor e respeito a toda a nossa diversidade”.

Foram inspiração para Claudinéia sua família e toda a bagagem de força e resistência que representa, assim como as vivências e oportunidades que teve no Ponto de Cultura Jovens Pesquisadores e no grupo Fulôs do Pé Vermelho, trabalhos que abordam as questões étnico-raciais por meio da cultura e da educação.

 

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Infâncias plurais :: Infância como tema

¼ e o mundo

Sheila de Arruda Coelho - São Paulo/SP

A lua sobe, a gente vai para o quarto, deita na cama, ajeita a coberta e começa o fenômeno. O mar, o mundo, o almoço, a escola, o novo coronavírus, aquele dia em que os primos brincaram juntos numa piscininha no quintal. Inspirada no seu quarto de infância e nas fotos antigas de sua família, Sheila de Arruda Coelho recriou de maneira leve e poética o turbilhão de imagens e memórias que passam pela nossa cabeça antes de dormir.

¼ e o mundo foi feito com a técnica de stop-motion, buscando revelar no vídeo o seu próprio processo de criação. O  movimento de imagens  conta uma história e mostra como ela é contada. Com isso, Sheila quis que os espectadores soubessem que é trabalhoso, mas que todo mundo pode fazer um vídeo.

Sempre ligada, de alguma forma, ao tema da infância,ela começou a fazer teatro aos 12 anos e nunca deixou de trabalhar em peças e performances com e para crianças. “Acredito que é meu dever, como artista e cidadã, pensar no futuro e em quem fará parte dele.”

O que a motivou a participar do Infâncias plurais foi a possibilidade de troca com pessoas tão diversas e de trabalhar com a linguagem do audiovisual tendo o apoio e o retorno de especialistas na área. Em suas palavras, o objetivo era “me aventurar e aprender”.

Com ¼ e o mundo, Sheila espera incentivar os espectadores a se entregarem às suas reflexões e aos seus sonhos, descobrindo que “a imaginação é o que cria nosso tamanho no mundo”.

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Dois pais

Tauã Barbosa Delmiro Silva - Rio de Janeiro/RJ

Dois pais conta a história do encontro entre Márcio, Lucas e um garoto que viria a ser o filho do casal, abordando de forma leve e poética temas como adoção e vivências LGBTQIA+.

Tauã Barbosa Delmiro Silva, autor e protagonista do vídeo, começou a se interessar pelas artes cedo, com aulas de dança e teatro antes dos 10 anos de idade. Na maioria dos espetáculos de que participava, no entanto, ele não se via representado, pois as histórias contadas não dialogavam com as suas experiências pessoais. Esses sentimentos de inadequação e insatisfação o acompanharam até a licenciatura em teatro, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), quando conseguiu racionalizar seu incômodo e começar a produzir espetáculos que contemplassem temas caros a ele e pouco abordados, sobretudo na dramaturgia infantojuvenil.

Com as filmagens acontecendo dentro de sua própria casa, uma trilha sonora desenvolvida a partir do texto e a direção acompanhando todo o processo de forma remota, os maiores desafios de Tauã foram resumir a narrativa para caber no tempo proposto para o vídeo e pensar em como os elementos do seu cotidiano poderiam compor de maneira poética uma obra audiovisual do tipo que ele gostaria de ter visto quando era criança. Nesse sentido, foi fundamental sua participação no Infâncias plurais, uma vez que pôde aprender com as experiências de pessoas de diversas áreas.

Ele espera que o resultado tenha sido uma obra que contribui para desmistificar temas relacionados ao universo LGBTQIA+ e para fortalecer a construção de narrativas plurais para crianças e jovens, promovendo a formação de um futuro muito mais afetuoso e empático.

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Eu não confio nas janelas laterais

Ana Beatriz Marques Penna - Juiz de Fora/MG

Uma garotinha viaja de carro no banco de trás e tenta lidar com o tédio. Ela fica intrigada com os automóveis passando: alguns parecem estar parados e outros até dando ré! Investigando o fenômeno por todas as janelas do carro, ela chega a uma difícil conclusão.

Eu não confio nas janelas laterais, produzido por Ana Beatriz Marques Penna, foi inspirado em suas próprias lembranças. “Essa deve ter sido minha primeira experiência prática com a teoria da relatividade, e me divertia muito inventando explicações para o que acontecia. Com o projeto, tentei não somente revisitar essa história, mas lembrar que as coisas são mais interessantes quando explicadas por crianças”, esclarece.

A animação mistura desenhos feitos em papel com filmagens reais. Ana conta que a ideia foi chamar a atenção para o fato de que qualquer pessoa atenta e disponível pode olhar o mundo e estranhá-lo como uma criança: “Apesar de a narrativa partir da perspectiva infantil, quem preenche de sentido seu espanto é o espectador. É, portanto, um convite a desacostumar o olhar”.

Para a artista e educadora é recorrente suas memórias de infância se tornarem inspiração para seus projetos. O contato direto com o público infantil e adolescente em escolas, museus e galerias fez com que, pouco a pouco, ela percebesse a infância como um lugar potente de investigação e significação do mundo.

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Move game

Jackeline Mourão Nunes, Kelly Queiroz dos Santos e Livia Lopes Correa - Campo Grande/MS

Em Move game, o personagem é um garoto, mas os obstáculos são próprios dos jogos de videogame. Na simulação, os jogos são ressignificados e reinventados tendo a criança como protagonista. Mesclando corpo e tecnologia, o jogador e dançarino se conecta, se encaixa, constrói e cria consciência do seu próprio corpo no espaço. É no brincar dançante que a criança explora diferentes formas de criar”, comenta Livia Lopes Correa, idealizadora do vídeo ao lado de Kelly Queiroz dos Santos e Jackeline Mourão Nunes.

A gravação do vídeo ocorreu na sala do apartamento de uma pessoa do grupo e contou com tecido e linóleo emprestados para a criação da caixa cênica totalmente preta. O jogador e dançarino, Victor, foi provocado a imaginar o jogo e pensar na movimentação do corpo no espaço para que, na edição, fosse feita a montagem de cada parte do vídeo.

Livia, Kelly e Jackeline já haviam trabalhado juntas no processo de criação de R.U.I.A – realidade ultrassônica de invasão aleatória, de 2019. O espetáculo funcionou como escola para que o trio criasse Move game, mas foi com o Infâncias plurais que elas consolidaram a ideia do novo projeto. “Durante o curso e a produção do vídeo, percebemos o quanto é necessário dialogar e compreender o tempo de aprendizagem de cada criança e como ela enxerga o mundo.”

Elas contam, sobre a participação no Infâncias plurais, que foi importante buscar mais conhecimento em relação aos fazeres como brincantes, professoras e pensantes em dança. 

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O pior filho do mundo

Pamella Doria de Souza Martins - Osasco/SP

Esquecer da reunião de pais na escola, mentir que a sobremesa já acabou, fazer hora extra todos os dias por uma semana inteira. Alguém precisa colocar um limite nisso! Em O pior filho do mundo, produção de Pamella Doria de Souza Martins, é apresentada uma inversão divertida dos papéis de pais, mães e filhos. Ou será que nem tanto?

O vídeo partiu de uma pesquisa via formulário digital realizada pela autora com crianças. Elas deveriam responder quais eram, na sua opinião, as vantagens e os desafios de ser criança e de ser adulto. Pamella construiu o roteiro a partir dessas respostas e escolheu a técnica de stop-motion para a gravação, contando com a ajuda de seu marido, e com as vozes de um casal de amigos e do filho de uma amiga. O prazo de produção e a falta de experiência com a técnica foram seus principais obstáculos a superar, diz.

Ao longo de mais de uma década trabalhando com educação, ela nota uma séria tensão entre o que está no imaginário social e a realidade de ser criança. A autora se pergunta como o público infantil vai reagir diante do filho que põe os pais de castigo, se vai se sentir representado ou incomodado. Será que muitos dos espectadores, ao serem contrariados de forma enfática pelos pais, já se viram gritando um dramático “eu tenho os piores pais do mundo!”?

Além de entreter, a intenção de Pamella é gerar uma curiosidade e um debate sobre as relações intergeracionais entre adultos e crianças e sobre a diversidade de formas de viver e de conceber a infância, questões que também a guiam em sua profissão. Como educadora, seu objetivo é a construção de um espaço de pluralidade, que acolha a todos e que não admita retrocessos: “Pelas crianças, precisamos continuar avançando”.

Foi nesse intuito que se deu sua participação no Infâncias plurais. Segundo ela, o projeto veio como uma ferramenta de ampliação de sua leitura de mundo que vai reverberar na sua prática pedagógica e na vida das crianças que passam por sua vida.

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Saci pensador

Elaine Buzato Leme - Sorocaba/SP

Saci pensador mostra fragmentos de pensamentos e memórias de um saci que habita um museu de arte. Elaine Buzato Leme, idealizadora da produção, conta que é uma brincadeira poética: “Há um tempo, eu tinha feito uma escultura em cerâmica que era um saci na mesma posição da escultura O pensador, de Rodin. No que ele estaria pensando? Teria saudades de sua infância? Teria sonhos esquecidos? Que lembranças ou desejos fariam seu coração voltar a bater?”.

Ela escolheu esse tema porque acha importante e necessário olharmos para a criança que existe em nós, adultos, para ter mais habilidade e sensibilidade para escutar as crianças de hoje.

Todos os bonecos do curta-metragem foram feitos artesanalmente, de barro e massinha de biscuit. Já os cenários foram construídos principalmente com papelão e tecidos variados. Depois, chegou a hora de gravar: tudo feito com o celular e editado com aplicativos. A trilha sonora foi composta especialmente para o vídeo; o som da viola caipira guia e compõe a narrativa.

O tema da infância entrou na vida de Elaine quando cursava o magistério: “Eu me encontrei com o estudo e o universo da infância e senti que seria o meu caminho. Sempre sonhei em mudar o mundo, diziam que isso era coisa da juventude, mas é esse sonho que me move até hoje. E acredito que é pela arte e pela educação que essa mudança acontece”, explica. Formada em design, foi no teatro que encontrou seu lugar e fundou, em 2001, com seu parceiro Valter Silva, a Cia. Tempo de Brincar, que desenvolve trabalhos de pesquisa e criação dedicados às infâncias e às culturas populares.

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Tererê & Pipoca em: proibido jogar bola na praça

Flávio Henrique Ferreira e João Gabriel Rabello Silva - Santos Dumont/MG

A bola de futebol furou. E agora? Errou aquele que pensou que acabaria a diversão de Pipoca e Tererê! Num jogo eletrizante, os palhaços revelam com muito humor e fantasia a importância do brincar. Tererê & Pipoca em: proibido jogar bola na praça, criado pela dupla Flávio Henrique Ferreira e João Gabriel Rabello Silva, tem inspiração em um acontecimento real.

João conta que na cidade de Santos Dumont, interior de Minas Gerais, onde ele Flávio moram, um pastor realizou muitas benfeitorias numa praça e por isso não permitia mais que as crianças jogassem bola no centro dela.

Motivada pelo fato, a dupla criou a esquete da qual participam como palhaços Flávio e seu filho Henrique, de 11 anos. “Levamos os dois para o centro da praça para jogarem uma partida de tênis sem bola, como um gesto silencioso pelo direito das crianças de ocuparem os espaços públicos livremente”, conta João. “É importante celebrarmos o direito de brincar, de fantasiar, seja no sentido mais palpável, de vestir a roupa e o nariz palhaço, seja no sentido mais abstrato, de fantasiar a vida.”

Os parceiros, apesar de trabalharem em períodos diferentes, arranjaram um tempinho para se encontrar e gravar na praça. Foram, ao todo, 3 horas dedicadas ao vídeo e à arte do cinema e da palhaçaria. João, que é cineasta e apaixonado pelo cinema feito antigamente, revela: “Uma das percepções mais felizes que tive foi o cinema silencioso em seu potencial inclusivo; as histórias que se contam só por gestos e ações alcançam infâncias mais plurais”.

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Zaíta figurinha-flor

Sueliton Edson Martins - São Paulo/SP

Zaíta tem uma figurinha de estimação e a guarda com muito cuidado. Ao perceber que a figurinha-flor sumiu, aproveita a distração da sua mãe e, sozinha, vai para a rua à procura. Enquanto Zaíta corre perigo, Naíta, sua irmã, tenta encontrá-la na favela.

Inspirado no conto “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos”, de Conceição Evaristo, e no livro Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, Zaíta figurinha-flor foi realizado com a técnica de stop-motion e seus cenários foram feitos apenas com papelão, para transmitir a ideia da precariedade a que estão sujeitas crianças negras e periféricas abandonadas pelo Estado.

Sueliton Edson Martins, autor do vídeo, conta que o trabalho foi motivado também por sua indignação com o número de crianças vítimas de balas perdidas todos os anos no Brasil. As personagens – três bonecas negras feitas artesanalmente – estão num contexto de violência, escassez, instabilidade e negligência que aponta para a realidade de muitas crianças neste país, privadas do seu direito à infância.

Seu maior desafio foi construir uma narrativa sem usar palavras, apenas sons. A participação na jornada Infâncias plurais foi uma oportunidade de se aprofundar no tema da infância e também de explorar linguagens para a realização de um trabalho voltado para as crianças, diz. Ooutras experiências de Sueliton  envolvem a mediação cultural e a produção de cenários, figurinos e bonecos para peças de teatro infantis.

Infâncias plurais :: Manifestações populares

Na pisada da suça

Liubliana Silva Moreira Siqueira - Palmas/TO

O tambor toca, as saias giram e a suça começa. Na pisada da suça é um convite para que todos conheçam essa manifestação cultural de herança africana que mistura dança, música e religiosidade, a partir da narrativa das novas gerações de suceiras. “É observando e fazendo junto que as meninas narram, por meio da voz e do corpo feminino, a potência da suça em suas vidas, conhecendo e reconhecendo o valor da sua cultura e das suas raízes, símbolos de resistência, beleza e empoderamento”, conta a idealizadora do projeto, Liubliana Silva Moreira Siqueira.

Em sua pesquisa para o doutorado em artes cênicas, ela percebeu a inexistência de artigos, reportagens ou documentários que trouxessem a mulher como protagonista na história da suça. Assim, decidiu que lançaria luz sobre essa manifestação tradicional pela voz das meninas suceiras, acompanhando as integrantes do Grupo de Suça Tia Benvinda, da cidade de Natividade, no Tocantins.

“A cultura tradicional é viva e se mantém viva em cada criança que a experiencia e a leva adiante; acredito que as crianças são fundamentais nesse ciclo. […] Devemos possibilitar novos lugares de fala para as nossas crianças, reconhecendo o potencial expressivo e transformador que elas têm, a sua cultura e a sua história no mundo”, afirma Liubliana.

Um dos maiores desafios foi gravar o vídeo durante a pandemia. Todos os protocolos de segurança foram seguidos, mas manter o distanciamento e não cair na dança foi difícil, diz ela. “Foi um momento lindo. Ver as meninas dançando, tocando e contando sua história dentro dessa tradição valeu a pena, pois deu voz a elas para que trouxessem uma verdade profunda”, recorda.

Com o tema da infância sempre presente em sua trajetória, Liubliana diz que participar do Infâncias plurais ampliou seus horizontes, uma vez que pôde conhecer novas perspectivas e experiências de profissionais de diversas áreas.

No tempo da catira

Aline Moraes Silva - Guaxupé/MG

No tempo da catira fala de uma época na roça em que quase não se precisava de dinheiro, só o suficiente para comprar sal e querosene para iluminar o lampião. Todo o resto vinha da terra e do trabalho realizado com muita alegria e cantoria. E, no final do dia, viola na mão, bota no pé, é hora de sapatear pelo salão!

Aline Moraes Silva, idealizadora do projeto, diz que a inspiração veio de uma história contada pelo avô: “Eu me encantei com esse cenário de vida mais coletiva, em que a celebração e a festa têm lugar dentro da rotina de trabalho”. Ao perceber o sucesso que essa história faz entre as crianças, a professora de música decidiu: “Convidei uma amiga artista plástica para compor o cenário, improvisamos um estúdio e fizemos a captação. O próximo desafio, mais demorado, foi editar tudo, aprendendo enquanto fazia”. No vídeo em stop-motion, ganham vida bonecas de pano, lã e botões. Com simplicidade, criou-se uma narrativa cheia de riquezas. “Cuidar do que contamos às crianças é parte fundamental da discussão sobre as infâncias”, acredita a autora.

Aline já trabalhava com música quando foi chamada para integrar a produtora de shows infantis CantaVento. Com o grupo, criou canções, figurinos e espetáculos com temas relevantes para as crianças, com a mensagem de que um mundo mais sensível é possível. “Foi bonito passar por esta formação em que arte e infância se cruzavam”, diz. Depois que se tornou mãe, passou a aprender sobre infância com as próprias crianças. “Hoje trabalho exclusivamente com elas, como professora no ensino regular. No mestrado, participo de um núcleo de pesquisa em sociologia da infância dentro da educação musical.”

Xavierzin na escola de funk

Carlos José Moura de Carvalho - Rio de Janeiro/RJ

O menino Xavierzin estava cantando e dançando funk na fila da merenda na escola, quando foi repreendido pelo inspetor: “Funk na escola não pode, não!”. E por que não pode? É por meio da música que Xavierzin irá questionar o inspetor e explicar a ele, ao professor e ao diretor que o funk é uma manifestação cultural e deve ser respeitado.

A inspiração para a criação de Xavierzin na escola de funk, conta Carlos José Moura de Carvalho, veio de sua própria experiência – ele passou por algo muito parecido na escola, e depois viu acontecer o mesmo com outras crianças onde estagiava.

O vídeo chama a atenção para algumas questões, entre elas o preconceito racial, que pode acontecer na tentativa de exclusão da cultura de determinadas pessoas, por exemplo. “Quando crio um texto falando da história de um gênero musical que envolve preconceito social e racial, eu penso que esse texto deve ser ouvido, visto, lido, sentido por todo mundo, principalmente pelos mais novos, que, sem dúvida, carregam maior sensibilidade”, enfatiza.

Xavierzin na escola de funk aborda também a necessidade de se ouvir e respeitar as crianças: “Conversem, escutem, olhem, pensem na garotada. Deixemo-nos também ser orientados por elas. As crianças sempre têm muito a dizer”, comenta Carlos.

Pedagogo, artista e cientista da educação, ele descobriu o Infâncias plurais pela internet e viu na jornada a oportunidade de desenvolver seu canal no YouTube chamado #musicaeletramento. Seu desejo é aprender cada vez mais e fazer melhores vídeos, pensando sempre na educação para o equilíbrio, sem exclusões. 

Infâncias plurais :: Meio ambiente

A bravura do beija-flor e da mangueira de água

Alberto Batista dos Santos - Dias d’Ávila/BA

Dona Borboleta avisa: “Lá pelas bandas do rio, está tudo queimado!”. O Beija-flor lembra que sabe onde encontrar uma mangueira que faz chover todo dia e convoca os outros animais para salvarem juntos a floresta do fogo. Observando, o Senhor Coruja debocha do esforço do pássaro e questiona a eficácia de sua contribuição tão pequena nesta empreitada. É então que todos aprendemos uma valiosa lição.

Para Alberto Batista dos Santos, autor de A bravura do beija-flor e da mangueira de água, a ludicidade da contação de histórias tem o poder de provocar reflexões e contribuir para a conscientização e a mudança de hábitos na sociedade. “Tudo a que temos acesso em nossa infância serve de combustível para as nossas decisões no futuro”, completa.

O processo de elaboração do trabalho envolveu encontros com outros integrantes do coletivo Residência de Arte, do qual Alberto participa, para discutir sobre o tema e trocar ideias a partir das reuniões virtuais realizadas pelo Infâncias plurais. Roteiro escrito, a escolha dos atores e a produção do vídeo também foram feitas coletivamente, apesar das dificuldades enfrentadas por conta do contexto da pandemia e do pouco recurso para a contratação de equipamentos.

O autor conta que sua participação na jornada serviu para instigar sua criatividade e promover um aprofundamento no tema da infância e um maior engajamento em aspectos ligados à capacitação.

Ele acredita que sua maneira “fabulesca” de compreender a vida, aprendida em uma infância ouvindo as histórias e os causos dos seus avós no interior da Bahia, pode inspirar os espectadores a passarem adiante a mensagem de que o mundo é de todos e ações simples podem fazer a diferença.

Maricota: a mão que vira minhoca

Déborah Gomes da Silva Paiva - Brasília/DF

Maricota: a mão que vira minhoca conta a história de uma minhoquinha que encontra um monte de casca de vegetais e se esbalda de tanto comer, transformando, com seus dejetos, a terra pobre em fértil, boa para plantação. Baseado no livro Maricota: quero sombra, comida e água fresca, também de Déborah Gomes da Silva Paiva, o vídeo feito com teatro de mãos pretende conscientizar sobre a importância da compostagem e promover a prática como reconexão com a natureza.

“Com a inserção de minhocas, o processo da compostagem torna-se mais estável e resulta no húmus, que é um adubo completo, com macro e micronutrientes”, explica. “A prática da compostagem, ou da vermicompostagem (quando se utilizam minhocas), é simples e pode ser realizada em diversos contextos, dentro de casas e de apartamentos. O vídeo enfatiza essa prática e finaliza com o plantio, para demonstrar a ‘mágica’ da natureza.”

Déborah conta que o vídeo foi feito com recursos muito simples, gravado em casa mesmo e usando apenas o seu dedo mindinho. Realizar uma produção audiovisual foi algo inédito para ela. “A ideia é inspirar muitas crianças e adolescentes a realizarem suas próprias histórias utilizando recursos simples e viáveis dentro de um contexto de quarentena”, acrescenta.

A primeira experiência da artista com o universo infantil aconteceu ainda na universidade, quando realizou uma prática agroecológica numa escola em Brasília. Ela havia optado por usar as linguagens artísticas e a receptividade das crianças foi melhor que o esperado: “Percebi a importância de utilizar a arte como ferramenta para uma ação transformadora na rotina das crianças. Isso me encantou e, desde então, decidi seguir esse caminho no meu fazer profissional”.

Pra onde vai o lixo!?

Edimar Zambroni - Volta Redonda/RJ

Com muita música e diversão, Pra onde vai o lixo!? mostra um grupo de crianças preocupadas com os danos que os resíduos que geramos podem causar ao planeta. Para nos ensinar a importância deste processo, elas irão resgatar o lixo espalhado na pracinha do bairro e levar até uma empresa de coleta. A produção, além de abordar a importância do trabalho dos catadores, revela outros fins possíveis para esses resíduos, como o uso na criação de brinquedos e de instrumentos musicais.

“Resolvemos levar os resíduos diretamente até a cooperativa, fato que nos fez perceber a grandeza do trabalho dos catadores”, conta Edimar Zambroni, criador do vídeo. Segundo ele, um dos fatores que estimularam a reflexão sobre o assunto foi a suspensão da passagem do caminhão de coleta de recicláveis durante a pandemia.

O objetivo de Edimar é tratar de temas fundamentais para a vida de forma lúdica, promovendo também o desenvolvimento cognitivo e o despertar de uma consciência social e ecológica a partir de um processo de musicalização. “Nosso trabalho quer mostrar maneiras de se fazer o bem de forma divertida, tendo o protagonismo infantil e o seu desenvolvimento criativo como fundamento”, conta.

Atualmente, ele desenvolve o projeto Brincando que se aprende, que busca uma educação mais empática, humanista e libertadora, com destaque para  as dimensões do lúdico, do sonho e da criatividade. Por isso, sua participação no Infâncias plurais teve como objetivo conhecer os coletivos que atuam na área, construir pontes e contribuir de alguma forma para essa rede.

 

Infâncias plurais :: Ensinar e aprender

A ciranda do tear

Catarina Vasconcelos Cordeiro Alexandro - Fortaleza/CE

Em apenas dois minutos, A ciranda do tear ensina a mágica do tecer, a partir de um tear circular feito de papelão, e explica como fazer uma pulseira supercolorida. Enquanto as bonecas de pano tecem, a música as ajuda na contagem das casinhas em que a linha deve entrar. “Pensei em resgatar o tema das linhas e das tramas com fios como atividade lúdica e infantil”, explica Catarina Vasconcelos Cordeiro Alexandro. A ideia é possibilitar que crianças e jovens se conectem com o presente por meio da arte e do trabalho manual.

Usando materiais acessíveis e reciclados, como um pequeno pedaço de papelão para criar a trama da pulseira, a proposta traz também uma discussão sobre a ressignificação de objetos do cotidiano, que se transformam em  brinquedos artesanais construídos pelas crianças.

Além de ter que aprender a usar um programa profissional de edição, o maior desafio da produção foi filmar em um jardim emprestado e com poucas horas disponíveis. Porém, Catarina contou com o apoio técnico fornecido durante a jornada Infâncias plurais. Após essa experiência enriquecedora,ela se sente muito feliz vislumbrando a possibilidade de o vídeo chegar a inúmeros lares de crianças e adolescentes.

Criando repertório cultural

Filipe Nobuyuki Gomes Kahi - Taguatinga/DF

Sabe “tudo aquilo que vemos, sentimos, cheiramos, ouvimos, tocamos”? Neste vídeo, aprendemos de maneira simples e cheia de humor que é isso o que se chama de repertório cultural! Nobu Kahi, idealizador e protagonista de Criando repertório cultural, propõe o desafio de compartilharmos uns com os outros todo o aprendizado acumulado no período em que estivemos em casa lendo livros, vendo séries, ouvindo histórias.e

Professor de cinema e teatro, o artista revela que sua inspiração veio da relação com os próprios estudantes: “Ter contato com o repertório cultural deles foi essencial para a minha vida na arte. Eu vi que, em sala de aula, aprendemos e ensinamos ao mesmo tempo. […] Minha produção foi realizada com o intuito de fortalecer e valorizar a cultura dos jovens”.

Quando o assunto é infância, destaca que “é nela que experienciamos o mundo e todos os sentidos que nos cercam”, de modo que seu interesse em trabalhar com infância parte desse mundo a ser explorado. Com apenas dois anos de experiência em sala de aula, participar do Infâncias plurais foi importante para que Nobu tivesse contato com outros educadores de diversas localidades no Brasil.

Pintar e brincar sempre!

Maria Matina Cayetana Benet Domingo Borrell - Rio de Janeiro/RJ

Pintar e brincar sempre! é um convite à imaginação, à criatividade e à liberdade. Maria Matina, autora e protagonista do vídeo, mostra que com quase nada pode-se fazer tudo, descobrindo histórias, imagens, sons e segredos que estavam escondidos na nossa imaginação.

Durante a pandemia de covid-19, Maria passou a realizar uma série de lives em suas redes sociais para ajudar as pessoas a pintar e a brincar. Nesses encontros, ela propunha exercícios de desenho e, a partir deles, convidava todos a criar histórias, danças e poesias. “Como o resultado desses encontros foi transformador para mim e para o público, tentei desenvolver  uma proposta similar para o Infâncias plurais”, explica.

O vídeo foi todo filmado com o celular e editado no computador, com a ajuda da equipe da jornada para estruturar as ideias e escrever o roteiro. Depois, seu maior desafio foi expressar tudo que desejava em até 2 minutos. Maria espera que, ao assistir ao vídeo, as crianças (e os adultos) se sintam animados e inspirados a sair das telas e a criarem suas próprias narrativas, compartilhando sua experiência com os outros.

Para se contrapor a essa infância cada vez mais dependente das telas, que faz das crianças, em sua opinião, receptoras passivas de conteúdo na maior parte do tempo, a autora conta que buscou abrir a porta da imaginação de forma simples e barata. “É uma proposta de artes integradas e principalmente de ação.”

O tema acompanha toda a vida acadêmica da arte-educadora, que diz ter vivido uma infância plena e sido uma criança muito estimulada a se expressar artisticamente. Ao longo de sua carreira, formou-se também em arteterapia e em contação de histórias, especializando-se no trabalho com bebês. Encantada com esse universo, Maria revela que foi um privilégio participar do Infâncias plurais ao lado de 400 pessoas de todo o Brasil e que é uma alegria imensa ser uma das premiadas.

Tudum

Camila Concílio - Uruçuca/BA

Tudum, tudum, tudum. É o som do coração? É a batida de uma música? Pode ser, mas é também a união da palavra “tudo” e do número “um”. Tudum é o videoclipe da música de mesmo nome criada por Camila Concílio como parte do projeto Numeromagia, cuja ideia é abordar os números de forma mais ampla e artística. De acordo com a autora, a intenção era trabalhar com a mensagem da unidade, de que “todos somos um e nossas ações reverberam no todo”.

Apesar das dificuldades enfrentadas em razão da pandemia, as imagens do vídeo foram captadas em oficinas presenciais com crianças, respeitando os protocolos de uso de máscaras e distanciamento. “Cada criança trouxe seu olhar sobre o número um e seu modo de se expressar, o seu entendimento. Ao mesmo tempo, aprendemos a utilizar diferentes ferramentas artísticas”, conta Camila, que é mãe, arte-educadora, musicista e produtora.

Ela começou realizando oficinas de percussão para crianças e, depois de ter filhos, não parou mais de trabalhar com o assunto. Hoje, além do Numeromagia, está envolvida em outro projeto chamado Guiança, atividade de escuta e observação de mães e pais em relação às crianças. O Infâncias plurais foi, para ela, uma oportunidade de se aprofundar na pesquisa sobre as infâncias.

 

Infâncias plurais :: Criança e o contato com a natureza

Árvore mangueira

Necylia Maria da Silva Monteiro - São Luís/MA

A maior árvore do quintal ouve os segredos de uma menina cheia de sonhos. Numa noite, contando as estrelas, a menina adormece, voa pelo alto das casas e vê uma moça de saia de fogo e cara de boi. Será que a criatura veio assustá-la?

Árvore mangueira é um curta-metragem inspirado na infância da autora, Necylia Maria da Silva Monteiro, que relembra as histórias contadas por sua avó e sua relação com o quintal da casa onde passava as tardes brincando e comendo manga do pé. “Recorro à minha infância sempre que desejo afirmar minha identidade, o lugar de onde vim, as pessoas que me nutriram, os saberes que trago como memória”, revela.

A produção explora as possibilidades do teatro de sombras e da câmera de celular. As silhuetas usadas para contar a história foram feitas de acetato ou mesmo de objetos que Necylia tinha em casa, como livros e jarros de plantas. E a luz usada para criar as sombras foi um flash de celular projetado num lençol branco. O principal desafio foi justamente trabalhar com os recursos disponíveis em casa e com pouco pessoal, em razão da pandemia de covid-19. “Eu acabei acumulando muitas funções… E tive receio de que isso prejudicasse a qualidade da produção”, revela a autora, que fez a direção, a manipulação das silhuetas, a iluminação, a edição e também compôs a sonoplastia do vídeo.

Artista de teatro e circo e pesquisadora de produções artísticas para a infância, Necylia atua na criação dramatúrgica e na palhaçaria. Além de possuir graduação em teatro pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em 2020, concluiu também o seu mestrado, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre dramaturgia para a infância, tendo publicado diversos artigos que contribuíram para discussões na área.

O tema da infância, portanto, acompanha a autora em sua vida acadêmica, mas também em sua prática artística: há alguns anos, ela vem coletando histórias de sua infância num projeto chamado Memórias em Maranhês, no qual revisita brincadeiras, lendas, causos e outras histórias que seus avós lhe contavam. O Infâncias plurais foi “uma oportunidade de conhecer outros horizontes, outras escutas sobre o tema, de me manter em movimento e também de me aproximar da linguagem audiovisual”, conta Necylia.

O importante, segundo ela, é fazer algo que não subestime a capacidade das crianças de presenciar e sentir uma obra de arte. Nesse sentido, o seu objetivo é uma dramaturgia de olhos abertos para a contemporaneidade e para um mundo com diversidade de conhecimentos e realidades. Sabendo-se que muitas crianças vivem infâncias de perdas e de precarização da vida, Necylia reforça que todas as histórias merecem ser contadas, pois “o olhar de um eu criança pode ser rico em possibilidades”.

Céu da boca

Miraíra Noal Manfroi - Campo Grande/MS

O caldo que escorria pelo cotovelo, o fiapo que prendia no dente, os sabores diferentes que cada manga carregava, morder um pedaço e apertá-lo no céu da boca, o cheiro que vinha da árvore alta e tomava o quarteirão… Todo mundo tem um “gosto da infância”! Qual é o seu?

Céu da boca é resultado de um mergulho de Miraíra Noal Manfroi nas memórias de sua própria infância no Mato Grosso do Sul. O vídeo foi, segundo ela, uma possibilidade de reviver lembranças de liberdade neste complicado período de pandemia e distanciamento social. Conversando com sua amiga de infância Maria Eugênia, chegou à memória das mangueiras espalhadas por sua cidade e decidiu contar sobre a relação de crianças de diferentes épocas com a manga. Sua sensação acabou sendo a de que “não é só um fruto, mas um ‘gosto de infância’ partilhado”.

Feita de maneira artesanal, a produção partiu da volta das duas amigas para os espaços em que viveram a infância juntas. Além disso, pediram a colaboração de crianças próximas e de suas famílias para enviarem vídeos interagindo com a mangueira e a manga. “Degustando, vamos experimentando o mundo, brincando, sentindo […] e criando um baú de memórias coletivas e individuais”, explica. Seu maior desafio foi editar o material para que tivesse até 2 minutos de duração – ao lado de acertar uma manga no topo da árvore com um chinelo e descobrir a que horas o filhote de gambá se alimentava!

Miraíra morou nas comunidades ribeirinhas de Santa Catarina e no Pantanal sul-mato-grossense. Nesses locais, ela conta que fez o exercício de se inserir nos movimentos das crianças que ia encontrando pelo caminho e, se fosse acolhida por elas, acompanhá-las em suas andanças. Disso nasceram pesquisas e registros em textos, fotos e vídeos. Para ela, a jornada do Infâncias plurais foi uma maneira de se aprofundar no tema e “escutar outras pessoas que, assim como eu, também estão com as crianças”.

Professora de educação física, ela atualmente faz parte do corpo docente de um curso de pós-graduação que trabalha a escuta antropológica e poética das infâncias. Um de seus sonhos é construir um espaço para o encontro de crianças, uma casa coletiva. Para Miraíra, as infâncias são um tema urgente, que guarda as brechas que devemos explorar para transformar e revolucionar a nossa realidade, “a pele de tudo que cobre o mundo”.

Corre, menino

Ana Paula Neis Dorst - Primavera do Leste/MT

As árvores, as folhas no chão e a nuvem de poeira. O quintal sob o som dos passarinhos se transforma num lugar mágico com a chegada de duas crianças. O vídeo Corre, menino é um convite para que a garotada toda povoe quintais, ruas e parquinhos.

Ana Paula Neis Dorst, autora da produção, conta que os meninos que aparecem no vídeo são seus sobrinhos e que o local cheio de árvores onde brincam foi o quintal da sua infância também. “Passei a minha infância subindo e descendo árvores nesse quintal, sempre brincando com o que tinha à minha volta: cata-vento de folha do pé de manga, casa na árvore, virar de ponta-cabeça no pé de goiaba, desenhar no chão, esconde-esconde…”, relembra.

Além de apresentar o quintal, Ana quis trazer os garotos como protagonistas da produção. Feito com o seu próprio celular, Corre, menino acompanha as andanças, a correria e o sobe e desce de árvore dos meninos: “É importante que a criança possa experimentar, criar e imaginar”.

Com o Grupo Teatro Faces, ela realiza produções voltadas para o universo infantil há 16 anos. Seja atuando ou ministrando aulas de teatro para crianças e jovens, a infância faz parte de seu processo criativo: “Relembro as brincadeiras de roda, revisito o meu quintal, contemplo a mangueira, coloco os pés descalços no chão, sempre pensando no lugar onde vivo e em como isso pode afetar outras pessoas”.

Meu quintal é maior que o mundo

Ana Bárbara Ramos - João Pessoa/PA

Meu quintal é maior que o mundo  é um filme-carta da Alice, de 6 anos, para as suas amigas Manu e Alice Ramiro, no qual ela apresenta seu quintal-morada! Nesse seu mundo particular, a menina se diverte, inventa brincadeiras, toma chá e acompanha a vida cotidiana dos seus bichinhos de estimação. Ela compartilha seu universo fabuloso e oferece sua narrativa como um convite para as amigas virem logo ao seu encontro, compartilhando um pouco de si, do outro e do mundo.

Idealizadora do vídeo, Ana Bárbara Ramos conta que a inspiração veio de seu desejo de infância de ter um quintal para estar com as plantas e brincar com seus irmãos, amigos e bichos. “O quintal sempre esteve no meu imaginário como esse espaço de encantamento, do convite para o mais profundo da casa. Lembro das casas em Olinda, onde nasci, com quintais imensos, cheios de árvores. Para mim é um lugar de aconchego”, revela.

O curta-metragem contribui com questões de pertencimento e do cuidado de si e dos outros, além de estimular as crianças a estarem ao ar livre, em movimento e em relação com outros seres. Ana revela que seu desejo maior é que os espectadores se encantem e se inspirem com a história de Alice, prestando atenção à vida e às suas delicadezas.

A cineasta e educadora conta que, desde que criou o filme Sweet Karolynne, em 2009, percebeu um interesse em ouvir as crianças. Nessa produção, ela acompanha a relação profunda de uma garota de 7 anos com suas galinhas de estimação. Desde então, oferece formação a crianças por meio de oficinas de audiovisual e cineclubes dentro da Semente – Escola de Educação Audiovisual. Ela também coordena o núcleo de infâncias do Centro Estadual de Arte (Cearte). “O meu trabalho com as crianças está ancorado no puro amor e no meu desejo de que possamos apoiá-las em suas descobertas, sem muita interferência, mas criando condições necessárias para o seu pleno desenvolvimento e experimentação”, diz.

Infâncias plurais :: A importância do brincar

Recarregando as baterias!

Yuri da Silva Vasconcellos - Cabo Frio/RJ

Ana Maria está na última fase do joguinho no celular, mas a bateria está acabando! Ela corre aflita pela casa procurando uma tomada para o carregador. Três por cento, 2%, 1% e ela encontra, mas já é tarde demais, o celular desliga. E agora? Ela vai ter de parar de brincar? Seu avô aparece com uma solução – uma não, infinitas! – e os dois vivem uma aventura surpreendente.

Recarregando as baterias! ecoa a pesquisa e o trabalho desenvolvidos pelo arte-educador Yuri da Silva Vasconcellos em prol da valorização das brincadeiras tradicionais na educação de crianças, jovens e adultos. Ao lado da professora de artes Ana Luiza Barbosa, ele fundou o Projeto Feito para Brincar, que desenvolve oficinas e capacitações sobre o brincar, suas origens e seu valor pedagógico, humano e como patrimônio cultural da sociedade.

O vídeo foi feito em animação 2D, com desenhos digitais e inserção de fotografias de quadros do artista Ivan Cruz, seu pai, que pinta e esculpe obras com o tema da infância e do brincar. Os maiores desafios da produção foram contar a história em apenas 2 minutos e fazer centenas de desenhos para criar algumas cenas quadro a quadro.

Sobre a participação na jornada Infâncias plurais, Yuri exalta que “foi um projeto que se mostrou maravilhoso em todas as etapas. Fiquei impressionado com todo o carinho, o respeito e o profissionalismo em relação à criança e à sua pluralidade”.

O autor espera que o vídeo, ao unir avô e neta para solucionar um problema, promova a ideia de que a alegria da infância está no encontro, na troca de experiências e, principalmente, em tudo mais que a imaginação desejar.

Dodô

Ramona Rodrigues de Sousa e Issel Oliveira Chaia - Campo Grande/MS

Numa oficina de criação, uma artesã faz um boneco para presentear uma criança. O que ela não imagina é que o brinquedo ganhará vida num passe de mágica! Em Dodô, assistimos à confecção artesanal de um brinquedo com materiais recicláveis e naturais, como penas e uma cabaça.

As autoras do vídeo, Ramona Rodrigues de Sousa e Issel Oliveira Chaia, captaram as imagens com seus próprios celulares e que usaram a técnica de stop-motion para dar vida ao personagem, sendo os maiores desafios da produção a montagem dos movimentos do boneco e a edição.

Reforçando a importância do trabalho artesanal e de dar a crianças e adolescentes a possibilidade de construírem seus próprios brinquedos com materiais disponíveis em casa, elas buscam estimular a valorização dessa prática e também o brincar ao ar livre.

Ramona e Issel desenvolvem atividades culturais que envolvem a pesquisa e a realização de oficinas e eventos direcionados à infância e à família. “Foi quando nos tornamos mães que passamos a acreditar que é na infância que fixamos nossos valores, que o indivíduo se constitui para a sociedade, e por isso é tão importante falar do brincar e vivenciá-lo.” Nesse sentido, a participação na jornada Infâncias plurais veio lhes proporcionar capacitação e uma oportunidade de interagir com outros profissionais e com linguagens diversas.

Jokenpô

Fabio dos Santos Ekman Simões, Flávia Costa Prazeres e Julia de Albuquerque Paladino - São Carlos/SP

Pedra, papel, tesoura. Papel embrulha a pedra, que quebra a tesoura, que corta o papel. Quem aí se lembra dessa brincadeira? O curta-metragem Jokenpô, videoclipe de uma canção autoral de mesmo nome, nos faz rememorar como ela funciona e ainda sugere outras brincadeiras para as crianças, como desenhar, recortar e quicar pedrinhas num lago.

O vídeo é resultado de um trabalho coletivo elaborado por Fábio dos Santos Ekman Simões, Flávia Costa Prazeres e Julia de Albuquerque Paladino. O trio de São Carlos produziu a canção a partir da letra que Fábio Ekman criou com seus alunos na aula de música,  com origem nas matrizes asiáticas ancestrais, coreografia simples com as mãos e muitas possibilidades de interação.

O processo de arranjo e gravação trouxe o desafio de ser realizado a distância, por conta da pandemia. Todos os áudios foram gravados pelo celular e mixados de maneira caseira. Depois, foi o momento de realizar as filmagens com as crianças da Ecovila Tibá, o que acabou sendo mais fácil, pois elas já estavam em contato. “Foi bem emocionante vê-las brincando num momento tão delicado de pandemia. A captação das imagens foi bem natural e intuitiva. Queríamos imagens das crianças brincando livremente”, revela o grupo.

Afinal, um dos principais objetivos do trabalho é mostrar a potência e a plenitude da criança quando brinca. Para os participantes do Infâncias plurais, as crianças  “podem ser elas mesmas quando estão em contato com seus pares e com a natureza. É sempre possível ressignificar os brinquedos ancestrais e perpetuar a essência do brincar criativo”. 

Língua de brinquedo

José Carlos Rêgo - Salvador/BA

Bora brincar de adivinha e de trava-línguas? Língua de brinquedo apresenta textos da tradição oral das culturas populares e funciona como um convite para que as crianças interajam oralmente. “A expectativa é favorecer experiências lúdicas com a oralidade e vincular a criança ao universo das adivinhas, das parlendas, dos provérbios e dos desafios”, conta José Carlos Rêgo, responsável pela produção.

José faz parte de um grupo de artistas educadores interessados no repertório de brincadeira, brinquedos, cantigas e histórias da infância, tendo como principais fontes de pesquisa os textos da tradição oral, a literatura e o cancioneiro popular. “É a partir do repertório inventariado que produzimos espetáculos e organizamos oficinas e aulas-espetáculo para diferentes contextos formativos.”

A escolha pelo tema do vídeo se deu por essa ligação do grupo com o assunto e pelo entendimento de que há uma língua de brinquedo, na qual a palavra vale também pela alegria de ser evocada, vinculando ainda mais as crianças à oralidade.

Língua de brinquedo noticia que há um enorme repertório de brinquedos na língua oral das infâncias brasileiras que pode ser acessado ludicamente e que não é incompatível com os suportes e os dispositivos tecnológicos que constituem parte importante das situações de aprendizagem experienciadas pelas crianças contemporâneas. “A língua oral brasileira sabe conjugar a infância porque existe em estado de jogo, é inventiva, atual, corpórea, gratuita, traquina, capaz de articular alegria, inteligência e sensibilidade”, completa José.

Que brincadeira é essa?

Daiana Scaramussa dos Santos - Vitória/ES

Neste vídeo, enquanto a personagem brinca, quem assiste precisa acertar qual é a brincadeira! Que brincadeira é essa? apresenta diferentes tipos de jogos, além de estimular a criatividade do espectador para que se divirta junto.

Tem amarelinha, pique-esconde, passa-anel, bola de gude e por aí vai. Ao todo, são 16 brincadeiras comuns em diversas regiões do país. Segundo Daiana Scaramussa dos Santos, idealizadora do projeto, o objetivo é revelar a importância do brincar, por meio do qual “a criança descobre a si mesma e o mundo que a rodeia, experimentando e explorando diversas possibilidades, como sons, cores, texturas, os espaços e o próprio corpo”.

Ela explica que o tema da infância sempre esteve presente em sua vida, já que faz questão de cultivar com carinho suas memórias afetivas e inseri-las nas atividades com as quais se envolve. “Se perdermos a essência da infância, perdemos a capacidade de fantasiar, criar e sonhar..” 

Formada em artes, Daiana já trabalhou com crianças e adolescentes em projetos sociais e há nove anos participa do Grupo Estripolia de teatro e música para crianças, responsável pela trilha do vídeo. O Infâncias plurais foi, para ela, “uma oportunidade bastante enriquecedora e muito gratificante” de ampliar conhecimentos, além de entrar em contato com profissionais de diversas partes do Brasil.