Infâncias plurais: vídeos para crianças sobre a natureza

Publicado em: 22.10.2021

Crianças e o contato com a natureza

A leveza, a alegria e a plenitude que só o contato com a natureza pode trazer. Nos curtas-metragens que você vê na sequência o destaque é para o brincar com e na natureza e as milhares de possibilidades que isso pode revelar.

Abaixo você encontrará uma coletânea com 4 vídeos sobre a temática para ver quantas vezes quiser. Divirta-se! Para mais informações sobre o projeto Infâncias Plurais, visite: www.lunetas.com.br/infâncias-plurais.

Árvore mangueira

Necylia Maria da Silva Monteiro - São Luís/MA

A maior árvore do quintal ouve os segredos de uma menina cheia de sonhos. Numa noite, contando as estrelas, a menina adormece, voa pelo alto das casas e vê uma moça de saia de fogo e cara de boi. Será que a criatura veio assustá-la?

Árvore mangueira é um curta-metragem inspirado na infância da autora, Necylia Maria da Silva Monteiro, que relembra as histórias contadas por sua avó e sua relação com o quintal da casa onde passava as tardes brincando e comendo manga do pé. “Recorro à minha infância sempre que desejo afirmar minha identidade, o lugar de onde vim, as pessoas que me nutriram, os saberes que trago como memória”, revela.

A produção explora as possibilidades do teatro de sombras e da câmera de celular. As silhuetas usadas para contar a história foram feitas de acetato ou mesmo de objetos que Necylia tinha em casa, como livros e jarros de plantas. E a luz usada para criar as sombras foi um flash de celular projetado num lençol branco. O principal desafio foi justamente trabalhar com os recursos disponíveis em casa e com pouco pessoal, em razão da pandemia de covid-19. “Eu acabei acumulando muitas funções… E tive receio de que isso prejudicasse a qualidade da produção”, revela a autora, que fez a direção, a manipulação das silhuetas, a iluminação, a edição e também compôs a sonoplastia do vídeo.

Artista de teatro e circo e pesquisadora de produções artísticas para a infância, Necylia atua na criação dramatúrgica e na palhaçaria. Além de possuir graduação em teatro pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em 2020, concluiu também o seu mestrado, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre dramaturgia para a infância, tendo publicado diversos artigos que contribuíram para discussões na área.

O tema da infância, portanto, acompanha a autora em sua vida acadêmica, mas também em sua prática artística: há alguns anos, ela vem coletando histórias de sua infância num projeto chamado Memórias em Maranhês, no qual revisita brincadeiras, lendas, causos e outras histórias que seus avós lhe contavam. O Infâncias plurais foi “uma oportunidade de conhecer outros horizontes, outras escutas sobre o tema, de me manter em movimento e também de me aproximar da linguagem audiovisual”, conta Necylia.

O importante, segundo ela, é fazer algo que não subestime a capacidade das crianças de presenciar e sentir uma obra de arte. Nesse sentido, o seu objetivo é uma dramaturgia de olhos abertos para a contemporaneidade e para um mundo com diversidade de conhecimentos e realidades. Sabendo-se que muitas crianças vivem infâncias de perdas e de precarização da vida, Necylia reforça que todas as histórias merecem ser contadas, pois “o olhar de um eu criança pode ser rico em possibilidades”.

https://bit.ly/infancias-plurais-crianca-contato-com-a-natureza-arvore-mangueira

Céu da boca

Miraíra Noal Manfroi - Campo Grande/MS

O caldo que escorria pelo cotovelo, o fiapo que prendia no dente, os sabores diferentes que cada manga carregava, morder um pedaço e apertá-lo no céu da boca, o cheiro que vinha da árvore alta e tomava o quarteirão… Todo mundo tem um “gosto da infância”! Qual é o seu?

Céu da boca é resultado de um mergulho de Miraíra Noal Manfroi nas memórias de sua própria infância no Mato Grosso do Sul. O vídeo foi, segundo ela, uma possibilidade de reviver lembranças de liberdade neste complicado período de pandemia e distanciamento social. Conversando com sua amiga de infância Maria Eugênia, chegou à memória das mangueiras espalhadas por sua cidade e decidiu contar sobre a relação de crianças de diferentes épocas com a manga. Sua sensação acabou sendo a de que “não é só um fruto, mas um ‘gosto de infância’ partilhado”.

Feita de maneira artesanal, a produção partiu da volta das duas amigas para os espaços em que viveram a infância juntas. Além disso, pediram a colaboração de crianças próximas e de suas famílias para enviarem vídeos interagindo com a mangueira e a manga. “Degustando, vamos experimentando o mundo, brincando, sentindo […] e criando um baú de memórias coletivas e individuais”, explica. Seu maior desafio foi editar o material para que tivesse até 2 minutos de duração – ao lado de acertar uma manga no topo da árvore com um chinelo e descobrir a que horas o filhote de gambá se alimentava!

Miraíra morou nas comunidades ribeirinhas de Santa Catarina e no Pantanal sul-mato-grossense. Nesses locais, ela conta que fez o exercício de se inserir nos movimentos das crianças que ia encontrando pelo caminho e, se fosse acolhida por elas, acompanhá-las em suas andanças. Disso nasceram pesquisas e registros em textos, fotos e vídeos. Para ela, a jornada do Infâncias plurais foi uma maneira de se aprofundar no tema e “escutar outras pessoas que, assim como eu, também estão com as crianças”.

Professora de educação física, ela atualmente faz parte do corpo docente de um curso de pós-graduação que trabalha a escuta antropológica e poética das infâncias. Um de seus sonhos é construir um espaço para o encontro de crianças, uma casa coletiva. Para Miraíra, as infâncias são um tema urgente, que guarda as brechas que devemos explorar para transformar e revolucionar a nossa realidade, “a pele de tudo que cobre o mundo”.

https://bit.ly/infancias-plurais-crianca-contato-com-a-natureza-ceu-da-boca

Corre, menino

Ana Paula Neis Dorst - Primavera do Leste/MT

As árvores, as folhas no chão e a nuvem de poeira. O quintal sob o som dos passarinhos se transforma num lugar mágico com a chegada de duas crianças. O vídeo Corre, menino é um convite para que a garotada toda povoe quintais, ruas e parquinhos.

Ana Paula Neis Dorst, autora da produção, conta que os meninos que aparecem no vídeo são seus sobrinhos e que o local cheio de árvores onde brincam foi o quintal da sua infância também. “Passei a minha infância subindo e descendo árvores nesse quintal, sempre brincando com o que tinha à minha volta: cata-vento de folha do pé de manga, casa na árvore, virar de ponta-cabeça no pé de goiaba, desenhar no chão, esconde-esconde…”, relembra.

Além de apresentar o quintal, Ana quis trazer os garotos como protagonistas da produção. Feito com o seu próprio celular, Corre, menino acompanha as andanças, a correria e o sobe e desce de árvore dos meninos: “É importante que a criança possa experimentar, criar e imaginar”.

Com o Grupo Teatro Faces, ela realiza produções voltadas para o universo infantil há 16 anos. Seja atuando ou ministrando aulas de teatro para crianças e jovens, a infância faz parte de seu processo criativo: “Relembro as brincadeiras de roda, revisito o meu quintal, contemplo a mangueira, coloco os pés descalços no chão, sempre pensando no lugar onde vivo e em como isso pode afetar outras pessoas”.

https://bit.ly/infancia-plurais-crianca-contato-com-a-natureza-corre-menino

Meu quintal é maior que o mundo

Ana Bárbara Ramos - João Pessoa/PA

Meu quintal é maior que o mundo  é um filme-carta da Alice, de 6 anos, para as suas amigas Manu e Alice Ramiro, no qual ela apresenta seu quintal-morada! Nesse seu mundo particular, a menina se diverte, inventa brincadeiras, toma chá e acompanha a vida cotidiana dos seus bichinhos de estimação. Ela compartilha seu universo fabuloso e oferece sua narrativa como um convite para as amigas virem logo ao seu encontro, compartilhando um pouco de si, do outro e do mundo.

Idealizadora do vídeo, Ana Bárbara Ramos conta que a inspiração veio de seu desejo de infância de ter um quintal para estar com as plantas e brincar com seus irmãos, amigos e bichos. “O quintal sempre esteve no meu imaginário como esse espaço de encantamento, do convite para o mais profundo da casa. Lembro das casas em Olinda, onde nasci, com quintais imensos, cheios de árvores. Para mim é um lugar de aconchego”, revela.

O curta-metragem contribui com questões de pertencimento e do cuidado de si e dos outros, além de estimular as crianças a estarem ao ar livre, em movimento e em relação com outros seres. Ana revela que seu desejo maior é que os espectadores se encantem e se inspirem com a história de Alice, prestando atenção à vida e às suas delicadezas.

A cineasta e educadora conta que, desde que criou o filme Sweet Karolynne, em 2009, percebeu um interesse em ouvir as crianças. Nessa produção, ela acompanha a relação profunda de uma garota de 7 anos com suas galinhas de estimação. Desde então, oferece formação a crianças por meio de oficinas de audiovisual e cineclubes dentro da Semente – Escola de Educação Audiovisual. Ela também coordena o núcleo de infâncias do Centro Estadual de Arte (Cearte). “O meu trabalho com as crianças está ancorado no puro amor e no meu desejo de que possamos apoiá-las em suas descobertas, sem muita interferência, mas criando condições necessárias para o seu pleno desenvolvimento e experimentação”, diz.

https://bit.ly/infancias-plurais-crianca-contato-com-a-natureza-meu-quintal-e-maior-que-o-mundo