Em Desligue a tela e se ligue no seu filho, o escritor Ilan Brenman reúne experiências offline e aponta a refeição compartilhada como primeiro passo
No livro Desligue a tela e se ligue no seu filho, Ilan Brenman propõe alternativas ao uso excessivo de telas e incentiva atividades offline em família. O autor destaca a importância de refeições compartilhadas sem celulares para fortalecer o vínculo entre pais e filhos.
Para Ilan Brenman, a família mais rica do mundo dispensa conta bancária recheada. Ela só precisa sentar à mesa com os filhos ao menos uma vez por dia, com os aparelhos longe do prato. A ideia aparece nas palestras que o escritor faz pelo mundo e resume o espírito de Desligue a tela e se ligue no seu filho, guia que ele acaba de colocar em pré-venda pela Editora Valentina para famílias que querem diminuir o espaço das telas dentro de casa.

Psicólogo e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), Brenman assina mais de 80 livros, a maior parte para o público infantil, com traduções em mais de 18 países. Em 2024, Cabo de guerra venceu o Prêmio Jabuti na categoria Livro Infantil. Nos últimos anos, o autor passou a escrever também para pais e educadores, e o novo título, com 80 páginas e ilustrações de Sérgio Campante, nasce desse percurso.
O livro gira em torno de uma pergunta que ronda muitas casas brasileiras. “Se a criança deixar a tela de lado, o que entra no lugar?” Em entrevista ao Lunetas, Brenman contou como enxerga essa troca, o papel do exemplo dos adultos e por onde uma mudança capaz de durar na rotina das crianças pode começar.
O ponto de partida do livro aparece com clareza nos números. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos usam a internet, cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes. Entre os de 9 e 10 anos, 55% já têm celular próprio.
O primeiro contato também acontece mais cedo. Pelo mesmo levantamento, 28% das crianças e adolescentes entrevistados acessaram a internet pela primeira vez até os 6 anos, proporção que era de 9% em 2012, como mostra a série histórica da pesquisa. O salto alcança em cheio a primeira infância, período de desenvolvimento intenso do cérebro e do corpo.
No livro, Brenman defende que o excesso de telas nos primeiros anos pode tirar das crianças vivências importantes para o desenvolvimento neuropsicomotor, emocional e afetivo. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 926 crianças de 4 a 6 anos, citado em reportagem do Lunetas, associou o uso excessivo a pior habilidade motora, menos atividade física e menos horas de sono.
Diante da dúvida entre desligar os aparelhos ou transformar a convivência, o escritor recusa a escolha. “As duas coisas ao mesmo tempo”, responde. “Sem o ato de desligar os aparelhos, de parar de se entupir de dopamina e ficar anestesiado, nada mais consegue ser realizado.”
O psicólogo admite, com bom humor, que a etapa seguinte costuma incomodar. “Claro, aí vem o vazio, a ansiedade, a abstinência. Sim, estamos viciados nessas geringonças malévolas”, brinca. Esse intervalo desconfortável, em que a criança e o adulto ainda não sabem o que fazer com o tempo livre, ocupa boa parte da preocupação do livro.
Para atravessá-lo, Brenman aposta no convívio. “Uma das ações para o detox digital é passar mais tempo com os filhos, com certeza!”, afirma. “No livro, dou um caminho concreto e altamente prazeroso, mas que requer esforço, para fazer esse desmame digital.” A expressão escolhida por ele sugere um processo gradual, com idas e vindas, muito distante de um corte brusco capaz de superestimular a frustração de todos.
Muitas famílias querem estar mais presentes, mas convivem com jornadas longas, cansaço acumulado e pouca gente por perto para dividir o cuidado. Brenman reconhece o cenário. “Eu não ignoro a loucura do mundo moderno, faço parte dele”, diz. Ao olhar para as gerações anteriores, porém, ele enxerga mais continuidades do que rupturas.
“Não acho que antigamente era muito diferente. Meus pais, meus avós trabalhavam loucamente, mas existia o tempo, sempre se dava um jeito de passear junto, comer pelo menos uma refeição juntos, contar uma ou outra história antes de dormir“, lembra.
Na leitura do escritor, a mudança mais sensível aconteceu na forma de descansar. “Hoje, estamos cansados e, para descansar, fazemos o quê? Vamos para as telas, que cansam ainda mais a nossa mente, nos entorpecem, nos vendem coisas de que não precisamos, despertam ódios gratuitos, fazem nossos filhos acreditarem em maluquices mil. Belo descanso esse”, critica, numa referência às plataformas digitais e à lógica que as move.
O cansaço citado por ele tem distribuição desigual dentro de casa. Em 2022, as mulheres dedicaram 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado ajuda a dimensionar o peso que recai sobre mães e cuidadoras e reforça o papel da rede de apoio, que o Lunetas já descreveu como um trabalho de todo mundo.
Pais e cuidadores também passam boa parte do dia conectados, e esse hábito chega às crianças antes de qualquer regra. Para Brenman, a lição mais duradoura vem do comportamento. “Os adultos são modelos totais para os seus filhos! Quer criar filhos honestos, éticos, que respeitem os mais velhos, que não sejam misóginos e assim por diante? Seja modelo de tudo isso!”, afirma, num raciocínio que conversa com o debate sobre como criar meninos que não reproduzem o machismo.
O guia Crianças, adolescentes e telas, que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) lançou em março de 2025, aponta o uso excessivo pelos adultos, que servem de modelo de comportamento, entre os principais fatores do uso precoce e exagerado de dispositivos pelos mais novos. Na cerimônia de lançamento, a secretária Kátia Schweickardt resumiu a questão ao dizer que “não adianta proibir para crianças e adolescentes se os adultos não refletirem sobre o seu uso”.
Os próprios adolescentes cobram essa coerência. Nas escutas que embasaram o guia, meninos e meninas defenderam que existam regras também para os adultos, que fazem uso exagerado das telas, e que o controle se estenda a eles para evitar o distanciamento nas relações familiares, segundo o relatório da consulta.
Para Brenman, a conexão com as crianças depende menos de programas especiais e mais daquilo que já cabe no cotidiano. “É exatamente essa a base do meu livro. Não farei spoiler, mas proponho experiências que vivi com as minhas filhas e aquelas que gostaria de ter vivido e não tive oportunidade. Espero que os leitores as façam”, conta.
De acordo com a editora, as sugestões incluem preparar uma refeição juntos, contar histórias, brincar, conversar e até observar o nascer do sol. Nenhuma delas exige grandes gastos. O que as atividades pedem, segundo a apresentação da obra, é tempo e disposição para estar junto, seja numa partida de jogo de tabuleiro, seja numa roda de histórias contadas em voz alta.
A memória ocupa o centro da proposta. Na abertura do livro, o autor escreve que a obra “também poderia se chamar Crie memórias, não arrependimentos, ou Menos pressa, mais presença, e até mesmo Plante hoje as memórias de amanhã“. A intenção, segundo a editora, é preencher o tempo longe dos aparelhos com momentos capazes de permanecer na lembrança dos filhos, enquanto os adultos revisam a própria relação com as telas, num movimento parecido com o das brincadeiras antigas que atravessam gerações.
Reduzir o tempo de tela traz choro, reclamação e tédio, sobretudo nos primeiros dias. Brenman encara esse desconforto como parte do processo. “Adoro a palavra sustentar. Sustentem a frustração dos seus filhos. Somos adultos ou não?”, provoca.
Para ele, a ausência de limites cobra um preço mais adiante. “Adultos precisam entender que o prazer contínuo e sem limites está criando uma geração frágil, sem ferramentas para enfrentar as adversidades da vida”, afirma. Na visão do escritor, o tédio e o “não” fazem parte do repertório que prepara as crianças para lidar com o mundo.
Os adolescentes, por sua vez, sinalizam abertura para essa conversa. Na pesquisa Adolescência sem Filtro, que o Instituto Alana encomendou à Agência Koga, 50% dos entrevistados de 13 a 17 anos admitiram passar mais tempo online do que gostariam e 69% disseram estar abertos a receber apoio externo para estabelecer limites, como mostrou reportagem do Lunetas.
Para quem percebe que as telas ocupam mais espaço do que gostaria, Brenman propõe começar por um gesto concreto. “Eu tenho dito nas minhas palestras pelo mundo que a família mais rica do mundo é aquela que consegue fazer pelo menos uma refeição por dia com seus filhos. Claro, sem telas!”, diz.
A proposta toca num hábito comum. No estudo da Unifesp com crianças de 4 a 6 anos, mais de 55% faziam as refeições assistindo à televisão, segundo o levantamento citado pelo Lunetas. Trocar a tela pela conversa à mesa transforma um momento que já existe na rotina em espaço de encontro.
“É um começo de mudança. Alimentar uns aos outros com comida e muita conversa, risada”, resume o escritor. A cena se aproxima de outras experiências que o Lunetas acompanha, como a de crianças na cozinha que ganham autonomia ao preparar a própria comida ao lado dos adultos.
A entrevista com Brenman, a apresentação do livro e as recomendações oficiais sugerem alguns caminhos para famílias que desejam iniciar essa mudança.
Escolher uma refeição sem aparelhos. Café da manhã, almoço ou jantar, o horário pesa menos que a regularidade. Celulares longe da mesa, para adultos e crianças, abrem espaço para a conversa em família.
Começar pelos adultos. Como os filhos aprendem pelo exemplo, rever o próprio uso do celular durante brincadeiras, conversas e refeições muda o recado que chega às crianças pequenas.
Prever o vazio. O próprio autor avisa que ansiedade e tédio aparecem nos primeiros dias. Ter à mão livros, massinha, papel, jogos de tabuleiro e brincadeiras simples ajuda a atravessar esse momento.
Aproveitar o que já existe na rotina. Banho, caminho da escola, preparo do jantar e hora de dormir concentram oportunidades de conexão que dispensam programas especiais.
Sustentar o “não”. Manter os combinados mesmo diante de choro e reclamação faz parte do processo que Brenman descreve como desmame digital, sem recorrer a punições ou castigos físicos.
Levar as crianças para fora de casa. Praças, parques e quintais oferecem experiências que nenhuma tela reproduz, como mostram as reportagens do Lunetas sobre o desemparedamento da infância e os espaços de convivência nas cidades.
A imagem da família mais rica do mundo, que Brenman repete pelos palcos por onde passa, desloca a ideia de riqueza do que se compra para o que se compartilha. Em Desligue a tela e se ligue no seu filho, essa troca começa num prato servido sem pressa e se estende para histórias, passeios, conversas e manhãs dedicadas a ver o sol nascer.
A proposta do livro passa longe de uma infância sem tecnologia. O que o escritor sugere às famílias é recuperar o tempo que as telas ocuparam sem pedir licença e devolvê-lo à convivência. Ao fim de cada dia, o que fica para as crianças costuma caber numa lembrança simples, a de alguém que deixou o celular de lado para olhar para elas.

Autor: Ilan Brenman
Ilustrações: Sérgio Campante
Editora: Valentina
Páginas: 80