Acontecimentos extraordinários que só ocorrem na primeira infância 

Dos primeiros passos à aquisição da linguagem, os primeiros anos são marcados por intensas transformações no cérebro, no corpo e na criação de vínculos

Vanessa Fajardo Publicado em 01.09.2026 Atualizado em 01.09.2026
Foto em preto e branco de um grupo de crianças sentadas à mesa, conversando e sorrindo

Resumo

A primeira infância é um período de grande desenvolvimento. Há acontecimentos que ocorrem até os 6 anos que constroem bases para o desenvolvimento durante toda a vida.

O período que vai do nascimento aos 6 anos de vida, a primeira infância, é marcado por um intenso desenvolvimento humano. Cada habilidade conquistada por um bebê como aprender a engatinhar, dar os primeiros passos ou falar é resultado de um complexo processo de desenvolvimento do cérebro e do corpo.

Ao mesmo tempo, é importante não transformar esses marcos de desenvolvimento em uma espécie de “carimbo de destino”. Afinal, cada criança tem seu próprio ritmo e crianças com deficiência podem vivenciar trajetórias diferentes das esperadas pelos padrões tradicionais.

Pequenos, porém, extraordinários movimentos

As pequenas descobertas do dia a dia, muitas vezes quase imperceptíveis, também revelam o quanto uma criança está aprendendo e se transformando. A psicóloga Juliana Prates, integrante do Comitê Científico do NCPI (Núcleo Ciência Pela Infância), cita como exemplos o movimento da pinça com os dedos e o momento em que o bebê passa a se reconhecer diante do espelho como grandes avanços. “É o exercício de chamar de extraordinário coisas que são muito simples”, diz.

Do sorriso social ao cuidado coletivo

Outro acontecimento importante é o sorriso social, considerado o primeiro grande marcador relacional. Ele é uma resposta neurológica a um estímulo externo que ocorre por volta dos 2 meses, diferente dos movimentos como reflexo e espasmo que aparecem nos recém-nascidos enquanto dormem ou depois de mamar.

Já pela perspectiva ancestral, a vinculação afetiva, na visão de Rosângela Cardoso, indígena da etnia Tapajó, acontece por meio do cuidado coletivo presente na aldeia.O vínculo e o apego se formam de maneira comunitária ao redor da fogueira, em rituais e em rodas de conversa com pajés, cacicas e avós.

“A ciência fala hoje sobre a importância da escuta para o vínculo. Nós vivemos isso há milênios através da oralidade, passando as nossas línguas e as nossas histórias de geração em geração.”

Primeiras palavras

Pode ser ‘papa’, ‘mama’ ou ‘água’ as primeiras palavras da criança são uma comoção para a família e, de fato, é uma grande marca da primeiríssima infância porque funde linguagem e cognição. Juliana reforça que ela permite que a criança vá além da comunicação corporal e emocional inicial, abrindo caminho para a representação simbólica do mundo por meio de palavras e ideias.

Criança é parte da natureza

Na visão do povo Tapajó a criança não brinca apenas na natureza, ela é a parte dela. “O brinquedo é o rio onde se toma banho, a terra onde pisa descalço, as sementes, os galhos, o canto dos pássaros. A criança aprende desde cedo a ser guardiã do nosso território”, diz Rosângela. “O brincar constrói a autonomia da criança e ao mesmo tempo ensina que ela precisa do coletivo para viver bem”, complementa.

Entrar na escola sem olhar para trás

Se até os 4 anos a criança ainda não foi para a escola, quando chega a esta idade a matrícula na educação infantil é obrigatória e ela assume um novo papel social, de aluno. Esse marco introduz a criança a um novo microssistema com outras regras, que expandem amplamente seu repertório, embora também comece a evidenciar disparidades causadas por desigualdades sociais.

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