Como criar meninos que não reproduzem o machismo?

Escritora Nana Queiroz sugere que os pais abandonem a ‘pregação’ e façam perguntas que puxem reflexões

Vanessa Fajardo Publicado em 23.09.2026 Atualizado em 23.09.2026

Resumo

Em entrevista ao Lunetas, escritora Nana Queiroz, autora do livro “Os meninos são a cura do machismo”, diz que defende a “educação feminista amorosa”, centrada na liberdade e na individualidade, e não em proibições.

Quando Jorge tinha três anos, disse para sua mãe, a escritora Nana Queiroz, que as meninas não podiam subir uma escada na escola “porque era muito perigoso e exigia coragem.” Nana, então, respondeu com uma pergunta: “Mas, então, você não acha a mamãe corajosa?” O menino pensou por um instante e disse: “Não, mamãe, você é muito corajosa, acho que você pode subir.”

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Carol Pedrosa

A escritora Nana Queiroz fala sobre feminismo, igualdade e os desafios de educar crianças para uma sociedade mais justa.

Nana relata que, a partir daquele dia, ele não repetiu mais frases do tipo. Autora do livro “Os meninos são a cura do machismo” (Editora Record), ela conta que questionar o filho permitiu que ele percebesse sozinho que estava replicando uma ideia errada.

Esse tipo de abordagem ajuda a construir dentro de casa um espaço de conversa, e não de proibição. Menos num estilo “está errado falar isso” e mais um convite para entender “por que você está falando isso? Vamos entender juntos?”.

Cultivar diálogo com filhos é fundamental desde cedo porque na adolescência as questões do mundo “lá fora” ficam ainda mais carregadas. Para Nana, a lógica das perguntas torna-se ainda mais essencial porque os argumentos extremistas e machistas absorvidos pelos jovens tendem a se dissolver sozinhos quando questionados. “Os pais precisam estar abertos para ouvir. Fazer menos pregação e mais perguntas”, complementa.

Segundo um estudo do Unicef, crianças de dois e três anos já incorporam estereótipos de gênero e tendem a evitar brinquedos e atividades que consideram inadequados para seu próprio sexo. Por volta dos seis anos, as crianças já podem internalizar ideias sobre capacidades intelectuais diferentes entre meninos e meninas. Daí a importância de desconstruir o que por muito tempo fez parte do imaginário da sociedade em relação a meninos e meninas.

‘Isso é coisa de menino?’ x ‘isso é coisa para você?’

Para escrever “Os meninos são a cura do machismo”, Nana entrevistou cerca de 600 homens adultos e diz que identificou que uma das maiores amarras e causas de tristeza deles era o sentimento de terem sido impedidos de ser quem eram, pois eram obrigados a “ser homem.”

“É preciso deixar que a criança se questione como indivíduo único, permitindo que meninos brinquem de boneca se quiserem, por exemplo. Dando chances para testar as coisas”, afirma.

Quando os filhos — hoje Jorge já tem 8 anos, e Vicente, 4 — perguntam se determinada atitude ou brinquedo é “coisa de menino”, a resposta de Nana é devolver o questionamento: “Isso eu já não sei, mas é coisa para você? O que você acha? O que você quer?”

Para Nana, essa troca de frases é o pilar central do que ela define como uma “educação feminista amorosa”, centrada na liberdade e na individualidade, e não em proibições. “A criação feminista amorosa remove essa cobrança de papéis de gênero e coloca a pergunta ‘quem é você?’ no lugar”, completa. 

Discurso ‘red pill’ traz acolhimento

O que leva os meninos a serem “fisgados” pelo discurso red pill é que eles oferecem “espaço de acolhimento, de pertencimento, de comunidade.” “A radicalização só vem depois. A gente precisa entender e acolher esses meninos que estão desesperados por afeto, por orientação, por alguém que os ajude a desenrolar essa crise identitária da masculinidade.”

A mudança começa em casa, em cada oportunidade de conversa. 

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