Psicólogas explicam como a rede de apoio sustenta o desenvolvimento infantil; Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal lança guia para famílias e cuidadores
Concentrar o cuidado de uma criança em uma única pessoa aumenta o risco de esgotamento e reduz as trocas que sustentam o desenvolvimento. Especialistas defendem uma rede com mais adultos de referência, serviços públicos e o território onde a família vive.
Para as famílias que podem pagar, contratar uma babá em tempo integral costuma parecer a resposta à pergunta sobre quem vai cuidar do bebê enquanto os adultos da casa trabalham. A psicóloga Monalisa Barros, professora titular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e pós-doutora em saúde mental perinatal pela Universidade de Coimbra, aponta nesse arranjo um limite que ajuda a entender a rede de apoio na primeira infância. Segundo ela, mesmo quem consegue pagar por ajuda “também transfere para uma única pessoa, a babá”. Essa profissional fica com a função de ser a única referência de cuidado e exposta à mesma sobrecarga que atinge tantas mães.

O exemplo mostra o que escapa da ideia mais comum de apoio, restrita a avós, tios e amigos. Para Monalisa, essa definição “deixa de fora a maior parte da rede”, porque reduz o suporte a uma ajuda informal, quase sempre feminina e limitada à família. Na leitura da pesquisadora, as redes de apoio de uma criança incluem o pai e outros cocuidadores, os serviços públicos, o território e as relações comunitárias. “Dizemos que é preciso uma aldeia para criar uma criança, mas a aldeia precisa de estrutura”, resume.
A concentração do cuidado tem efeitos sobre quem cuida e sobre quem é cuidado. A psicóloga Lara d’Almeida, doutora em Distúrbios do Desenvolvimento e com mais de 15 anos de atuação em saúde mental, inclusive no SUS, lembra que pesquisadores europeus estudam há anos o esgotamento parental. Trata-se de uma exaustão crônica ligada ao papel de cuidar, que afasta afetivamente o adulto da criança. Segundo ela, o cansaço prolongado reduz a disponibilidade do adulto para as trocas responsivas. O termo é usado pelo Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, para situações como responder ao balbucio do bebê ou comentar aquilo que a criança aponta.

Repetidas milhares de vezes por dia, essas pequenas conversas participam da formação das conexões cerebrais nos primeiros anos de vida. “Um adulto exausto, sem rede de apoio, consegue fazer isso por horas, mas não consegue manter esse nível de presença o dia inteiro, todos os dias”, afirma Lara. Ela também menciona meta-análises que confirmaram a capacidade das crianças de formar vínculos seguros com vários cuidadores. Avó, pai, tia e educadora da creche podem funcionar como figuras de proteção, e ampliar a rede serve, na avaliação da psicóloga, para “multiplicar as fontes de segurança psicológica”. O raciocínio ajuda a explicar o peso da presença paterna desde os primeiros dias, tema do debate sobre a licença-paternidade.
Monalisa descreve o Estado como parte constitutiva da rede. No SUS, o pré-natal, a puericultura, a vacinação e a Estratégia Saúde da Família acompanham a criança desde a gestação. Já o Cras, o Bolsa Família e o Programa Criança Feliz, conhecido pelas visitas domiciliares, chegam às casas mais vulneráveis. Lara acrescenta que a força das visitas está no vínculo com um profissional que acompanha a família ao longo do tempo. Monalisa defende que esses serviços funcionem de forma integrada e cotidiana, porque “a família não deveria precisar lutar por um direito”.
A creche é o ponto em que essa luta aparece com mais nitidez. Segundo a PNAD Contínua Educação 2025, do IBGE, 41,7% das crianças de 0 a 3 anos frequentavam creche naquele ano. Entre as crianças de 2 e 3 anos que estavam fora, a maior parte dos responsáveis declarou que não fez a matrícula por opção, mas 33,4% apontaram a falta de vaga. Um levantamento do Todos Pela Educação feito com base na mesma pesquisa mostra a desigualdade por renda. Entre as famílias 20% mais pobres, 24,2% das crianças de 0 a 3 anos estavam fora da creche por problemas de acesso, como falta de vaga ou unidade distante. O índice é quatro vezes maior que o dos 20% mais ricos (6,4%). Para Lara, o direito à creche se liga diretamente ao desenvolvimento, porque um espaço com profissionais bem formados e proporção adequada de adultos por criança produz muito mais trocas do que um ambiente superlotado.
O bairro também participa do cuidado. Lara cita pesquisas sobre resiliência que apontam o vínculo consistente com um adulto de fora da família como um dos fatores de proteção mais sólidos para crianças em contextos adversos. “O professor que conhece a criança, nota quando algo mudou e mantém um vínculo estável ao longo do tempo funciona como uma fonte adicional de regulação emocional”, diz. Monalisa chama de território amigo da primeira infância o lugar com serviços próximos, praças e parques seguros para brincar e profissionais que conhecem as famílias “pelo nome, pelo vínculo”.
Esse conjunto, porém, se distribui de forma desigual. Lara aponta que, por causa da segregação urbana, “as famílias que mais precisariam de uma rede territorial densa costumam morar onde essa rede é mais escassa”. Segundo ela, são as mulheres que absorvem o peso da rede que falha. Monalisa inclui nesse retrato as mães que criam os filhos sozinhas. As Estatísticas de Gênero do IBGE mostram que, em 2022, 56,6% das mulheres de 25 a 54 anos que viviam com crianças de até 6 anos estavam ocupadas. Entre as que moravam em casas sem crianças nessa idade, a taxa era de 66,2%. “Ter apoio não pode depender de ter avós disponíveis, dinheiro para contratar ajuda ou acesso aos melhores serviços”, afirma Monalisa, que defende licença parental ampliada, creche para todas as crianças e transferência de renda.
A ideia de que muita gente participa da criação de uma criança está no nome do Guia de Primeira Infância – Para as famílias e toda a vila responsável por criar uma criança. A publicação foi lançada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Criança Esperança e a Globo e em cooperação com a UNESCO. O guia reúne informações baseadas em evidências sobre os seis primeiros anos e dedica o capítulo “Criança é responsa de todo mundo” ao cuidado compartilhado, ao papel do pai como corresponsável e a serviços como UBS, Cras e Conselho Tutelar. Voltado às famílias e a todas as pessoas que cuidam de crianças pequenas, o material pode ser baixado no site da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.
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