Como as telas interferem no desenvolvimento da criança?

Especialistas afirmam que a tecnologia pode ser aliada no desenvolvimento, mas não deve substituir os estímulos fundamentais da constituição do corpo e da mente
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 25.06.2020
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A primeira infância é um momento fundamental para o desenvolvimento motor e cognitivo, fator que diferencia os seres humanos de qualquer outro animal. Essa inteligência singular é adquirida principalmente nos mil primeiros dias de vida, que determinam grande parte do amadurecimento das estruturas e regiões cerebrais, sendo consequência do tempo, da experiência e das relações vividas pelas crianças durante este período. Em um mundo cada vez mais tecnológico, como pensar o impacto das telas sobre esse processo de desenvolvimento?

De acordo com o psiquiatra e psicanalista Nilson Sibemberg, a exposição às telas tem seus principais pontos negativos no grupo de zero a três anos. “Até os dois anos acontece boa parte da aquisição de conhecimento pelos sentidos e é quando as crianças vão ganhando consciência do próprio corpo, construindo subjetividade a partir da relação com o outro.” A ideia de usar dispositivos digitais para acalmar ou distrair os bebês nessa idade não é adequada, segundo ele, podendo prejudicar o desenvolvimento neuromotor, a aprendizagem e a própria constituição psíquica de si.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também recomenda evitar a exposição de crianças menores de dois anos às telas, além de limitar o tempo de uso ao máximo de uma hora por dia, entre dois e cinco anos, com a supervisão de pais, cuidadores ou responsáveis. Isso, porque, como explica o neurologista pediátrico Eduardo Jorge Custódio da Silva, membro do Departamento de Neurologia da SBP, o desenvolvimento do cérebro está relacionado não apenas à nutrição, mas aos cinco sentidos de forma integrada.

“A criança vive de exemplos concretos, por isso é necessário que ela toque na areia, veja os objetivos, ouça, sinta cheiros e gostos”

É assim que ela vai, aos poucos, modelando a arquitetura, a produção e a conexão dos neurotransmissores. Nesse sentido, deve-se garantir a riqueza dos estímulos que ultrapassam o brilho das telas e a virtualidade, como as experiências diretas do corpo, do brincar ao ar livre, do som da palavra emitida pela mãe, da potência do apego e do vínculo.

Tempo de tela e o impacto no desempenho cognitivo

A pesquisa “Associação entre o tempo de exibição e as crianças”, publicada em 2019 pela JAMA Pediatrics, mostrou que quanto maior o tempo de exposição às telas, pior o desempenho cognitivo. O estudo acompanhou 2.441 mães e crianças nos marcos de 24, 36 e 60 meses, identificando um tempo médio de exposição nos Estados Unidos de 2 horas e 19 minutos por dia.

Como explica Rodrigo Menezes Machado, colaborador do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI), do Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo, esse tempo pode influenciar a visão e a interpretação audiovisual, e elimina oportunidades de desenvolver outras áreas do cérebro, praticar habilidades interpessoais, motoras e de comunicação. “Ainda não sabemos quais domínios são afetados pelo tempo excessivo de tela, mas sabemos que há atraso no desenvolvimento”, afirma.

No Brasil, uma pesquisa, realizada pelo Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), investigou a relação entre habilidades motoras, atividade física, uso de mídia, hábitos de tela e duração de sono em 926 crianças entre quatro e seis anos. Os resultados apontaram que mais de 55% das crianças faziam refeições assistindo televisão e 28% passavam longos períodos vendo TV, jogando videogame ou usando computador, tablet ou telefone celular.

O estudo relacionou diretamente o uso excessivo de mídias de tela ao aumento da probabilidade de crianças apresentarem habilidades motoras pobres, inatividade física e diminuição das horas de sono.

A faixa de onda de luz azul presente na maioria das telas contribui para o bloqueio da melatonina, hormônio que regula o ciclo do sono e da vigília, necessários para o crescimento corporal e mental, conforme descreve Sibemberg. Isso explica parte do aumento das dificuldades de dormir e manter uma boa qualidade de sono profundo, entre jovens, com mais ocorrências de pesadelos, terrores noturnos e sonolência diurna, além de problemas de memória e rendimento escolar comprometido.

Percepção de tempo e espaço

É comum nos conectarmos a pessoas de corpo presente, mas psiquicamente ausentes. Quem nunca se frustrou ao tentar conversar com alguém usando o celular e esta pessoa não dar atenção? A clássica frase dos pais “você está com a cabeça na lua” parece ganhar novo sentido na infância digitalizada, levando àquilo que cientistas começam a chamar de “síndrome de astronauta”.

O formato do dispositivo, a verticalização da informação, a saturação visual, entre outras características dos dispositivos digitais podem incidir em um déficit de orientação espaço-temporal, limitando a capacidade de exploração do mundo real, como sinaliza Nilson Sibemberg.

“O exercício físico é fundamental para a aprendizagem do corpo, sendo prejudicado quando não há a experiência de profundidade, já que as telas têm apenas duas dimensões”

Outro fator levantado pelo psicanalista é a relação com o tempo de resposta proporcionado pelas telas de dispositivos. “A vida requer uma perspectiva de futuro, uma construção que se dá em três tempos: o da visão ou do impacto sensorial; o de ler a percepção, entendendo o que viu e fornecendo sentido; e o de conclusão, escolhendo o que fazer com a experiência”, explica. No caso de excesso de uso das telas, esses tempos ficam achatados e preenchidos por respostas imediatas e automáticas.

Não à toa, o Dicionário Oxford, em sua edição de 2015, destacou um novo verbo: visualizar. São aqueles golpes de visão sobre imagens ou mensagens textuais, sem poder elaborar adequadamente aquilo que se viu. Esse mundo inundado de informações e fascínio sensorial pode gerar irritabilidade, impaciência, impulsividade e ansiedade, de acordo com Sibemberg, sintomas vinculados com a impossibilidade de lidar com os três tempos mencionados acima ou com o tempo “da falta”.

“Se isso toma conta muito cedo da vida do sujeito, ele pode ter dificuldades inclusive de manter relações sociais”

Alertas de saúde de crianças e adolescentes associados à era digital 

  • Problemas de saúde mental: irritabilidade, ansiedade e depressão
  • Transtornos do déficit de atenção e hiperatividade
  • Transtornos do sono
  • Transtornos de alimentação: sobrepeso/obesidade e anorexia/bulimia
  • Sedentarismo e falta da prática de exercícios
  • Bullying e cyberbullying
  • Transtornos da imagem corporal e da autoestima
  • Riscos de exposição à sexualidade, nudez, sexting, sextorsão, abuso sexual, estupro virtual
  • Comportamentos autolesivos, indução e riscos de suicídio
  • Aumento da violência, abusos e fatalidades
  • Problemas visuais, miopia e síndrome visual do computador
  • Problemas auditivos e perda auditiva induzida pelo ruído (PAIR)
  • Transtornos posturais e músculo-esqueléticos
  • Uso de substâncias tóxicas como nicotina, vaping, bebidas alcoólicas, maconha, anabolizantes e outras drogas

Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria

Como as telas podem favorecer o desenvolvimento infantil?

Se a presença e os estímulos off-line não podem ser substituídos por telas, também é verdade que a tecnologia não precisa ser vista apenas como vilã, segundo o neurologista pediátrico Eduardo Jorge Custódio da Silva.

“As telas não podem ser o único canal de percepção do mundo externo, mas quando utilizadas de forma adequada, podem ser aliadas do desenvolvimento cerebral”

O neurologista defende que, como estímulo acessório, os dispositivos de mídia interativos podem ajudar crianças a construir novos caminhos para as conexões sinápticas, treinando um cérebro multitarefa, além de estimular o domínio natural de novas habilidades, como a operação de ferramentas tecnológicas.

Para o psiquiatra Rodrigo Menezes Machado, esse cérebro multitarefa é dinâmico e consegue migrar de forma mais rápida entre estímulos do que no passado. “O cérebro se adapta a esta realidade de maior conexão, mas isso não está relacionado, necessariamente, a uma maior produtividade”, pondera.

O jogo EndearvorRX é um exemplo de como a tecnologia pode ser aliada. Recém-aprovado nos Estados Unidos, o jogo funciona como uma “terapia digital”, para crianças de oito a 12 anos, diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção com hiperatividade (TDAH). “Os estudos mostraram benefícios para crianças que usavam o jogo como forma de tratamento por pelo menos 25 minutos ao dia, um verdadeiro ‘empurrão’ para o cérebro”, explica Machado.

É comum cada aparição tecnológica gerar um misto de fascínio e temor, tanto pela capacidade de melhorar a vida das pessoas, como pela imprevisibilidade de seus efeitos. Na opinião de Sibemberg, durante a pandemia, a tecnologia tem sido um ótimo instrumento para diminuir o distanciamento social, seja proporcionando salas de aula on-line e favorecendo a aprendizagem ou possibilitando a comunicação com amigos e familiares. “Apesar disso, a mediação do adulto é indispensável no uso das telas”, ressalta.

Para explorar o lado positivo da tecnologia na vida das crianças, especialistas defendem que é preciso haver orientações sobre o uso adequado de ferramentas, oferecidas por adultos responsáveis, ou dividindo o tempo necessário para singularizar a experiência viabilizada por dispositivos, que pode acontecer no brincar com outras crianças, quando há o compartilhamento de dramas e fantasias. Uma forma de valorizar as horas do dia, a presença e os próprios desafios. Afinal, não basta passar o dedo na superfície do mundo para alterar a realidade.

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Resumo

Pesquisas relacionam diretamente o aumento do tempo de exposição às telas com impactos negativos no desenvolvimento das crianças. Apesar disso, especialistas preferem enxergar a tecnologia como aliada, podendo trazer benefícios quando utilizada de forma adequada.
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