Algumas crianças descobrem a cidade em pequenos trajetos cotidianos; para outras, o caminho é risco. A diferença está no território.
O trajeto até a escola é, muitas vezes, o primeiro contato da criança com a cidade. A reportagem mostra como esse percurso revela desigualdades e violências, mas também aponta caminhos de transformação quando há escuta e um olhar centrado nas experiências infantis.
Havia um degrau em frente a uma casa. Todos os dias, em vez de seguir pela calçada, eu subia esse degrau de mãos dadas com a minha mãe a caminho da escola. Era um pequeno desvio, mas que dava graça ao roteiro previsível. O olhar da criança tem este poder: reinventar rotas conhecidas e descobrir encanto na rotina.
O caminho até a escola é, muitas vezes, o primeiro território de autonomia das crianças. Fazer esse trajeto a pé todos os dias permite que Maria Flor, de seis anos, viva “muitas aventuras” e experimente a sensação de “ser livre”. “É muito bom porque a criança pode explorar”, conta.
Para Bem, de cinco anos, percorrer a cidade ampliou o olhar para o que acontece ao redor e fortaleceu sua relação com o lugar onde vive. “Aprendi a andar na escada rolante do metrô, aprendi sobre o museu, aprendi a respeitar o morador de rua, aprendi sobre os grafites. Conheci o pé de caqui, de carambola e de maracujá. Vi que é legal ir ao teatro e a shows de música.”
Mas, hoje, quando a segurança pública está entre as principais preocupações dos brasileiros, segundo o levantamento mais recente do Datafolha, como fazer com que percursos corriqueiros — como a ida à escola — continuem sendo vividos como espaços de descoberta, e não de medo?
Maria Flor e Bem são “exploradores da cidade”. A proposta da professora Edna Monteiro, da EMEI Gabriel Prestes, na região central de São Paulo, é não se limitar à sala de aula e proporcionar às crianças “experiências reais e conectadas à vida”. Na prática, os estudantes passaram a demonstrar protagonismo ao orientar familiares pela cidade, utilizar transporte público e reconhecer lugares por onde passam.

A mãe de Cristian, por exemplo, contou que foi o próprio filho, então com cinco anos, quem indicou qual ônibus tomar para chegar à Avenida Paulista. Já a mãe de Helena, também de cinco anos, relatou sobre as orientações que recebeu para aguardar o momento certo de desembarcar da escada rolante do metrô. Além disso, segundo Edna, falas espontâneas como “Virando ali na esquina é a casa da minha avó” ou “Meu pai troca o pneu naquela borracharia” revelam o vínculo que começa a se formar com a cidade.
Mas, para uma parcela significativa da infância brasileira, o acesso à cidade ainda é atravessado por desigualdades profundas. Uma menina vive o espaço urbano de um jeito diferente de um menino; e, quando essa menina é negra e periférica, as camadas de vulnerabilidade e vigilância tendem a se intensificar.
De acordo com a pesquisa “O lugar importa: o ambiente molda as bases do desenvolvimento saudável”, da Universidade de Harvard, o lugar onde as crianças crescem influencia o seu desenvolvimento em diversos aspectos — da saúde à qualidade da aprendizagem, com impactos que se estendem à vida adulta, como acesso a oportunidades de trabalho ou maior exposição à violência.
Ao analisar 100 áreas urbanas nos Estados Unidos e estabelecer indicadores de oportunidade infantil, o estudo identificou disparidades marcantes: a pontuação média foi de 73 para crianças brancas, contra 24 para as negras. Nesse contexto, “viver em territórios com acesso limitado a direitos básicos como segurança, mobilidade e espaços de convivência, compromete não apenas o desenvolvimento individual, mas também o exercício da cidadania e o bem-estar coletivo”, diz Ursula Troncoso, urbanista que pesquisa cidades, infâncias, natureza e mobilidade.
No Brasil, essas desigualdades também se traduzem em riscos concretos à vida. Uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostra que mais de 15 mil crianças e adolescentes, de zero a 19 anos, morreram de forma violenta entre 2021 e 2023.
“Mãe, eles não viram que eu estava com uniforme da escola?”, disse Marcus Vinícius, de 14 anos, após ser baleado durante uma operação policial no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, em 2018.
Os dados e as últimas palavras de Marcus Vinícius evidenciam que, especialmente em territórios periféricos e favelas, a violência pode interromper de forma abrupta até mesmo a ida à escola. Ou seja, para algumas crianças, planejamento urbano pode significar sobrevivência.
Para Júlia Otsuka Yamazoe, advogada que pesquisa o espaço urbano e a infância, promover os direitos das crianças passa, necessariamente, pela valorização da mobilidade ativa — sobretudo nas periferias, onde o deslocamento a pé é predominante.
É no cotidiano — na forma como circulam, brincam e ocupam os espaços — que as crianças constroem noções de pertencimento e identidade coletiva. No entanto, a lógica pouco centrada nas pessoas que organiza muitas cidades hoje reforça a segregação e empobrece experiências fundamentais para o desenvolvimento infantil.
“Crianças de até seis anos são absolutamente influenciáveis pelo ambiente que as cerca. Elas dependem da qualidade dos estímulos que recebem e dos vínculos afetivos que constroem”, afirma a psicóloga Juliana Prates, do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). Por isso, criar condições para que vivenciem a cidade de modo positivo desde cedo está diretamente ligado a uma infância saudável.
Para Ursula Troncoso, o bairro — a primeira medida urbana de uma criança — pode favorecer ou limitar esse processo, a depender do quanto oferece conforto, segurança e apoio à rotina das famílias. “Se as crianças pudessem planejar um bairro, ele seria um bairro de 15 minutos”, diz, em referência a espaços onde serviços essenciais, como escola, saúde, comércio e lazer, estão acessíveis a uma curta distância, como propõe o urbanista francês Carlos Moreno.
Nesse contexto, o Plano Nacional de Cuidados (PNC) reconhece o cuidado como dimensão central da vida. Entre as medidas estão ampliar a oferta de creches, fortalecer a rede de assistência social e garantir condições de trabalho mais justas para profissionais do cuidado. A ausência desses serviços impacta diretamente a qualidade de vida de quem cuida, majoritariamente mulheres, e de quem recebe os cuidados, especialmente crianças na primeira infância.
“Se você precisa atravessar uma praça à noite e essa praça está vazia, talvez você sinta medo. Mas, se essa praça está cheia de gente, principalmente de famílias, crianças brincando, você não terá medo de cruzá-la”, exemplifica Ursula Troncoso. Por isso, muitos especialistas defendem que a segurança pública começa com cuidado — serviços próximos, redes comunitárias e vida pública ativa.
Para Alexandre Delijaicov, em entrevista ao Outras Palavras, o planejamento urbano exige uma dimensão poética. “A cidade deve facilitar o encontro, promover a convivência e o estar, transformando o fluxo em percurso”, diz. Ele é arquiteto efetivo da Prefeitura de São Paulo e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP).
Quando essas condições estão presentes desde a infância — como a possibilidade de ir à escola com segurança, sem medo — os efeitos aparecem no dia a dia. “As crianças passam a compreender melhor a dinâmica do bairro, demonstram mais atenção ao entorno durante uma caminhada e começam a reconhecer o valor e a diversidade que existem na cidade”, afirma Suellen dos Santos, mãe de Bem.
Suely Cardoso Gonçalves, mãe de Maria Flor, também percebe mudanças no olhar da filha. Durante os passeios, diz notar um senso mais apurado de observação e curiosidade. “Cada lugar tem uma história a ser contada. Uma pintura, um fruto, uma placa diferente — tudo vira assunto”, conta. “Quanto mais você conhece, percebe e entende, mais você se identifica com aquilo que a cidade te oferece.”
Multiplicar pontos de encontro, fortalecer laços e permitir experiências genuínas no espaço público aumenta a sensação de segurança. Mas, hoje, o bem-estar coletivo também resulta da combinação entre tecnologia, planejamento urbano e participação cidadã.
Nas chamadas “cidades inteligentes”, famílias podem contar com informações em tempo real sobre o transporte público ou com respostas mais rápidas das forças de segurança em situações de risco, como quando uma criança se afasta do grupo ou é abordada por uma pessoa desconhecida, por exemplo.
Esse uso de tecnologia se estende à própria infraestrutura urbana. As ruas podem se tornar mais seguras para as crianças que caminham para a escola ou brincam no bairro quando sistemas de análise de tráfego ajudam a reduzir acidentes com pedestres e ciclistas, aponta relatório da McKinsey & Company, de 2024. Atropelamentos e colisões estão entre as principais causas de morte por fatores externos entre crianças de zero a 14 anos no Brasil.
Enquanto em Curitiba luzes automatizadas esticam o tempo da infância no Parque Barigui após o pôr do sol, em Porto Alegre sistemas de iluminação em rotas escolares tornam o caminho de volta para casa mais seguro. Em Salvador, o monitoramento com reconhecimento facial em praças e parques busca resguardar a presença das famílias e o brincar livre; já em São Paulo, a integração de dados entre transporte e segurança permite que a cidade responda com mais agilidade a incidentes em áreas de grande circulação.
De acordo com o Unicef, por meio da iniciativa “Child-Friendly Cities”, a coleta e o uso de dados para mapear áreas de risco são cruciais para o planejamento urbano centrado na infância.
Mas, sensores, aplicativos e bancos de dados não são suficientes para cidades verdadeiramente responsivas. A resposta pode estar em algo mais simples: ouvir as crianças. Isso porque, sem levar em consideração suas experiências, há o risco de produzir soluções desconectadas do território.
Há 10 anos, o Marco Legal da Primeira Infância estabelece que crianças são sujeitos de direitos e devem ser ouvidas nas decisões que lhes dizem respeito, de acordo com sua idade. Isso implica pensar a cidade com as crianças, e não apenas para elas.
“Mais do que implementar tecnologia, o desafio é garantir que essas soluções tenham um propósito claro de melhoria da qualidade de vida”, afirma Thomas Law, professor e pesquisador na área de políticas públicas. Nesse sentido, “criar mecanismos permanentes de escuta da população, capazes de orientar decisões a partir de suas reais necessidades, é o foco das cidades responsivas”.
Recolocar as crianças no centro do planejamento urbano é a estratégia do pedagogo italiano Francesco Tonucci, desde a década de 1990. Ruas e praças se transformam em espaços de convivência e brincadeira, projetados para garantir autonomia e liberdade de circulação. Na chamada “Cidade das crianças”, os lugares são mais seguros, acessíveis e inclusivos — e, nesse cenário, todos ganham.
Em 2023, Júlia, então com seis anos, disse à equipe do Ateliê Navio: “Precisa de algum lugar pras crianças se sentirem à vontade para brincar sem ter medo de ficar na rua.” No escritório de arquitetura e urbanismo fundado por Ursula Troncoso, a escuta ativa antecede qualquer intervenção. Que mudanças as crianças fariam em seus trajetos? O que significa pertencer a um lugar e se reconhecer como parte dele desde o início da vida?
“Quando dialogamos com as crianças, construímos cidades mais afetivas, mais cuidadosas, cheias de brincadeira, de natureza e espaços de descompressão, com atenção aos detalhes e que incluem a todos”, afirma. “Escuta e participação melhoram de fato a vida das pessoas. É esse então o caminho para construir boas políticas públicas.”
Outros projetos do ateliê, em diálogo com a iniciativa internacional Urban95, da Fundação Van Leer, por exemplo, partem da perspectiva de crianças com altura média de 95 centímetros. Esse ponto de vista reposiciona o olhar sobre a cidade e desloca a paisagem ao alcance dos olhos — dos escapamentos dos carros às sombras das árvores ou aos jogos de amarelinha desenhados no chão.
No Brasil, as cidades de Jundiaí (SP), Recife (PE) e Boa Vista (RR) têm programas de planejamento amigável às crianças.
Na EMEF Profa. Rosângela Rodrigues Vieira, na Zona Leste de São Paulo, cerca de 470 estudantes de oito a 14 anos participaram da atividade “Como chegou aqui?”, parte do projeto “Escola ativa”, que articula educação, participação e planejamento urbano a partir da perspectiva infantil.
A análise das produções das turmas de 3º e 4º anos, apoiada por inteligência artificial, revelou padrões importantes. Crianças que vão a pé tendem a representar maior diversidade no ambiente, com mais elementos urbanos, referências a paisagens e pontos de interesse, além de maior presença de pessoas e interações no espaço público. “Isso sugere uma vivência mais sensível do caminho, com mais sinais de prazer, curiosidade e vínculo afetivo com o território”, diz Silvia Stuchi, diretora do Instituto Corrida Amiga, responsável por aplicar essa pesquisa na EMEF.
Por outro lado, nos trajetos motorizados, os desenhos de crianças que vão de carro aparecem mais centrados no veículo, com poucas cores e menor conexão com o entorno. Já os transportes coletivos equilibram sociabilidade com certa neutralidade.

O estudo também identificou que temas como segurança viária e condições de mobilidade surgem com mais força nas falas do que nos desenhos. Para Silvia, isso pode indicar que “nem sempre o que preocupa é visualmente representado, mas aparece de forma clara na escuta”.
A iniciativa inclui ainda questionários com famílias e equipe escolar, além de saídas de campo em que os estudantes avaliam a região. Com apoio da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), da Escola Politécnica da USP (Poli-USP) e da Universidade São Judas Tadeu (USJT), os dados são sistematizados para subsidiar propostas de melhoria e diálogo com o poder público, transformando a experiência cotidiana das crianças em evidências para o planejamento urbano.

Por fim, a professora Maria Ester Pereira Moreira de Camillo afirma que mais alunos passaram a ir a pé para a escola e a procurá-la para relatar problemas no trajeto, como calçadas inadequadas, ou celebrar melhorias, como o conserto do semáforo após o envio de um ofício à subprefeitura em atividade promovida na EMEF.
Ruas, praças e calçadas fazem parte da experiência de crescer. Maria Flor entendeu bem que toda criança tem direito à cidade. “Algumas crianças estavam bloqueando a passagem em uma praça, impedindo que outras brincassem”, conta a mãe, Suely. Então, “minha filha imediatamente disse: ‘Vocês não podem fazer isso, aqui é um espaço público. Todos nós podemos brincar.’”
Mas quem escuta Maria Flor? Quem escuta as cerca de 18 milhões de crianças brasileiras de até seis anos que estão descobrindo a cidade pela primeira vez? Entre elas, mais da metade está em famílias de baixa renda ou em situação de vulnerabilidade, segundo o Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico). Uma escuta qualificada permite ampliar o papel das crianças não apenas como quem vive a cidade e suas diferenças, mas também como quem pode ajudar a redesenhá-la.
Para uma criança, caminhar não é só chegar. Um degrau pode ser um convite para experimentar, imaginar e construir uma relação viva com o lugar. As crianças só habitam a cidade de verdade quando ir a pé para a escola, brincar na praça ou conversar no portão não envolve medo. É nesses detalhes cotidianos — onde se abrem frestas para o brincar — que se acumulam memórias, como o caminho que, anos depois, ainda será lembrado como parte da infância.
Mas o que torna um lugar amigo das crianças?
De acordo com a urbanista Ursula Troncoso, é fundamental investir em “espaços de proximidade” que atendam a três condições básicas. A primeira são os “percursos prioritários da infância”. Isto é, os caminhos devem ser bem cuidados, iluminados, arborizados, com mobiliário adequado, com brincadeiras. A segunda envolve as chamadas “zonas calmas”, que são áreas sinalizadas de travessias de pedestre, calçadas mais amplas e baixas velocidades dos automóveis no entorno das escolas, por exemplo. Por fim, são indispensáveis espaços de brincar livre e contato com a natureza próximos às casas e às escolas.