A formação da individualidade infantil nos primeiros anos de vida

No início, o bebê se vê como extensão da mãe para depois construir sua subjetividade - um processo de separação importante, mas que pode ser difícil para ambos

Cintia Ferreira Publicado em 28.11.2022
Individualidade infantil: foto de um bebê se olhando no espelho. Ele usa uma babador amarelo e está no colo de uma mulher.
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Resumo

Nos primeiros meses, o bebê não se reconhece como indivíduo, mas como uma continuidade da mãe. Entenda como funciona a construção da identidade da criança e como passar por este processo de separação difícil, mas necessário tanto para o bebê quanto para a mãe.

Existe uma lenda africana que diz que o bebê passa a existir muito antes de nascer. Mesmo antes da concepção. Ele começa a existir na mente da mulher assim que decide ter um filho. A história ilustra bem a complexidade do conceito de existir. Afinal, quando inicia o processo de individualidade infantil e o bebê começa a entender que é um ser? 

Muito além de estar no mundo, é se perceber no mundo. “Acredito que a vida do bebê se dá quando a mãe sonha em tê-lo. Depois que ele nasce, começa a ocupar, ganhar seu lugar e vai construindo um jeito de ser”, explica a coordenadora da clínica de 0 a 3 anos da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Maria Cecília Pereira. Porém, como o conceito de identidade pode ser bem complexo, vamos por partes, começando pelo nascimento. 

Somos um só

O pediatra e psicanalista Donald Woods Winnicott, um dos principais estudiosos sobre desenvolvimento infantil, tem uma vasta literatura a respeito da construção da identidade nos primeiros anos de vida. Entre os principais conceitos está o de que o ambiente e as relações familiares são a base do desenvolvimento da criança.

Ele fala sobre como os três primeiros meses de vida estabelecem uma fusão emocional. Nessa fase, a criança não consegue perceber a diferença entre ela e a mãe, ou seja, os bebês demoram a saber que são indivíduos. A mãe, por sua vez, tem uma preocupação primária de cuidado, e pode entrar em um estado de até perder a própria identidade”, explica a psicoterapeuta Cintya Sammarone. “Nessa fase, o bebê precisa da mãe para sobreviver, apesar de já ser capaz de existir como uma pessoinha com características próprias. E a mãe vai ajudá-lo nesse momento com a sua capacidade de cuidar e acolher”, acrescenta Pereira.

Os primeiros contatos após o nascimento

A fase que marca o início do vínculo externo entre mãe e bebê logo após o nascimento tem um nome: exterogestação. O termo foi criado pelo antropólogo Ashley Montagu para definir o período que o bebê já nasceu, porém ainda precisa de um ambiente semelhante ao útero para se desenvolver bem. “A exterogestação seria a continuação da gestação fora do útero. É um período que vai do nascimento até, em média, dois ou três meses, no qual o bebê, que ainda tem seu sistema nervoso muito imaturo. Por isso, precisa do contato físico e de acolhimento do adulto para se sentir seguro e confortável”, explica a pediatra e neonatologista Márcia Dias Zani. “

A amamentação é o momento de maior contato com a mãe, quando se estabelece intimidade e encontro de olhares, pele a pele, acolhimento emocional. Tudo que vem do humano e da figura do cuidador ajuda nessa fase”, complementa Pereira. 

Imitando o quentinho do útero


Durante a exterogestação, é importante que o recém-nascido possa se sentir próximo do ambiente uterino. “Nesse ambiente há limites físicos precisos, ruído contínuo (como o sangue passando pela placenta e os batimentos cardíacos da mãe), posicionamento dos braços e pernas flexionados junto ao corpo, sensação de flutuar em um ambiente aquático. Tudo que imite isso ajuda o bebê a se regular.

O primeiro recurso é o colo, onde o calor do corpo, a respiração e a presença fazem esse papel de acalmar”, recomenda a pediatra. Segundo ela, carregadores, charutinhos, cueiros e mantas podem ajudar a posicionar o bebê dessa forma. Só é preciso cuidado durante o período de sono noturno quando há associações ao maior risco de morte súbita, pois é quando geralmente os pais também estão dormindo e não conseguem vigiá-lo. Os chamados ruídos brancos (que imitam o som do útero ou de água, por exemplo), banhos de balde ou banheira e ninar também são recomendados.

Eu sou um outro

Entre mãozinhas e pezinhos na boca e choros constantes, o neném passa a descobrir o próprio corpo e que causa reações nos outros. “É por volta dos quatro meses que o bebê começa a reconhecer pessoas mais próximas e a perceber uma diferenciação entre ele e a mãe. Uma matriz única e indistinta para o desenvolvimento emocional da criança. Esse processo de individualidade pode gerar sofrimento, pois ele ainda não consegue reter a imagem da mãe”, detalha a psicoterapeuta.

A angústia da separação que produz aquela cena tão comum do bebê abrindo o berreiro quando a mãe se afasta representa esse processo, que pode ser bastante doloroso para a criança. Se a mãe some do campo de visão, a criança entende que ela deixou de existir. Não sabe ainda que as coisas vêm e voltam. Imagine para um bebê vivenciar que perdeu a mãe para sempre? Daí vem todo esse choro.

Atitudes como narrar o que está acontecendo e avisar o bebê dizendo “vou ali, já volto”, dar tchau e dizer que voltou ajudam a criança a entender e aceitar melhor essa separação. “Mas isso depende da qualidade da relação, da disponibilidade exclusiva e do vínculo estabelecido nos primeiros meses para constituir a intimidade”, explica Pereira. Algumas brincadeiras famosas, como “cadê, achou!”, também podem ajudá-la a entender que as pessoas vêm e vão. Oferecer um objeto transicional, como um cobertor ou um ursinho, que represente um elo e transmita um sentimento de segurança para o bebê, pode ser útil também.

Para ajudar o bebê nesse processo de separação, o mais recomendado é responder às suas necessidades e acolher o desamparo.Além disso, é importante encorajá-lo para que faça coisas de acordo com sua maturidade, sem resolver tudo por ele. Permitir a exploração do ambiente e que ele tome decisões dentro de opções seguras fornece autoconfiança e crença no próprio poder de atuar no mundo”, recomenda Zani.

A individualidade aos três anos

A fase que marca os três primeiros anos determina a visão do indivíduo sobre ele mesmo, de acordo com a pediatra. “Já no primeiro ano de vida, a consciência de ser um ser único começa a se formar e se fortalece a partir do segundo ano, quando a criança passa por um processo de autoafirmação da individualidade e descobre que pode tomar decisões.”

A neonatologista destaca a importância de cuidadores amorosos para garantir uma base saudável para a formação de identidade infantil. “A maneira como a criança é vista e cuidada refletirá em como ela se enxergará e enxergará o mundo.”

“Os bebês que desde o início da vida recebem cuidados amorosos passam a ter confiança no mundo e nas pessoas para explorar e se desenvolver”

“Já uma criança submetida a privações e ausência de afetividade na fase em que é mais dependente leva geralmente ao desenvolvimento de medo, inseguranças e de uma autoimagem negativa”, complementa.

Eu faço parte de uma sociedade

A entrada na escola é outro marco de construção de identidade, de acordo com os especialistas. É na escola que a criança começa a desenvolver a linguagem e também a coordenação motora e espacial, além da sociabilidade. “A convivência social e escolar e a presença de outras pessoas na vida da criança passa a ser importante a partir dos dois ou três anos”, esclarece Zani. A pediatra destaca que é nesta fase que a criança amplia exemplos e referências e também exercita a autonomia dentro de um local onde existem outras autonomias a serem levadas em conta.

“Ter consciência do outro e da diversidade de individualidades é importante para o aprendizado e para a construção subjetiva desta criança que irá conviver em sociedade”

Vivências maternas

“Você já pode ir embora”, falou a educadora em uma das primeiras vezes que Viviane Laudelino deixou a filha, uma bebê de sete meses, na escola. “Eu saí aos prantos, era como se estivessem tirando um pedaço de mim”. O relato da mãe da Manuela, hoje com 8 anos, se assemelha a uma espécie de luto e diz respeito ao processo inicial de separação entre ela e a filha, após um período de contato intenso.

A entrada na escola marca uma fase que pode trazer grande angústia tanto para a mãe quanto para o bebê. No caso de Laudelino, esse processo ocorreu bem cedo, na volta da licença-maternidade. “Eu tive o privilégio de ficar seis meses de licença e mais um mês de férias. Depois de sete meses de contato com a Manuela quase o tempo todo, o afastamento ocorreu quando ela entrou na creche”, diz.

Ela conta que a segurança com o ambiente que receberia sua filha dali em diante – a creche do próprio trabalho – foi um ponto-chave que impactou positivamente o processo. Porém, o medo de prejudicar a amamentação – até então em livre demanda – trazia muita ansiedade. “Eu recordo que o padrão de sono dela mudou muito nessa fase. Ela passou a ter mais dificuldade para dormir e acordava rápido. Hoje, vejo que esses despertares noturnos podiam ser uma forma de compensação”, conta. Com o tempo, tudo foi voltando ao normal para as duas.

Acolhimento desde cedo

No caso de Elaine Cristina Ribeiro, mãe do Pedro Henrique, 8, essa separação foi mais tranquila. Com cinco meses, o filho começou a ir para a escolinha em função da volta dela ao trabalho. “Ele foi, desde o início, muito acolhido. Era uma escola pequena, que respeitou a adaptação dele. Lembro que quando ia buscá-lo, ele não queria sair de lá de jeito nenhum.”

Elaine, que passou por essa “separação” com tranquilidade, sugere que as mães tentem, ao máximo, tornar esse momento mais leve, pois a criança sente quando a mãe está insegura. “É importante encarar essa fase e saber que a criança vai se adaptar. Procurar por uma escola que tenha esse potencial de cuidado também pode ajudar”, emenda. A psicanalista Maria Cecília Pereira também aconselha que esse processo seja lento e cuidadoso. “Para se separar da mãe/pai/cuidador, a criança precisa estar ligada a uma outra pessoa na escola que vai assumir os cuidados com ela.”

A pediatra Márcia Zani recomenda maneiras lúdicas de se fazer presente, mesmo que distante. “Uma forma é desenhar um coração ou algo que signifique a presença dos pais em um lugar no qual a criança tenha acesso e pedir para que ela segure ou olhe para o desenho quando sentir saudade. Os pais podem ter com eles um desenho igual e dizer que também vão olhar para ele quando sentirem saudades.” 

Uma transição mal realizada pode trazer consequências para o desenvolvimento da criança. Segundo a psicoterapeuta Cintya Sammarone, “o bebê pode manter essa angústia dentro dele, se tornando uma criança insegura. Quanto mais a criança passar por este processo de maneira saudável, mais segura ela será para os desafios que serão apresentados a ela”, reforça. 

O adiamento da individualidade infantil

A especialista alerta ao fato de que a mãe, por uma carência da própria infância, pode adiar esse processo de separação. Por isso, ela precisa resolver essas questões para que possa interagir com o bebê da forma mais saudável possível.Se a mãe teve ou tem alguma angústia relacionada, talvez precise de apoio terapêutico para estar bem com as suas próprias questões e então conseguir olhar esse processo de separação do filho de modo natural e espontâneo”, afirma.

Para esse período, a especialista lembra um conceito bem famoso de Winnicott sobre a “mãe suficientemente boa”. Ela é aquela que atende as necessidades do bebê, nesse primeiro momento. E fica em contato de simbiose com ele até que a criança vá crescendo e precisando de outras coisas. “A mãe suficientemente boa é também aquela que vai deixando que o bebê experimente novos desafios e que ela passe a ser menos necessária e urgente, promovendo um espaço para que a criança cresça e se desenvolva satisfatoriamente”, resume. 

“As duas coisas são importantes: o momento de simbiose inicial e o que a mãe vai deixando espaço para a criança se desenvolver”

Aproximar-se o quanto for preciso para depois ir se separando aos poucos. Não é nenhum segredo, mas é um desafio que vale a pena enfrentar. 

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