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Muito além do ouvido: o que é efetivamente escutar uma criança?

"Escutar não é fazer as vontades da criança, e sim reconhecer que ela tem necessidades que nem sempre é possível atender", diz a antropóloga Adriana Friedmann
Escuta infantil: como verdadeiramente escutar as crianças? iStock/Arte Lunetas
  • Publicado em: 19.02.2019
  • Atualização: 28.02.2019
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Escuta infantil. O que é? Como colocar em prática? E por que ela representa a manutenção dos direitos da criança? Se você já acompanha o Lunetas há algum tempo, provavelmente já viu por aqui algum vídeo ou matéria que fizemos proporcionando o protagonismo e a participação das crianças.

Durante as últimas eleições presidenciais, ouvimos das crianças o que elas pensam sobre política. No fim de 2018, passamos o dia com elas, desenhando e ouvindo o que elas desejavam para o ano novo que estava por vir. Na volta às aulas foi delas que ouvimos ideias de como economizar na compra do material escolar. No Natal, foram elas que contaram para nós o que esperavam do Papai Noel.

Porém, escutar crianças é um gesto sensível, que ultrapassa a ação, embora tenha início com ela. É um processo que demanda atenção, cuidado e, principalmente, disponibilidade – não só de tempo, mas de afeto. A complexidade esbarra em uma série de questões práticas, como a falta de tempo dos adultos para dar conta de todas as demandas das crianças. Então, como praticar a escuta de fato? Não à toa, muitos profissionais se dedicam a pesquisar esse tema.

Conheça Adriana Friedmann

Doutora em Antropologia, Mestre em Educação e Pedagoga. Especialista, docente, palestrante, pesquisadora e consultora nacional e internacional de ONG’s, fundações, secretarias, escolas, nas temáticas da infância, pesquisas com crianças e linguagens expressivas. Criadora e coordenadora do NEPSID (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento e do Mapa da Infância Brasileira), de São Paulo. Coordenadora do curso de Pós Graduação “A vez e a voz das crianças: a arte de escutar e conhecer narrativas, linguagens e culturas infantis”, A Casa Tombada, lugar de arte, cultura e educação, na zona oeste de São Paulo. Autora de livros e artigos na área, dentre eles “Escuta e observação de crianças: processos inspiradores para educadores” e  “Quem está na escuta”.

Dar voz, considerar, perceber, observar, favorecer autonomia: todos esses verbos estão relacionados ao que se convencionou chamar de escuta infantil. E todos eles fazem parte de uma mesma preocupação, a de reconhecer a criança como indivíduo pleno, capaz e dotado de subjetividades que fazem dela um legítimo ator social; ou seja, a criança é um sujeito de direitos.

O grande desafio, então, é do adulto. Como considerar todos esses fatores nos mais diversos ambientes sociais – em casa, na família, na escola, na mídia? A educação das novas gerações está diretamente ligada à sensibilidade de perceber esses elementos como chaves de uma relação saudável e plena com as crianças. Porém, é comum que alguns pais, professores e cuidadores confundam o conceito de escutar as crianças com permissividade, desconsiderando a importância dessa escuta antes mesmo de praticá-las.

Como ouvir o que os pequenos têm a dizer e ainda assim manter o papel do adulto nessa relação, de educar, colocar limites e estabelecer pontes seguras entre as crianças e o mundo? Para refletir sobre essas e outras questões relacionadas a como escutar as crianças, conversamos com a antropóloga Adriana Friedmann.

Leia a entrevista na íntegra

  • Lunetas – Ao seu ver, o que é verdadeiramente escutar uma criança?

Adriana Friedmann – Escutar crianças tem a ver com uma postura e mudança de atitude daquele que escuta; tem a ver com compreender que cada criança tem um repertório próprio, interesses, necessidades e potências únicos. Abrir-se para entender então que, nós adultos, podemos aprender com elas, nos surpreendermos, e precisamos aceitá-las e descobri-las no seu âmago, sem a pretensão de corrigir ou necessariamente ensinar-lhes alguma coisa.

“Todo ser humano quer ser escutado mas, principalmente, respeitado. Não é diferente com as crianças”

O que muda é que quando nos comunicamos ou interagimos com crianças, costumamos estabelecer relações ‘não simétricas’. Conseguir se colocar no lugar da criança, ‘na altura’ da criança, estar junto nos seus universos, nas suas brincadeiras, na sua imaginação, são algumas pistas no processo de escutá-las. Mas, para tal, precisamos partir da premissa que criança tem direito de ser respeitada na sua singularidade, direito a ter espaço e tempo livres para experimentar, descobrir o mundo, descobrir o(s) outro(s) e se descobrir a si mesma.

“Não esquecer e resgatar essa criança que cada um foi um dia, ajuda também nessa abertura para a escuta”

  • Lunetas – Como você explicaria qual a importância da escuta infantil de uma forma simplificada para alguém que não tem familiaridade com o termo?

Adriana Friedmann – Inseridas em uma sociedade com valores e normas diversos, conforme cada contexto familiar, escolar e cultural, as crianças possuem, cada uma, sua própria individualidade, formas de pensar, de sentir e de se expressar.

A escuta infantil é importante pois é urgente entender que as crianças, assim como os adultos, são atores sociais, protagonistas e autoras das suas próprias vidas”

A importância de escutar crianças passa por conhecê-las na sua essência única, compreender quais são seus canais expressivos mais potentes (e únicos para cada uma); para algumas, é a expressão corporal, o gesto, o movimento; para outras é a diversidade de expressões plásticas; para outras ainda, é a expressão musical; para outras, a palavra oral ou escrita; para todas elas, é a brincadeira e a possibilidade de ser desafiadas e de dar vazão à livre imaginação.

  • Lunetas – Muitos adultos que convivem com crianças, principalmente mães e pais que estão na lida diária, podem se frustrar com o assunto, porque falta tempo até mesmo para as tarefas mais básicas do dia a dia. Como equilibrar a falta de tempo do adulto com a necessidade de tempo da criança?

“O que vale verdadeiramente não é a quantidade mas a qualidade de tempo que os pais passam diariamente com seus filhos”

Adriana Friedmann – A correria do cotidiano acaba automatizando a comunicação com as crianças. Se os adultos – pais, mães, cuidadores e educadores – compreenderem a importância de um olhar, de uma palavra ou de um gesto verdadeiro para com as crianças com quem convivem, já abrirão as primeiras possibilidades para esta escuta.

“Escutar crianças se dá muito além dos ouvidos: acontece a partir da conexão do adulto com aquela sensação que vem de dentro na relação com a criança que está à sua frente”

Estas conexões acontecem a toda hora, pois a todo momento a criança está se expressando: nas suas reações, manhas, sorrisos, olhares, escolhas, teimosias, dores, choros, etc. As crianças falam por meio das suas birras, brincadeiras, agressividades ou silêncios.

Então, como chegar em um equilíbrio saudável se o tempo joga contra todos nós? Fazer combinados com as crianças, abrir brechas de comunicação para estar juntos, no caminho para a escola, na mesa do café da manhã ou do jantar, no cuidado da casa, das plantas ou do bicho de estimação; brincar junto, pintar, cozinhar, cantar, dançar e contar ou ler estórias juntos. Um pouquinho a cada dia, a cada micro-intervalo. Se ‘acompanhar’ em situações mais espontâneas, afetivas, para viver e ser juntos, adultos e crianças.

“Criar espaços e tempos para novas e diferentes experiências que fogem do script ou do planejado proporcionam, na maior parte das vezes, incríveis surpresas”

iStock/Arte Lunetas

Ouvir as crianças vai muito além do ouvido. É reconhecer que elas falam também por gestos, atitudes, posturas e também silêncios. Birras, choro, manhas, acessos de raiva: tudo isso demanda escuta.

  • Lunetas – Outro aspecto que pode dificultar a reflexão sobre esse tema é o fato de muitas pessoas confundem escuta com condescendência. Qual o limite entre escutar e simplesmente ser permissivo com a criança?

Adriana Friedmann – Escutar é muito diferente de ser permissivo com a criança. Para começar, se o adulto escuta a criança, esta aprende a escutar também. Se o adulto respeita a criança, ela também aprende a respeitar. Escutar não significa que vou concordar em tudo com o outro. Significa que vou acolher o seu ponto de vista ou sentimentos e emoções.

Significa que vou poder conhecer o outro melhor. Escutar não significa que vou sempre poder responder às expectativas ou demandas da criança. Então, o diálogo – nem sempre fácil por conta da diferença de idade e de maturidade – é o convite para que o adulto possa também se colocar, ser escutado e poder colocar os limites, conforme cada situação. Porque o adulto continua a ser responsável e minimamente consciente do que seria apropriado para a criança em cada momento da sua vida. Porém, escutá-la pode transformar e enriquecer seu ponto de vista.

“Escutar não significa fazer todas as vontades da criança, mas sim reconhecer que ela pode ter necessidades diferentes que nem sempre é possível atender”

É importante diferenciar que, ao escutar uma criança, não estou o tempo todo fazendo perguntas a ela. Abrir-se para a escuta significa abrir-se para entender o que as crianças expressam – na maior parte das vezes não verbalmente – e em situações espontâneas: quando brincam livremente, quando fazem escolhas, quando rejeitam alguma proposta, etc.

  • Lunetas – O Brasil tem alguns veículos voltados especificamente para a criança. Como você vê a escuta de crianças em matérias jornalísticas? Em termos de importância desse trabalho e também de como isso vem sendo feito.

Adriana Friedmann – Os veículos de comunicação voltados para as crianças têm uma força e uma influência importantíssimos nas suas vidas e na sua formação, assim como nas dos adultos e cuidadores. Tenho certa preocupação com a exposição de crianças em matérias jornalísticas. Há uma imensa curiosidade por parte dos adultos em adentrar os universos das crianças.

A Psicologia do Desenvolvimento e toda a experiência com pesquisas antropológicas nos ensinam que, quando fazemos perguntas às crianças, elas acabam respondendo àquilo que queremos ouvir. Criança é muito esperta. Quando se colocam questões mais ‘abertas’ é bem possível que as crianças as respondam de forma mais genuína. Mas há vários caminhos interessantes para trazer os universos infantis para as matérias jornalísticas: se o adulto ficar mais aberto a observar as expressões livres das crianças, suas brincadeiras, sua diversidade de expressões, por exemplo, ele não precisará fazer tantas perguntas, pois é na experiência espontânea da criança que as narrativas falam por si mesmas.

Penso ser importante contribuição das matérias jornalísticas que trazem o tema da escuta à tona, a chamada de atenção da sociedade para a diversidade de realidades e culturas dos diferentes grupos infantis, no sentido de conscientizar para a importância do respeito a esta diversidade e singularidades. Mostrar que não há receitas e que cada contexto, família, grupo escolar ou comunidade são diferentes e trazem características únicas sobre aquelas crianças, essenciais para repensarmos à respeito daquilo que oferecemos a cada grupo ou a cada criança.

  • Lunetas – Ainda no tópico acima, principalmente no que diz respeito a assuntos que ainda estão sendo elaborados pela criança, como aplicar a escuta de uma forma sensível?

Adriana Friedmann – As crianças – e esta é uma característica da infância – estão sempre em processo de desenvolvimento, elaborando a cada momento, apreendendo novas experiências, transformando-se permanentemente.

Precisamos, então, partir da premissa de que nada do que observamos e escutamos é definitivo e não podemos ser taxativos ou nos fecharmos em uma classificação ou engessar a criança em um determinado padrão.

“Escutar de forma sensível é pedir licença – e respeitar se a criança não quiser que adentremos sua vida”

É estar junto, mas, ao mesmo tempo, manter distância; é pedir licença, mas não invadir; é brincar junto ou propor atividades de que a criança gosta para dialogar e, assim, conversar nas suas linguagens. É abrir-se para que elas nos mostrem, nos ensinem, nos contem, sem fazer tantas perguntas. Nestas situações, nunca interferir, nunca corrigir.

iStock/Arte Lunetas

“Conseguir se colocar na altura da criança, estar junto nos seus universos, nas suas brincadeiras e na sua imaginação são algumas pistas no processo de escutá-las”, diz a antropóloga Adriana Friedmann.

  • Lunetas – Pode falar um pouco sobre a ética envolvida na escuta para um fim informativo/jornalístico? Há uma faixa etária mínima, por exemplo?

Adriana Friedmann – A ética é tema central neste campo da escuta de crianças, tanto no âmbito jornalístico quanto no científico e no cotidiano escolar e familiar. Para fins jornalísticos, muitos veículos já se preocupam com o cuidado com a exposição de rostros, fotos, filmes nos quais apareçam crianças, no cuidado com a exposição e preservação da identidade delas.

É – ou deveria ser – de praxe, sempre pedir autorização, não somente do adulto responsável, mas das próprias crianças”

Elas têm direito a saber tanto o conteúdo quanto o fim e destino que qualquer matéria jornalística. E têm também o direito de não quererem aparecer. Há um grande debate também quanto a preservação do nome real da criança. A sugestão é para somente colocar as iniciais do mesmo. Para a questão de autorizações feitas pelas crianças, a partir do momento em que consegue-se conversar, mesmo que a criança não escreva ainda, há várias formas dela ‘autorizar’: com desenhos, com um aceno-selando com a digital, etc. Pode haver talvez frustração, muitas vezes, por parte do adulto se ela não consentir em publicar uma fala, uma imagem ou uma produção pessoal. Mas o respeito a elas deve vir em primeiro lugar.

  • Lunetas – Que abordagens de escuta você pode dividir com a gente?

Adriana Friedmann – Há inúmeras abordagens de escuta, algumas já mais consolidadas mas, como esta é uma área e uma pauta muito nova, há muitos caminhos, ferramentas e possibilidades em processo de construção e aplicabilidade, tanto no que se refere a estudos, pesquisas quanto a ações empreendedoras.

No âmbito da Psicologia, há inúmeros estudos sobre manifestações do inconsciente, dos sonhos, do simbolismo de linguagens expressivas – expressões plásticas, por exemplo; e muito e avançado conhecimento na compreensão e interpretação das escutas. Tradicionalmente, essas escutas acontecem muito mais de forma individual (em consultório), mas é desafio aprofundarmos no estudo e compreensão destes conhecimentos para termos pistas e mais profundidade no conhecimento das crianças, dos seus temperamentos, comportamentos, reações, mensagens e necessidades individuais.

No âmbito das Ciências Sociais, a Antropologia inaugura um campo de pesquisa com diversidade de grupos e culturas infantis que temos o desafio de desbravar: há muito para pesquisar e aprender a partir de observações antropológicas nos diversos territórios infantis.

No âmbito das Linguagens e das Artes, há o iminente desafio de criar tempos, espaços e possibilidades de livre expressão para as crianças, propiciando oportunidades de brincar, expressar-se através da música, do corpo, das artes, da palavra e de tantas outras narrativas.

No que tange à área de Comunicação, como colocado anteriormente, esta precisa dialogar com as diversas áreas de conhecimento e levar em consideração direitos e, sobretudo, toda a questão ética.

Na área de Educação, embora crianças sejam os principais atores para os quais a educação é voltada, é extremamente recente – e ainda nem faz parte dos currículos e cursos de formação de professores – a ideia de escutar as crianças. Tradicionalmente a escola tem por objetivo primeiro ensinar e promover o desenvolvimento das crianças. O tema da escuta começa a entrar timidamente nas reflexões e formação continuada de educadores e gestores. Há porém interessantes experiências de Escolas Democráticas, Participação Infantil, manifestações culturais infantis que começam a inspirar e fazer ‘brilhar os olhos’ de inúmeros educadores.

Outras abordagens vêm das áreas de Arquitetura e Urbanismo, Assistência Social, de organizações da sociedade civil, centros sociais, esportivos e culturais e de coletivos que tem olhado para a criança como um ator social, sujeito de direito e tem ensaiado abordagens inspiradoras e interessantes propostas.

Importante levar em consideração que: tanto pelo fato das crianças estarem em processo permanente de desenvolvimento e crescimento – portanto de mudanças quase que cotidianas de comportamento e absolutamente ‘porosas’ a influências dos seus meios -; quanto pela complexidade que é o ser humano – nenhuma área e conhecimento, nem nenhum setor conseguem dar conta de forma unilateral desvendar completamente o ser humano -; só será possível avançarmos na construção e criação de abordagens consistentes, a partir do diálogo transdisciplinar e multissetorial.

Leia também:

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Resumo

Como ouvir o que as crianças têm a dizer e ainda assim manter o papel do adulto nessa relação, de educar e estabelecer pontes seguras entre elas e o mundo? Para refletir sobre esse assunto, conversamos com a antropóloga Adriana Friedmann.
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