Desde o Marco Legal da Primeira Infùncia de 2016 até o ECA Digital, recém sancionado, hå avanços a serem celebrados; mas ainda hå desafios
O Brasil celebra 10 anos do Marco Legal da Primeira Infùncia com avanços como a quase universalização da pré-escola (95%) e o novo ECA Digital. Contudo, a desigualdade persiste: apenas 31% das crianças mais pobres acessam creches, contra 55% das mais ricas
Quais foram as mudanças Marco Legal da Primeira InfĂąncia atĂ© o ECA Digital, recĂ©m sancionado? O Lunetas apresenta uma linha do tempo para ajudar a entender os avanços na primeira infĂąncia nos Ășltimos 10 anos â e os desafios que ainda precisam ser enfrentados.
Na Ășltima dĂ©cada, o Brasil consolidou avanços estruturantes na primeira infĂąncia, fase que vai do nascimento aos 6 anos e concentra o perĂodo de maior desenvolvimento humano. O paĂs saiu de um cenĂĄrio em que essa etapa era invisibilizada, para outro marcado por conquistas importantes, embora ainda persistam desafios.
O divisor de ĂĄguas nessa garantia de direitos foi o Marco Legal da Primeira InfĂąncia, por meio da Lei 13.257/2016, que estabeleceu que o Brasil deve reconhecer os direitos das crianças e implementar polĂticas pĂșblicas para garantir oportunidades de desenvolvimento integral. No ano passado, o marco foi desdobrado, por meio de um decreto, que consolidou a PolĂtica Nacional Integrada da Primeira InfĂąncia (PNIPI).
âNa prĂĄtica, isso ajudou a impulsionar polĂticas pĂșblicas mais estruturadas e intersetoriais, alĂ©m de fomentar a criação de planos estaduais e municipais de primeira infĂąncia. Esse movimento Ă© muito relevante porque aproxima a agenda do territĂłrio, onde a vida das crianças de fato aconteceâ, disse Gabriella Bighetti, CEO da United Way Brasil (UWB), organização que atua pelo desenvolvimento integral de crianças.
Especialistas da ĂĄrea da infĂąncia consideram que hoje exista mais clareza de que proteger e promover o desenvolvimento infantil nĂŁo depende de uma Ășnica polĂtica pĂșblica ou de um Ășnico serviço e que nos Ășltimos cresceu a compreensĂŁo sobre a necessidade de açÔes por meio de uma rede integrada de proteção.
âConsiderando nĂŁo apenas a criança, mas tambĂ©m seu contexto familiar, social e territorial. Isso significa olhar para renda, acesso a serviços, vĂnculos familiares, saĂșde mental dos cuidadores, qualidade das interaçÔes e oportunidades de desenvolvimento. Em muitos territĂłrios, essa mudança jĂĄ começa a aparecer no fortalecimento de polĂticas locais, na formação de profissionais e em iniciativas que apoiam diretamente famĂlias e cuidadoresâ, diz Gabriella.

Na Ășltima dĂ©cada, tambĂ©m ganhou centralidade o papel dos cuidadores e das polĂticas pĂșblicas direcionadas a eles. EvidĂȘncias cientĂficas mostram que o desenvolvimento infantil Ă© profundamente influenciado pela qualidade dos vĂnculos e das relaçÔes. Nesse contexto, destacam-se iniciativas como a ampliação da licença-paternidade e a criação de um adicional no Bolsa FamĂlia voltado Ă s crianças da primeira infĂąncia.
Outro avanço foi no acesso Ă educação. Hoje, segundo dados da Pnad 2024, 95% das crianças a partir de 4 anos â etapa obrigatĂłria da educação bĂĄsica â estĂŁo na escola. E embora ainda haja 329 mil excluĂdas do sistema, Ă© preciso comemorar os avanços, como reforça Patricia Mota Guedes, Superintendente do ItaĂș Social.
âTemos um desafio grande na qualidade, mas nĂŁo podemos perder de vista que o passo do acesso precisa ser celebrado. SĂł que a porcentagem das crianças que estĂŁo ainda sem acesso para Ă prĂ©-escola sĂŁo aquelas crianças em situação mais vulnerĂĄvel e aĂ a busca ativa e esse trabalho mais intencional precisa ainda ser feitoâ, afirma Patricia.
A superintendente cita, ainda, a importĂąncia da criação de parĂąmetros nacionais e diretrizes de qualidade para esta etapa do ensino, que orientam as prĂĄticas pedagĂłgicas e de gestĂŁo, alĂ©m do novo Plano Nacional de Educação, que vai passar pelo Senado. âEntendemos que a Educação Infantil nĂŁo Ă© uma sala de espera para a educação, ela jĂĄ Ă© uma fase fundamental para o desenvolvimento da criança.â

Nos primeiros anos de vida de uma criança as conexĂ”es cerebrais se formam a um ritmo de 1 milhĂŁo por segundo, por isso em nenhuma fase da vida esse desenvolvimento serĂĄ tĂŁo rĂĄpido e potente. AlĂ©m de uma etapa com oportunidades neurolĂłgicas, investir na primeira infĂąncia tambĂ©m pode ser estratĂ©gico para um paĂs.
De acordo com o estudo Gasto Social com Crianças e Adolescentes no Orçamento Federal 2019â2024, realizado pelo Ipea e pelo Unicef, o investimento do Brasil com crianças e adolescentes subiu de 3,36% em 2019 para 4,91% em 2024, com foco nas ĂĄreas de alĂvio Ă pobreza e assistĂȘncia social. Apesar do avanço, os nĂșmeros representam menos de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o que pode comprometer a qualidade de vida, a educação e a saĂșde, principalmente na primeira infĂąncia.
Nesse contexto, a qualidade da oferta em creches e pré-escolas torna-se tão relevante quanto a dos demais mecanismos da rede de garantia de direitos, especialmente considerando o tempo prolongado que a criança permanece nesses espaços
âQuando a gente vai pensar no tempo em que bebĂȘs e crianças pequenas passam fora de casa, longe da sua famĂlia, elas nĂŁo ficam nas unidades de saĂșde ou nas unidades apoiadas pela assistĂȘncia social. A maior parte do tempo Ă© na creche e na prĂ©-escola que estĂŁo, quando tĂȘm esse acesso. A Educação infantil com qualidade e equidade precisa estar ao lado de polĂticas e programas de primeira infĂąncia com uma arquitetura intersetorial com recursos, condição e liderançaâ, diz Patricia.
Embora o Brasil tenha avançado em indicadores e em acesso aos serviços na Ășltima dĂ©cada, a desigualdade ainda Ă© um desafio a ser enfrentado. Dados do IBGE mostram que apenas cerca de 31% das crianças dos 20% mais pobres frequentam creche ou prĂ©-escola, proporção que chega a 55% entre as mais ricas.
Marina Fragata, Diretora de PolĂticas PĂșblicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) ressalta que, ao nĂŁo reduzir essas disparidades logo no inĂcio da vida, o paĂs permite que as prĂłprias polĂticas pĂșblicas acabem reproduzindo mecanismos de exclusĂŁo e racismo estrutural.
âEssa Ă© a nossa maior preocupação e dor enquanto paĂs, porque enquanto nĂłs nĂŁo formos capazes de reduzir as desigualdades no começo da vida, nĂłs estamos fazendo com que atĂ© as prĂłprias polĂticas reproduzam esses mecanismos de exclusĂŁo. Tem uma parcela significativa das infĂąncias que nĂŁo estĂĄ sendo alcançada ou que estĂĄ sendo alcançada a quem do que sĂŁo os seus direitosâ, afirma.
Atualmente o Brasil possui mais de 18 milhĂ”es de crianças entre 0 a 6 anos, destas quase 11 milhĂ”es vivem em famĂlias de baixa renda e estĂŁo inscritas no Cadastro Ănico para ser beneficiĂĄria dos programas de assistĂȘncia social, segundo dados do MinistĂ©rio do Desenvolvimento e AssistĂȘncia Social (MDS).
Marina reforça que quando uma criança nasce em um contexto de vulnerabilidade sem ter seus direitos garantidos, compromete-se um começo de vida equitativo, uma vez que o desenvolvimento cerebral acelerado nesta fase Ă© diretamente moldado pelas experiĂȘncias, pelo afeto e pela segurança do ambiente.
Segundo ela, sem polĂticas que interrompam esse ciclo de pobreza multidimensional, o Brasil corre o risco de ver essas crianças perpetuar a vulnerabilidade para a geração seguinte, por isso âo investimento nos primeiros anos de vida sĂŁo um catalisador de um processo de menos desigualdades.â
âOs avanços sĂŁo valiosos, o Brasil, de fato, vem crescendo na prioridade dessa agenda. Muitas polĂticas municipais e estaduais nasceram ao longo dessa estrada, mas esses desafios mais profundos e estruturais da nossa sociedade ainda estĂŁo muito longe de serem cuidadosâ, afirma Marina.
Como estratĂ©gia para a prĂłxima dĂ©cada, Marina defende que o paĂs transite do foco apenas no acesso para a busca de resultados equitativos e de qualidade, que combatam o racismo e alcancem os grupos mais excluĂdos â como o percentual das crianças que ainda estĂĄ fora da prĂ©-escola e carece de outros direitos, alĂ©m do acesso Ă educação.
âVamos precisar de outros mecanismos para alcançar esse recorte da população de outra forma. NĂłs entregamos, crescemos, subimos e melhoramos os indicadores, mas essa Ășltima camada estĂĄ reiteradamente excluĂda, que entra no conceito de pobreza multidimensional, que por vulnerabilidade econĂŽmica vocĂȘ deixa de acessar outros serviços.â