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O professor na Educação Infantil: muito além da fralda e do banho

Conhecer e valorizar o potencial da criança nos primeiros anos de vida é essencial para aprimorar as práticas na Educação Infantil, afirma psicóloga
O papel do professor na Educação Infantil Istock / arte: Lunetas
  • Publicado em: 08.05.2018
  • Atualização: 15.05.2018
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Banho, alimentação, fralda e soneca. A ideia de que a rotina da criança nos primeiros anos de vida deve ser marcada essencialmente pela garantia das necessidades básicas ainda é muito disseminada e atinge o debate em torno da Educação Infantil: afinal, qual o papel do professor no período entre zero e cinco anos?

De acordo com a psicóloga e professora Cisele Ortiz, é preciso ter conhecimento sobre as potencialidades que a criança apresenta na primeira infância para que se amplie o olhar sobre a Educação Infantil e a forma como ela deve ser gerida. “É nos três primeiros anos que as crianças constroem os alicerces da vida social, afetiva e cognitiva”, reforça.

Cisele atua na Educação Infantil desde 1977 e atualmente é coordenadora adjunta do Instituto Avisa Lá – formação continuada de educadores e presidente da Associação Brasileira de Estudos sobre o Bebê (ABEBÊ).

O Avisa Là é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, com finalidade pública. Desde 1986, vem contribuindo para qualificar  a prática pedagógica  das redes públicas de Educação Infantil. A partir de 2002 passou atuar também no Ensino Fundamental (séries iniciais) nas áreas de leitura, escrita e matemática.

Segundo ela, os profissionais da Educação Infantil devem compreender que estão atuando em um momento-chave da constituição subjetiva da criança e que agir no corpo significa, necessariamente, impactar a mente, e vice-versa. Esse reconhecimento de papel serve também como base para o desenvolvimento de atitudes que incentivam o cuidado de si e dos outros ao redor.

Para pensar o aperfeiçoamento do processo educacional em pré-escolas e creches, a psicóloga Cisele Ortiz sugere algumas medidas, entre elas a disseminação de boas práticas pedagógicas, a formulação de políticas intersetoriais, a tradução e ampliação do acesso às informações produzidas em pesquisas acadêmicas, o fortalecimento do vínculo entre as escolas e as famílias, e a capacitação dos profissionais formados para a Educação Infantil.

Confira a entrevista

Lunetas: Por que tantas pessoas ainda consideram a Educação Infantil como menos importante do que outras fases do ensino?

Cisele Ortiz: Há muitas razões, entre elas a falta de conhecimento em relação às características da criança nessa fase do desenvolvimento. De acordo com o senso comum esse é um momento que só necessita de cuidado, em que basta olhar, em que as crianças não entendem e não participam. A ideia de que é nos três primeiros anos que elas constroem os alicerces de sua vida social, afetiva e cognitiva ainda não é disseminada. Ou seja, existe um descaso em relação às potencialidades da criança.

Lunetas: O debate que temos hoje no Brasil e que orienta a formulação de políticas públicas, assim como as práticas nas escolas e creches é qualificado?

Cisele Ortiz: O debate é avançado só para quem é da área, ainda está muito restrito aos especialistas. Não vejo ele atingindo as famílias ou sendo disseminado em termos sociais. Acho que essa questão precisa ser comunicada de uma forma melhor para que as pessoas saibam qual a importância da Educação Infantil e como ela precisa ser gerida.

Lunetas: E como fazer isso?

Cisele Ortiz: Primeiro, é preciso valorizar e tornar público as boas práticas nas escolas, especialmente na rede pública. Isso possibilita gerar uma ideia diferente do que é a Educação Infantil. As escolas e creches aparecem na mídia muito relacionadas a denúncias ou acidentes, mas nunca vemos os benefícios que trazem quando são de qualidade.  Existe um documento que dá boas pistas de qual contexto de Educação Infantil promove desenvolvimento e aprendizagem. O “Indicadores de Qualidade da Educação Infantil” vem sendo aplicado em algumas redes municipais, mas sem a plena participação das famílias e da comunidade. Ao aplicar os indicadores de qualidade da Educação Infantil é possível, a partir de seus resultados, estabelecer metas e caminhos para a melhoria da qualidade. Estes planos de ação precisam ser conhecidos e ter sua execução acompanhada pelo poder público e pela comunidade. Outra questão é trabalhar para que os conhecimentos acadêmicos nessa área sejam traduzidos de forma mais didática para a sociedade. Compreendendo essas informações de forma clara, é mais fácil se pensar sobre a importância do desenvolvimento integral da criança nesta faixa etária.

Lunetas: Qual o papel da família no debate sobre a Educação Infantil?

Cisele Ortiz: É fundamental, pois a escola não recebe apenas a criança. É diferente do gerenciamento da informação no Ensino Fundamental, por exemplo. Nessa fase as famílias ainda estão muito inseridas na relação com a escola, portanto, é essencial fortalecer o vínculo, não apenas para que elas entendam a proposta pedagógica, mas para que participem da adaptação, dos cuidados básicos. A escola precisa construir uma relação próxima com a família de apoio e acolhida, valorizar seus saberes e assim elaborar uma proposta pedagógica que amplie esses saberes, mostre a diversidade presente na comunidade e o quanto ela pode ser enriquecedora. Além disso, compreender quais elementos culturais podem ser ampliados. As famílias precisam estar presentes dentro do projeto pedagógico, não podem ser vistas só como usuárias

Lunetas: Dentro do contexto dos indicadores de qualidade que mencionou, como pensar a integração das famílias?

Cisele Ortiz:  Talvez por meio de políticas intersetoriais, desde antes do nascimento, discutindo com as famílias opções de cuidar e educar as crianças. É preciso pensar em diferentes formas de acolhê-las dentro da Educação Infantil, pois o engessamento de modelos padronizados pode não ajudar a expansão com qualidade. Por exemplo, num mesmo distrito, é possível ter escolas de quatro, seis, oito e dez horas para atender demandas diferentes das famílias e com propostas pedagógicas diferenciadas. Podemos ter escolas menores, escolas que atendam de zero a seis anos juntos, que aproximem os irmãos. Em suma, há que se pensar em modelos mais abertos e flexíveis, sem sair da educação e da sua regulação quanto à formação dos profissionais. As políticas intersetoriais ajudam também a apoiar as famílias de maior vulnerabilidade nas questões em que só a escola não basta, como nas políticas de saúde, assistência e habitação, por exemplo.

Lunetas: O que é fundamental se ter em mente ao abordar essa discussão sobre o aprimoramento da Educação Infantil?

Cisele Ortiz:  Acho que é fundamental que o profissional da Educação Infantil compreenda que ele está atuando dentro de uma faixa etária, em que criança está inteiramente aberta. Este é um momento que propicia a construção subjetiva e a constituição de si mesmo. E é por meio do outro que aprendemos sobre nós mesmos. É preciso se pensar, portanto, como aliar as estratégias de cuidado individual, levando em conta as peculiaridades de cada criança, com os cuidados coletivos. Atualmente, as brincadeiras e interações são eixos das diretrizes curriculares, norteando a proposta pedagógica das escolas. Dentro dessas interações, estão os cuidados físicos como suporte. Precisamos avançar muito neste quesito, começando pela formação inicial nas faculdades que formam os professores para a Educação Infantil. É preciso ter clareza de que corpo e mente não estão separados: se ajo num campo, afeto o outro. Saúde e educação fazem parte do conceito da Educação Infantil, e os cuidados humanos fazem a costura.

“Se um professor não acha que é seu papel trocar fraldas ou ensinar a criança a usar o banheiro e se limpar, ele está na profissão errada”

Resumo

Para aprimorar as práticas educativas em pré-escolas e creches, é preciso valorizar o potencial da criança nos primeiros anos de vida. Confira a entrevista com a psicóloga e especialista no tema, Cisele Ortiz.
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