Número de crianças e adolescentes com obesidade é maior do que o índice de desnutrição; consumo de ultraprocessados está no centro do problema
A obesidade infantil já supera a desnutrição no Brasil e expõe como fome e má alimentação caminham juntas. Em meio ao avanço dos ultraprocessados, hortas escolares e merenda saudável surgem como caminhos para melhorar a nutrição das crianças.
Horta escolar, merenda saudável e a redução de ultraprocessados ajudam a melhorar a alimentação de crianças e adolescentes. Além de, com isso, diminuir os riscos de obesidade infantil. Neste texto, o Lunetas explica os fatores que contribuem para o problema e apresenta caminhos para enfrentá-lo.
A fome e a obesidade infantil hoje convivem entre as crianças e adolescentes brasileiros. Famílias afetadas pela insegurança alimentar acabam consumindo mais alimentos ultraprocessados. Eles podem ser mais baratos, mas são pouco nutritivos, o que ajuda a explicar por que o excesso de peso já supera a desnutrição.
Segundo o relatório “Alimentando o Lucro: Como os Ambientes Alimentares estão Falhando com as Crianças”, divulgado pelo Unicef, no Brasil, a obesidade já tem índices maiores de desnutrição desde antes do ano 2000. Naquele ano, o percentual de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos com obesidade era de 5% – em 2022, o número triplicou atingindo 15%.
O índice de sobrepeso nessa faixa etária também cresceu, dobrando de 18%, em 2000, para 36% em 2022. No entanto, o número de meninos e meninas, em desnutrição aguda, que tinham baixo peso para altura, diminuiu de 4% para 3% no mesmo período.
Esta não é uma realidade exclusivamente brasileira. De acordo com o relatório, a obesidade supera a desnutrição em todas as regiões do mundo, exceto na África Subsaariana e no Sul da Ásia.
A pesquisa, que envolve 190 países, mostra que a prevalência de desnutrição entre crianças de 5 a 19 anos caiu desde 2000, de quase 13% para 9,2%. Enquanto as taxas de obesidade aumentaram de 3% para 9,4%. Segundo o Unicef, 1 em cada 5 crianças e adolescentes de 5 a 19 anos no mundo, o equivalente a 391 milhões, está acima do peso. Uma grande parte é obesa.
Stephanie Amaral, especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, diz que atualmente nota-se um padrão que altera as taxas de desnutrição e maior mortalidade associada à ela para um maior número de crianças que sobrevivem, mas, ainda assim, há problemas.
O coordenador de endocrinologia do Sabará Hospital Infantil, Matheus Alves Alvares, salienta que durante muito tempo, uma das grandes preocupações em relação ao desenvolvimento das crianças era a falta de comida. Hoje, o problema é a qualidade do que se come.
“Muitas crianças estão consumindo muitas calorias, mas poucos nutrientes. Então, o resultado é preocupante: estamos começando a ver doenças que antes apareciam apenas em adultos como pressão alta, resistência à insulina e diabetes surgindo cada vez mais cedo. Isso pode comprometer a saúde e a qualidade de vida dessas crianças no futuro.”
Os alimentos ultraprocessados como bolachas, salgadinhos e achocolatados têm responsabilidade nisso. Estes alimentos são produzidos a partir de ingredientes refinados e aditivos. Quase sempre com pouco ou nenhum alimento integral e geralmente com altos níveis de açúcares adicionados, amidos refinados, sal e gorduras não saudáveis. Mesmo assim, os mercados oferecem ultraprocessados com facilidade e a preço relativamente baixos, em comparação aos alimentos frescos.
“O grande problema dos alimentos ultraprocessados é que eles são ricos em açúcar, sal, gordura e aditivos que estimulam muito o paladar da criança. Isso faz com que ela se acostume a sabores muito intensos e passe a rejeitar alimentos naturais, como frutas, verduras e comidas caseiras”, afirma Alvares.
Stephanie Amaral lembra que o alto consumo de ultraprocessados também está associado ao desenvolvimento de cáries dentais, problemas de saúde mental, mudanças metabólicas e aumento das doenças crônicas ao longo da vida. Entretanto, ela reforça que os hábitos alimentares são moldados pelo ambiente vivido, por isso não se deve culpar os cuidadores. Especialmente as mulheres que assumem mais a responsabilidade sobre o cuidado das crianças. “As mães acabam entrando em uma sobrecarga de responsabilidades domésticas de cuidado que também contribui para o consumo de ultraprocessados.”
Além disso, ela salienta que as pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade se expõem cada vez mais aos ultraprocessados. Principalmente por serem mais baratos, amplamente disponíveis e práticos.
No ano passado, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) identificou que cerca de 25 milhões de pessoas vivem em 91 cidades classificadas como “desertos alimentares”. São territórios marcados não apenas pela ausência de estabelecimentos que comercializam alimentos saudáveis, mas também pela oferta limitada desses produtos. Diante desse cenário, o governo federal tem buscado desenvolver políticas públicas para enfrentar e mitigar essa realidade.
Especialistas defendem que políticas mais eficazes enfrentem esse problema, combatam a fome e promovam uma alimentação mais saudável. Inclusive no que as escolas públicas servem aos estudantes.
Em 2009, o governo federal criou o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por meio da Lei 11.947/2009. A lei é considerada um importante marco na luta pela segurança alimentar e nutricional das crianças e adolescentes. O programa consiste no repasse de recursos para garantir refeições diárias aos alunos e prevê, desde 2025, que 45% do montante precisa ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar.
Outro avanço nesta agenda ocorreu em 2022, quando o Brasil implementou a obrigatoriedade da rotulagem nutricional nos alimentos, exigindo que os fabricantes deixem claro nas embalagens dos alimentos se eles possuem altos teores de açúcar adicionado, sódio ou gordura saturada.
A Escola Municipal Lindomar Teixeira, em Ribeirão das Neves, localizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), foi além do PNAE. A gestão aproveitou um espaço ocioso da unidade, criou uma horta, integrou a iniciativa às atividades pedagógicas e melhorou a alimentação das crianças, que resistiam a alguns alimentos.

O cultivo de itens como alface, couve, espinafre e leguminosas como cenoura e beterraba ficou a cargo das crianças da Educação Infantil até os anos finais do Ensino Fundamental. Eram eles que plantavam, regavam e colhiam os itens que eram aproveitados na merenda consumida na própria escola, mas a produção rendeu tanto que eles fizeram doações no lar de idosos da cidade.
“As famílias comentaram que as crianças consumiam mais verduras também em casa. A virada de chave foi envolvê-los na produção, eles sentiam orgulho do cultivo, o que além de melhorar a alimentação ajudou a reforçar o protagonismo e pertencimento em relação à escola”, conta a diretora Graziela Labanca Menezes.

Para além das iniciativas desenvolvidas nas escolas, há ações no âmbito municipal igualmente relevantes, até porque algumas políticas nacionais podem demorar a se concretizar, especialmente nas periferias, como destaca Stephanie Amaral.
“O Brasil tem uma riqueza de experiências exitosas documentadas nas comunidades, utilizadas como tecnologia social para promoção da segurança alimentar e de hábitos alimentares saudáveis e até mesmo da manutenção e fortalecimento da cultura, como hortas comunitárias, feiras locais ecozinha solidária”, finaliza.
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