Os objetos de apego que crianças e o macaco Punch têm em comum

Objetos de transição ajudam crianças - e filhotes - a lidar com as primeiras separações e fortalecem a imaginação, a criatividade e o brincar

Carla Bittencourt Publicado em 27.04.2026
Uma menina de cabelo escuro está enrolada em uma mantinha cor de rosa em frente a uma porta branca
OUVIR

Resumo

Bichinhos de pelúcia, travesseiros e outros objetos de apego são estratégias usadas por crianças pequenas - e também por filhotes - para lidar com as emoções, conquistar autonomia e aprender a se relacionar com o mundo.

Abandonado pela mãe, Punch recebeu dos funcionários do zoológico da cidade de Ichikawa, no Japão, um macaquinho de pelúcia, que rapidamente se tornou seu objeto de conforto. As imagens do filhote sendo afastado pela mãe e depois abraçando o brinquedo repercutiram na internet. Depois de semanas de isolamento, a história teve final feliz: um orangotango adulto passou a cuidar de Punch, garantindo assim companhia e proteção.

“Quando o filhote se apega ao bichinho de pelúcia, ele encontra um lugar quentinho que organiza sua resposta a situações de ameaça”, diz a psicóloga e psicanalista Júlia Salvagni. “As crianças também fazem algo parecido. Elas buscam referências constantes que oferecem segurança e afeto em situações difíceis, como separação dos pais, adaptação escolar, tratamentos de saúde ou perda de pessoas queridas, por exemplo.”

Por que um paninho pode ser tão importante na infância?

Dormir de mãos dadas não é suficiente para Maria Flor, 3. Assim como Joana Kalid tinha um travesseirinho chamado de ursinho Blau Blau na infância, a filha agora precisa que Bel e Pedrinho e os palhaços Patati e Patatá estejam por perto nessa hora, conta a mãe. “Sua relação com os bonecos é muito afetiva. Então, ela sente até dificuldade em emprestar.”

“São objetos transicionais”, diz Júlia. É que no começo da vida, o bebê não percebe que ele e a mãe não são a mesma pessoa. Para ajudá-lo então a se sentir seguro nesse processo de descoberta do mundo, ursinhos, travesseiros ou cobertores ocupam um lugar entre o que “é meu” e o que “está fora de mim”, como explica o pediatra e psicanalista britânico Donald Woods Winnicott.

Assim como a pelúcia dada a Punch, outro bichinho, chamado Fofucho, ajuda crianças em situação de acolhimento com as quais Júlia trabalha. “Fofucho as acompanha durante todo o processo, até o retorno para a família de origem ou para a adoção”, conta.

Já para a veterinária Débora Malta, que trabalha no berçário do Parque Zoobotânico da Bahia, onde cuida de filhotes até que possam ser devolvidos ao Centro de Triagem de Animais Silvestres para reabilitação, “os animais sabem a diferença entre o objeto e a mãe”. Segundo ela, o uso de bichinhos de pelúcia é comum no cuidado de filhotes de espécies que costumam permanecer fisicamente agarradas às mães, como tamanduás e saguis.

Para entender o apego

Nos anos 1950, um experimento ajudou a entender como o apego é fundamental para o vínculo e para o desenvolvimento do bebê. O psicólogo americano Harry Harlow separou filhotes de macacos rhesus das mães. Em um grupo, uma substituta de arame, que dava leite; no outro, a “mãe artificial” era coberta por um tecido macio, mas que não oferecia comida. Os macaquinhos preferiam ficar agarrados à “mãe” de pano e não comer.

Cada criança escolhe a sua naninha

“O objeto que a criança vai eleger tem a ver com a sua segurança afetiva”, explica a psicóloga Júlia Salvagni. Então, “os pais podem até comprar uma fraldinha bordada com o nome, mas não vai ser necessariamente essa a escolha da criança.” O mesmo pode acontecer com a chupeta. “A criança não gosta e, em algumas situações, o adulto insiste, na tentativa de criar esse conforto emocional, mas não é assim que funciona”.

Embora a mãe produza paninhos que servem de naninha para muitas crianças, Guilherme, 3, até hoje só quer o Pepê na hora de dormir, uma fraldinha de pano costurada e pintada pela avó. Quando ele nasceu, a designer Geo Nunes viu que era preciso promover representatividade com seus produtos. Então, além dos brinquedos afirmativos que já produzia pela Amora, lançou cueiros estampados com personagens negros. “Eu queria algo que fosse mais do universo do cuidado, e não só do lúdico”, diz.

Quando Flor era neném, também ganhou uma naninha, mas não ligou. Como estava em amamentação exclusiva até os seis meses, ela queria mesmo era o colo e o peito da mãe. “Assim que passou a brincar com os bonecos, escolheu Bel e Pedrinho, e os palhaços”, conta Joana. 

Image

Arquivo pessoal

Em vez de um paninho, Maria Flor escolheu bonecos que estão com ela o tempo todo, da hora de brincar à hora de dormir.

Image

Arquivo pessoal

O cueiro, paninho que tem mil e uma funções para o bebê, virou também objeto de representatividade nos brinquedos afirmativos da Amora.

Muitas vezes, “a criança quer aquele brinquedo mais surrado, às vezes o paninho rasgado, mas tão importante que a gente diz que não tem preço”, diz a fisioterapeuta pediátrica Dafne Herrero, conhecida por “Doutora Brincadeira”. “Não se trata de adquirir algo, pois esse objeto não é o mesmo para todo mundo.” Ela guardou a primeira boneca que ganhou, aos sete anos, para dar à filha. “Ela quis transformá-la em uma personagem de Avatar. Juntas, pintamos de azul, colocamos trancinha de miçanga e só então ela disse: ‘Agora é minha.’”

3 pontos de atenção sobre os objetos de transição

Os adultos responsáveis precisam ficar atentos para que o objeto de transição não se transforme em dependência, orienta Dafne. É importante acolher esse apego e, ao mesmo tempo, estabelecer limites. A ideia é compreender os paninhos como parte natural do desenvolvimento infantil, que fazem sentido por um tempo. “Pegar ou agarrar algo traz conforto fisiológico e emocional”, explica. O apego deixa de ser saudável quando a criança se priva de outras experiências para permanecer ligada ao objeto. “Essa dependência traz uma desorganização emocional ao ponto de, na ausência daquele objeto, parecer que tem uma ausência de parte da criança.”

Júlia pondera que a dependência emocional não está na criança, mas nas relações que a cercam. “O papel de gerar esse vínculo saudável está muito mais nos adultos que estão ali ao lado, no contexto, e quando a gente começa a ensinar para a criança a confiar nas relações. A gente faz isso comunicando que está saindo, mas que vai voltar para buscá-la na escola, por exemplo. Essas coisas muito simples do dia a dia a ajudam a ir internalizando as transições.” Para ela, o desafio é construir vínculos em que a criança reconheça que a segurança vem da presença e da confiança, e não apenas do objeto que, por um tempo, ajudou a sentir tudo isso.

1. Objeto de transição não é objeto de consumo – Um item que representa segurança e afeto para uma criança não pode ser confundido com brinquedos que incentivam consumismo, trazem estímulo em excesso e geram ansiedade. Dafne explica que é por meio da brincadeira que a criança vai criando outros contextos para a sua naninha, até que não exista mais a necessidade de estar todo o tempo com aquele paninho ou ursinho como um suporte.

2. Naninha não substitui a presença da família – Mães e pais não devem buscar em paninhos e ursinhos uma espécie de compensação pela culpa de não ter tanto tempo disponível para as crianças quanto gostariam. “Hoje, a gente sabe que vale mais a qualidade do tempo junto do que a quantidade”, observa Júlia. Ela orienta que, em vez de buscar um objeto para cobrir essa falta, as famílias escutem mais as crianças e brinquem com elas sempre que possível.

3. Escolas e creches devem ser acolhedoras, mas também colocar limites – A creche e a escola são o primeiro espaço onde as crianças irão conviver sem a família, por isso é importante se preparar para a chegada daquelas que trarão seus paninhos, travesseirinhos e outros objetos de afeto, indica Dafne. Mas, é preciso saber que o ambiente de convivência tem uma rotina, onde são feitos combinados sobre os horários e espaços para estar com as naninhas. “Às vezes, apenas deixar esse objeto mais aparente, na mochila mesmo, já faz com que a criança se sinta mais segura. Assim, ela vai respeitar o limite e esperar a hora do brinquedo e a hora da soneca, quando poderá estar com a naninha”. Aos poucos, também, as crianças vão aprendendo a brincar umas com as outras e a compartilhar.

Fonte: Orientações da fisioterapeuta pediátrica Dafne Herrero e da psicóloga e psicanalista Júlia Salvagni.

A representação das naninhas nas artes

Mônica não se separa do seu coelhinho Sansão. Calvin vive aventuras com seu tigre de pelúcia, Haroldo. Linus tem um cobertor azul como objeto de segurança. Entre todos os brinquedos de Andy, Woody é o seu boneco favorito.

Na música “Tchau, chupeta”, a banda Pequeno Cidadão faz da despedida da chupeta um ritual. No clipe, crianças imaginam jogar o objeto no mar, entre submarinos e barcos, até reconhecer que crescer também é se libertar e descobrir a própria voz. “Agora eu quero cantar sem uma tampa de borracha pra me atrapalhar.”

2 livros que falam desses objetos importantes na primeira infância

Image
“Meu paninho”, Leslie Patricelli (Panda Books)

Parte de uma coleção para a primeiríssima infância com títulos sobre coisas importantes no começo da vida, como Abraço, Bico, Fralda e Hora de Dormir, neste livro um bebê transforma o paninho em uma super-naninha. Inspirado na infância dos três filhos, Leslie conta ao Lunetas que “escrevia e desenhava tudo o que ouvia, via e vivia como mãe”.

Segundo ela, em sua casa, todos sabiam bem o que acontecia quando um objeto de transição se perdia ou ficava para trás! “Meus filhos eram tão apegados aos paninhos quanto eu. Eles também tinham outros apegos, como fantasias e bichinhos de pelúcia, mas um paninho é um objeto de transição tão clássico que escolhi fazer um livro sobre isso. Quando penso nas expressões dos personagens, foco nos altos e baixos da experiência emocional de um bebê para conseguir me conectar com ele.”

Image
“Adeus, meião”, Benjamin Chaud (Editora SM)

Na história, um menino decide abandonar seu coelho de orelhas caídas na floresta, assim como no conto João e Maria. “Esse menino constata que é grande demais para ter um coelho de estimação e, a partir da decisão de se desfazer do objeto, experimenta outras formas de se relacionar com ele”, conta a escritora Chantal Castelli, que traduziu o livro do francês para o português.

Para ela, o livro mostra o crescimento como uma experiência que envolve pequenas perdas. “O menino entende que é um objeto de amor, mas que também sofre agressão”, diz. “Assim como no livro, eu vi isso acontecer em casa, pois minhas filhas, hoje adolescentes, tiveram naninhas por muitos anos. Por fim, também lembrei da minha infância: eu tinha um urso de pelúcia vermelho que, em algum momento, ficou todo escangalhado.”

Leia mais

Comunicar erro
Comentários 1 Comentários Mostrar comentários
REPORTAGENS RELACIONADAS