Como cuidamos de nossas crianças na Ășltima dĂ©cada?

Desde o Marco Legal da Primeira Infùncia de 2016 até o ECA Digital, recém sancionado, hå avanços a serem celebrados; mas ainda hå desafios

Vanessa Fajardo Publicado em 25.03.2026 Atualizado em 25.03.2026
10 anos do Marco Legal da Primeira InfĂąncia

Resumo

O Brasil celebra 10 anos do Marco Legal da Primeira Infùncia com avanços como a quase universalização da pré-escola (95%) e o novo ECA Digital. Contudo, a desigualdade persiste: apenas 31% das crianças mais pobres acessam creches, contra 55% das mais ricas

Quais foram as mudanças Marco Legal da Primeira InfĂąncia atĂ© o ECA Digital, recĂ©m sancionado? O Lunetas apresenta uma linha do tempo para ajudar a entender os avanços na primeira infĂąncia nos Ășltimos 10 anos — e os desafios que ainda precisam ser enfrentados.

Na Ășltima dĂ©cada, o Brasil consolidou avanços estruturantes na primeira infĂąncia, fase que vai do nascimento aos 6 anos e concentra o perĂ­odo de maior desenvolvimento humano. O paĂ­s saiu de um cenĂĄrio em que essa etapa era invisibilizada, para outro marcado por conquistas importantes, embora ainda persistam desafios.

O divisor de ĂĄguas nessa garantia de direitos foi o Marco Legal da Primeira InfĂąncia, por meio da Lei 13.257/2016, que estabeleceu que o Brasil deve reconhecer os direitos das crianças e implementar polĂ­ticas pĂșblicas para garantir oportunidades de desenvolvimento integral. No ano passado, o marco foi desdobrado, por meio de um decreto, que consolidou a PolĂ­tica Nacional Integrada da Primeira InfĂąncia (PNIPI).

“Na prĂĄtica, isso ajudou a impulsionar polĂ­ticas pĂșblicas mais estruturadas e intersetoriais, alĂ©m de fomentar a criação de planos estaduais e municipais de primeira infĂąncia. Esse movimento Ă© muito relevante porque aproxima a agenda do territĂłrio, onde a vida das crianças de fato acontece”, disse Gabriella Bighetti, CEO da United Way Brasil (UWB), organização que atua pelo desenvolvimento integral de crianças.

Atuação entre setores é fundamental

Especialistas da ĂĄrea da infĂąncia consideram que hoje exista mais clareza de que proteger e promover o desenvolvimento infantil nĂŁo depende de uma Ășnica polĂ­tica pĂșblica ou de um Ășnico serviço e que nos Ășltimos cresceu a compreensĂŁo sobre a necessidade de açÔes por meio de uma rede integrada de proteção.

“Considerando nĂŁo apenas a criança, mas tambĂ©m seu contexto familiar, social e territorial. Isso significa olhar para renda, acesso a serviços, vĂ­nculos familiares, saĂșde mental dos cuidadores, qualidade das interaçÔes e oportunidades de desenvolvimento. Em muitos territĂłrios, essa mudança jĂĄ começa a aparecer no fortalecimento de polĂ­ticas locais, na formação de profissionais e em iniciativas que apoiam diretamente famĂ­lias e cuidadores”, diz Gabriella.

Retrato de Gabriella Bighetti sentada em uma cadeira, sorrindo para a cùmera. Ela veste blusa preta e calça clara, com um colar dourado. Ao fundo, hå um painel com ilustraçÔes de pessoas, sugerindo um ambiente institucional ou de evento ligado a causas sociais.
Gabriella Bighetti, CEO da United Way Brasil.

Na Ășltima dĂ©cada, tambĂ©m ganhou centralidade o papel dos cuidadores e das polĂ­ticas pĂșblicas direcionadas a eles. EvidĂȘncias cientĂ­ficas mostram que o desenvolvimento infantil Ă© profundamente influenciado pela qualidade dos vĂ­nculos e das relaçÔes. Nesse contexto, destacam-se iniciativas como a ampliação da licença-paternidade e a criação de um adicional no Bolsa FamĂ­lia voltado Ă s crianças da primeira infĂąncia.

Acesso à pré-escola quase universalizado

Outro avanço foi no acesso Ă  educação. Hoje, segundo dados da Pnad 2024, 95% das crianças a partir de 4 anos – etapa obrigatĂłria da educação bĂĄsica – estĂŁo na escola. E embora ainda haja 329 mil excluĂ­das do sistema, Ă© preciso comemorar os avanços, como reforça Patricia Mota Guedes, Superintendente do ItaĂș Social.

“Temos um desafio grande na qualidade, mas nĂŁo podemos perder de vista que o passo do acesso precisa ser celebrado. SĂł que a porcentagem das crianças que estĂŁo ainda sem acesso para Ă  prĂ©-escola sĂŁo aquelas crianças em situação mais vulnerĂĄvel e aĂ­ a busca ativa e esse trabalho mais intencional precisa ainda ser feito”, afirma Patricia.

A superintendente cita, ainda, a importĂąncia da criação de parĂąmetros nacionais e diretrizes de qualidade para esta etapa do ensino, que orientam as prĂĄticas pedagĂłgicas e de gestĂŁo, alĂ©m do novo Plano Nacional de Educação, que vai passar pelo Senado. “Entendemos que a Educação Infantil nĂŁo Ă© uma sala de espera para a educação, ela jĂĄ Ă© uma fase fundamental para o desenvolvimento da criança.”

Retrato de Patricia Mota Guedes em um escritório. Ela estå de braços cruzados, vestindo camiseta branca e casaco vermelho, com expressão confiante. Ao fundo, hå um espaço de trabalho com mesas, cadeiras e pessoas desfocadas, sugerindo um ambiente corporativo.
Patricia Mota Guedes, superintendente do ItaĂș Social.

Por que a infĂąncia importa tanto?

Nos primeiros anos de vida de uma criança as conexÔes cerebrais se formam a um ritmo de 1 milhão por segundo, por isso em nenhuma fase da vida esse desenvolvimento serå tão råpido e potente. Além de uma etapa com oportunidades neurológicas, investir na primeira infùncia também pode ser estratégico para um país.

De acordo com o estudo Gasto Social com Crianças e Adolescentes no Orçamento Federal 2019–2024, realizado pelo Ipea e pelo Unicef, o investimento do Brasil com crianças e adolescentes subiu de 3,36% em 2019 para 4,91% em 2024, com foco nas ĂĄreas de alĂ­vio Ă  pobreza e assistĂȘncia social. Apesar do avanço, os nĂșmeros representam menos de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o que pode comprometer a qualidade de vida, a educação e a saĂșde, principalmente na primeira infĂąncia.

Nesse contexto, a qualidade da oferta em creches e pré-escolas torna-se tão relevante quanto a dos demais mecanismos da rede de garantia de direitos, especialmente considerando o tempo prolongado que a criança permanece nesses espaços

“Quando a gente vai pensar no tempo em que bebĂȘs e crianças pequenas passam fora de casa, longe da sua famĂ­lia, elas nĂŁo ficam nas unidades de saĂșde ou nas unidades apoiadas pela assistĂȘncia social. A maior parte do tempo Ă© na creche e na prĂ©-escola que estĂŁo, quando tĂȘm esse acesso. A Educação infantil com qualidade e equidade precisa estar ao lado de polĂ­ticas e programas de primeira infĂąncia com uma arquitetura intersetorial com recursos, condição e liderança”, diz Patricia.

Ainda precisamos avançar em qualidade e equidade

Embora o Brasil tenha avançado em indicadores e em acesso aos serviços na Ășltima dĂ©cada, a desigualdade ainda Ă© um desafio a ser enfrentado. Dados do IBGE mostram que apenas cerca de 31% das crianças dos 20% mais pobres frequentam creche ou prĂ©-escola, proporção que chega a 55% entre as mais ricas.

Marina Fragata, Diretora de PolĂ­ticas PĂșblicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) ressalta que, ao nĂŁo reduzir essas disparidades logo no inĂ­cio da vida, o paĂ­s permite que as prĂłprias polĂ­ticas pĂșblicas acabem reproduzindo mecanismos de exclusĂŁo e racismo estrutural.

“Essa Ă© a nossa maior preocupação e dor enquanto paĂ­s, porque enquanto nĂłs nĂŁo formos capazes de reduzir as desigualdades no começo da vida, nĂłs estamos fazendo com que atĂ© as prĂłprias polĂ­ticas reproduzam esses mecanismos de exclusĂŁo. Tem uma parcela significativa das infĂąncias que nĂŁo estĂĄ sendo alcançada ou que estĂĄ sendo alcançada a quem do que sĂŁo os seus direitos”, afirma.

Atualmente o Brasil possui mais de 18 milhĂ”es de crianças entre 0 a 6 anos, destas quase 11 milhĂ”es vivem em famĂ­lias de baixa renda e estĂŁo inscritas no Cadastro Único para ser beneficiĂĄria dos programas de assistĂȘncia social, segundo dados do MinistĂ©rio do Desenvolvimento e AssistĂȘncia Social (MDS).

Marina reforça que quando uma criança nasce em um contexto de vulnerabilidade sem ter seus direitos garantidos, compromete-se um começo de vida equitativo, uma vez que o desenvolvimento cerebral acelerado nesta fase Ă© diretamente moldado pelas experiĂȘncias, pelo afeto e pela segurança do ambiente.

Segundo ela, sem políticas que interrompam esse ciclo de pobreza multidimensional, o Brasil corre o risco de ver essas crianças perpetuar a vulnerabilidade para a geração seguinte, por isso “o investimento nos primeiros anos de vida são um catalisador de um processo de menos desigualdades.”

“Os avanços são valiosos, o Brasil, de fato, vem crescendo na prioridade dessa agenda. Muitas políticas municipais e estaduais nasceram ao longo dessa estrada, mas esses desafios mais profundos e estruturais da nossa sociedade ainda estão muito longe de serem cuidados”, afirma Marina.

Como estratĂ©gia para a prĂłxima dĂ©cada, Marina defende que o paĂ­s transite do foco apenas no acesso para a busca de resultados equitativos e de qualidade, que combatam o racismo e alcancem os grupos mais excluĂ­dos – como o percentual das crianças que ainda estĂĄ fora da prĂ©-escola e carece de outros direitos, alĂ©m do acesso Ă  educação.

“Vamos precisar de outros mecanismos para alcançar esse recorte da população de outra forma. NĂłs entregamos, crescemos, subimos e melhoramos os indicadores, mas essa Ășltima camada estĂĄ reiteradamente excluĂ­da, que entra no conceito de pobreza multidimensional, que por vulnerabilidade econĂŽmica vocĂȘ deixa de acessar outros serviços.”

Sete vitĂłrias da infĂąncia na Ășltima dĂ©cada:

  • Marco Legal da Primeira InfĂąncia: considerado o avanço mais decisivo, reconheceu, a partir de 2016, que crianças de atĂ© 6 anos como sujeitos de direitos e estabeleceu diretrizes para polĂ­ticas pĂșblicas integradas;
  • ExpansĂŁo do acesso Ă  Educação: o Brasil registrou um crescimento expressivo nas matrĂ­culas de creches e alcançou a quase universalização do acesso Ă  prĂ©-escola para crianças de 4 e 5 anos;
  • Redução da Mortalidade Infantil: em 1950, o Brasil registrava 158 mortes de crianças antes de 1 ano de vida, a cada mil nascidas vivas. Em 2022, esse nĂșmero caiu para 12 a cada mil, uma diminuição de mais de 90%, segundo dados do Unicef;
  • PolĂ­tica Nacional Integrada da Primeira InfĂąncia (PNIPI): instituĂ­da por decreto, essa polĂ­tica estabelece uma governança articulada entre UniĂŁo, estados e municĂ­pios, com metas claras para diferentes campos de direitos;
  • ParĂąmetros de Qualidade na Educação: a criação de diretrizes nacionais e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) garantiu que a educação infantil deixasse de ser vista como uma “sala de espera” para se tornar uma etapa fundamental do desenvolvimento;
  • Ampliação da Licença-Paternidade: a aprovação do aumento da licença-paternidade de 5 para 20 dias, de forma gradual atĂ© 2029, promovendo maior engajamento dos pais no cuidado;
  • ECA Digital: a criação de uma legislação especĂ­fica para o ambiente digital Ă© conquista recente inĂ©dita na proteção contra novas formas de violĂȘncia.
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