Fase da oposição chega e embora seja desafiadora, deve ser encarada com alegria porque faz parte do desenvolvimento saudável da infância
Embora seja desafiador o comportamento de recusa das crianças que surge com cerca de 2 anos, ele é positivo porque é resultado do desenvolvimento do cérebro que faz parte do crescimento infantil.
Aquela criança que topava participar e colaborar com as tarefas diárias tranquilamente, de repente, entra na fase da recusa. Tomar banho vira um estresse, se alimentar exige uma grande briga, assim como colocar a roupa de frio. Dormir, então, nem se fala, ela prefere qualquer coisa a ter de fechar os olhos e descansar. Não importa o que o cuidador sugira, pode até ser uma brincadeira que a criança ama: a resposta é sempre não.
Se você se identificou com esta cena, sinta-se acolhido e feliz ao mesmo tempo. Essa fase de recusa constante é importante e faz parte do desenvolvimento natural da criança. É sinal de que ela está se despedindo da espécie de “fusão” que vive com seu cuidador nos primeiros meses de vida e passa a começar a se entender como pessoa.
Nesse período, por volta de 18 meses de vida, o cérebro da criança dá um salto de desenvolvimento e descobre que é um “ser separado da mãe e do pai.” Só que apesar da descoberta, ela ainda não adquiriu uma linguagem sofisticada nem consegue elaborar argumentos. “O que ela tem é uma palavra curta, potente que produz um efeito imediato no ambiente no adulto, que é o não. O não é essa primeira ferramenta que dá indícios de autonomia da criança”, explica Ana Carolina D’Agostini, psicóloga e coordenadora de formações do Instituto Ame sua Mente.
Esse tipo de comportamento tende a se estender até os 4 anos, e à medida que criança cresce, o repertório também fica mais elaborado. Entretanto, para Claudio Reingenheim, pediatra do Einstein Hospital Israelita, se a criança pudesse traduzir esse “não” dentro desse contexto inicial, em uma frase mais longa diria algo como: “Sou uma pessoa, tenho vontades, mereço respeito, dignidade e gostaria que o mundo e as pessoas à minha volta legitimassem isso.”
Por isso, os “nãos” como poder de escolha pode parecer simples aos olhos dos adultos, mas é imenso para uma criança. “Ao compreender esse poder, a criança percebe que consegue escolher o que vai comer, as roupas que vai usar e os brinquedos com os quais vai brincar. A partir daí, ela passa a exercê-lo, testando o ambiente em que está”, diz Claudio.
Pode acontecer da criança recusar-se a fazer até as atividades de que gosta, como brincar com determinados objetos, o que acaba por confundir os cuidadores. “Exercitar essa descoberta do que ela pode escolher, do que consegue impor é um treino para a vida”, complementa Ana Carolina.
A psicóloga explica que a criança costuma apresentar esse comportamento de oposição justamente com as pessoas com quem tem mais vínculo. Ela age assim porque se sente segura para testar limites e expressar suas emoções sem medo de ser abandonada. “O adulto pode até pensar: o que será que essa criança tem contra mim? Mas, na verdade, é algo que deve ser encarado como um elogio.”
Embora as afrontas possam parecer manipulação, os especialistas explicam que não se trata disso, já que uma criança nesta faixa etária ainda não tem as habilidades cognitivas desenvolvidas necessárias para isso.
“A manipulação envolve a capacidade de planejar, de antecipar qual que vai ser a reação do outro, sustentar essa intenção ao longo do tempo”, diz Ana Carolina. Para isso é necessária que uma área do cérebro chamada de córtex pré-frontal, que está em franco desenvolvimento até a vida adulta, esteja amadurecida.
Por isso, “uma criança de 2 anos não está tramando contra os pais”. “Ela está sendo arrastada, muitas vezes dominada por emoções intensas dentro de um cérebro que ainda não tem freio e de um corpo que não tem linguagem ainda para expressar tudo isso”, complementa a psicóloga.
Pode parecer difícil estabelecer os limites nessa relação – e às vezes é mesmo. Mas o é o cuidador quem deve fazê-lo. Dentro do que é inegociável, como sugere a psicóloga, é possível “tentar devolver para a criança pequenas doses de autonomia.”
Ela sugere, por exemplo, para a hora do banho que os cuidadores ofereçam para a criança ir até o banheiro de “cavalinho” ou pulando. Também vale deixar que ela escolha se prefere brincar com o patinho ou com o esguicho d´água dentro chuveiro. Tudo para que ela se sinta escolhendo algo. “Dessa forma a tendência de todo mundo sair inteiro desses pequenos embates é maior”, brinca.
Os conflitos tendem a se intensificar quando a criança se frustra ao sentir que é deslegitimada enquanto pessoa. Ela também sofre por não conseguir exercer o poder que ela sabe que já é capaz, como explica o pediatra Claudio. “Como quando os pais entram em uma disputa de poder com o filho e tentam impor os desejos deles, mostrando que as coisas acontecem conforme o desejo dos pais e não dos filhos.”
Falando em embate, nem tudo precisa ser transformado em um. É preciso escolher as batalhas. “Se a criança quer ir de bota de chuva para escola em dia de sol, qual é o grande prejuízo disso? Vai passar um pouco de calor?”, questiona Ana Carolina. “É preciso dar margem ao que pode ser negociável.”
Claudio Reingenheim acrescenta, ainda, que é necessário que os adultos deixem as crianças fazerem escolhas, mesmo que não sejam suas preferidas. “Quando não for possível, é preciso explicar que entende a frustração, mas que você não está deixando não porque não respeita sua vontade da criança, mas sim porque tem algum motivo maior para não deixar isso acontecer.”
Entretanto, a psicóloga alerta que caso essas explosões e oposições passem a ser muito frequentes e desproporcionais, vale a pena procurar apoio profissional. Pediatras e psicólogos podem oferecer estratégias de apoio ao desenvolvimento da criança. Muitas vezes, diante da fase de oposição dos filhos, os pais e cuidadores também precisam de atenção porque se sentem exaustos e inseguros em relação ao vínculo com os filhos.
“Na dúvida vale mais perguntar, buscar ajuda, do que ficar carregando uma angústia sobre algo que necessita de uma intervenção já que é maior do que o papel como cuidador”, recomenda a psicóloga.