Primeira menstruação não deve ser associada ao fim da infância e muito menos à sexualização
A primeira menstruação é uma etapa natural do desenvolvimento do corpo, mas não deve ser interpretada como o fim da infância nem como um indicativo de maturidade emocional ou sexual.
A primeira menstruação de Camila*, então com 13 anos, aconteceu na escola. A mãe, Rafaela Marques, recebeu uma ligação da coordenação porque a menina estava na enfermaria chorando muito. O que deveria ser um processo biológico natural virou um alvoroço na hora do recreio e se espalhou pelos corredores.
“Quando cheguei lá, a encontrei completamente vulnerável”, lembra Rafaela. Alguns adultos, na tentativa de acolher, disseram que ela “tinha virado mocinha” e que “tinha deixado de ser criança”. Também foi dito que os meninos passariam a olhá-la de outro jeito, com segundas intenções.
“Aquelas frases fincaram raízes profundas. Levou tempo para que ela entendesse que a biologia não dita as regras da sua liberdade.”
“Minha filha voltou para casa acreditando que seu corpo tinha se tornado muito diferente a partir daquele momento e que a menstruação era um marco que a tornava adulta.” Rafaela então sentou com a filha e foi desconstruindo, ponto a ponto, as ideias que a assustavam.
Explicou que a menstruação indica apenas que o corpo funciona bem e que ninguém ganha responsabilidades de adulto do dia para a noite por causa dela. Substituiu o peso do “virou mocinha” pela certeza de que a filha continuava sendo a mesma menina, com o direito de viver no seu próprio tempo.
“Também conversamos sobre limites e respeito, garantindo que nenhuma mudança autoriza ninguém a invadir seu espaço”, diz. “Hoje, aos 15 anos, vejo que ela consegue encarar o ciclo sem o pânico daquele primeiro dia.”
As meninas têm menstruado cada vez mais cedo. Segundo um levantamento inédito feito pelo Alana e Instituto Equidade.Info, 36,5% das meninas brasileiras que participaram da pesquisa tiveram a primeira menstruação até os 10 anos. Outras 65,2% das estudantes menstruaram pela primeira vez até os 11 anos.
Para Silvia Saito Yamada, chefe da ginecologia do Sabará Hospital Infantil, a menarca vem junto à expectativa de ser um marco “definitivo de transformação pessoal” e que exige “mais feminilidade”. Nesse contexto, frases como as que Camila ouviu comunicam, erroneamente, que houve uma despedida imediata da infância e que o corpo da garota se tornou um objeto de vigilância constante.
“Uma criança continua sendo criança mesmo menstruando.”
Assim, a primeira menstruação “deixa de ser apenas um evento biológico e passa a carregar significados sociais que podem gerar constrangimento, insegurança e também novas cobranças sobre o corpo e sobre o comportamento”, explica Mônica Maria de Jesus Silva, enfermeira e professora da Escola de Enfermagem da USP em Ribeirão Preto. “Isso não significa que a pessoa que menstruou pela primeira vez esteja pronta para relacionamentos afetivos, relacionamentos sexuais ou mesmo para a maternidade.”
A psicóloga infantojuvenil Ana Beatriz Macedo observa no consultório que a primeira menstruação é acompanhada por uma carga de ansiedade e inadequação. “São quadros inflados de insegurança corporal, fobia social e isolamento”, diz. “Mas essa transição hormonal deve ocorrer sem o peso do adoecimento psíquico.”
Nos dias seguintes à menstruação na escola, Camila não queria voltar às aulas e escondia o corpo em roupas largas. “Foi quando percebi que o meu papel precisava ser muito maior do que dar um pacote de absorventes e explicar o ciclo menstrual”, diz Rafaela. “Eu precisava ajudá-la a desenhar uma relação nova com a menstruação.”
“Uma adolescente que compreende o ciclo menstrual como um marcador de saúde, e não como uma sentença de perda de direitos ou de maturidade forçada, desenvolve uma autoestima mais sólida e uma relação saudável com a autoimagem”, afirma Ana Beatriz. “Ela aprende a estabelecer limites claros em relação ao respeito ao próprio corpo e ganha recursos psicológicos para rejeitar comentários invasivos, blindando sua saúde mental durante uma das fases mais vulneráveis do crescimento.”
Em vez de usar expressões que sinalizam uma ruptura brusca com a infância, o momento da primeira menstruação deve ser tratado com naturalidade, informação e acolhimento. O foco deve estar em explicar que se trata de uma mudança natural do corpo que não altera quem a menina é.
“A menina que acabou de menstruar pela primeira vez precisa ouvir mensagens que normalizem a experiência, que preservem sua condição de criança e adolescente em desenvolvimento e que transmitam acolhimento e segurança emocional”, afirma Silvia. Caso contrário, a criança pode sentir que perdeu o direito de ser criança de repente.
Para ela, os erros mais comuns acontecem quando os adultos projetam vergonha, medo, moralismo ou expectativas de amadurecimento sobre uma experiência corporal. Outro equívoco é se atentar somente aos aspectos relacionados à higiene, sem cuidar das emoções e dos direitos ligados à dignidade menstrual, que diz respeito ao acesso a absorventes e banheiros seguros e limpos, por exemplo.
Já Mônica reforça que “a mensagem central que ela precisa ouvir é que os seus sentimentos em relação à menstruação são importantes e merecem atenção e que sempre que ela tiver dúvidas sobre a menstruação, é importante que ela busque o apoio dos adultos de confiança”.
* O nome da adolescente foi alterado para preservar sua identidade.