Projetos ensinam como aprender matemática de forma criativa

Ansiedade com a disciplina está crescendo no Brasil, mas rotinas e projetos escolares provam que aprender matemática também pode ser divertido

Alice de Souza Publicado em 03.04.2025
como aprender matemática: Imagem mostra duas crianças montando uma torre com brinquedos coloridos.
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Resumo

Projetos e rotinas que utilizam formas lúdicas de ensinar e aprender a matemática podem reduzir a ansiedade com a disciplina, que vem crescendo segundo dados da OCDE.

No Colégio Santo Domingo, em Araxá (MG), a matemática foi parar nos palcos do teatro, por meio do projeto “Brincando com a Matemática”, desenvolvido por professoras do 3º ano do ensino fundamental. A ideia nasceu de um receio compartilhado por muitas escolas: como as crianças podem aprender matemática de forma atrativa? 

Durante o projeto, cada aluno confeccionou um jogo em casa com a família, utilizando os princípios matemáticos trabalhados em sala de aula. O material foi apresentado durante uma feira na escola e depois doado para a rede pública de ensino da cidade. 

No fim, cerca de 150 alunos apresentaram a peça teatral “Alice no país da Matemática”. “Nesse teatro, a gente contou o que é a matemática. No final, Alice descobre o quanto a matemática é boa, o quanto é interessante aprendê-la”, diz a professora regente Patrícia Alves, uma das criadoras do projeto.

O resultado? De um lado, alunos mais engajados na disciplina e com maior compreensão dos conceitos que precisam como base para o ano seguinte, como a multiplicação. Do outro, pais e mães com menos medo de ensinar.

“Antes a gente recebia muitas mensagens dos pais, dizendo que era difícil ajudar os filhos em casa, pois os métodos e a matemática de hoje são diferentes da época deles. O projeto ajudou a romper isso também”, afirma a professora.

Mãe dos gêmeos Sofia e Bento, nove anos, que participaram das atividades, a empresária Raphaela Souza, 40 anos, sente que o teatro trouxe um “respiro” para toda a família. Enquanto as crianças ganhavam mais interesse e empolgação pela disciplina, a mãe e o pai aprenderam novas formas de ensinar.

“Eles começaram a ver nesse ano questões mais ‘complexas’, e o teatro deixou eles completamente envolvidos. Eles aprenderam a trabalhar em grupo, decorar texto, não só a matemática em si”, diz a mãe. 

Ansiedade para aprender

Há quem diga que não há como aprender matemática de forma simples. Já outros possuem uma intimidade impressionante com os números. Mas parece que o sentimento que mais cresce entre os alunos diante da disciplina é a ansiedade. Isso é o que revelam os dados mais recentes do Programa de Avaliação Internacional dos Estudantes (Pisa), o maior estudo sobre educação realizado no mundo.

De acordo com o levantamento, realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cerca de 65% dos estudantes se preocupam em tirar notas baixas em matemática. Além disso, 55% deles se sentem ansiosos em reprovar na disciplina. Pelo menos quatro em cada dez relatam nervosismo, desamparo ou ansiedade ao resolver problemas matemáticos. 

No Brasil, a situação é ainda pior. Quase oito em cada dez estudantes estão ansiosos em relação às suas notas na matéria e pelo menos seis em cada dez ficam ao menos nervosos ao lidar com problemas matemáticos. 

Para a OCDE, os dados são preocupantes, já que uma má relação com a matemática pode comprometer oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. Por isso, reduzir a ansiedade em relação à disciplina é considerado um desafio político fundamental para melhorar o bem-estar, o desempenho e o desejo dos alunos em continuar aprendendo ao longo da vida.

Mas como fazer isso se a matemática é muitas vezes um bicho de sete cabeças até para os pais e cuidadores? Um caminho é apostar na ludicidade para transformar o aprendizado em um momento de diversão.

Conectar a matemática ao cotidiano

Ao contrário do que muita gente pensa, a relação com os números pode começar antes mesmo da fase escolar. Mas, para isso, a pedagoga com pós-graduação em neurociência, educação e desenvolvimento infantil, Cristhiane Amorim, explica: é preciso tirar a matemática da lógica mecânica, ajudando a disciplina a ganhar um sentido. 

É o que faz a fisioterapeuta e pedagoga Priscila Sandri, que procura inserir a matemática na rotina dos cinco filhos. “Crio jogos que envolvem o uso de números, contamos objetos no dia a dia e, assim, o aprendizado acontece de forma natural e automática”, conta.

Tiago Dziekaniak, professor e pesquisador do grupo de pesquisa Tangram, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), também defende essa dinâmica. “O distanciamento corrobora o desinteresse”, ressalta. 

“Quanto mais eu consigo mostrar as relações da matemática com a nossa vida, eu torno ela algo mais palpável, coerente com as demandas da juventude”, diz o professor. 

Para Amorim, apreender o raciocínio lógico da matemática começa por entender a contagem dos números. “Os pais precisam perceber que a matemática faz parte da vida, e trabalhar para que a criança perceba a facilidade desse processo de sequência numérica básica”, acrescenta.

“Para ter resultado matemático é preciso ter associação, entendimento da lógica dos números, conhecer os números e, acima de tudo, ter a atenção de perceber o posicionamento deles”, diz Amorim, que considera a infância uma janela de oportunidade para o início prazeroso do contato com a matemática.

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Reprodução Projeto Tangram

O grupo de pesquisa Tangram, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), apresenta a alunos do sexto ao nono ano formas lúdicas de aprender matemática. Dessa forma, eles exercitam habilidades de planejamento, convivência e raciocínio.

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Reprodução Projeto Tangram

O professor e pesquisador Tiago Dziekaniak afirma que é possível trazer a arte para estudar matemática. No Tangram, os estudantes aprendem sobre obras de arte para exercitar a geometria, por exemplo.

Sandri defende romper os estigmas dos pais e mães para engajar toda a família no ensino da matemática. Atualmente, a mudança nos métodos traz uma oportunidade de diálogo com os mais velhos. “Adoro ensinar, por isso reforçar o aprendizado em casa vira algo divertido. Sem falar no quanto eu aprendo com eles, já que cada momento juntos é uma oportunidade de troca e crescimento”, conclui.

Estimulando as crianças

Especialistas recomendam várias formas de estimular as crianças, mesmo quando elas ainda são bebês:

  • Contar os passos enquanto a criança aprende a andar;
  • Contar sementes de uma planta ou folhas de uma árvore durante um passeio nas redondezas de casa;
  • Utilizar os princípios matemáticos para as operações básicas na amarelinha ou no boliche. No boliche, por exemplo, pode-se utilizar adesivos com números nas garrafinhas derrubadas com a bola, para ajudar na associação quantitativa. 
  • Jogar jogos de tabuleiro, estimulando estratégia, a contagem de números e a concentração.

Como aprender matemática de forma lúdica

Outra possibilidade de aprender é levar as crianças ao supermercado, onde podem ser trabalhadas tanto as noções de quantidade quanto de preço, custo, fração. “Se você fizer um bolo e dividir em porções, já pode trabalhar fração com a criança sem que ela tenha sido introduzida ao tema na escola”, exemplifica Amorim. 

Depois das compras, utilizar a cozinha pode ser outra forma de aprendizagem, como mostra o projeto “Matemática com sabor de quilombo”, da Rede Sankofa Morro do Chapéu, que reúne associações quilombolas na Bahia. Os alunos perceberem o sentido da disciplina à medida que preparam os pratos tradicionais das comunidades, como o acarajé e o bolo caseiro. 

“A gente passou por vários vários pontos, como as medidas no preparo da receita feita. Depois do produto pronto, a gente trabalhou a fração, com a divisão de um bolo em fatias”, conta Silene Santos, coordenadora do projeto. Ela conta que as atividades também contemplaram pesquisa de preços nos supermercados. 

“Aí você trabalha a questão monetária, a decimal, a questão de eles saberem precificar e saber quanto aquela receita gasta, quanto rende, por quanto se pode vender uma fatia para tirar o gasto”, acrescenta.

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Aline Brito/Divulgação

O projeto “Matemática com sabor de quilombo”, da Rede Sankofa Morro do Chapéu (BA), ensina aos alunos atividades práticas e cotidianas sobre a matemática. As aulas unem culinária e eles preparam pratos tradicionais das comunidades.

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Aline Brito/Divulgação

Depois das comidas prontas, os professores trabalham assuntos como fração, com a divisão de um bolo em fatias. Além disso, eles aprendem as medidas e proporção, e a comparação de preços dos ingredientes no supermercado.

O resultado da iniciativa pode ser visto na empolgação dos alunos, mas também no boletim escolar deles. “Para muitos, o problema matemático parecia inalcançável. Depois do entendimento, na prática, eles conseguem e ainda, no final, provam uma receita, um alimento”, conclui Santos.

Heitor Bernardo Costa, 12 anos, conta que, no projeto, aprendeu “na vida real como se faz”. “Ficou mais fácil, por causa da medida de massa, da quantidade e do peso”, afirma. Já Erick Matos, 12 anos, diz que, com a prática, aprendeu a “memorizar essas estratégias” para fazer os cálculos. 

Ambos viram as notas subirem após participarem do projeto. “Não é difícil, é só a maneira como você enxerga (…) a matemática e os números. Quando você aprende de uma forma mais divertida, fica mais fácil”, garante Costa.

É possível envolver outras disciplinas 

A matemática até parece, mas não é só um conjunto de regras abstratas. Pelo contrário, ela pode ser considerada “um processo racional importante para se criar estratégias e atingir objetivos”, explica Amorim. Enxergando a matemática dessa forma, é possível utilizar elementos dela em outras disciplinas ou até trazer outras disciplinas para aprender a matemática. 

Na literatura, por exemplo, a matemática pode ser utilizada para compreender a lógica de um texto ou encontrar palavras-chave.  

“Se eu consigo trazer da matemática o foco e a concentração, eu também posso ler um texto do início ao fim, mesmo sem ser apaixonada por livro, pois consigo me ater à objetividade e intenção”, afirma Amorim.

Também é possível aproximar arte e matemática, afirma Dziekaniak. O professor utiliza obras de arte para ensinar sobre geometria dentro de um programa de extensão voltado para crianças do sexto ao nono ano. Assim, no formato de oficinas, os alunos conhecem artistas como Geraldo de Barros, que fizeram uso da geometria e da matemática em suas obras.

“A gente começa a falar de ilusão de óptica, de tridimensionalidade e de elementos sem que os alunos se dêem conta de que estão trabalhando a matemática”, conta Dziekaniak.

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