• Publicado em: 27.04.2020
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“Um mundo aberto capaz de receber e festejar as novas gerações, o que deveria compreender?”. Essa pergunta da psicanalista Patrícia Bohrer Pereira Leite está no prefácio do livro Mundo Aberto, de Maria Emilia Lopez, sobre cultura e primeira infância. Partilho dela diariamente no ato de pesquisar, formar professores e fazer educação, pois eu realmente acredito que o papel da escola, da educação e sobretudo da educação infantil é receber e festejar as novas gerações. 

Se por um lado, estávamos aprendendo a fazer isso – reconhecendo a especificidade do fazer pedagógico na educação infantil, que se difere das ideias já preconizadas de educação escolar e busca superar os resquícios assistencialistas de sua gênese -, por outro, nos encontramos diante de um novo horizonte que não sabemos ao certo onde vai dar. O fato é que as crianças poderão protagonizar um convite a nós: de recuperar a nossa responsabilidade em (re)recebê-las e festejar – no sentido etimológico da palavra, que significa honrar algo -, acolher e celebrar a ética dos encontros.

Ainda no prefácio do livro, Patrícia lança outras perguntas: “Como encarar a responsabilidade em épocas que aparentemente correm e desorientam, dificultam o olhar, a escuta, o gesto que abriga o respeito às infinitas formas de ser? Como lidar com tantas inovações tecnológicas, suas consequências e desdobramentos junto aos pequenos e seus familiares?”. Embora tenham sido feitas para uma situação de normalidade, essas perguntas cabem perfeitamente nesse momento de pandemia. 

Eu acho curioso observar o desespero das escolas em “receitar” às famílias atividades e situações que descaracterizam em absoluto o trabalho que é feito nas escolas de educação infantil.

Chama a atenção a resposta que sobretudo as escolas privadas têm feito em receitar um trabalho descontextualizado e desconectado do valor dos encontros. Se na nossa legislação, tanto nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI) como na Base Nacional Comum Curricular para a Educação Infantil (BNCC), temos como eixos do currículos as interações e as brincadeiras, nós não podemos achar natural que as escolas divulguem os “recorte e cole” ou os “para colorir” como expressão da pedagogia da infância. Destaco a carta que a Rede Nacional da Primeira Infância divulgou, endereçada ao Conselho Nacional de Educação, se posicionando contrária em relação à ideia de ofertar a educação infantil na modalidade de ensino a distância.

Nós não podemos fazer esse tipo de oferta em nome do cumprimento dos 200 dias letivos e 800 horas pois, além de desrespeitar os princípios orientadores que o próprio Conselho Nacional de Educação nos dá, estaríamos na contramão daquilo que nos últimos anos defendemos sobre a especificidade do que significa educar e cuidar das crianças em contextos de vida coletivo, nos seus seis primeiros anos de vida. Se há flexibilidade do CNE em repensar a oferta das demais etapas da educação em tempos de pandemia, também deve haver em compreender a especificidade da educação infantil.

Ao partilhar com as famílias a educação e os cuidados destinados às crianças, tanto educação quanto cuidados tornam-se aspectos indissociáveis. Caracterizamos, portanto, a ideia de currículo e projeto educativo para essa etapa. 

O trabalho que nós desenvolvemos na educação infantil não deve ser confundido com um punhado de trabalhinhos que se pode imprimir ou comprar em uma banca de jornal.

Outro ponto é a relação com as famílias que terão de suportar o encontro constante com seus próprios filhos, tanto no que diz respeito às aventuras como nas desventuras que essa jornada envolve. É fácil ficar trancado em casa? Não! É difícil para as crianças, para as mães e pais e para todo mundo que está se vendo assombrado por medos, angústias e incertezas. 

Nós não podemos criar uma formalidade a esse encontro, ou seja, nós não podemos pedir aos pais e mães que se transformem em pedagogos. Ao contrário, se a escola pode fazer algo nesse momento, é dar espaço, possibilidades e instrumentos para que possam se encontrar ou reencontrar no verdadeiro exercício de serem pais.

Cada família terá de descobrir o seu jeito de estar juntos, de celebrar os encontros e desencontros, e reforçar aquilo que a Patrícia Bohrer chama de ser ético, ou seja, “uma disposição cotidiana em estar atento e ser hospitaleiro ao diverso”. Portanto, como escola e profissionais da educação infantil, nós podemos ser hospitaleiros e acolher esse momento que nos pede disponibilidade para um outro modo de posicionamento frente ao que está acontecendo. 

Essa abertura – que é muito difícil, pois também tenho meus medos e fantasmas –  é talvez a única possibilidade para nos reorganizar diante do cenário. E esse é o lado “bom” da pandemia para mim:  um tempo de suspensão que nos abre algumas possibilidades de reflexão e de revisão da nossa existência.

Nesse tempo de estar em casa e estar longe das crianças nas escolas, que nós, educadores, possamos reforçar os princípios éticos, estéticos e políticos que têm nos orientado. Devemos também tomar cuidado em não sublinhar modelos estereotipados e limitantes do que é educar e cuidar de crianças. Em casa, deixem as crianças no papel de filhos e os pais no papel de pais. As escolas podem – e devem –  divulgar bons conteúdos, informar as famílias sobre as situações que estamos vivendo, sobre como solicitar o auxílio emergencial, sobre boas ações que acontecem nas cidades, ou seja, espalhem mensagens que reforcem o valor dos encontros, da vida e do humano.

Para encerrar, Patrícia Bohrer lança mais uma  pergunta: “como contribuir para a arte do encontro? Encontro como aquilo que por ser humano e universal significa, acalma, enriquece e estrutura. Encontro vital e definidor do devir de cada um”.

O encontro é a nossa expressão máxima de humanidade.

Temos o desafio de nos encontrarmos na distância, como aqui, conectados por um fio invisível*. Teremos um desafio novo ao retornar às escolas, nos (re)encontrar com as crianças e os colegas. Não será uma readaptação, não será uma volta depois de um feriado. Suponho que isso tudo nos exigirá “um mundo aberto” ao pulsar da vida.

Tenho pensado muito sobre uma ideia de futuro. O que terá sentido no retorno? Quais das coisas que faço, escrevo e penso serão úteis para esse retorno? Que novas exigências e reflexões nós vamos precisar encarar com esse novo cenário? 

Se é muito difícil pensar em um futuro no meio dessa incerteza, também sei que, mais do que nunca, precisamos criar uma ideia de futuro.

Donald Woods Winnicott, psicanalista importante para o campo da infância, fala sobre o valor dos pais criarem uma ideia de futuro para os bebês quando chegam ao mundo. Criar uma ideia de futuro não é um projeto de futuro, não é projetar nas crianças os nossos desejos e esquecer que ela, no seu lugar de humanidade, ou seja, de alguém que sente, pensa e deseja, também tem e vai construir seus desejos de futuro. 

Quando criamos uma ideia de futuro, criamos um lugar para se movimentar, para querer ir.

Como precisamos criar um futuro para esse retorno? Acredito que será importante para nós, adultos, e será fundamental para as crianças. A gente poderá construir esse futuro partilhando, refletindo, estudando. E as escolas podem e devem fazer essa manutenção de partilha de reflexões e de co-construção dessa ideia de futuro. Com as crianças, é hora de voltar à gênese, de recuperar o valor da palavra, da escuta, da história como espaço ficcional e do brincar como exercício de existência.

Nós sabemos muito pouco sobre o que podemos fazer diante desse cenário, mas podemos descobrir muito recuperando algumas ideias que vínhamos defendendo e que hoje, mais do que nunca, são expressões de defesa e de manutenção da nossa humanidade.

* Esse texto é a adaptação de uma apresentação realizada em 28 de março de 2020, no evento “Conectados por um fio invisível: vamos dialogar sobre educação no mundo?”, promovido pela Escola Thema Educando e pelo Encontros e Conexões.

 

Leia mais:

O lar como ambiente educativo em tempos de isolamento domiciliar

Muito além dos conteúdos: como as escolas educam para a vida?

 

Resumo

Paulo Fochi traz reflexões sobre os desafios de educadores, pais e crianças em honrar a educação infantil e a possibilidade de construir um fazer pedagógico mais acolhedor e que reforce o valor dos encontros, da vida e do humano.
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