O mundo em pandemia é como uma freada brusca

O isolamento social frente ao novo coronavírus nos impõe novas formas de ver e viver a vida, e poder repensar o mundo que queremos construir
quatro ccrianças esão rabiscando um papel pardo, e desenhando o planea terra, um satélite, um carro movido a energia elétrica, enfim, projeções positivas de futuro. iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 07.04.2020
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Se eu fosse uma criança dos dias de hoje, fatalmente seria diagnosticado com déficit de atenção e hiperatividade. Sempre muito agitado e destrambelhado, costumava deixar cair coisas, me batia nos móveis e não prestava muita atenção ao que os adultos falavam. Quando estava mais agitado que o normal, minha mãe me pegava pelos ombros, olhava nos meus olhos e dizia: “Senta, respira…”. Nessa época, meus avós moravam com a gente e minha avó, muito espirituosa, cantava uma antiga música de Roberto Carlos, que dizia assim: “Conte ao menos até três, se precisar conte outra vez”.

Nestes tempos de reclusão imposto pela pandemia, penso muito nisso. Parece que o mundo nos pegou pelos braços e disse: “Conte ao menos até três, se precisar conte outra vez”. Quando era adolescente, ao sinal de uma freada brusca do motorista do ônibus na volta da escola, nós, estudantes, gritávamos: “Ô, motorista, isso aqui não é caminhão de melancia não, pô!”. Era uma piada à expressão conhecida como freio de arrumação: quando o motorista dá uma freada para a carga se arrumar e abrir mais espaço.

Parece que a vida deu uma freada brusca e todos tivemos que nos rearrumar frente à nova situação

Precisamos adaptar a nossa relação com o trabalho, que ocupava tanto espaço em nossas vidas que não sobrava tempo para a família, para os amigos, para a nossa saúde e para nós mesmos. O caminhão freou e agora a gente se vê em casa sem contato com pessoas que pensávamos que estariam sempre ali, ao nosso lado. Não estão mais agora. E podem nunca mais estar, embora a gente prefira não pensar muito nisso.

Por outro lado, essa freada está nos dando oportunidades que nunca tivemos: a convivência diária com nossos filhos, nossas companheiras e companheiros, nossos vizinhos, nosso bairro, nossa cidade. Vejo surgir uma sensação de que, mesmo morando em capitais, voltamos a morar em cidades pequenas: todos atentos, cuidadosos, preocupados com o outro. Não apenas aquela preocupação opressiva dos tempos de pandemia, mas a preocupação com o bem-estar do outro, em reconhecer-se no outro neste momento de isolamento.

Vejo muitas ações tão legais, que antes eram inimagináveis, como diversos cursos on-line e gratuitos, pessoas fazendo compras para vizinhos idosos, artistas promovendo shows de suas próprias casas, professores dando aulas e tirando dúvidas de quem precisa, pessoas se oferecendo para conversar com aqueles que sentem no isolamento um sentimento de solidão.

Sobre a educação em tempos de pandemia, estou acompanhando um movimento muito interessante tanto por parte de pais, quanto de professores; pessoas conhecidas que volta e meia diziam que era fácil dar aula, hoje têm que conviver com horários de estudo de seus filhos e estão repensando sua opinião. Já houve gente que me escreveu “Como é que você consegue com 20 alunos?”. Respondo que, para muitos professores, as salas costumam ser de 40, 45 estudantes, ou mais. Por outro lado, recebo pedidos de ajuda de colegas professores sobre esta nova relação de aprendizado além da sala de aula. E digo: pergunte aos alunos! Veja o que eles querem saber e adeque seu conteúdo e seu esforço para atender a esta curiosidade. Todo mundo quer aprender. Mas pode ser que não queiram aprender o que você acha que tem de ensinar, da forma que você considera correta.

Dias atrás, recebi uma imagem da cidade de Veneza mostrando que as águas dos canais estão menos turvas e que os peixes estão voltando. Não me importa se é verdade ou não. O que importa é que a gente pode ver nisso tudo um grande desafio, mas também uma oportunidade de revermos nossas prioridades e ações.

Hoje mesmo, em uma de minhas conversas virtuais sobre a pandemia, ouvi de um amigo a seguinte frase: “Tomara que a gente volte logo ao normal.” Lembrei-me então de Veneza e seus canais e seus peixes, dos vizinhos idosos em suas portas dando bom dia para quem passa por ali, dos voluntários que saem às compras para os velhinhos próximos, de quem doa seu tempo, sua atenção, sua habilidade e até sua vida para diminuir o sofrimento dos outros. Então, respondi:

“Tomara que não voltemos àquela normalidade, porque foi aquela normalidade que nos trouxe a esta situação”

Que a gente tenha olhos para ver o que realmente importa e que não nos esqueçamos disso. Que a gente tenha oportunidade de recriar o mundo. Se não o planeta, o nosso mundo – aquele ao nosso redor e aquele que percebemos como mundo interno, pois é dele que vem a estabilidade necessária para nos fortalecermos nesta construção do mundo novo ou, pelo menos, para não cairmos em uma grande depressão. A pandemia nos exige uma visão de mundo mais ampla, vendo que é possível construir um futuro em que o paradigma econômico seja menos importante, ou até mesmo ultrapassado.

Feliz mundo novo!

*Fernando Leão, historiador, que atua na área da educação há 30 anos. É vice-presidente do Instituto Caminho do Meio e faz parte da Comunidade Ativadora do Programa Escolas Transformadoras desde 2015.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal Lunetas. 

Resumo

Com o isolamento social, estamos repensando nossas rotinas de trabalho e nossas relações com amigos, familiares, vizinhos e com nós mesmos. Estamos criando novas formas de conviver, de se comunicar, de se ajudar e também de educar nossos filhos para este novo mundo.
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