O que é e como funciona o esgotamento parental?

Nove em cada dez mães que trabalham relatam esgotamento, e a conta pesa mais para quem cria sem ninguém ao lado.

Ylanna Pires Publicado em 07.08.2026 Atualizado em 06.08.2026
Na imagem, uma mãe está deitada no sofá com a filha e o filho. Todos são negros e mantêm semblantes cansados. A imagem possui intervenções de rabiscos coloridos.

Resumo

A história de Zenaide Oliveira, mãe solo de uma criança autista, mostra os desafios do esgotamento parental. A reportagem ouve uma psicóloga e um psiquiatra sobre culpa, sobrecarga no cuidado e a importância de cuidar também de quem cuida.

Esta reportagem integra o especial de saúde mental do Lunetas em 2026, uma série que investiga o retrato da saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil e o que família, escola e comunidade sustentam nesse cuidado.

Zenaide Oliveira já criava dois filhos sozinha quando veio a terceira gestação. Assistente social, mulher negra, moradora da periferia de Fortaleza, ela tinha construído uma engenharia doméstica que funcionava mais ou menos bem até ali. Com o nascimento do caçula e, algum tempo depois, o diagnóstico de autismo, a rotina passou a pedir terapias, horários fixos e uma presença que não cabia em nenhum dia de 24 horas. “Pela primeira vez na vida, olhei ao meu redor e percebi que não tinha com quem dividir aquele peso.”

O corpo respondeu antes de ela conseguir nomear o que sentia. “Eu vivia num estado de alerta e exaustão tão profundo que mal conseguia respirar, mas achava que o problema era eu não estar sendo forte o suficiente.”

Entendendo o esgotamento parental

No caso de Zenaide, o silêncio tinha história e endereço. “Como mulher negra, nascida e criada na periferia de Fortaleza, eu cresci vendo as mulheres da minha família engolindo o choro e resolvendo tudo no peito e na raça”, conta. A formação em serviço social somou uma camada particular de armadilha, porque ela passou a vida estudando vulnerabilidade social, acreditando que isso a tornava imune. “Eu me convenci de que dar conta de tudo sozinha era o meu papel, meu dever, o preço de ser quem eu era.”

A imagem da mulher forte que aguenta tudo chega embrulhada como elogio e produz outro efeito: ninguém pergunta se está tudo bem. Quem vive uma maternidade atípica sente isso em dobro, porque as demandas do diagnóstico ocupam a agenda inteira, num país onde a desigualdade já define de saída quem terá com quem contar.

Um cansaço que o fim de semana não resolve

O psiquiatra Gustavo Estanislau recorre a uma comparação conhecida. “A gente tá aqui falando do esgotamento parental. Se a gente parar pra pensar, tem uma série de paralelos com o burnout, que a gente geralmente associa ao investimento que a gente faz no trabalho.” O começo costuma ser um cansaço que não melhora depois de dormir, com a sensação de estar à flor da pele. Depois entram a impaciência, as reações desproporcionais ao que acontece e a impressão constante de estar fazendo tudo mal. O corpo reage com dor de cabeça, dores musculares e noites picadas.

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Divulgação

O psiquiatra Gustavo Estanislau explica como o esgotamento parental afeta a saúde mental de pais e responsáveis e reforça a importância de cuidar também de quem cuida.

O sinal mais delicado aparece um pouco adiante. “Existe um distanciamento que pode ir surgindo com o tempo, um distanciamento dos filhos, uma sensação de desconexão que muitas vezes pode se associar a uma sensação de culpa”, descreve o psiquiatra.

Quem passa por isso costuma traduzir de forma mais crua: perdeu o prazer de fazer coisas que antes eram rotineiras. Reconhecer esse conjunto cedo encurta bastante o percurso, e a porta de entrada mais próxima costuma ser a UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro, que também acompanha adultos, ou o CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da região.

A régua que ninguém alcança

Parte do peso vem das tarefas em si, e a psicóloga Monalisa Nascimento dos Santos Barros faz questão de dizer isso antes de tudo. Cuidar de uma criança pequena envolve privação de sono, reorganização da rotina, mudanças de identidade e disponibilidade emocional constante. Sobre essa base assentou-se, nos últimos anos, uma camada nova. “As famílias são expostas a um volume enorme de informações, muitas vezes contraditórias, e à comparação permanente promovida pelas redes sociais. Isso cria a sensação de que qualquer escolha pode comprometer o desenvolvimento da criança.”

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Mari Penaforte

A psicóloga Monalisa Barros explica como o esgotamento parental pode gerar culpa, sobrecarga e exaustão, além de reforçar a importância de cuidar também de quem cuida.

A consequência foi uma inversão silenciosa de expectativa. “Em vez de pais suficientemente bons, conceito já consolidado pela psicologia do desenvolvimento, espera-se pais impecáveis”, diz Monalisa. A régua nova produz culpa, ansiedade e sentimento de inadequação, e desloca a origem do sofrimento. Muitas vezes ele não vem do trabalho de cuidar, e sim da crença de que é preciso acertar sempre, crença que se alimenta das frases que sobrecarregam quem materna e daquela ideia de maternidade perfeita que a timeline repõe todo dia.

A culpa entra pela porta do autocuidado

Estanislau observa que a cobrança tem destinatária preferencial. “Existe uma expectativa de que as mães se dediquem de forma incondicional aos filhos, como se tivessem que colocar a prioridade da vida neles. Então existe uma normalização do sofrimento.” Cuidar de si passa a soar como egoísmo justamente para quem mais precisaria disso.

Os números confirmam o desenho. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, as mulheres dedicaram, em 2022, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens. O Report Burnout Parental, produzido em 2024 pela plataforma B2Mamy em parceria com a Kiddle Pass e considerado o primeiro levantamento brasileiro dedicado ao tema, encontrou sinais de esgotamento moderado ou grave em nove de cada dez mães que trabalham no país, com taxa 2,5 vezes maior entre as mães solo.

“Você precisa existir como mulher”

A virada começou num serviço público. Zenaide procurou o CAPS perto de casa buscando socorro para o filho. “Eu cheguei lá destruída, focada apenas nas demandas do autismo dele, como se eu fosse só uma ferramenta para a criação dos meus filhos e não um ser humano.” Foi uma psicóloga do serviço quem parou a conversa e olhou para ela.

“Zenaide, não é normal a vida que você vem levando há tantos anos. Ser mãe de três filhos, sozinha, sem ajuda e sem descanso não é virtude, é violência. Você precisa construir uma rede de apoio para além do autismo do seu filho. Você precisa existir como mulher.”

“Aquilo me desmontou”, resume a assistente social. “Pela primeira vez na vida, alguém me deu permissão para soltar o fardo.” A psicóloga passou então a apresentá-la a outras mães da comunidade, em grupos que reuniam famílias de crianças atípicas e neurotípicas. “Ali eu entendi uma verdade libertadora: nenhuma mãe foi feita para maternar no isolamento. A necessidade de uma rede de apoio não é sobre o diagnóstico do filho, é sobre a saúde mental da mulher.”

Onde pedir ajuda no serviço público

UBC (Unidade Básica de Saúde). Porta de entrada do SUS (Sistema Único de Saúde) no bairro. A equipe de Saúde da Família acompanha adultos e crianças, avalia sofrimento psíquico e faz o encaminhamento para os serviços especializados. Não é preciso agendamento prévio na maioria das cidades.

CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Atendem sofrimento psíquico intenso ou persistente, de forma gratuita e sem necessidade de encaminhamento. O CAPS AD atende quadros ligados a álcool e outras drogas, e o CAPSi é voltado a crianças e adolescentes.

CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). O rienta famílias sobre benefícios, faz o Cadastro Único e oferece grupos de convivência, um apoio importante para quem cria sozinha ou tem filho com deficiência.

Clínicas-escola de universidades públicas. Oferecem psicoterapia gratuita ou a preço social, com supervisão docente. A inscrição costuma abrir por semestre.

Creche e pré-escola públicas. A matrícula é direito da criança e política de cuidado para a família, e é feita pela secretaria municipal de educação.

CVV (Centro de Valorização da Vida). Oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, por chat e por e-mail, 24 horas por dia, todos os dias.

A aldeia não é metáfora

A psicóloga Monalisa Nascimento dos Santos cita um provérbio africano para explicar o que a literatura vem confirmando. “É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança.” Redes de apoio reduzem estresse e oferecem três tipos de ajuda ao mesmo tempo: prática, emocional e informacional. Quando somem, pelo isolamento das cidades ou pela distância da família, tudo recai sobre uma ou duas pessoas. “E nenhuma pessoa consegue sustentar, sozinha e por muito tempo, todas as demandas do cuidado.” Some junto a chance de a criança crescer numa comunidade que também cuida dela.

Montar essa aldeia começa por um inventário sem glamour de quem já está por perto. Vizinhas que buscam na escola, avós que ficam uma tarde, outras famílias da mesma turma, colegas que trocam horário. Grupos de mães e pais completam o desenho, e o Lunetas reuniu 11 coletivos que apoiam mães solo pelo país. Para quem não tem roda por perto, até espaços de desabafo pela escrita cumprem parte do papel.

Vale reparar nos nomes que costumam preencher essa lista. Avó, tia, irmã mais velha, madrinha, vizinha, a mãe de outra criança da turma. A rede que socorre uma mulher exausta é feita, quase sempre, de outras mulheres, sem remuneração e muitas vezes às custas do próprio descanso delas, o que repõe dentro da solidariedade a mesma divisão que criou o problema. Monalisa descreve o efeito desse arranjo nas duas pontas. Para as mulheres, sobrecarga física e emocional, maior risco de adoecimento mental, interrupções na carreira e pouco espaço para cuidar de si. Para os homens, a perda de oportunidades preciosas de construir vínculo desde os primeiros dias de vida do bebê.

“O cuidado é um trabalho essencial para a sociedade, mas ainda é invisibilizado e distribuído de forma desigual”, resume a psicóloga. Sair desse desenho depende de os homens entrarem na conta do cuidado cotidiano, movimento que ela trata como questão de política pública, e não como combinado doméstico, e que passa por nomear o que o silêncio ensinado aos meninos cobra mais tarde, quando eles se tornam pais sem repertório para ocupar esse lugar.

Dentro de casa, o mesmo princípio vale para combinados concretos de divisão de tarefas, incluindo a carga invisível de lembrar, organizar e agendar.

Do outro lado da sala de aula

A rede de uma criança não termina na porta de casa, e o desgaste aparece do lado de lá também. Pesquisa do Instituto Península mostrou que 84% dos professores brasileiros se sentiam emocionalmente exaustos. São profissionais que ensinam, mediam conflitos e percebem sinais de sofrimento em turmas cheias, quase sempre sem apoio para lidar com o que enxergam. O adoecimento docente reduz a chance de a escola funcionar como ponto de apoio para as famílias, e cuidar de quem está na sala faz parte da mesma conversa.

Vinte dias que começam a mudar a conta

A divisão do cuidado entre homens e mulheres começou a se mexer no papel. Sancionada em março de 2026, a Lei 15.371 amplia a licença-paternidade dos atuais cinco dias para 20, de forma escalonada, com dez dias a partir de 2027, quinze em 2028 e vinte em 2029. A norma cria ainda o salário-paternidade, estende o direito a trabalhadores fora do emprego formal e amplia em um terço o período quando a criança tem deficiência.

Para Monalisa, a medida ultrapassa o benefício trabalhista. “Ampliar a licença-paternidade não é um benefício apenas para os homens. É uma política de saúde pública, de promoção da igualdade de gênero e de proteção ao desenvolvimento infantil.” Crianças se beneficiam de vínculos seguros com mais de um cuidador, e a lei coloca no calendário aquilo que grupos de pais vinham reivindicando em várias cidades.

A psicóloga sugere ainda inverter a pergunta que organiza o debate. “Em vez de perguntar por que essas mães não conseguem pedir ajuda, deveríamos perguntar por que a sociedade espera que elas consigam dar conta de tudo sozinhas.” A resposta que defende combina creches, atenção primária, licenças equitativas e redes comunitárias, um conjunto de políticas públicas que avança de forma desigual e passa pelo acesso a uma educação infantil de qualidade.

O que a criança ganha quando o adulto descansa?

O argumento mais convincente vem do lado das crianças. Um adulto que cuida da própria saúde emocional fica mais disponível, mais seguro e, sobretudo, mais previsível, explica Estanislau.

“Um adulto muito instável é um fator de risco muito grande pra que a criança desenvolva estresse ou ansiedade, porque ela não sabe o que vai acontecer logo depois. Por outro lado, uma pessoa que está se cuidando tende a ser previsível. Essa previsibilidade traz tranquilidade e também pode ajudar essa criança a regular melhor as emoções.” O descanso de quem cuida entra, por esse caminho, na mesma prateleira do desenvolvimento infantil e da escuta dentro de casa.

Zenaide segue montando a dela devagar, trocando favores com vizinhas, participando de coletivos, dividindo dores e vitórias. “Eu passei a construir essa rede tijolo por tijolo. O autismo do meu caçula foi a porta que se abriu para eu aprender a me cuidar e a entender que eu não preciso, nunca mais, carregar o mundo nas costas sozinha.”

Para continuar a conversa em casa

Seis leituras que ajudam mães, pais e cuidadores a entender o que acontece com a própria saúde mental quando uma criança chega, cresce e entra na adolescência:

  • “Manifesto antimaternalista: psicanálise e políticas da reprodução”, de Vera Iaconelli (Zahar, 2023). A psicanalista desmonta a crença de que a mulher é insubstituível no cuidado e mostra o custo político dessa ideia;
  • “Criar filhos no século XXI”, de Vera Iaconelli (Contexto). Trata de limites, sofrimento e mundo digital em pouco mais de 100 páginas, com um capítulo dedicado à adolescência na edição mais recente;
  • “Educação não violenta”, de Elisama Santos (Paz e Terra, 2019). Liga o estado emocional do adulto ao jeito como ele responde à criança, a partir de cenas domésticas comuns;
  • “Por que gritamos”, de Elisama Santos (Paz e Terra, 2020). Parte do grito, aquela cena que quase toda casa conhece, para falar de cansaço, gatilhos e reparação;
  • “Chora lombar: maternidade na real”, de Thaiz Leão (Garabato). Quadrinhos que fogem da idealização e nomeiam com humor o que costuma ser engolido;
  • “Papai é pop”, de Marcos Piangers (Belas Letras). Crônicas sobre paternidade presente, úteis para abrir conversa entre pais que ainda não se sentem convidados ao cuidado.

O Lunetas mantém listas maiores, com 16 livros sobre maternidade e 15 livros sobre paternidade.

Adultos com pensamentos de acabar com a própria vida podem ligar gratuitamente para o Centro de Valorização da Vida (CVV), no 188, ou acessar cvv.org.br, com atendimento 24 horas por dia.

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