Como mudar discursos que sobrecarregam mulheres na maternidade?

Falas machistas que oprimem as mães a padrões inatingíveis se enfraquecem à medida que se entende o cuidado de uma criança como responsabilidade compartilhada

Michele Bravos Publicado em 06.05.2024
Imagem de capa para matéria que discute algumas frases sobre maternidade mostra uma mulher branca, de cabelos presos, sentada com um bebê pequeno no colo e beijando a cabeça da criança.
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Resumo

Para especialistas ouvidos por Lunetas, tornar a maternidade uma vivência mais comunitária e menos solitária pode ajudar a desconstruir discursos que sobrecarregam as mães por apontá-las como as únicas ou principais responsáveis pelo cuidado de uma criança.

“Você não é uma mãe de verdade se não amamentar!”. “A mãe sabe cuidar melhor do que o pai”. Frases como essa estão enraizadas numa ideia de maternidade centrada no corpo da mulher, que gesta e é capaz de amamentar. Assim, questões biológicas se tornam justificativas para colocar na mãe mais – ou todas – as responsabilidades sobre uma criança. É o que diz a psicóloga Fernanda Lopes, também criadora da Semana de Apoio à Amamentação Negra.

“Ao traçar essa relação entre o corpo da mulher e uma ideia de cuidado instintivo, cria-se uma armadilha para as mulheres. Não podemos acreditar que a mãe é a única pessoa que sabe cuidar da criança.”

Para a socióloga e doula Dani Rosa, as expectativas sobre determinados comportamentos que a figura materna deve ter influenciam a ideia que se tem sobre maternidade. Por exemplo, ao esperar que cozinhar para a criança ou lavar a sua roupa, dizem respeito mais às mulheres do que aos homens. Ou, ainda, de que o fato de uma pessoa ter nascido mulher a torna automaticamente apta a ser mãe — como se não fosse necessário aprender esse papel.

Para Fernanda, associar toda atitude de cuidado com a ideia de maternidade ou mãe pode reforçar discursos que sobrecarregam as mulheres. Mas, quando eles são o padrão, encontrar e construir espaços de acolhimento pode não ser tarefa simples, embora necessária. 

Enquanto a mãe for vista como a única responsável pela criança, os julgamentos sociais estarão voltados para ela”, comenta Dani. Segundo a socióloga, esse julgamento pode vir inclusive de outras mulheres que estão reproduzindo falas machistas e opressoras, e, por vezes, nem percebem.

“Você não quer ser mãe? Que egoísta!”

“Na aldeia, todos cuidam das crianças”, diz Márcia Kambeba, mulher indígena, escritora e mãe do Carlinhos, um adolescente autista. “Entre as mulheres Kambeba, cada uma vive a maternidade à sua maneira, mas somos mães de todas as crianças. Há acolhimento.”

Ao contrário de uma ideia de comunidade, “o modelo de maternidade centrado na mulher que se tornou mãe é adoecedor e insustentável”, afirma a psicóloga Fernanda Lopes. “Penso que é isso um dos motivos que tem levado tantas mulheres a não querer ter filhos.” 

Como sugere a socióloga Dani Rosa, para que a maternidade seja menos solitária, “em vez de perguntar, naturalmente, ‘cadê a mãe dessa criança?‘, precisamos pensar duas vezes. Então, perguntar também pelos pais, pela outra pessoa da dupla, pelo adulto cuidador e também se ver como responsável pela criança em alguma medida.” Segundo ela, as mães também precisam estar dispostas a abrir mão de serem vistas como aquelas que tudo sabem sobre seus filhos.

Para Fernanda, trata-se de um “abrir mão de certa vaidade” que as mães têm ao serem vistas assim. “Para que os discursos sobre a maternidade mudem, nós mães vamos precisar começar a dizer mais ‘eu não sei’, ‘eu erro também’, assim como assimilar que a filha/o fica bem com outros adultos”.

Ou seja, quando a mulher tem toda a sua vida orientada pela maternidade, falas que valorizam o seu cuidado com a criança podem soar como elogios à sua própria identidade. Assim, pode não haver espaço para questionar o quanto aquela fala, na verdade, pode estar romantizando uma sobrecarga de responsabilidades sobre a mulher.

Para aprofundar

No podcast “As economistAs”, Vera Iaconelli fala sobre seu livro “Manifesto Antimaternalista: Psicanálise e políticas da reprodução”. A psicanalista e estudiosa da parentalidade desconstrói a ideia do maternalismo que define as mulheres apenas pelo seu papel materno, apontando a queda na taxa de fecundidade como evidência da insustentabilidade da maternidade hoje em dia. Para algumas, não querer ser mãe é um desejo de seguir a vida sem essa experiência; para outras, significa que não querem viver uma maternidade solitária e cheia de cobranças sobre a mãe. O livro ainda aborda a importância de compartilhar o cuidado e de criar políticas públicas que reconheçam o trabalho do cuidar.

“Se você não fizer X ou Y, você não é uma boa mãe”

De acordo com a socióloga e doula Dani Rosa, existe uma luta inglória na busca por um padrão de ser mãe. “Tem padrão de comportamento, de estética, de orientação sexual, tem padrão de tudo. Mas, a verdade é que esse padrão não existe”. Assim, ela reforça o quanto a experiência da maternidade pode ser mais difícil, por exemplo, para mulheres negras, que recebem menos analgesia no parto por serem consideradas mais fortes; ou para mães numa relação homoafetiva, consideradas promíscuas e, portanto, maus exemplos; ou ainda para mães atípicas, que costumam ser vistas de um lugar de pena.

Dentre os discursos opressores sobre a maternidade, algumas falas são repetições de estigmas sobre a figura da mulher que, agora, é também mãe. Amanda Ronconi, uma mulher com deficiência, mãe da Julia, e gerente em uma empresa de tecnologia, conta que por ser uma mulher PCD, inúmeras vezes precisou lidar com uma suposta preocupação das outras pessoas sobre a sua condição física, desacreditando que ela daria conta de exercer os cuidados que sua filha precisa. 

Para se preservar da enxurrada de mensagens que a todo tempo ditam o padrão adequado de ser mãe ou de viver a maternidade, Amanda deixou de seguir páginas nas redes sociais lotadas de “tem que”. “As pessoas têm conselhos sobre tudo e isso pode ser um tormento. A mãe não é uma máquina, é um ser humano.” 

Amanda percebe que é preciso ser muito intencional para ir contra um fluxo que o tempo todo afirma que a prioridade de uma mãe deve ser o filho, a filha, e que se colocar em primeiro lugar é errado. Portanto, ela tenta criar o seu próprio jeito de ser mãe e ser fiel a ele.

Para isso, reconhece que pode precisar que algum pratinho caia. Assim, em vez de passar “24 horas estressada e gritando sem parar”, ela prefere “2 horas de cabeça aliviada, podendo brincar com a minha filha e educá-la com o respeito que ela merece”.

“Na maternidade real que eu tento viver, você só pode ser uma boa mãe quando você é uma boa pessoa para si mesma.”

Para diversificar

Em um bate-papo sobre a experiência da maternidade, as melhores amigas Julia Faria e Thaila Ayala, apresentadoras do podcast “Mileumatretas”, conversam com diferentes convidadas a cada episódio, explorando abertamente as alegrias, os desafios e as novas descobertas dessa jornada que é ser mãe. Assim, ajudam a atualizar o que se entende por maternidade e cuidado de uma criança.

“Se você realmente se importasse com seus filhos, abriria mão de sua carreira”

As mães também têm necessidades (das mais básicas às de autorrealização) que precisam ser atendidas. No entanto, essa ideia, por mais óbvia que seja, não cabe no modelo atual de maternidade que, em geral, “é de entrega abnegada à criação dos filhos”, diz Dani. 

Desde a gestação, Márcia decidiu conciliar a maternidade com sua vida acadêmica e profissional. Ao se reconhecer uma mãe atípica de um menino autista, “um novo mundo se abriu, mas a vida continuou”. “Não deixei de viver a infância do meu filho, mas tentei me respeitar como mulher. Sempre corri atrás dos meus objetivos e meu filho nunca foi empecilho para isso. Pelo contrário, ele é meu parceiro. Já até ilustrou um de meus livros”, diz. Hoje, ela precisa administrar ainda uma agenda de palestras como escritora e o doutorado.

Para Amanda Ronconi, a maternidade também não mudou a importância que sempre atribuiu à vida profissional. Prestes a sair de licença-maternidade por sete meses, ela falou para o chefe que não queria perder a posição que ocupava na empresa. “Ele garantiu minha posição e, no meu retorno, eu logo fui promovida”. Apesar de reconhecer que a empresa em que trabalha tem uma política interna favorável para as mulheres, ter comunicado o que queria foi fundamental.

“É importante a mulher verbalizar o que ela espera da sua vida, pois a sociedade pode achar que ela espera outra coisa”

“Ser mãe é padecer no paraíso”

Amanda conta que logo após ter dado à luz a sua filha, seu pai (avô de Julia) adoeceu muito. “Foi um momento emocionalmente muito difícil para mim. Um dia, percebi que ele não me reconhecia mais. Depois disso, não tive mais leite. Eu oferecia o peito para a minha filha, mas ele estava seco. Eu chorava de culpa porque não conseguia amamentá-la”. Dias depois, seu pai faleceu e, ainda sem conseguir amamentar, ela compartilhou numa rede social o que estava vivendo, mas nem todos a acolheram.

“Ao ler a minha história sobre aquele momento de dor, uma pessoa me disse: traumas emocionais não secam leite.”

A partir da experiência como doula, a socióloga Dani Rosa conta que já atendeu uma gestante que foi dispensada do pré-natal porque falava demais, opinava demais, perguntava demais. “Uma postura assim é o mesmo que dizer que aquela mulher não tem direito a ter agência sobre o próprio corpo. Isso tem que mudar.”

“Minha mãe nasceu em 1939. Mesmo sem acesso a esse debate sobre a maternidade, ela conheceu o sentimento provocado por discursos que oprimem as mulheres. É  importante que sejamos uma geração que fala sobre o que nos incomoda.”

Para se conectar

O episódio “Antimanual da maternidade”, do podcast “Mamilos”, traz uma conversa acolhedora sobre maternidade, abordando a questão da culpa que muitas mães enfrentam e destacando a importância de conversas empáticas para superá-la.

Como tornar a maternidade mais compartilhada?

Para promover uma cultura de cuidado coletivo, além de mudar atitudes cotidianas, é preciso questionar os discursos tradicionais que sobrecarregam as mães. Afinal, como diz Lopes, “a criação de mundos em que a maternidade não seja um espaço tão pesado depende de todos nós”. Outras ações envolvem:

  • Grupo de famílias na escola: Que tal sugerir que a escola tenha grupos de famílias em vez de só de mães? Assim, todos os tipos de famílias podem participar, incluindo as que têm dois pais, e também outros familiares responsáveis pela criança se sentirão bem-vindos.
  • Pais presentes: Quando a escola precisar falar sobre a criança, sugira que também entre em contato com o pai, não só com a mãe. Combine com o pai para dividir as responsabilidades das reuniões escolares, para que ambos possam participar igualmente.
  • Respeito às escolhas das mães: Não julgue as escolhas das mães. Cada uma sabe o que é melhor para ela e para sua família. Não há um jeito certo de ser mãe, então é importante respeitar as decisões de cada uma.
  • Equilibrando trabalho e família: Apoie arranjos familiares ainda pouco comuns, como pais que trabalham meio período para passar mais tempo com os filhos e mães que dedicam mais horas às suas carreiras.
  • Apoio multidimensional: Além do SUS, existe uma rede pública com centros de referência de assistência social com serviços que ajudam a tornar a maternidade mais leve. Assim, as mães podem receber apoio de profissionais especializados, em diferentes áreas, como consulta com psicólogos e orientação profissional, por exemplo.

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