A revolução da paternidade passa pelo pai-homem que queremos ser

A transformação da paternidade distante e fria à íntima e acolhedora é digna de comemoração, mas a humildade deve marcar o compasso desse hino revolucionário
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 30.06.2021
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Ouvi de respeitada (e amada) psicanalista, no período de celebração do Dia das Mães do mês passado, que “a maternidade é uma atividade muito grande para deixar na mão de uma mulher só”. Aquilo ficou reverberando até hoje.

Sendo eu um homem que vive, pensa e reflete sobre a paternidade com certa frequência, às vezes, tento traçar paralelos com a vivência de pai e, quem sabe, encontrar conexões que me permitam pensar numa visão de parentalidade a futuro – onde o cuidado dos filhos independe do gênero do cuidador – ou possíveis bloqueios – em que o processo cultural sobre paternidade e maternidade incidiu com pesos e violências tão diferentes, que a reconciliação pode tardar um pouco mais e vai exigir esforços proporcionais ao tamanho do cânion gerado por séculos de distanciamento erosivo.

“A paternidade é uma atividade muito grande para deixar na mão de um homem só” era uma frase que, de início, me parecia promissora. Pouco tempo depois, percebi que a frase já partia de um problema inicial. 

A paternidade, depois de que foi descoberta e posteriormente inventada, tornou-se um dos pilares essenciais da norma seguida pelas comunidades.

Passamos a extinguir o direito materno, em que as linhagens de filhos tinham na figura da mãe a representação da ancestralidade, para instaurar o direito paterno, em que seria o pai e seu sobrenome que determinariam o lugar social de um filho. 

Definimos que um dos elementos mais importantes para vida digna de um filho em um grupo humano seria o reconhecimento como filho legítimo de um homem e assumimos de vez o topo da hierarquia, controlando, subordinando e fazendo cumprir a lei, escrita e moral, desde a figura paterna, dando início a uma longa jornada que constituiria um sistema social conhecido como patriarcado. 

A paternidade, assim, faz um tempo que não depende de um homem só. É uma raridade que o cuidador principal seja um pai: são mais de 5 milhões de filhos que não têm pai na certidão de nascimento e outros tantos que contam com um pai acessório, eventual e episódico que mal divide o cuidado da prole com essa mãe – que fica sozinha, em muitas ocasiões, ao longo do percurso histórico. 

A paternidade hoje se insere dentro de uma tradição que costumo chamar de protocolo PPP: Procriar, Proteger e Prover – os três pilares de uma paternidade tida como responsável. É claro que estamos vivendo uma fase de ajuste cultural, que levou esse homem, por uma série de fatores que não cabem aqui – mas que se desprendem de um arranjo tão variado como a ocupação da vida pública por parte da mulher e o reconhecimento e a celebração de uma vida mais rica emocionalmente -, a se ocupar mais ativamente do cuidado quotidiano dos filhos.

É inegável que avanços têm ocorrido. Basta ver a mudança no tom do elemento mais sintomático do espírito do tempo atual: a publicidade. As pautas de paternidade, cuidado masculino, sensibilidade e vulnerabilidade do homem estão devidamente apropriadas e sequestradas pelo capital. A figura do pai cuidadoso e presente na vida dos seus filhos é usada para vender mais carros, cervejas, remédios para a dor e produtos de beleza. 

Os grupos de discussão de pais pululam, o número de homens nas consultas de pré-natal aumenta, assim como a sua participação nas reuniões da escola e nas visitas ao pronto-socorro. Um fenômeno inquietante, positivo, algo ilusório e um tanto problemático… mas interessante, afinal. 

O momento social resgata a figura do pai e devemos celebrar, com prudência.

E este homem? Este homem que está ali, vivendo essa explosão de possibilidades? Como está chegando tudo isto para o homem-pai, indivíduo, que serve exposto a tal momento de virada?

Não raro, nos grupos de homens que acompanho, a sensação é de regozijo. Homens que estão colhendo os frutos dessas suas novas interações, que se maravilham com as possibilidades, que se autoafirmam dentro de uma lógica de cuidado e embandeiram novas agendas mais inclusivas, diversas e potentes.

Entretanto, muitos deles estão, ao mesmo tempo, sentindo uma angústia difícil de nomear, um cansaço que toma conta e se espalha, deixando as coisas menos gratificantes e um tanto nebulosas. O que está acontecendo com esses homens? Eu tenho uma teoria. 

Acredito que a paternidade vem sendo ampla e extensiva desde que, com a invenção da agricultura, passamos a dividir os gêneros entre dominante e dominado. Porém, a paternidade não é apenas uma função social. Na minha forma de ver as coisas, a paternidade se desempenha em três níveis essenciais: um nível social, um nível familiar ou comunitário e um nível individual. 

A paternidade social conhecemos bem. A figura do pai, ora como juiz, ora como deus, é bem conhecida. Nossas leis, códigos sociais, regras de interação e tudo mais foram definidas e criadas por homens, apontando os comportamentos desejados que seriam promovidos e as atitudes desviadas que deveriam ser punidas e eliminadas. 

Há um segundo nível que espelhava toda essa ordem social para dentro do núcleo familiar, ou, mais antigamente, no âmbito comunitário. Era a figura de um homem (pai) que fazia as vezes de juiz (espere seu pai chegar pra você ver) ou de deus (devemos temer o pai e atender às suas vontades) e controlava um microbando, usando os mesmos argumentos encontrados no controle social. 

A questão central da mudança social e da revolução paterna marcada pelo século 20 está, justamente, no terceiro nível desse triângulo da paternidade humana e que justamente foi o elemento suprimido durante mais de 5 mil anos de convívio entre pais e filhos: o nível individual. 

Hoje, os pais estão ali, como indivíduos. Indivíduos com os quais é possível ter uma relação. Indivíduos presentes, com outras intimidades e aberturas para seus filhos, outrora seres desconhecidos e anulados sob camadas de controle e procedimento. 

Já não é o homem-pai e sim o pai-homem que entra em cena para capitanear uma verdadeira revolução.

Um cara, ali, com suas contradições e devaneios, é chamado a transformar os milênios de distância e frialdade em intimidade e relacionamento. Essa busca é digna de comemoração, mas, como mencionado acima, a prudência, a humildade e o olhar curto devem marcar o compasso do hino revolucionário. 

Sim, queremos pais com mais intimidade com os filhos em todas as redes sociais, mas também queremos homens que cuidem bem das toalhas deles quando ninguém está olhando. Queremos pais que se permitam uma expressão emocional mais sadia, mas também homens que saibam cuidar de uma febre, de uma tosse ou de um machucado. Queremos pais que eduquem seus filhos na diversidade, mas que não se esqueçam de verificar a gaveta de cuequinhas ou calcinhas e ver se há em número suficiente. Queremos homens que recriem a história e pais que leiam histórias na penumbra de um quartinho. 

Queremos pais que saibam pedir desculpas, que saibam aconselhar, mudar o rumo, dar colo, risada, bronca e orientação sem recorrer à violência e ao escárnio ao mesmo tempo que precisamos de homens que saibam onde estão os panos de chão, o nível dos mantimentos, o preparo dos alimentos e os desafios escolares. 

A revolução da paternidade passa por um movimento de desocupação do poder e ocupação do lar. É isso que devemos almejar.

* Leonardo Piamonte é pai de três meninos, psicólogo da Fundación Universitária Konrad Lorenz, em Bogotá (Colômbia), e trabalha hoje com questões da parentalidade, paternidade e masculinidade. Realiza rodas de conversa voltadas para homens, coordena grupos de estudos, foi um dos criadores do grupo Paternando (iniciativa virtual que desde 2014 acolhe pais em busca de novos caminhos), participou do documentário “O Silêncio dos Homens” e do podcast Balaio de Pais, é co-criador do Projeto Juntos e é colaborador ocasional do site Papo de Homem, além de ser psicólogo responsável pelas iniciativas de paternidade no Espaço Mãe, em São Paulo, e coordenador da página Psicologia da Paternidade no Instagram e no YouTube.

*Este texto é de exclusiva responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Lunetas

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Resumo

O psicólogo Leonardo Piamonte reflete sobre as mudanças que o sentido da paternidade sofreu ao longo dos tempos e sobre a paternidade que estamos construindo. "Já não é o homem-pai e sim o pai-homem que entra em cena para capitanear uma verdadeira revolução."
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