“Quero alisar meu cabelo”: como acolher sem ignorar o racismo

É preciso entender se este desejo está mais atrelado a uma vontade esporádica de mudar o visual ou de se encaixar a um ‘padrão estético branco’

Vanessa Fajardo Publicado em 15.06.2026 Atualizado em 16.06.2026
Mulher e criança se abraçam. Ambas são negras e de cabelos cacheados. A matéria trata de alisar o cabelo na infância.

Resumo

Pressão estética que valoriza um ‘padrão branco’ afeta meninas que querem alisar os cabelos crespos e cacheados. Nesta reportagem contamos que esta pode ser uma oportunidade para conversar sobre identidade racial.

O pedido de Alicia, filha mais velha da atriz Samara Felippo, para alisar o cabelo aos 7 anos, há quase dez, acendeu um alerta para ela. O episódio levou Samara, uma mulher branca, a buscar letramento racial para entender como o racismo estrutural e recreativo molda a percepção que suas filhas, meninas negras, tinham de si.

Nesse processo, ela notou outra ausência: a de representatividade. Além das amigas serem todas brancas de cabelos lisos, não havia meninas negras nas caixas dos jogos, nos livros, na televisão, nos filmes. Para ocupar esse espaço, à época, ela chegou a criar um canal no YouTube chamado Muito Além dos Cachos, para discutir o tema e se aproximar do universo de mulheres negras, referências em diferentes áreas, além de outras mães.

“Isso é o básico de quem ama e cuida, mas a gente precisa estar enaltecendo o tempo todo as crianças pretas dizendo que elas são pertencentes que têm um cabelo maravilhoso que precisa ser cuidado e amado”, diz. Mesmo assim, ainda hoje, apesar de as meninas “amarem seus cabelos e sua identidade”, às vezes, sentem o reflexo de um padrão estético que valoriza os fios lisos.

O impacto dos padrões de beleza na infância

Recentemente, a filha caçula de Samara, Lara, de 13 anos, pediu para fazer uma escova para ter a experiência de um cabelo liso e sentir que ele está “normal” (palavra usada pela garota). Embora uma escova sem química vá fazer Lara ter o cabelo liso temporariamente, já que os cachos voltam depois de uma simples lavagem, Samara quis entender o porquê dessa vontade.

“Mesmo eu sendo uma mãe que fui mostrar representatividade para elas, que cuido dos cabelos delas, levo cremes, mesmo assim minha filha ainda cai nesse lugar de querer se encaixar no que é padrão.” Para Samara, por mais que ela empodere as meninas, enaltecendo seus cabelos, “em algum momento a sociedade vai dizer para elas que eles não são ‘normais’.”

Por isso, a atriz é uma voz antirracista contudente. “Falar sobre cabelos, bocas, narizes de pessoas negras é uma forma de ser racista, é preciso reconhecer todos esses ataques de injúria racial e racismo. Eles existem, devem ser denunciados e combatidos.”

Sem alisamento depois de quase 20 anos

Foi inspirada pela filha Eloisa, que na época ainda era bebê e hoje tem 15 anos, que Katia Teófilo decidiu fazer o caminho inverso ao que havia seguido durante boa parte da vida. Mulher negra, ela abandonou o alisamento dos cabelos crespos, prática que a acompanhou por quase duas décadas para ser exemplo.

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Kátia Teófilo. Foto: Marcella Baldassari Cocconi.

Antes disso, ela chegou a imaginar que teria com a filha a mesma conversa que marcou sua própria infância: a de que só poderia alisar os cabelos crespos após a primeira menstruação. Mas essa conversa nunca aconteceu. Eloisa nunca quis ter um cabelo diferente.

A transformação vivida por Katia, entretanto, foi além da esfera pessoal. Quando iniciou a transição capilar, há cerca de 15 anos, percebeu a dificuldade de encontrar profissionais especializados em cabelos crespos e cacheados. O desafio revelou uma oportunidade de negócio. Ela abriu o próprio salão e, desde então, ajuda outras pessoas a conhecer, cuidar e valorizar seus cabelos naturais.

‘Por que você quer alisar, acha feio, não se sente bem?’

A cabeleireira diz que é raro receber clientes que querem alisar os cabelos – até porque ela não faz esse procedimento no salão -, mas quando acontece sua primeira atitude é “escutar sem julgar.” “É preciso trazer algumas perguntas como: por que você quer alisar o cabelo? Você não se sente bem com ele? Acha feio? Com essas respostas é possível direcionar o que fazer”, conta Katia.

Se o desejo de alisar for pela vontade de ter um “visual diferente”, Katia pode propor tranças – penteado que sua filha também gosta. “Nem toda vontade de alisar o cabelo vem da consequência de um racismo. Comigo foi, mas acho que a geração de hoje é muito mais preparada para lidar com o diferente do que a passada.”

Katia alisou os cabelos dos 12 aos 31 anos porque queria se encaixar em um “padrão que entendia que era bonito”. Hoje com informação e autoconhecimento entende que além de tudo os produtos químicos nos cabelos fazem mal à saúde.

Por isso, se o pedido pelo alisamento for por questões ligadas à identidade e à autoestima, porque a pessoa não se sente bem com seus cachos, ela aposta no “empoderamento”. A conversa passa por pertencimento racial e padrões de beleza que historicamente desvalorizam traços da população negra. “Falo muito que eu não voltei com meu cabelo natural porque eu aprendi a amar meus cachos, mas sim porque aprendi que nunca deveria ter rejeitado esse cabelo. Hoje consigo entender dessa forma.”

Pressão social x permissividade

Katia observa que muitos cuidadores, pressionados pela rotina ou receosos de frustrar os filhos, acabam adotando uma postura mais permissiva e permitindo que crianças, ainda pequenas, alisem os cabelos. Ela avalia que ceder ao pedido sem reflexão pode impedir discussões importantes sobre racismo e autoaceitação.

Mesmo com mais consciência sobre a beleza dos cabelos naturais e a crescente disponibilidade de produtos e profissionais especializados para cachos, manter as madeixas sem alisamento ainda é resistência em muitos lugares. A pesquisa “Cabelos Sem Limites, Como Nós”, realizada pelo Instituto Sumaúma e pela agência RPretas em parceria com a Seda, em 2024, com 1.001 mulheres negras. Quase 70% das entrevistadas afirmaram sentir pressão social para alisar os cabelos.

Na experiência de Katia, muitas meninas que alisam os cabelos na infância ou adolescência acabam, mais tarde, buscando retomar os fios naturais. Esse processo, porém, é mais difícil durante a adolescência, fase em que a aparência e a autoimagem têm peso nas relações sociais e na identidade.

‘Denunciar o tempo inteiro’

Alicia e Lara, as filhas de Samara, nunca alisaram os cabelos. Mas na busca por conhecimento, a atriz conheceu outras mães que adotavam esse procedimento. Se antes ela automaticamente julgava essas mulheres, passou a compreender que o alisamento reflete dores profundas do racismo vividas na infância e na adolescência.

Por isso, Samara diz que embora a sociedade tenha evoluído, ainda é preciso falar e denunciar o racismo: “É lutar, denunciar o tempo inteiro, bater na mesma tecla, para que a Lei seja aplicada, racismo é crime.” Além disso, a atriz reforça que esta deve ser uma causa de todos, não é preciso ser negro ou ter familiares negros para lutar. “Nunca terei lugar de fala, mas eu posso me juntar à causa, falar sobre e denunciar sempre.”

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