Período entre a gestação e os 2 primeiros anos de vida da criança concentra etapa-chave do desenvolvimento infantil
Os 1.000 primeiros dias do bebê, iniciados a partir da gestação, possuem uma série de oportunidades para potencializar o desenvolvimento e criar vínculo. Publicação lançada por Daniel Becker e Rita Lisauskas aborda o tema e funciona como guia para as famílias.
Assim que o teste de farmácia aponta dois riscos e a gravidez é confirmada pelo exame de sangue beta HCG, começa uma jornada intensa marcada por emoções, descobertas, dúvidas, oscilações hormonais, além de uma enxurrada de informações – e, sim, palpites.
Mas entre as orientações médicas, buscas na internet e mudanças no corpo tem início também a contagem de um período decisivo: os 1.000 primeiros dias do bebê, que vão da gestação até os dois anos de vida. É nessa etapa que se estabelecem bases fundamentais e oportunidades para potencializar o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional da criança que vão se arrastar para a vida toda, mas muitas vezes ainda são pouco conhecidas e até negligenciadas.
Para ajudar pais, mães e cuidadores de modo geral, a jornalista Rita Lisauskas e o pediatra Daniel Becker lançaram o livro “Os 1000 dias do bebê: Um guia para a jornada mais importante da vida de nossos filhos, dos primeiros momentos da gestação aos primeiros anos da infância”, para servir como uma espécie de enciclopédia que conversa com as famílias.
“O livro não é determinista, e não define se a pessoa não prestar atenção nisso ou naquilo nesses 1.000 dias vai dar tudo errado. Mas queremos que elas enxerguem esse período como uma oportunidade de oferecer tudo de melhor para a criança porque é um período de ouro”, diz Rita.
Rita é mãe de um adolescente de 16 anos e ela diz se sentir grata por poder acumular experiências e “tropeços” em sua maternidade que possam ser compartilhados para ajudar outras famílias. “Me sinto privilegiada de poder escrever e ser lida e ser como uma irmã mais velha falando. São coisas que eu aprendi nesse caminho que eu queria que as pessoas tivessem me contado.”
A partir da entrevista com Rita Lisauskas, jornalista especialista em maternidade e com a pediatra Evelin Pontes, integrante do Núcleo de Saúde Mental da Sociedade Paulista de Pediatria (SPSP), o Lunetas elencou nove fatos e curiosidades sobre este “período de ouro” que devem ser levados em conta para potencializar o desenvolvimento das crianças.
Os 270 dias da gravidez não devem ser ignorados. “Sabemos que do ponto de vista biológico, os gostos, os cheiros, tudo isso que é o ‘imprinting’ da mãe passa para o feto. Desde o útero, o bebezinho tem o instinto aflorado porque ele não tem o pensamento lógico”, explica Evelin Pontes.
Apesar dessa influência, a epigenética aponta que os genes não são o destino final na vida de uma criança e que não existe apenas uma determinância biológica. Ou seja, se a família tiver um histórico de doenças cardiovasculares não significa, necessariamente, que ela vai herdar essa patologia.
“Os genes são apenas uma parte da sua história. Fatores como alimentação saudável e exercícios físicos podem influenciar a expressão genética, funcionando como um “caldeirão” que pode mitigar predisposições a doenças, por exemplo”, afirma Rita.
Outra curiosidade que pode até ser confundida com algo emocional que está na publicação dos 1.000 primeiros dias do bebê, mas tem nome e explicação científica é a chamada síndrome de Couvade (se origina do verbo francês “couver”, que significa chocar). É o fenômeno que ocorre quando o parceiro ou parceira – neste caso, quando há duas mães – sentem sintomas como náuseas ou ganho de peso, semelhante ao que ocorre com as grávidas.
Isso ocorre tanto por empatia por quem está vivendo a experiência de ter o corpo transformado, quanto por ansiedade pela chegada de um bebê e um novo papel que terá de ser desempenhado. Os pais e mães de primeira viagem são mais suscetíveis à síndrome de Couvade.
O “baby blues” é outro tema destacado por Rita que está no livro e atinge oito em cada dez mulheres no pós-parto. Ele é caracterizado por uma sensação de melancolia e tristeza profunda que muitas vezes pode ser escondido em prol da ideia de “felicidade plena” depois do nascimento de uma criança.
Diferente da depressão pós-parto, o baby blues é esperado devido às mudanças hormonais, sociais e ao medo da nova realidade. Para Rita, expor esse dado ajuda a aliviar a culpa materna e a preparar a família para oferecer o apoio necessário.
“A partir do momento que a gente fala para essa grávida que sentir isso é normal porque tem um monte de coisa envolvida tanto hormonal, quanto cultural e social. Sua vida muda, você sente medo. Ao falar isso claramente, protegemos essa mãe e também esse nascimento”, diz Rita.
O bebê nasce com a visão bastante imatura, e esse sentido só se assemelha ao de um adulto por volta dos 6 meses de idade. Em contrapartida, o tato é o primeiro órgão do sentido a se desenvolver, seguido pelo olfato.
Por isso, nos primeiros meses de vida o contato pele com pele e o toque são estímulos muito mais potentes e necessários para seu desenvolvimento. “Não adianta ficar colocando brinquedos bonitos na frente do bebê, ele precisa ser tocado, rolar, tocar na grama e pisar na areia”, recomenda Evelin.
O melhor ambiente para um bebê no primeiro ano é o chão, onde ele pode conquistar marcos motores. Evelin reforça que quanto menos elaborado for o brinquedo, mais a criança vai se desenvolver. Por isso, ao invés de investir em excesso de acessórios, como cadeirinhas que vibram ou brinquedos musicais de plástico, por exemplo, o ideal é apostar em materiais naturais como papelão, madeira, panos e outros itens com diferentes texturas.
“Chocalhos com arroz ou feijão, papelão curvado ou reto, pedaço de papel colorido, fitas de cetim geram estímulos diferentes. O bebê antes dos 2 anos não vai manusear totalmente isso, mas ele vai tocar e sentir a riqueza de um ambiente sensorial”, afirma Evelin.
Um bebê que dorme a noite inteira é exceção. Esse é um dos temas aprofundado no livro de Rita e do pediatra Daniel Becker com intuito de esclarecer – e acalmar as famílias – de que o sono interrompido é o esperado do ponto de vista fisiológico. Por isso, não vale a pena se abalar com a história do bebê alheio que venceu a barreira e dorme muitas horas seguidas durante a noite, enquanto na sua casa a família segue insone.
“Bebê dorme picadinho, acorda de madrugada para mamar ou às vezes quer a mãe, quer o pai, quer presença. Saber que esse sono interrompido é o esperado é uma informação muito importante”, ressalta Rita.
A formação de anticorpos depende de estímulo. Por isso, é fundamental que os bebês e crianças pequenas sejam expostos à natureza, em praças, parques e áreas verdes e, dessa forma, ainda tenham garantido seu direito de brincar ao ar livre.
Rita ressalta a necessidade de políticas públicas que incentivem a criação de espaços com áreas verdes pensadas em crianças. “Uma cidade feita mais para crianças do que para carros é um direito. Não adianta culpar os pais que os filhos estão viciados em tela, mas o que vem antes disso? Tem praça e parquinho no meu bairro?”
Equipamentos públicos podem ajudar as famílias a garantir que as crianças tenham acesso ao que Evelin chama de “vitamina s, de sujeira.” “Se você hiperproteger uma criança, não deixá-la pisar no chão, ela vai ter uma fragilidade e vai demorar mais para produzir anticorpos. Recomendo doses homeopáticas de vitamina s, de sujeira”, brinca.
A médica reforça que a ideia não é deixar a criança em contato com pessoas doentes, mas, sim, mas permitir que ela suje a roupa e sente na terra é recomendável. Além disso, ela reforça o papel fundamental das vacinas e do aleitamento materno como a primeira grande vacina, alimento que nenhuma indústria conseguiu reproduzir.
Um dos fatores determinantes desse período é a construção do vínculo. Evelin defende que o desenvolvimento neurobiológico e emocional só ocorre de forma plena se houver uma “pitada afetiva” nas interações, por isso a premissa básica para o bebê é a certeza da disponibilidade de um adulto.
“A mãe não precisa ser perfeita, ela tem de ser suficientemente boa. Esta é uma frase célebre de Winnicott [pediatra e psicanalista inglês], mas hoje falaria que é necessária uma presença verdadeira em uma época em que os pais estão hiperconectados.”
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