Crianças estão mais ansiosas que os adultos: como lidar com isso?

Comportamento alterado, medos intensos e dores físicas sinalizam ansiedade. Com números de atendimentos crescendo, entenda como famílias e escolas podem ajudar

Cintia Ferreira Publicado em 01.04.2025
Imagem de capa mostra uma menina negra, de cabelos trançados sentada ao lado da cama com a cabeça baixa.
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Resumo

Casos de ansiedade em crianças e adolescentes ultrapassam o dos adultos. O Lunetas conversou com especialistas e famílias para saber o que está por trás desse dado alarmante e como famílias e escolas podem ajudar.

Medo de não ir bem na prova, pressão por fazer amigos, mudanças psicológicas, físicas e emocionais. Tudo isso encapado por um cérebro ainda em desenvolvimento: ser criança é bem desafiador! Nesta soma, há o fato de que a geração atual enfrenta um excesso de estímulos impulsionado pelo fácil acesso aos eletrônicos. Além disso, existe um crescente temor de que o mundo esteja, literalmente, acabando, em virtude das mudanças climáticas. Talvez esta “receita” – ou parte dela – ajuda a explicar por que os casos de ansiedade em crianças e adolescentes aumentaram consideravelmente nos últimos anos.

Entre 2013 e 2023, os registros de Transtorno de Ansiedade e outros transtornos em crianças e adolescentes ultrapassaram os dos adultos, conforme aponta a Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS). Consequentemente, as clínicas psicológicas passaram a atender mais pessoas na faixa etária da infância e adolescência. “Nesses dez anos, pude identificar uma mudança nas queixas levantadas pelos pais e nos relatos das crianças e adolescentes”, afirma a psicóloga infantil Fernanda Dantas. “Algum sintoma de ansiedade está presente na maioria dos relatos e no psicodiagnóstico.”

Segundo o Ministério de Saúde, os atendimentos envolvendo transtornos de ansiedade no SUS aumentaram 1.575% entre as crianças de 10 a 14 anos. Já entre o público de 15 a 19 anos o aumento foi de 4.423%. Entre 2015 e 2024 foram feitos 65.789 procedimentos clínicos ambulatoriais relacionados à ansiedade em menores de 17 anos.

De fato, basta olhar um pouco para o lado para perceber que as crianças e os adolescentes estão cada vez mais ansiosos. “Meu filho mais velho tem crises de ansiedade e já toma remédio”, conta Jéssica Fonseca, mãe de João Miguel, 11, e de Romeu, 7. No caso dela, a percepção sobre a mudança no comportamento do menino ajudou a buscar ajuda. No entanto, muitas vezes os pais podem ter dificuldades em identificar os sinais de que o quadro está “fora do normal”.

A psicóloga Fernanda Dantas lista ações mais comuns que apontam para um quadro ansioso:

  • Mudanças repentinas de comportamento; 
  • Agitação motora;
  • Aumento ou diminuição do apetite;
  • Alterações do ciclo de sono;
  • Medos e inseguranças;
  • Agressividade;
  • Hábitos, como roer unhas ou morder coisas. 

Existem ainda as crises de ansiedade, quando alguma situação adversa gera uma resposta física e emocional intensa no organismo. Nesses casos, os sintomas são:

  • Taquicardia; 
  • Sudorese;
  • Dores de estômago; 
  • Diarreia;
  • Agitação motora; 
  • Vontade de gritar ou sair correndo; 
  • Medo excessivo;
  • Pensamentos intrusivos e catastróficos. 

Onde procurar ajuda?

Primeiramente, o diagnóstico da ansiedade em crianças e adolescentes é feito após a observação e análise clínica de um profissional (pediatra ou psicólogo). O quadro pode ser tratado com psicoterapia e, em alguns casos, com apoio de um psiquiatra.

As famílias podem procurar as Unidade Básicas de Saúde do SUS, as clínicas-escola das universidades e clínicas particulares para iniciar a terapia. “Normalmente o pediatra que acompanha a criança já identifica e faz os encaminhamentos necessários”, explica Fernanda Dantas.

Ela reforça que uma ansiedade não tratada pode provocar uma piora nos sintomas e, portanto, dificultar a aprendizagem, a socialização e a construção de uma autoestima saudável.

Leia também: Terapia infantil: um espaço seguro para as crianças fora de casa

Como a família pode acolher?

Para os psicólogos, a família precisa compreender que é fundamental estar mais presente e observar o comportamento das crianças, pois isso ajuda a identificar quadros de sofrimento emocional. “A função das famílias no contexto da ansiedade infantil tem a ver com a observação do tempo livre para brincadeira, contato com a natureza, regulação do sono e diminuição das telas”, ressalta Alexandre Coimbra, psicólogo e autor do livro “Toda Ansiedade merece um Abraço” (Editora Paidós).

Do mesmo modo, Fernanda Dantas destaca que os pais devem ser fonte de segurança e apoio aos filhos, evitando minimizar ou menosprezar as crises. “Identificar os ‘gatilhos’ é uma boa estratégia, pois ajuda a entender o que faria a criança ter um episódio de ansiedade, atuando na prevenção”, aconselha.

Jéssica tenta seguir esse ritmo com João Miguel. “Conversamos bastante, especialmente quando vejo que tem algum gatilho para despertar a ansiedade dele”, conta.

“Não é fácil ver seu filho, tão novo, já enfrentando essa doença. Mas acredito que não podemos fechar os olhos quando percebemos que há algo diferente no comportamento deles.”

Quais os limites de uma ansiedade natural e crítica?

Inicialmente é importante pontuar: algum grau de ansiedade é normal e esperado. Isso porque o sentimento é uma resposta natural do cérebro a situações do ambiente. Pode ser um perigo ou uma espera por algo, como, por exemplo, uma viagem. Nesse caso, dura pouco tempo e tem causa definida.

Mas há uma diferença entre essa resposta natural e aquela que é mais preocupante, pois existe um grau de sofrimento envolvido. “Tanto na ansiedade, quanto em outros transtornos, dizemos que o caso ‘passa do ponto’ quando causa prejuízos na vida cotidiana e psíquica”, diz a psicóloga Fernanda Dantas.

“Já atuei em um caso com uma criança de 5 anos, que todas as vezes que ia sair para qualquer passeio, antes ou durante o trajeto, vomitava. Então esse é um caso que, além do sofrimento psíquico, causava incômodo físico”, explica.

“As crises podem ser mais intensas nas crianças devido à imaturidade de entender o que estão sentindo.”

Alexandre Coimbra explica que crianças manifestam crises diferentes dos adultos. “O quadro, no público infantil, tem sim um pedaço das manifestações comuns a toda experiência ansiosa. Mas, geralmente, se manifesta como ansiedade de desempenho”, pontua. Ou seja, ele esclarece que crianças e adolescentes alimentam uma ansiedade maior em relação “ao desempenho escolar ou ao desempenho natural, nos esportes.”

Nesse sentido, pode ser complicado para as famílias observarem os sinais de que a criança está com uma ansiedade crítica. Com Jéssica e o filho mais velho, por exemplo, a manifestação começou após a separação com o pai da criança. “A partir daí, ele ficou mais recluso e dependente das telas. No ano passado, foi diagnosticado com depressão e começou a tomar medicamentos”, conta.

“O que mais me assustava era o comportamento dele quando estávamos em um local que não tinha acesso à internet porque ficava totalmente inquieto e incomodado, parecia mesmo uma abstinência”, lembra a mãe.

Qual a relação da ansiedade com o excesso de telas?

Atualmente, a ciência já mostra que o tempo excessivo de telas está relacionado a muitos casos clínicos de ansiedade e outros transtornos, como depressão e estresse. No caso das crianças, 72% dos estudos avaliados pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontaram que ocorreu um aumento de depressão associado ao uso de telas nessa faixa etária. O resultado faz parte de uma revisão que avaliou 142 artigos com mais de 2 milhões de pessoas. A constatação é de que o uso indiscriminado dos eletrônicos piora a saúde mental das pessoas.

“As telas não só deixam as crianças mais ansiosas, mas as fazem apresentar agressividade e agitação”, afirma a psicóloga Fernanda Dantas. Ela explica, ainda, que esses eletrônicos podem deixar o cérebro mais “preguiçoso”. Isso porque a criança não precisa se esforçar, já que o estímulo vem de forma fácil. “Quando as telas são retiradas e a criança tem que executar uma brincadeira, tarefa ou ação cotidiana, como comer, pode não se sentir apta ou capaz, gerando frustração e insegurança. Assim, podem surgir sintomas ansiosos.”

Entre as mães, a percepção que as telas influenciam o comportamento de seus filhos é cada vez maior. “No caso do meu filho, a tela foi um refúgio da realidade, que aumentou os seus sintomas”, revela Jéssica, mãe de João Miguel. Da mesma forma, Rafaela Santos, mãe da Laura, 9, e Enzo, 8, entende que “os eletrônicos também desenvolvem bastante esse quadro”.

Mas, para ela, a idade pode ter um peso importante nesse aspecto. A psicóloga confirma tal observação, pois crianças pequenas podem apresentar ansiedade de separação – o que já é esperado. No entanto, o sentimento pode se agravar dependendo de outros fatores. “Saltos de desenvolvimento deixam as crianças e adolescentes sensíveis e podem favorecer um quadro ansioso, por exemplo”, explica Fernanda Dantas.

Escolas podem acolher e não reforçar a ansiedade

Diante dessa leva de crianças e adolescentes ansiosos, pais e mães ainda entendendo os sinais e informações aceleradas, Alexandre Coimbra reforça o papel da escola em trazer uma maior segurança emocional para os estudantes. “É importante cuidar desse ambiente para que as crianças vivam experiências escolares sem tanta pressão”, reforça o psicólogo.

Ele diz que, muitas vezes, acontece nas escolas situações em que as crianças precisam “mostrar um nível de excelência em que não podem contemplar erros, dúvidas e o processo natural de formação da vida.”

Atualmente, a maioria das escolas não conta com um profissional de saúde mental. Dessa forma, professores e demais pessoas da comunidade escolar precisam compreender um pouco mais sobre a ansiedade. Para a psicóloga e diretora do Centro de Terapia Cognitiva Veda, Êdela Nicoletti, “é importante normalizar o diálogo sobre saúde mental no ambiente escolar e familiar”.

Ela defende que a prevenção desses casos depende de “uma rede de apoio sólida, que inclui pais, professores e profissionais de saúde”. Além disso, reforça que é preciso desenvolver políticas públicas que garantam a presença efetiva desses especialistas nas escolas.

“Essa é uma questão não apenas de saúde, mas de equidade porque crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade social, frequentemente, contam exclusivamente com a escola como espaço de acolhimento e apoio.”

Leia também: Cuidar da saúde mental nas escolas pode evitar desfechos graves

Outra questão acerca do ambiente escolar que pode influenciar nos sintomas de ansiedade são as mudanças das etapas de ensino. Vinícius Guimarães, psicólogo da área de cognição humana, lembra que a transição do ensino fundamental I para o II é um fator de risco. “Por causa das mudanças de rotina, maior cobrança acadêmica e novos ambientes sociais”, explica. Já o início do ensino médio também é uma fase para ficar atento, pois há “pressão por resultados acadêmicos, decisões sobre carreira e mudanças hormonais”, diz. “Essas fases exigem uma maior adaptação emocional e social, sendo propensas a gerar insegurança e, consequentemente, ansiedade.”

Nesse sentido, o psicólogo sugere as seguintes ações para que as escolas possam ajudar os alunos:

  • Oferecer um ambiente acolhedor;
  • Ensinar técnicas de regulação emocional (respiração profunda ou pausas durante o dia);
  • Flexibilizar a abordagem pedagógica (evitar exposições desnecessárias e oferecer suporte individualizado);
  • Promover a conscientização com palestras e atividades sobre saúde mental;
  • Comunicação constante com a família;
  • Criação de rotinas estruturadas;
  • Encaminhamento para apoio especializado caso necessário.

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