Crianças e telas: como mediar essa relação?

Os pais são responsáveis por mediar a experiência das crianças com o ambiente digital para construir uma relação saudável, criativa e segura
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 06.07.2020
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Quanto, o quê, quando, onde e como. Essas cinco perguntinhas são recomendadas pela escritora Roberta Ferec, autora do livro “Tela com cautela. Um guia prático para criar filhos na era digital (sem perder a sanidade)” para pais, mães, familiares e responsáveis ao mediar ativamente a experiência das crianças com o ambiente digital. Assim, para ela, um bom uso das tecnologias durante a infância deve considerar o tempo dedicado às telas, a qualidade e adequação do conteúdo, o melhor momento do dia, o local apropriado e a forma de acesso, cuidando para não prejudicar seu desenvolvimento.

O papel da família na mediação de uma relação saudável, criativa e segura das crianças com a internet foi o tema do segundo encontro da série de conversas on-line “Ser criança no mundo digital”, que aconteceu na última sexta (3/7), conduzido por Maria Isabel de Barros, pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

Também participou do encontro Karina Menezes, presidente do Raul Hacker Club de Salvador Bahia e idealizadora do projeto Crianças Hacker. Ao destacar o potencial transformador das tecnologias, Karina frisa que o diferencial é estar com quem podemos aprender. “Os hackers não são criminosos do mundo digital. A educação hacker tem a ver com pessoas que doam tempo e conhecimento para resolver desafios de forma criativa e inovadora a partir das tecnologias”, esclarece. O objetivo do projeto Crianças Hackers é incentivar que crianças e adultos aprendam juntos sobre as tecnologias digitais. “O adulto deve mostrar que se interessa pelo que a criança faz e usar sua experiência para alertá-las sobre riscos”, diz a pedagoga.

As convidadas concordam que o diálogo é muito importante para construir essa relação. “Cada criança é um mundo, a gente precisa se vincular a esse mundo para melhor orientá-las”, pontua Karina. “Precisamos ampliar as oportunidades de estarmos perto dos nossos filhos, mostrar que nos importamos em ouvir o que eles estão dizendo e construirmos juntos um vínculo de confiança com a criança, a responsabilidade sobre si, o respeito pelos outros e por ela mesma”. Para Roberta, é escolha de cada família fazer algum tipo de acordo. “O que funciona para uma não necessariamente funciona para a outra”, lembra. Por isso, o caminho é “conversar e pensar em estratégias adequadas a cada dinâmica familiar, de acordo com seus valores”.

O que as crianças têm a dizer sobre tudo isso?
O Lunetas conversou com 32 crianças de todos os estados brasileiros para saber como elas se relacionam com o ambiente digital. O resultado dessas conversas você vê em uma série de conteúdos no especial Um olhar sobre as infâncias conectadas, com novos episódios lançados semanalmente. Neste vídeo, as crianças revelam quantas horas por dia passam na internet e o que acham dos pais que também ficam bastante tempo ligados às telas.

Quais os sinais e sintomas da criança em fuga do mundo real que passa horas no mundo virtual?

Roberta responde a pergunta vinda do público sugerindo uma investigação mais cuidadosa do uso da tecnologia, abrindo espaço para o diálogo. “Existem crianças cujos pais tentam seguir recomendações de tempo mas mesmo assim não funciona, porque isso afeta a vontade dela de fazer outras coisas, só quer ficar em frente das telas”, comenta. “Para rever os hábitos tecnológicos dos nossos filhos, precisamos olhar para a nossa relação com as telas, com o tédio, com a incapacidade de lidar com frustrações. Os desafios da infância são muito parecidos com os nossos”, reflete.

“As crianças colocam um espelho gigante na nossa frente para repensarmos as nossas próprias atitudes”

Quais os desafios da mediação parental considerando diferenças sociais?

Para responder essa outra questão, Karina reflete sobre a realidade extremamente desigual em nosso país. “O primeiro passo é reconhecer e questionar qualquer discurso generalizante: ‘estamos todos conectados’, ‘todos temos acesso ao conhecimento’, alerta. “Devemos entender o papel do poder público e das empresas na garantia dos direitos da criança, inclusive de acesso às tecnologias. Como a gente lida com as desigualdades se nos fechamos em bolhas ao apresentar como o mundo funciona aos nossos filhos?”, questiona. Para finalizar, Karina faz questão de reforçar a importância de buscar grupos que nos fortalecem.

“É preciso seguir o caminho do coletivo, da colaboração. Ninguém precisa fazer nada sozinho”

Com transmissão ao vivo e recursos de acessibilidade (intérprete de Libras e legenda em tempo real), a série de conversas promovida pelo Instituto Alana tem o apoio do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), da SaferNet e do portal Lunetas. Os encontros, que vão até 14 de agosto, reúnem especialistas das áreas de educação, psicologia, tecnologia e direito para ajudar famílias em diferentes contextos e individualidades a gradualmente construir essa capacidade de tomar decisões, mas não sozinhas. Afinal, a responsabilidade de cuidar da infância é multissetorial. Faça aqui a sua inscrição para as próximas conversas e acompanhe a cobertura completa do evento pelo Lunetas.

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Resumo

Mais do que apenas limitar o tempo dedicado às telas, adultos são responsáveis por mediar toda a experiência de crianças no ambiente digital, abrindo espaço para dialogar sobre as oportunidades e também alertar sobre os malefícios.
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