Precisamos falar de saúde mental e emocional na infância

Como cuidar das crianças no presente para que tenham condições básicas de se desenvolver em adultos saudáveis
Saúde mental e emocional: uma menina com traços orientais está sentada num banquinho amarelo de costas para uma parede azul turquesa e ela olha para um caderno de folhas em branco iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 31.07.2020
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Cuidar de uma criança pressupõe uma rede coletiva, com apoio de forma integral e com abordagens humanizadas pautadas pelo cuidado e pela escuta. Ou seja, para que essa geração possa se tornar adultos saudáveis, a responsabilidade deve ser partilhada entre família, sociedade e Estado. É com esse propósito que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi criado, há 30 anos.

“Quando se diz que criança é prioridade absoluta, significa que ela precisa ser protegida na integralidade dos seus direitos e tenha o seu direito de infância respeitado”, aponta Claudia Mascarenhas, Diretora Clínica do Instituto Viva Infância. “Para isso, devemos todos estar em obediência efetiva e real ao ECA, num pacto social, pois a própria lei é a prevenção e a promoção da saúde mental e emocional de uma criança”. 

“O não cumprimento da proteção à infância e adolescência”, continua Claudia, “pode acarretar experiências traumáticas que deixam marcas significativas e até indeléveis, com prejuízos sociais, psicológicos, físicos por muitos e muitos anos”. Assim, o alerta recai para os níveis de estresse tóxico aos quais as crianças estão expostas e sujeitas durante a pandemia, por ser “uma situação aguda, repetitiva e prolongada”, define, que pode inclusive “saturar o cérebro da criança e interromper o seu desenvolvimento, sobretudo nos anos constitutivos”. 

Claudia pontua que, “ diante da incerteza desses tempos que estão muito longos para uma criança, os níveis de ansiedade e angústia na infância têm aumentado. Ao perceber a insegurança, a desestabilidade, a falta de perspectiva de quando a situação volta minimamente à normalidade, além da restrição das relações interpessoais da criança com as pessoas de quem ela gosta – não poder ver os colegas, não poder estar com os avós – são fatores impactantes que podem lhes provocar reações sintomáticas”.

“Cada criança vai vivenciar essa situação de modo distinto”, diz. “As crianças que têm melhores condições vão conseguir passar por isso melhor, enquanto outras, que já enfrentavam situações desfavorecidas e condições de vulnerabilidade, vão passar de uma forma desigual, sofrendo impactos mais contundentes. Essa condição de invisibilidade é um dos maiores prejuízos que a criança pode ter na vida”. 

“Nessa pandemia, temos a expressão e a agudização das desigualdades nas diversas infâncias que estão enfrentando a crise”

Como cuidar da saúde mental e emocional das crianças?

Para ajudar a atravessar esse período com um pouco mais de leveza, é importante dar atenção ao espaço que a brincadeira ocupa no dia a dia da criança. Considerado um direito fundamental, o ato de brincar contribui para o seu desenvolvimento integral saudável, fortalece as competências essenciais para a vida e reduz as fontes de estresse. “O brincar é promoção de saúde mental e do sustento emocional que uma criança tem para elaborar o mundo e enfrentar dificuldades”, diz Claudia. 

“O direito ao brincar é o primeiro direito que uma criança precisa exercer com dignidade na sua infância”

Para Janine Dodge, presidente da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura, o ato de brincar é geralmente associado à diversão e à liberdade da infância, mas não costuma ser reconhecido por sua utilidade. “O brincar é útil para que a criança consiga expressar com segurança suas emoções, seus processos íntimos, seus desejos, inclusive sendo capaz de dar apoio a relacionamentos responsivos”, pontua. A sua importância também diz respeito ao fato de tratar-se de um comportamento liderado pela criança, cujo valor é avaliado por ela, com mínima interferência do adulto, pontua Janine.

“Brincar é um fim em si mesmo. Crianças brincam porque brincam”

E o excesso de atividades? 

O excesso de atividades entra nisso que chamamos de adultificação de crianças, ou seja, crianças tratadas como adultos. Não é o excesso em si que caracteriza o estresse tóxico, mas o nível de resposta da criança em relação a essa espécie de violência sobre a sua infância, sujeitando-a a consequências prejudiciais quando a experiência lhe exige mais do que é capaz de suportar e seja adequado para ela. “Ledo engano achar que ela se desenvolverá mais. Crianças precisam descansar depois de estudar”, reforça Claudia.

* Esta reportagem foi construída a partir do debate “A promoção da saúde mental e emocional de crianças e adolescentes como pressuposto do cuidado integral e humanizado”, durante o Congresso Digital 30 anos do ECA, organizado pelo Conselho Nacional de Justiça, no dia 13 de julho. Claudia Mascarenhas concedeu entrevista complementar ao portal Lunetas.

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Resumo

Além de respeitar os direitos previstos no ECA, especialistas defendem o direito do brincar como uma forma de amenizar os impactos emocionais de uma crise prolongada como essa pandemia e preservar a saúde mental das crianças.
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