5 livros infantis para falar sobre a morte com as crianças

"Para onde vamos quando desaparecemos?". Se sua criança já te perguntou isso, é hora de conhecer essa lista de livros
Ilustração interna do livro "O pato, a morte e a tulipa" mostra um pequeno pato conversando com uma caveira, sentados em uma pedra. Reprodução/Wolf Erlbruch
  • Publicado em: 02.02.2017
da Redação

Começar uma conversa com as crianças sobre a morte, por que as pessoas vão embora e as coisas chegam ao fim é delicado e requer sensibilidade e empatia para acessar o estágio de elaboração do mundo em que a criança está. A literatura infantil, por seu potencial de representatividade, pode ajudar muito nestes momentos. Pensando nisso, o Garimpo Miúdo publicou uma lista de livros que tratam do assunto com leveza, lirismo e sensibilidade, para ajudar a naturalizar o assunto com as crianças e desconstruir os medos e tabus em torno do tema. Confira abaixo:

“Pode morrer uma ideia, uma certeza, uma pessoa. Nos começos e nos finais de tudo, tem morte. E cada recomeço está repleto dos vestígios daquilo que passou. A morte é ciclo. É ao mesmo tempo da vida, do susto, do mistério. Natural, inevitável, tabu, susto, vendaval. A morte é o que não conseguimos dizer. Que coisa estranha é esta. Está em tudo, e mesmo assim fugimos dela todos os dias. Nas conversas, nas histórias, na escolha de um assunto para escrever.”

As crianças não entendem e os adultos ignoram, e nesse movimento amedrontado, crescemos traumatizados antes mesmo de vivenciar o trauma.

Por isso, livros que falam sobre isso são como clareiras no meio de uma floresta fechada. Livros infantis, ainda mais. Precisamos abrir essas clareiras para falar da vida.

1. Para onde vamos quando desaparecemos?
Certeza, certeza absoluta, ninguém tem sobre a questão “para onde vamos quando desaparecemos?”. Mas seja como for, se algum dia você ficar em dúvida se é possível falar de morte com poesia e brincadeira, a resposta é este livro. Desses que você quer ter, e depois ter de novo, só para poder dar a alguém.Escrito por Isabel Minhós com ilustrações de Bernardo P. Carvalho, o livro joga cor e luz sobre um tema tão castigado pela sombra do desconhecido. Publicado originalmente pela editora Planeta Tangerina, de Portugal, o livro chegou ao Brasil em 2015 pelas mãos da Tordesilhinhas (Editora Alaúde).A ideia aqui é a de um narrador imaginário que faz perguntas sobre todas as coisas. Por exemplo, o porquê de nossas meias desaparecem tão misteriosamente, ou pra onde vai a areia da praia varrida pelo vento e o barulho quando tudo silencia. Afinal, quando já não estivermos aqui, quem vai cuidar das nossas coisas? Dúvidas muito possíveis do ponto de vista de quem ainda está elaborando a complexidade do mundo.Quem conhece Isabel de seus outros livros (Enquanto meu cabelo crescia, Lá em casa somos, Coração de mãe e outros), vai reconhecê-la de pronto nesta história, cheias de tentativas bem-sucedidas de tirar o peso das coisas. Inclassificável do ponto de vista de classificação etária ou gênero, este livro parece saber perfeitamente na definição do crítico português Luís Almeida Eça: “Um livro que ajuda a crescer”.
2. O urso e o gato-montês
“Sabe passarinho – o urso disse -, você não acha curioso que todas as manhãs sejam “esta manhã”? Foi assim ontem e anteontem. E amanhã teremos outra manhã e novamente depois de amanhã… E todas elas certamente serão “esta manhã”. Estaremos sempre “nesta manhã”. Sempre juntos. Não é?É com esse arroubo de lirismo que começa o livro “O urso e o gato-montês” (Brinque Book, 2012). Um urso que reflete sobre a aparente monotonia da vida e de repente: PUM! Perde o melhor amigo. Então, ele entende que algumas manhãs nascem diferentes antes mesmo de começar.Dos japoneses Kazumi Yumoto e Komako Sakai, a história aqui é muito maior do que as palavras que a contam.  A narrativa cheia de poesia é quase um ninar, e vai embalando o leitor num movimento de elaboração do luto: o urso não se contenta com as palavras de apoio que recebe dos outros, ele tem seu tempo de entender o acontecido e é só quando esse tempo chega que a história parece se justificar.Um livro-presente para uma criança que perdeu alguém? Sim. Mas, muito mais do que isso, um livro para ensinar os pequenos desde sempre que cada manhã é sim diferente da outra, mas todas são iguais em uma coisa: são inevitáveis.
3. Quando abro os olhos 
A escritora lituana Agné Bruziene perdeu suas duas avós em menos de dois meses. Para reagir contra a dor, ela compôs essa história (Agné escreve e ilustra o livro). Por sua referência a um acontecimento real, ainda latente na vida pessoal de quem conta, Quando abro os olhos (MOV Palavras, 2015) valoriza a importância de transformar o livro infantil em um espaço de reconhecimento e identificação: um lugar onde a criança possa elaborar sentimentos que ainda não conseguiu entender, como o medo de abrir os olhos e encontrar à frente um dia carregado de sensações ruins.“Foi um desses livros que me puxou para a estante, eu não podia mais ficar sem ele. Foi um dos primeiros livros que compramos. Gosto do modo como Agne enfrenta a depressão: olha fundo nos olhos dela e é transparente ao nos falar disso. Suas imagens são fortes e até duras. Você sente a dor dela e o esforço para entender o que se passava, com palavras afiadas, sempre no lugar certo”, conta a editora Dani Gutfreund, da MOV Palavras, que trouxe o livro para o Brasil no ano passado.
 4. O pato, a morte e a tulipa  
5. Íris – Uma despedida
Este talvez seja o título da lista que menos faz concessões em relação a como dizer o que diz. Em “Íris” (Pulo do Gato, 2013), da escritora alemã Gudrun Mebs, a morte chega com uma certa secura indispensável, como certos acontecimentos da vida que nos atingem com a força de um furacão. A morte, às vezes, é esse furacão. E é preciso pelo menos não ignorá-lo para sobreviver a ele.Se as imagens do livro são puro lirismo e simbologia (as belas ilustrações abaixo são da espanhola Beatriz Martín Vidal), a linguagem aqui é mais incisiva.Apesar de não se tratar propriamente de um livro ilustrado, as imagens aqui guardam a delicadeza de que o texto desvia: Íris está doente e quem vivencia a iminência da perda é sua irmã mais nova. A doença é metaforizada por flores de pétalas azuis que vão brotando do corpo da menina e pouco a pouco se apropriando dela. A morte, em Íris, é mais um movimento em torno da vida, e vai viravolteando através das percepções da menina: a cama vazia, o silêncio dos pais, a melancolia do avó. E só para o leitor não ficar sem consolo depois de tanta realidade, o livro presenteia quem vai até o fim com as palavras do grande Bartolomeu Campos de Queirós: Ah!, o eterno é o sempre. Não tem nós de nascimentos ou embaraços de mortes. E o pensamento, este é terreno demais para decifrar intenso mistério.”

Acesse o Garimpo Miúdo para ler a lista na íntegra.

Resumo

Criada pelo Garimpo Miúdo, essa seleção de livros infantis falam sobre a temática da morte de forma leve, criativa e poética para naturalizar o assunto com as crianças.
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