‘Nóstureza’: poesias sobre a natureza de aprendizagem da criança

Um livro-convite para refletir sobre ritmos naturais e a valorização do ato de educar e do ser criança

Laís Barros Martins Publicado em 01.10.2021
Detalhe da capa do livro Nóstureza, de Fernanda Poletto. Há crianças e animais nos galhos de uma árvore
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Resumo

“Nóstureza”, uma palavra criada para dar conta da profunda conexão entre nós e a natureza, dá título ao livro de poesias de Fernanda Poletto e nos ajuda a refletir sobre a natureza de aprendizagem da criança.

Para nomear, em uma só palavra, nossa conexão profunda com a natureza, Fernanda Poletto criou a palavra “nóstureza” para o título do seu primeiro livro de poemas. A partir daí, propõe outras brincadeiras com a palavra e destaca o processo de aprendizagem das crianças, explorando um sensível entrelaçamento entre temas educacionais, sociais e ambientais.

“A poesia é um estado brincante”, diz a autora. “Para a criança, a palavra poética é um estado natural – ela encontra ressonância na natureza de aprendizagem de seu próprio sentir. A vontade de conhecer e desvendar o mundo é uma força da natureza que a habita intensamente. No corpo incrustado adulto, tem a capacidade de acessar memórias escondidas e também o compromisso de reencontrar a escrita, num país marcado pelo preconceito linguístico”.

“Adultos,
estranhamente,
gostam de esconde-esconde
em si”

Ao reconhecer que “andamos distante do sentir cognitivo, emocional, físico e espiritual de sermos parte dessa teia da vida que nos mantém vivas e vivos”, Fernanda convoca os adultos para olharem para suas infâncias e se relacionarem de outra maneira com as crianças e também com sua própria natureza criativa. “Muitos de nós, por estarmos ‘inconscientemente’ longe dessa trama, sentimos que algo nos faz falta, um buraco não preenchido que não conseguimos nomear, impedindo que alcancemos uma completude de ‘bem viver’”, reflete.

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Divulgação

Frases e ilustrações do livro "Nóstureza", de Fernanda Poletto e Luda Lima

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Frases e ilustrações do livro "Nóstureza", de Fernanda Poletto e Luda Lima

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Frases e ilustrações do livro "Nóstureza", de Fernanda Poletto e Luda Lima

É assim que, a partir da linguagem poética, Fernanda busca acessar as infâncias dentro de cada um e nos convida a voltar a “enxergar a grandeza das coisas miúdas e rotineiras”. Quero, através da poesia, encontrar caminhos para que possamos compreender melhor as crianças, a nós mesmos e a natureza existente no ambiente e, também, dentro de nós”, ressalta.

“Quero que a poesia seja servida
no café das manhãs de todas as infâncias”

Capa do livro "Nóstureza", de Fernanda Poletto. Há crianças e animais nos galhos de uma árvore

“Nóstureza”, Fernanda Poletto e Luda Lima (edição do autor) Um livro de poesias para brincar com as palavras e defender a nossa conexão com a natureza e com a criança que ainda vive em nós. “Nóstureza” tem prefácio assinado pela educadora Lydia Hortélio e posfácio do poeta Mario Pirata. As ilustrações são da artista visual Luda Lima. Além de poeta das infâncias, Fernanda Poletto é também pedagoga, educadora popular, ambientalista e especialista em Educação Popular e Movimentos Sociais, tendo implementado projetos pedagógicos com o tema natureza e criança no cotidiano das escolas. Depois de terminada a leitura, fica o convite para os leitores compartilharem sua poesia pelas redes sociais, usando a #nostureza.

Da experiência como educadora, Fernanda defende a ideia de uma revolução na infância, em que prevaleça o respeito ao tempo das aprendizagens e a observação dos ritmos da natureza e da criança. Tudo isso vem amarrado no livro por um viés político, que busca fortalecer a educação e o ato de brincar como parte importante da construção do sujeito. “As crianças nos sustentam e seguem presentes em quem somos. Ao trazerem novamente os fundamentos esquecidos e fundamentais para nós adultos, a infância quer revolucionar nosso corpo e oferecer a possibilidade de vivermos com mais ‘sentidos’”.

“Falar de infância é criar uma floresta no peito”

“Mas, só é possível criar essa floresta com a consciência que falar de infâncias é um ato político. Como ‘sociedade educadora’, precisamos assegurar que políticas públicas sejam voltadas para a primeira infância, para o direito fundamental ao livre brincar, e para a valorização salarial e formações continuadas de professoras e professores”, defende.

Ao recuperar registros e anotações em seu caderno de professora e coordenadora pedagógica, Fernanda percebeu que “tudo que escrevia sobre minhas observações das crianças eram em tom poético, embora tentasse escrever textos mais objetivos”. Foi a partir daí que ela entendeu como “a linguagem é algo vivo e dinâmico, como a vida, e precisa estar a serviço também da diversidade.Acompanhar o desenvolvimento das crianças exige de nós poetizar a palavra para dar conta de traduzir ao mundo as belezas e os desafios que vivenciamos dia a dia”.

Então, o livro tem também o objetivo de dizer às professoras e aos professores que “o exercício de escrita aguça nosso pensamento crítico sobre a importância de nossa profissão. Temos muito a dizer sobre nossa ‘professoralidade’ e a potência de escrever um novo destino para a educação”.

“A brincante que existe em
mim saúda a brincante
que existe em você”

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