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Xô, fake news! 3 educadores desmistificam obra de Paulo Freire

Doutrinação, kit gay, educação infantil, ideologia na escola. Como tudo isso se conecta no imaginário popular do brasileiro neste momento de decisão política?
Paulo Freire Reprodução/Lunetas
  • Publicado em: 23.10.2018
  • Atualização: 24.10.2018
da Redação

Paulo Freire, doutrinação, kit gay, educação infantil, ideologia na escola. Como tudo isso se conecta no imaginário popular do brasileiro neste momento de decisão política, guerras de opinião e disputas de poder?

O Brasil tem vivenciado nos últimos meses a campanha eleitoral mais complexa e atípica de sua História. Após o segundo impeachment do país, os eleitores levaram para o segundo turno dois candidatos com propostas extremamente opostas, em todos os âmbitos. A polarização tomou conta da vida cotidiana em nuances inimagináveis, confundindo muitos eleitores que já não sabem mais em quem confiar.

Diante deste cenário intrincado, convidamos para uma reflexão à altura da complexidade da conjuntura política. Por isso, ao longo de setembro e outubro, o Lunetas vem produzindo diversos materiais sobre o assunto, como o Especial “Em tempos de guerra eleitoral, quem cuida das crianças” e duas reportagens de avaliação das propostas dos presidenciáveis – clique aqui para ler a primeira e a segunda parte deste conteúdo. Sempre com a preocupação de priorizar a criança neste debate.

Com isto em mente, o assunto desta matéria é o medo, a desinformação e as fake news que rondam a figura do educador e filósofo Paulo Freire, cuja contribuição para a educação brasileira diz respeito mais à EJA (Educação de Jovens e Adultos) que para a educação infantil ou ensino fundamental. Alvo central de uma série de notícias que chegam pelas redes sociais e circulam como verdade absoluta, Paulo Freire é atacado diretamente no plano de governo do candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Conforme o Lunetas noticiou no material de avaliação dos dois programas, o projeto de Bolsonaro se coloca contra a “doutrinação” das crianças e dos jovens, e afirma que irá eliminar a “ideologia” freiriana das salas de aula, alterando o documento que norteia a educação no país, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Porém, as palavras “doutrinação”, “ideologia”, assim como muitas outras, vêm sendo usadas com tanta frequência e em tão larga escala que é fácil supor que nem todo mundo reflete sobre o contexto em que elas são utilizadas, ou mesmo conhece de fato seu real significado. Como diria a poeta Viviane Mosé, é preciso “lavar as palavras”, a fim de reencontrar sua essência e destituí-las de finalidades de terceiros.

O educador português José Pacheco, criador da Escola da Ponte e referência internacional em educação integral, conversou com a gente sobre o tema. “Vivemos tempos sombrios. De um lado, freireanos fundamentalistas, do outro, fanáticos anti-Freire”, disse Pacheco.

“São inúmeras as contribuições Paulo Freire. Creio que uma das mais valiosas é fazer reconhecer que aprendemos na intersubjetividade”

“Eu sei que alguns bonsais humanos ameaçam tirar Paulo Freire das escolas. Mas, como pode Paulo Freire sair das escolas, se ele nunca nelas entrou? Freire está sequestrado em teses, guardadas nos arquivos das universidades. Infelizmente, nunca vi Paulo Freire no chão das escolas. O que por aí abunda é muito freireano não-praticante”, pontua o educador.

O Lunetas conversou também duas profissionais referência na área de Educação, com trajetórias sólidas junto às demandas de estudantes e escolas do país e do mundo, para desconstruir os mitos em torno da figura de Paulo Freire. A coordenadora de educação do projeto Escolas Transformadoras, Raquel Franzim, e Silvia Carvalho, coordenadora do Instituto Avisa Lá, respondem aqui três perguntas sobra a vida e a obra de Paulo Freire, convidando os leitores para uma reflexão sobre o que ele representa na formação crítica de crianças e adolescentes.

  • Lunetas – Como você avalia a repulsa que as ideias de Paulo Freire causam em alguns segmentos da sociedade, sobretudo neste momento?

Raquel Franzim – A repulsa que temos assistido às ideias de Paulo Freire estão dentro de um contexto maior político, social, cultural. A ideia de que a Terra é plana, que o surgimento da vida na Terra é criação de Deus, que a Ditadura Militar de 64-85 não foi Ditadura também ganharam força nos últimos tempos. Forças de contestação da História e da ciência sempre existiram e as transformações, especialmente as tecnológicas ocorridas nas últimas décadas amplificaram esses questionamentos.

O problema não é o debate e a reflexão de ideia em torno deles, principalmente quando ela ocorre dentro da escola. E sim a disseminação rápida de mentiras em torno desses temas e o uso desses ‘pontos de vista’ para justificar censura à pluralidade de ideais pedagógicos (como assegura a Lei de Diretrizes e Bases), a perseguição política, a violência no discurso, no gesto e nos atos, como os que temos assistido.

Silvia Carvalho – Como tudo o que está acontecendo, a repulsa tem a ver primeiro com desconhecimento, de quem ele realmente foi e da concepção dele em relação à pedagogia. O que “colou” é o o fato de que ele lutava pelos mais pobres, então ele criou a pedagogia do oprimido, e que ele tinha uma posição mais à esquerda. Hoje em dia, tudo é confundido com posição partidária. Mas isso é desconhecimento do que ele estava propondo, por que isso podemos enxergar de muitas perspectivas.

O Paulo Freire influenciou muito mais a EJA, e é uma influência enorme na America Latina, na África, no mundo todo. Isso é inegociável. É como se disséssemos que Einstein tem que sair no mundo científico.

“A repulsa vem misturada com o sentimento político”

  • Lunetas – Qual a principal contribuição de Paulo Freire para a educação brasileira?

Raquel Franzim – Paulo Freire é o patrono da educação brasileira e não à toa influenciou tantas correntes pedagógicas por aqui e em outros países.

“Sua obra é única no mundo ao trazer que toda aprendizagem deve ocorrer de maneira contextualizada e favorecendo a construção de sentido pelo estudante”

Ao se debruçar sobre os processos de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita de adultos que não tiveram o direito de frequentar a escola, Paulo Freire construiu uma visão de que não podemos ensinar estudantes de forma mecanizada. Que a leitura e a escrita não pode ser um ato mecânico de memorização de letras e sílabas. Que o oposto a isso traria liberdade de pensamento aos estudantes, autonomia e senso crítico para não serem manipulados e sentido de vida individual e coletivo.

Quem pode ser contra uma proposta a favor de que crianças, jovens e adultos aprendam a entender, interpretar, refletir e comunicar o que se lê ou escreve? A ter pensamento livre para não ser manipulado?

“Acredito seriamente que a grande maioria dos acusadores de Paulo Freire sequer leram o que ele escreveu”

Não há educador em nosso país mais preocupado e militante contra uma educação que ele chamou de bancária, ou seja, aquela que deposita suas próprias crenças nos estudantes. Pelo contrário, Paulo Freire em vários de seus livros escreve explicitamente que a educação precisa ser libertária, ou seja, a favor da emancipação intelectual dos estudantes, e não sua doutrinação.

Silvia Carvalho – Uma educação deve permitir e até incentivar o pensamento crítico, ou seja, a não aceitação de uma realidade que é dada como está. Se isso acontecesse, ainda estaríamos achando que a Terra é plana, porque não seríamos permitidos a ter uma atuação crítica.

“A educação pode libertar ou pode oprimir”

Sobre o ‘kit gay ‘

O MEC (Ministério da Educação) afirmou publicamente que o “kit gay”, como ficou conhecido, é uma notícia falsa, conforme nota emitida pela institutição e pela empresa envolvida no caso, a editora Companhia das Letras. Na realidade, o termo “kit gay” é uma alcunha criada para descreditar o material “Escola Sem Homofobia“. Clique aqui para ler o posicionamento oficial do MEC em relação ao projeto.

Neste mês de outubro, o TSE proibiu o deputado Jair Bolsonaro de falar sobre o assunto. O ministro do TSE, Carlos Horbach, determinou a suspensão de links de sites e redes sociais com a expressão “kit gay”.

Lunetas – Ao seu ver, a educação brasileira seria prejudicada se Paulo Freire saísse das escolas? Como e por que?

Raquel Franzim – Primeiro, é importante reforçar que nossa constituição garante e a Lei de Diretrizes e Bases 9.394/96 legitima a pluralidade de ideias pedagógicas.

“Não somos um país que apenas tem a visão de Paulo Freire na educação. Temos muitas outras e é bom que seja assim”

No entanto, uma eventual proibição da concepção de Paulo Freire na educação não o tiraria apenas. Tiraria inúmeros teóricos e pesquisadores que apoiados nessa concepção criaram seus legados. Todo o pensamento que hoje existe no campo da alfabetização e da matemática é inspirado no Paulo Freire, pois é sabido que crianças, jovens e adultos aprendem de verdade quando atribuem sentido ao que fazem, quando debatem ideias, quando testam suas hipóteses, quando conhecem diferentes perspectivas e tem um ambiente favorável ao protagonismo.

Tirar Paulo Freire é tirar Madalena Freire, Delia Lerner, Magda Soares, Ana Teberosky e Emília Ferreiro, a abordagem de Reggio Emilia, tão reverenciada hoje por muitos educadores e famílias (lá na Itália, até escola existe com o nome de Paulo Freire). Ou seja, é tirar a ciência da educação, anos de pesquisa acadêmica, de história da educação no Brasil para se colocar o que no lugar?

“Costumo brincar que se de fato Paulo Freire fosse praticado, o Brasil não teria 24% da população analfabeta funcional”

Silvia Carvalho – Eu acho difícil falar em sair da escola, porque eu não diria nem que ele está nas escolas de fato, nem mesmo na formação dos professores brasileiros. Essa é a maior falácia da coisa toda. Ele poderia estar nas escolas mais progressistas, de elite, que acreditam na autonomia dos estudantes desde muito pequenos.

“Acho uma ilusão pensar que podemos controlar milhões de professores”

Temos pouquíssimas personalidades brasileiras reconhecidas mundialmente. Onde houve opressão,  Paulo Freire teve um papel muito importante. Ele era um ser humano da maior qualidade, e quando temos alguém assim na nossa História, temos mais é que fazer todas as honrarias possíveis.

Ele foi velado na PUC (Pontifícia Universidade Católica), eu fui no velório e, quando vi, o caixão estava sem a bandeira do Brasil. Ele não podia ser velado daquela forma, então eu fui pedir para que colocassem a bandeira, e disso vou me orgulhar para sempre.

“Ao meu ver, o Paulo Freire é mais dos princípios, da educação democrática e do respeito a como cada um pensa e aprende”

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Por que estamos diante de uma onda de livros proibidos no Brasil?

Resumo

O educador José Pacheco e as pesquisadoras Raquel Franzim e Silvia Carvalho desconstroem os mitos em torno da obra e da vida de Paulo Freire.
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