‘Luz’: ‘A série une a família e mostra a cultura do nosso país’

A primeira série brasileira para crianças da Netflix celebra a cultura indígena e reacende debate sobre a importância de mais produções nacionais

Camila Santana Publicado em 06.03.2024
Imagem mostra a protagonista da série da netflix Luz. Um menina parda, de cabelos ondulados vestindo roupa vermelha e acessórios indígenas.
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Resumo

Conversamos com a equipe e o elenco da série "Luz", da Netflix, para refletir sobre a importância e os desafios de produções audiovisuais brasileiras voltadas para crianças e adolescentes.

Ao reproduzir a estrutura do melodrama herdado das telenovelas combinada a um olhar sobre a cultura dos povos originários, a primeira série infantojuvenil brasileira produzida pela Netflix, “Luz”, em poucos dias se tornou um fenômeno. Foram mais de 1,4 milhão de visualizações e a notícia de estar no top 10 de séries mais assistidas de língua não inglesa. 

Com reflexões sobre identidade e amizade, a série conta a história de Luz (Marianna Santos), uma garotinha órfã, criada na comunidade indígena Kaingang. Ao completar nove anos, ela foge da aldeia e vai parar em um dos internatos mais caros do Brasil. Lá, com a ajuda de seus novos amigos e tutor, ela irá embarcar em uma jornada em busca de suas verdadeiras origens. Entre o núcleo adulto, participam atores como Marcos Pasquim e Mel Lisboa.

Em entrevista ao Lunetas, o diretor Thiago Teitelroit conta que a proposta é promover um encontro entre gerações. “Existem muitos produtos para crianças, mas são poucos os que conseguem verdadeiramente conversar com todos da família”, diz. Por isso, ele acredita que a tentativa de inovação por parte da Netflix ao combinar esses elementos pode gerar um bom entretenimento, sem se isentar da responsabilidade cultural com os espectadores”.

Para a protagonista Marianna Santos, 12, “o mais importante é que a série traz essa união da família ao redor do sofá, enquanto passa para o público um pouco da cultura do nosso país”. Já Francisco Galvão, 9, que interpreta Joca, o melhor amigo de Luz, afirma que ter mais séries brasileiras nos ajuda a “conhecer mais sobre a gente e sobre o nosso país. É um jeito de evoluir nossa cultura”.

“Um vagalume sozinho não faz clarão”

Mesmo com elementos um pouco desgastados, a produção aposta no formato da plataforma. A série vem na mesma linha de outros sucessos nacionais licenciados, como as novelas “Chiquititas”, “Carrossel” e “Carinha de anjo”. Segundo relatório recente da Kids Corp, 93% do público menor de idade no Brasil consome conteúdo audiovisual através de plataformas de Vídeo sob Demanda (VOD). 

Esse grande número de espectadores conectados chama atenção para algumas necessidades. Dentre eles o compromisso por parte dos serviços de streaming em oferecer conteúdos que reflitam a diversidade do público brasileiro e que sejam produzidos localmente. Isso para valorizar nossa cultura e criar uma aproximação com os espectadores, opina Claudia di Moura, atriz afroindígena que interpreta a pajé Kaingang da série. De acordo com ela, as crianças devem ser entendidas como agentes sociais e não apenas como um público-alvo do mercado. Afinal, elas merecem um catálogo plural, com produções capazes de gerar identificação e de ampliar suas referências estéticas.

“Desenvolver um produto pensado para atender às especificidades de um público tão exigente quanto as crianças requer um compromisso muito grande com a qualidade em todas as etapas de construção”, diz Moura.

A produtora audiovisual Pâmela Peregrino, em entrevista para o portal, afirma que sair do mercado estadunidense e ter mais produção de conteúdo nacional, como “Luz”, é uma oportunidade de “contemplar profissionais e conhecimentos diversos, além de inovações narrativas e de representação dos diferentes contextos sócio-culturais nas telas”.

O que as crianças estão achando de ‘Luz’?

No início de sua jornada, a órfã Luz é acolhida por um professor de biologia atencioso e encontra proteção em um internato repleto de crianças. “A parte da escola é a mais divertida por causa das confusões que as crianças aprontam”, opina Miguel Santos, 11. Enquanto busca entender mais sobre seus pais biológicos, ela descobre que o avô, um poderoso fazendeiro da região, é o grande vilão da história.

Já a cena favorita de Isabelly Carvalho, 8, e também a mais emocionante, é quando vários vagalumes iluminam o bebê na floresta. “Eu adorei a natureza e as cores! Para mim, a importância de assistir filmes e séries nacionais é que a gente não fica se perguntando onde será que aquilo está acontecendo, porque a gente pode conhecer o lugar. E a parte mais legal é ouvir a voz de verdade dos atores, falando a nossa língua e do nosso jeitinho.”

“Eu sou Kamé. A gente não fica sentado esperando as coisas acontecerem. A gente vai atrás pras coisas darem certo!” – Luz

“Nada sobre nós, sem nós”

As gravações de “Luz” contaram com a consultoria de uma pajé Kaingang e a presença de mais de 30 indígenas. Moura destaca o compromisso de trazer os povos originários e a representação da cultura do terceiro maior povo indígena do Brasil em número populacional para dentro de um produto de massa feito no Brasil. Mas, mesmo com a valorização do artesanato e de apresentar algumas expressões da comunidade indígena ao longo de seus 20 episódios, fica o questionamento: onde estão as crianças Kaingangs atuando em posição de protagonismo?

“Os povos originários, quando representados, devem ser tratados como sujeitos, e não como objeto. Não somos nós versus os outros. Estamos juntos, narrando juntos, criando juntos. Nunca mais nada sobre nós, sem nós”, afirma Moura.

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