Órfãos da pandemia: crianças que perderam os pais para a covid-19

Histórias de crianças órfãs de pai e/ou de mãe evidenciam um dos impactos da pandemia em nosso país, sujeitando a infância a mais vulnerabilidades
iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 14.04.2021
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Até agora, mais de 13 milhões de pessoas foram contaminadas pelo novo coronavírus no Brasil. Dessas, 360 mil não voltaram para casa. Entre as vítimas, estão pais e mães que deixaram precocemente seus filhos. Como a ausência será vivenciada por essas crianças que dependem de seus responsáveis e de repente se encontram desamparadas?

Ainda que não sejam a população que mais morre por causa do vírus, crianças e adolescentes brasileiros se tornam vítimas indiretas dessa crise descontrolada. Além das perspectivas de futuro alteradas, terão de atravessar muito cedo o luto, sendo obrigadas a conhecer as dimensões da falta, sem muitas vezes atinar para o que de fato está acontecendo.

Segundo um cálculo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), são pelo menos 45 mil crianças e adolescentes que perderam pai e mãe na pandemia. A realidade indica uma geração desprovida de cuidados parentais, que crescerá sem a presença da figura paterna ou materna, em geral, os únicos provedores da casa – em casos da perda de ambos os pais, essas crianças passam a ficar sob a guarda de familiares próximos ou tutela do Estado.

A primeira experiência vivenciada pelos órfãos desta pandemia é chorarem a dor da perda, mas os impactos extrapolam o momento da morte e os sujeitarão a outras perdas particulares ao longo dos anos, mesmo depois de superarmos essa crise coletiva.

Vidas alteradas e mais ‘estrelas’ no céu: como estão as famílias com órfãos da covid-19?

Mais de 365 dias após o início da pandemia, familiares relatam como estão lidando com a urgência de assumir a tarefa de criar crianças e adolescentes que perderam seus parentes diretos e garantir a elas condições de vida. Por meio de suas falas, também conhecemos como as crianças estão vivenciando esse período de luto e de ausência.

“A primeira coisa que Laura pede ao acordar é o pai. Explico que o papai é uma estrelinha que brilha no céu, e que não íamos mais conseguir vê-lo”, conta a professora de educação infantil Cladis de Oliveira Pinto Elba, 46, que perdeu o marido, Amilton, 63, para a covid-19 no começo de março, em Cascavel (PR). Agora, ela é a única responsável por cuidar da filha de 3 anos e meio e de um filho de 25. 

Laura acredita que o pai segue internado: “o papai tá dodói, né?”. Cladis, aos poucos e com cuidado, vai preparando a filha “para que ela não pense que o pai a abandonou”. Antes de partir, “ele me pediu para cuidar da Laura, que a prioridade era ela. Ele era uma pessoa muito boa, me ajudava em tudo na casa e cuidava da Laura, dava banho, vestia, brincava.” 

Na mesma semana em que Amilton foi internado, a menina, que tem síndrome de Down, começou a sentir também os sintomas da doença. “Até hoje entro em desespero só de pensar. Não é fácil viver isso sozinha, sem poder receber ninguém, não poder ver a família.”

“Quando ele foi intubado, eu acreditava num milagre para não deixar a Laura sem pai”

Desde então, Laura não pediu mais para sair na rua com o carrinho, porque era o pai que a acompanhava nesses passeios. A menina também fica superfeliz quando ouve o interfone, porque acha que é o pai voltando para casa. “Então, pedi que o pessoal que faz entrega não toque o interfone, para evitar que ela fique ansiosa”, relata a mãe.

Enquanto Cladis vive um dia após o outro, aguarda a liberação da pensão do marido para ter apoio para seguir cuidando de tudo sozinha. “Toda essa situação sufoca muito”, diz.

Entre essas histórias, chama a atenção o número de bebês recém-nascidos que perderam suas mães. Estudos indicam que grávidas e puérperas com sintomas da covid-19 têm maior risco de desenvolver a forma grave da doença em comparação a adultos da mesma idade, sendo que o Brasil tem uma das maiores taxas de morte nesse grupo do mundo – 77%. Considerando-se as mais de 11,5 milhões de famílias brasileiras monoparentais, formadas por mães solo, se a mãe vem a falecer, como fica essa criança? A dupla é privada da convivência desde a primeira hora, sem a possibilidade de qualquer lembrança ou gesto de amor com quem lhe deu a vida e com a vida gerada de si.

“Como que conta para uma menina de 5 e para outra de 3 anos que a mãe não volta? A pequenininha de 1 mês que é bom. Não sabe de nada. Mas vai saber quando estiver maior que a mãe salvou a vida dela. Isso que importa”. O depoimento é do pai Wagner Araújo, 33, que perdeu a esposa Silvana, 28, após ela dar à luz a Camila, que nasceu prematura. Hoje, a bebê é cuidada por ele junto das irmãs Maria Alice e Giovanna. Wagner conta com a ajuda da avó e das tias das crianças. 

“A gente tá reaprendendo todo dia a viver sem ela. Já faz um mês, né? Então a gente vai se acostumando. Mas todo mundo sente falta. As meninas no começo ficavam perguntando o que tinha acontecido.”

“Chegando no hospital, eles tiveram que decidir se a Camila nascia ou se minha esposa vivia. Eu não sabia quem salvar. É difícil para um pai ter que escolher”

“Aí a Silvana decidiu que era para salvar a criança. Assinou termo e tudo, mesmo sem a gente saber se era certo isso. A situação complicou porque, para fazer o parto, ela perdeu muito sangue. Estava fraca já da covid e ficou mais fraca ainda. A Camila ficou uns dias na UTI, mas a liberaram por medo de deixá-la no hospital.” 

“Agora mais que nunca eu preciso ganhar dinheiro para cuidar delas. A gente fica com medo de sair para trabalhar e pegar esse vírus, mas não tem jeito.” Wagner é motorista de ônibus em Itaúna (MG). Ele e os colegas estão trabalhando dobrado, porque metade da frota está comprometida com motoristas doentes.

A infância dos trigêmeos Paulo, Pedro e Felipe, de apenas 5 anos, também foi impactada de modo irreversível pelo novo coronavírus em Parisi, no interior de São Paulo. A mãe dos meninos, Ana Paula Faria, 37, não resistiu à covid – a apenas cinco meses da morte de Renato, pai das crianças, que sofreu um acidente de moto, aos 36 anos.

Quem conta a história é Douglas Junior Faria, 26, o irmão mais novo, que assumiu os cuidados com os sobrinhos em sua casa, na cidade de Votuporanga. Agora, além da filha Mariana, de 1 ano e 7 meses, ele é responsável pelos trigêmeos. “Não tenho só mais uma filha, tenho quatro”, diz.

“Eles precisam de todo amor possível”

Num período de oito dias, Douglas perdeu a mãe e as duas irmãs. Além dos trigêmeos, Ana Paula deixou um filho do primeiro casamento, Lucas, 18, que está morando com o pai – a madrasta também faleceu por covid. Karina, a irmã do meio, morta pelo vírus, deixou os filhos Adrian, 16, e Ana Carla, 10, que estão com o pai. Dona Valentina, mãe dos três e avó das crianças, chegou a ser extubada, mas morreu por uma infecção hospitalar.

“Se foi uma pancada para nós, imagina para as crianças”, comenta Douglas. “A gente diz que os pais deles foram morar no céu. Mas eles acham que o céu é logo ali, como se fosse uma cidade vizinha, e perguntam quando vão voltar. Eles sofrem diferente porque não entendem o que está acontecendo.” Lucas, o mais velho dos meninos, questiona:

“Por que todo mundo que a gente ama vira estrela?”

Douglas conta com a ajuda da companheira, do pai e também de uma tia paterna dos meninos. A sua vida virou de ponta cabeça com tantas mudanças repentinas, mas definitivas. Ele tenta superar a dor, sem sequer ter se recuperado do susto.

Quando a vida dói: os aspectos da dor dentro da gente e ao nosso redor

“Em geral, essas crianças precisam do apoio de adultos que também estão enlutados”, comenta a psicóloga especialista em luto Érica Quintans. “Quando o luto acontece na infância, ele poderá ser revisitado ao longo dos anos, atribuindo à perda novos sentidos. A ajuda profissional é importante para que a criança possa se expressar e integrar esta experiência à sua narrativa de vida.”

Em um país enlutado, com recordes em números de vítimas, a morte acaba se tornando assunto comum. “Até por proteção, a gente tende a tornar os mais de 3 mil óbitos diários em apenas um número, sem o valor afetivo atrelado a ele”. Mas o luto coletivo é real, “experienciado por milhares de pessoas neste momento, seja pela perda concreta de um ente querido ou pela perda simbólica das certezas, do mundo que conhecíamos, da nossa rotina”, comenta Érica. 

“Quando a tragédia acontece em nossa casa e há a experiência do rompimento de um vínculo significativo com alguém que morreu, os lutos individuais pela covid ficam sujeitos ao distanciamento físico e à ausência dos rituais de despedida”, pontua Érica. “Não podemos abraçar, tocar, frequentar espaços religiosos, o que pode causar revolta”. Diante da impossibilidade dos encontros, “aprendemos a manifestar nosso afeto de outras formas, mesmo que por intermédio da tecnologia”. 

A morte costuma ser vista como um episódio futuro – vamos todos morrer em algum momento, não agora. Quando crianças precisam enfrentar a perda na infância, deve-se “acolhê-la, desfazer a solidão, abrindo espaço para que ela possa se expressar livremente sobre o que aconteceu e respeitando também seus silêncios”, sugere a psicóloga. “A perda pode trazer um senso de insegurança no mundo, então é preciso permitir que sentimentos como medo, ansiedade, raiva, desprezo, angústia venham à tona. Pode haver até regressão de comportamento e dificuldades escolares. Cada um tem uma maneira de enfrentar o luto. Dependendo da idade, a expressão lúdica, por meio de brincadeiras – desenhos, pinturas, teatrinho -, poderá ser mais efetiva do que a linguagem verbal para contar sua história. Isso não significa que a criança não esteja sentindo”.

Órfãos da pandemia: em que medida temos um novo problema social?

Apesar de não haver um cadastro oficial das orfandades precoces em decorrência da covid-19, o desembargador Luiz Carlos de Barros Figueirêdo, maior autoridade no país em Direito da Criança e do Adolescente e no instituto jurídico da adoção, alerta para o “aumento exponencial – que tende a crescer ainda mais – da lotação de casas de acolhimento no mundo, em razão da perda da família natural (mãe/pai) ou por abandono pela família extensa, que não tem condições de ficar com essa criança.”

Para ele, a questão fundamental é: Se não tem família natural, como integrar a criança à família extensa? Se a família extensa não está em condições de recebê-la, constatada a inexistência de parentes próximos com vínculos e com possibilidade de integração, o caminho é partir para uma família substituta, pois, do ponto de vista legal, essas crianças estão aptas para serem adotadas. “Isso é facílimo de proceder, porque não há conflito de interesse. Esse fluxo emergencial para a entrega de órfãos e abandonados precisa ser o mais rápido possível, pois

“O tempo da criança é diferente do tempo do adulto”, diz.

O Estado é o responsável direto por programas de apoio para mediar a integração à família extensa quando não há mais família natural. Também é responsável por garantir que a permanência na instituição de acolhimento seja transitória. Além disso, “sai muito mais barato auxiliar financeiramente as famílias extensas desempregadas ou sem emprego formal que gostariam de conviver com a criança do que mantê-la numa dessas instituições”, aponta Luiz Carlos.

Quando a morte acontece a famílias que vivem em situação de vulnerabilidade, o quadro é agravado pelas imposições das desigualdades sociais e econômicas, limitando ainda mais o futuro dessas crianças e expondo-as a múltiplas privações, o que inclui, mas não só, riscos de evasão escolar, sobrevivência pelo trabalho infantil, casamento infantil e incidentes frequentes de violência de todos os níveis. Apesar de terem direito constitucional a tratamentos normativos diferenciados e políticas públicas adequadas, nem sempre essas crianças são assistidas em condições ideais.

Além da insuficiência de apoio familiar direto e do decréscimo dos indicadores socioafetivos, quando mais de 60% das crianças e dos adolescentes brasileiros são afetados pela pobreza, é imposta a eles uma camada adicional de dor trazida pela atual crise sociossanitária, acarretando prejuízos aos seus direitos fundamentais e o incremento das privações de seus direitos básicos. (Fonte: Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef, 2018).

Somos muitos os brasileiros afetados direta ou indiretamente por esta pandemia. Até quando?

* A produção desta reportagem contou com o apoio da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down. Colaborou: Sheila Ana Calgaro.

Resumo

A partir de depoimentos, narramos as histórias de crianças órfãs como um dos impactos da pandemia, e também investigamos os possíveis desdobramentos a que ficam sujeitas, como desamparo parental e falta de oportunidades socioeconômicas.
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