De Maria Marruá a Juma: pais e filhos do Pantanal fora das telas

Como as crianças pantaneiras da primeira edição da novela, em 1990, vivenciavam a região e como é o Pantanal para as crianças contemporâneas ao remake de 2022
Divulgação TV Globo/Arte Lunetas
  • Publicado em: 22.07.2022
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“Os filhos, dos filhos, dos filhos, dos nossos filhos verão”. Crianças, que acompanham o remake da novela “Pantanal” junto de seus pais, ouvem de segunda a sábado, às 21 horas, a mensagem da música de Marcus Viana, cantada na voz de Maria Bethânia, que diz sobre o mundo que as futuras gerações encontrarão.

Nesta toada, fomos investigar como as infâncias de 32 anos atrás vivenciavam a região pantaneira, em 1990, quando a versão original da novela, escrita por Benedito Ruy Barbosa, foi exibida pela TV Manchete, e o que mudou para as crianças de hoje que assistem ao novo sucesso da TV Globo desde 28 de março, data em que o primeiro capítulo foi ao ar, agora com as adaptações escritas por Bruno Luper. 

Em ambas as versões estão presentes as belezas naturais do Pantanal e as culturas dos homens que vivem lá: o modo de falar, de se vestir e de realizar as tarefas no campo, por exemplo. Na trama, os protagonistas precisam lutar contra o desmatamento, as queimadas, o abate desenfreado de animais e a diminuição dos peixes. Também são abordados temas como a homofobia e o machismo.

Como a ficção impacta a vida real

Desde sua estreia, “Pantanal” tem feito parte da vida de muitos brasileiros, inclusive mudando hábitos de consumo. A empresária Lourdes da Costa, que possui uma loja de materiais pantaneiros, no centro de Miranda (MS), comenta como “aumentou muito a venda de berrantes, apetrechos de tereré, selas para cavalo e até os trajes pantaneiros, aqueles de peão ou com estampa animal print”, observa. Um estudo do Google aponta que, desde a estreia do folhetim, as buscas por “O que é o Pantanal?” subiu mais de 280% e “Onde fica o Pantanal” subiu mais de 270%. 

A novela Pantanal e diferentes infâncias pantaneiras

À noite, Esmael, 9, e sua família se reúnem para ver “Pantanal”. Moradores da Serra do Amolar, uma comunidade que fica na fronteira do Brasil com a Bolívia, entre Cáceres (MT) e Corumbá (MS), eles não perdem um capítulo da novela e conversam bastante sobre o tema. O menino que hoje se vê representado nas telas, embora jamais pudesse imaginar que seu cotidiano seria assunto de novela, passa os dias brincando, andando de canoa e indo para a roça com o seu avô. 

Já a mãe dele, Edilaine Nogales de Arruda, 27, aponta que muita coisa mudou desde a primeira exibição da novela. “Nasci, cresci e construí a minha família aqui no Pantanal, na Serra do Amolar. A novela mudou muito. Colocaram os assuntos de hoje, como cuidar das coisas do dia a dia sem prejudicar o meio ambiente e conviver com a tecnologia”, detalha.

Sobre a proximidade do homem com os animais e a natureza, mãe e filho explicam que são relações muito presentes em suas vidas, além de também se identificarem com o modo de falar. “Nós falamos frases iguais a eles como ‘vixe’ e ‘larga mão’”, comentam. Esmael só avalia que o meio de transporte, como mostrado na novela, não faz parte da rotina do homem pantaneiro. Segundo ele, a grande diferença na vida real e o que passa na TV é a falta do avião, porque em sua casa e na de seus vizinhos não tem isso. “Aqui andamos a cavalo. Gosto também de passear de barco”, diz.

A infância de mãe e filho se assemelha ao local e ao tipo de afazeres, como ir para a roça, andar de barco e brincar com os animais. Mas se diferencia muito em outros aspectos, como o estudo e a alimentação. “A qualidade do ensino está muito melhor. Meu filho tem acesso à internet na escola e até come lá”, completa Edilaine. Antes, ela precisava ajudar os pais e os avós a plantar arroz, feijão, milho, abóbora, melancia e mandioca para comerem e venderem, conseguindo assim dinheiro para comprar outras coisas. Hoje, seu filho vai à roça só para brincar.

Além disso, eles observam como muitos animais sumiram e as doenças estão mais presentes, um dos reflexos das emergências climáticas em curso. Por isso, Edilaine viveu mais experiências com os bichos do que Esmael, que passou a conviver com o desmatamento e as queimadas. Para ele, ver carcaça de animais mortos, seja pelo fogo ou por caçadores, sentir o clima mais quente e abafado, e não ter mais tantos peixes para pescar faz parte do seu cotidiano. “Na minha infância”, diz Edilaine, “não tinha os grandes incêndios que prejudicam os animais e as plantações”.

No bioma pantaneiro são encontradas pelo menos 4.700 espécies de fauna e flora, sendo 3.500 espécies de plantas, 650 de aves, 124 de mamíferos, 80 de répteis, 60 de anfíbios e 260 espécies de peixes de água doce. Mas esse número diminui a cada ano. Como reflexo do interesse dos espectadores pela novela e pelos animais da região pantaneira, as buscas no Google por “onça-pintada” aumentaram 36%; consultas sobre capivara e sucuri também estão em alta. O biólogo Figueiroa celebra o fato da novela mostrar que “sucuri e onça não atacam pessoas do jeito que elas pensam. Ninguém precisa matar esses animais, não precisa ter medo”, tranquiliza.

Gustavo Figueroa, biólogo e diretor de Comunicação do Instituto SOS Pantanal, também comenta a importância de “botar em horário nobre da televisão, atingindo milhões de pessoas todos os dias, um bioma que é pouquíssimo conhecido pelos próprios brasileiros, e tocar em questões ambientais sensíveis a respeito dele”. 

Desse modo, a arte tem “imitado” muitos acontecimentos da vida real. “Não dá para abordar temas como o desmatamento e os incêndios que estão destruindo o bioma de forma profunda, mas há, nas conversas entre os protagonistas, muita troca de ideia, de informação, mostrando um diálogo a favor do meio ambiente. Acho muito positivo”, avalia Figueroa.

Com os incêndios de 2020, 3.909.075 hectares foram queimados, mais de 26% do território do Pantanal. Já as ocorrências em 2021 somaram mais 1.945.150 hectares, ou 12,6% do bioma, segundo dados do LASA (Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia, da UFRJ).

Segundo ele, a mudança mais significativa desde a primeira exibição da novela foi a perda de água. “O Pantanal secou bastante. Se as coisas continuarem como estão, o Pantanal vai virar um deserto”, alerta. Mas ele destaca que há iniciativas para proteger o bioma e a luta para que “o Pantanal comece a se recuperar da maneira que precisa”.

Seu Agripino Moreira da Cruz, 69, assistiu a primeira versão da novela, mas seus filhos, então com 12 e 15 anos, não gostavam de acompanhar a exibição. “Hoje, os adolescentes querem assistir cada capítulo e isso é importante para atrair mais pessoas para ajudar a cuidar do nosso Pantanal”, considera ele. Além do debate sobre meio ambiente, ele também identifica que agora se fala mais sobre racismo e homossexualidade, e “os atores são mais bonitos e menos nus”, brinca. 

Entre as mudanças do remake, ele gosta que os animais sejam “de verdade”. “Eles colocaram uma cobra real e uma onça viva nesta versão. Eu gostei muito disso”. Seu Agripino identifica muita coisa em comum à sua vivência pantaneira na novela, “de vez em quando passa um avião aqui em cima, vemos cobras, onças e capivaras. E tem até os Marruá que são aqueles bois bravos que precisamos domar no laço”, pontua. “Só o jeito deles falarem que é não é muito igual ao que falamos aqui”. 

Entre as infâncias de Bianca, 9, e de sua mãe, Luciene Corrêa Souza Dias, 35, também há muitas diferenças. Enquanto a menina valoriza poder “brincar com os amigos, ter água limpa em casa, e assistir TV e navegar na internet”, Luciene lembra que “desde cedo a gente tinha que trabalhar na roça e ajudar os nossos pais”. 

A mãe destaca como as casas mudaram e também o acesso à educação: “hoje as casas são feitas de tijolo e telha, mas, na minha infância, as casas que a gente morava eram feitas de barro e palha. O fogão que hoje é a gás, antes era de lenha, feito no chão. A escola era a céu aberto, a mochila era saco de arroz e o material era dividido com os outros irmãos: um levava na parte da manhã e outro à tarde. Agora, existe escola, com sala e professores formados. Posso dar uma mochila para cada um. Eles podem viver a vida deles livres, brincar como criança”, conta. 

Em relação aos causos e às crendices contadas na novela, que despertam a curiosidade das crianças e mexem com a razão de muitos adultos, Bianca acredita no homem que vira saci. Apesar de nunca ter visto, a menina sempre ouviu falar sobre ele. A mãe dela afirma que, em sua juventude, viu um lobisomem em frente à igreja de sua comunidade.

“Na minha infância, as pessoas contavam que tinha uma mulher que virava onça. Eu nunca vi, mas acredito. Não sei explicar a origem dela. Só que ela faleceu”, conta aos risos Edilaine. Esmael, seu filho, aprendeu a acreditar que homem vira bicho justamente por conta dessa história, assim como as personagens de Maria e Juma Marruá viram onças quando estão com raiva e o “véio do rio” vira sucuri quando precisa se disfarçar, para não ser visto. “Tem a mulher que vira onça e o homem que vira cobra. Eu acredito nisso, sim”, revela o menino. “É a minha parte preferida da novela”.

Os seres em interação
Para seguir se inspirando com as histórias e as infâncias pantaneiras, a série brasileira de animação “O menino que engoliu o sol” trata com delicada poesia da relação de respeito e diálogo entre um menino e a natureza do bioma, passando por temas como as queimadas, o confinamento e a venda ilegal dos seres da floresta, e a matança e a desculturação dos povos originários. No meio do Pantanal, a criança brinca com uma ariranha ou um ser fantástico – não há diferença entre o real e o imaginado. Produzida no Mato Grosso do Sul, a série é inspirada no universo do poeta Manoel de Barros e na mitologia indígena Guató, com narração do cantor Ney Matogrosso.


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Resumo

A partir de suas vivências, mães e filhos contam o que aproxima ou distancia o Pantanal da primeira edição para o remake da novela. Em comum, fica evidente o espaço que lendas, como a do homem que vira bicho, ocupam no imaginário pantaneiro por gerações.
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