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Manoel de Barros, o poeta das infâncias: 5 motivos para conhecer

"As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças", dizia Manoel de Barros, que recriou em sua poesia a infância como um lugar de ser e estar
Ocupação Manoel de Barros Divulgação/Intervenção Lunetas
  • Publicado em: 04.04.2019
da Redação

A poesia é uma “voz de fazer nascimentos”. É assim que o poeta sul-matogrossense Manoel de Barros definia a escrita literária poética. Para ele, a cada vez que uma poesia é criada, é como se fosse criado junto com ela um novo jeito de enxergar o mundo. Manoel falava da infância como um território de liberdade, e defendia o “criançamento” das palavras, ou seja, revolucionar a linguagem da forma como ela nos é apresentada, e fazer dela cenário de brincadeira.

Não por acaso, o escritor ficou conhecido como “o poeta das infâncias”, sobretudo por sua trilogia “Memórias inventadas” (2005, 2006 e 2007), livros em que ele apresenta a infância em três períodos que nunca terminam, tempos que na verdade são apenas um. Para o poeta, “a escrita de uma memória teria que ser sempre a escrita de uma infância – imaginária, sim, porém, enraizada na experiência vivida”, diz a descrição da obra publicada pela Companhia das Letras.

“As três idades do homem seriam três infâncias”, diz o texto.

Quem é de São Paulo, deve ter notado que o autor ganhou uma exposição toda em homenagem à sua vida e obra, a Ocupação Manoel de Barros, que fica em cartaz no Instituto Itaú Cultural, na Avenida Paulista, até o dia 7 de abril.

O Lunetas foi acompanhar de perto o que a mostra traz, e compartilha nesta matéria os pontos mais interessantes da visita, e também daquilo que a obra do autor desperta. Fizemos também uma cobertura pelos stories no perfil do Lunetas no Instagram. O registro traz entrevistas com curadores e com os educadores do espaço.

Não foi fácil escolher apenas alguns, mas, abaixo, selecionamos cinco motivos pelos quais vale a pena levar a sua criança para conhecer a mostra, e estimular a relação com a poesia a partir da poética do autor.

1. A infância como um modo de estar no mundo

O escritor não tinha o foco de sua obra voltado para o público infantil. Alguns livros, como “Cantigas para um passarinho à toa” (2003) e “Exercícios de ser criança” (2000) ganharam edições (e reedições recentes) com uma estética e materialidade especificamente pensadas para contemplar o leitor em formação.

Porém, é justamente aí que reside o maior ponto de encontro da sua escrita com as crianças. Isso porque a sua poesia guarda uma infância genuína, essa que vive em todos nós, do zero aos cem anos. A infância é o ponto de partida comum de toda a sua obra, é nela que ele se inspira e dela que ele extrai o substrato de suas palavras inventadas.

“A infância em Manoel de Barros é um modo de ver o mundo, é a infância do olhar”, destaca uma das curadoras da exposição, Bruna Ferreira da Silva

Daí o valor social de entrar em contato com essa obra, tão cheia das minúcias de um olhar inaugural sobre o mundo. A importância de ressignificar aquilo que nos rodeia e explorar o mundo com a curiosidade de quem as vê pela primeira vez é característico da infância, e da poesia do autor. Manoel de Barros dizia, por exemplo, que somente as crianças e a poesia conseguem fazer um verbo “delirar”, por sua habilidade inata de transformar o sentido das coisas. Para isso, ele criou até mesmo um verbo próprio: “transver”.

“No descomeço era o verbo
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função do verbo, ele delira
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio”

2. Paternidade e família em Manoel de Barros

Outro aspecto marcante da exposição é a relação do poeta com sua família, que aparece em poemas, cartas, desenhos e em detalhes ocultos que podem passar despercebidos se não olharmos com atenção.

O primeiro livro de Manoel, por exemplo, “Compêndio para uso dos pássaros” (1960) traz na capa original criações artísticas dos seus filhos. João, que na época tinha cinco anos, fez o desenho de um pássaro, e Martha, de nove, criou a tipografia do título.

Mais adiante na mostra, o público pode ler uma carta de 1980, escrita pelo filho João na época “Arranjos para assovio”. A carta emociona pela forte relação familiar e do cotidiano na fazenda com os filhos que João descreve, e permite ao público conhecer uma das facetas da paternidade do autor.

Pai, nunca tive coragem de dizer nada a respeito da sua poesia. Porque me considero suspeito e porque sei que o senhor fala de coisas muito ligadas a nós, lá de casa. E isso, é claro, influi no julgamento. Não que o senhor fale ou escreva sobre nós, mas toca em pontos comuns. E quem é ligado como a gente é, sente claramente, e tudo parece muito simples como alguns dizem que não é“, escreve o filho, descrevendo o afeto que sente pelo pai e ao mesmo tempo se colocando como parte inerente da sua matéria-prima poética.

3. O brincar genuíno

Muito da vitalidade poética de Manoel de Barros se deve ao fato de que ela transporta o leitor para uma infância genuína situada em um quintal tão metafórico quanto concreto, onde a criança brincava de inventar brinquedos em objetos cotidianos. Onde pedra não pedra, nem chão era chão, e sim cenário para “transver” o mundo, esticar horizonte, puxar rio pelo rabo, “prezar insetos mais que aviões”, e “escutar a cor dos passarinhos”, como o poeta dizia.

O poema abaixo, “O menino que carregava água na peneira”, presente no livro “Manoel de Barros – Poesia completa” (editora Leya, 2013), simboliza bem a relação da escrita poética de Manoel com as coisas rasteiras da existência.

“Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!”

4. Um reencontro com a criatividade

“As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças”

Nos poemas de Manoel de Barros, assim como no universo imaginário da criança, as coisas nunca são o que elas são concretamente. As árvores são criaturas que falam, um menino pode morar numa garça, e uma rã pode sonhar em ser passarinho. As palavras brincam com o leitor, e vice-versa. O resultado é um reencontro com a criatividade, tão comum ao modo de a criança habitar o mundo.

“Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma”

No vídeo abaixo, a jornalista, atriz e escritora Bianca Ramoneda comenta diversos aspectos da obra de Manoel de Barros, como o profundo conhecimento da língua que se entrevê nas suas “peraltagens” com as palavras.

5. Reestabelecer uma relação íntima com a natureza

Na fonte da poesia de Manoel de Barros existe uma relação de promiscuidade com a natureza – tanto a das palavras quanto a das plantas e dos bichos (inclusive os humanos, sobretudo os rasteiros). No entanto, o mundo que lemos nos versos do poeta parece filtrado por um olhar infantil, desacostumado: brincando com os termos e as normas da língua, Manoel ia derrubando as paredes entre espécies, gêneros, famílias, reinos. “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”, escreveu ele em O Livro das Ignorãças (1993).

Neste vídeo [abaixo], a questão é pensada por quatro biólogos: Bruss Lima, que estuda as atividades cerebrais de primatas não humanos; Carlos Hotta, cujas pesquisas se concentram no relógio biológico das plantas; Hugo Aguilaniu, especialista em genética do envelhecimento e diretor-presidente do Instituto Serrapilheira; e Nurit Bensusan, que atua no campo das políticas públicas para a conservação da biodiversidade e escreve livros dedicados à popularização das ciências.

(Fonte: Itaú Cultural)

 

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Resumo

"As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças", dizia Manoel de Barros. O Lunetas foi acompanhar de perto a exposição em homenagem ao poeta, e compartilha aqui alguns aspectos imperdíveis da visita. Inspire-se para levar seu filho.
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