Educação antirracista: 10 livros infantis para falar sobre o tema

Por meio da literatura é possível dialogar com a diversidade e apresentar às crianças inúmeras formas de ver e pensar o mundo
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  • Publicado em: 23.07.2021
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“Numa sociedade racista não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. A frase da professora e filósofa americana Angela Davis nos lembra que a desconstrução do racismo, que é estrutural em nossa sociedade, se faz no dia a dia, entre adultos e crianças, em casa e na escola. Uma educação antirracista é papel de toda a sociedade.

Mas o que podemos considerar educação antirracista? Para Ananda Luz, mestra em Ensino e Relações Étnico-Raciais e pesquisadora de literatura infantil, é aquela que emancipa tanto as crianças quanto os professores, porque promove olhares sensíveis para ser e estar nesse mundo. Promove, principalmente, visibilidade.

A escola infelizmente pode ser o primeiro local onde as crianças têm contato com o racismo, por isso o combate ao preconceito racial se faz fundamental para além de datas como o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. “É preciso assumir o compromisso de maneira contínua e sistematizada, presente em todo o currículo, se desdobrando em práticas cotidianas”, pontua Rodrigo Azevedo, mestre em educação, coordenador pedagógico e pesquisador de literatura infantil. 

Para os dois especialistas, a literatura infantil se apresenta como possibilidade de mostrar novas perspectivas e ofertar diálogos, ficcionais ou não, com outras formas de ver e refletir sobre o mundo, tornando-se um meio potente para a formação antirracista. 

“Como diz Eliane Debus [pesquisadora de literatura infantil da Universidade Federal de Santa Catarina], a palavra ficcional arrebata o leitor para um tempo e espaço que não são os seus. Ao adentrar outros mundos, encontrar com outros modos de vida e refletir sobre tudo isso, a criança que lê, quando retorna ao seu mundo, não é a mais a mesma e passa a vê-lo de forma diferente, pois é atravessada pela experiência que a leitura proporcionou”, explica Ananda. 

“Por intermédio da literatura é possível dialogar com a diversidade”

Há muitos livros que podem abrir caminho para essas conversas. Trouxemos aqui um pequeno recorte. Famílias e educadores podem incluir sugestões e buscar outras. 

Recomendamos conhecer a obra completa de autoras que são referência como Heloísa Pires Lima, Sonia Rosa e Kiusam de Oliveira e ampliar o olhar para esse tema tão urgente e necessário.   

Livros para contribuir com uma educação antirracista:

“De Passinho em Passinho”, de Otávio Junior (Companhia das Letrinhas) O mais recente livro de Otávio Júnior, vencedor do Jabuti de 2020 com a obra “Da Minha Janela”, apresenta um movimento que nasceu nas favelas cariocas: o passinho. “É frevo? É funk? É samba? É hip-hop?”, questiona a narrativa. A mistura de ritmos que resulta em um balé com os pés é hipnotizante e contagiante. O passinho é considerado uma das manifestações culturais mais importantes do Rio de Janeiro da última década. No fim do livro, a ilustradora Bruna Lubambo nos presenteia com um glossário visual dos principais estilos do passinho, para quem quiser arriscar a dança.
“Sábado”, de Oge Mora (VR) O tão aguardado dia chegou e a programação de Ava e sua mãe estava na ponta da língua: biblioteca, salão de cabeleireiro, piquenique no parque e espetáculo de marionetes. Só que os planos foram por água abaixo. Mas será que foi mesmo um dia perdido? Por meio de inventivas ilustrações com colagens, a americana Oge Mora nos mostra mulheres negras – mãe e filha – ocupando os lugares. Todos os lugares que elas quiserem!
“O caderno sem rimas da Maria”, de Lázaro Ramos (Pallas) Maria cria um caderno sem rimas, em resposta ao “Caderno de rimas do João”. A caçula faz questão de se afirmar, dizendo que não gosta de rimas e que é mais da invenção. Além de inventar expressões como “jubula” – adjetivo dado a toda palavra que emociona só de ouvir e pensar no que ela significa -, traz seus conceitos para as existentes, como sororidade. Ambos os livros foram escritos por Lázaro Ramos – inspirados em seus filhos – e ilustrados por Maurício Negro.
“Mãe Sereia”, de Teresa Cárdenas (Pallas) Um navio negreiro é o cenário desta narrativa, escrita pela cubana Teresa Cárdenas e ilustrada pela argentina Vanina Starkoff. Nesta ficção, que seria a primeira viagem a levar pessoas escravizadas da África para outro continente, a Mãe Sereia acompanha a travessia para amenizar o sofrimento e o medo desse povo a caminho do desconhecido. Oralidade, religiosidade, fé e poesia caminham juntos nesse livro, intenso e necessário.
A mãe que voava”, de Caroline Carvalho (Aletria) A pequena Alice se diverte com o pai enquanto a mãe sai de carro para trabalhar. Curiosa, quer saber onde a mãe trabalha e descobre que ela é professora. Imagina a mãe dividindo o colo com muitas crianças, mas ao acordar no fim do dia tem de volta o colo todinho só para si. Com texto da catarinense Caroline Carvalho e ilustrações da portuguesa Inês da Fonseca, o livro mostra uma família feliz e distante dos estereótipos.
“Benedito”, de Josias Marinho (Caramelo) Neste livro-imagem, um bebê descobre o tambor, explora seus sons e encontra-se com sua cultura e ancestralidade. O autor, o rondoniense Josias Marinho, se inspirou nas manifestações do congado de Minas Gerais para dar vida a Benedito. A narrativa visual abre oportunidade para que os pequenos leitores tomem contato desde cedo com a riqueza da cultura afro-brasileira.
“Tanto, tanto!”, de Trish Cooke (Ática) Uma mãe e seu bebê estão sossegados em casa, até que toca a campainha. Chega tia, depois tio, avó, primos e a casa vira uma farra! O ambiente já estava lotado, mas ainda faltava chegar alguém. Quem será? Neste livro, escrito por Trish Cooke e ilustrado por Helen Oxenbury, sentimos o clima de festa e cada um dos familiares, a seu modo, aprecia a deliciosa sensação de estar com um bebê.
“O menino Nito”, de Sonia Rosa (Pallas) Quantas vezes os meninos já ouviram que homens não choram? Foi o que aconteceu com o Nito. De tanto engolir o choro ele acabou ficando doente. O único jeito de melhorar era “desachorar”, como aconselhou o médico. Este é o livro de estreia de Sonia Rosa, publicado pela primeira vez em 1995. A autora, que hoje conta com mais de 40 livros, intitula sua obra de literatura negro-afetiva voltada para crianças. 
 “Omo-oba: histórias de princesas”, de Kiusam de Oliveira (Mazza) Os seis mitos africanos, recontados por Kiusam de Oliveira e ilustrados por Josias Marinho, oferecem a oportunidade de conhecer princesas bem diferentes das que habitam os contos de fadas de origem europeia.Tão presentes nos livros infantis, as princesas são admiradas pelas crianças mas parecem ser sempre iguais. Nesta obra são apresentadas as orixás femininas, divindades da mitologia iorubá, com toda sua força e poder. 
“Histórias da Preta”, de Heloisa Pires (Companhia das Letrinhas, 2005) Preta nos leva a um passeio, às vezes divertido e às vezes denso, sobre a descoberta de sua identidade. Já no início da narrativa ela questiona: “Ser negra é como me percebem? Ou como eu me percebo?”. Pelas histórias e reflexões da protagonista são apresentadas questões como a diversidade do continente africano, o tráfico negreiro, o preconceito racial e a religiosidade. O livro, escrito por Heloisa Pires Lima e ilustrado por Laurabeatriz, foi publicado em 1998, quando ainda havia poucas obras assim, voltadas para as crianças. 

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Resumo

Fortalecer e praticar o antirracismo é um dever de toda a sociedade, de adultos a crianças. Para inspirar conversas constantes sobre o combate ao racismo com os pequenos, preparamos esta lista com livros para contribuir com uma educação antirracista.
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