Iniciativas comunitárias ampliam acesso aos livros especialmente nas periferias, porém indicador do Brasil está abaixo dos demais países
No Brasil, só 14% das famílias leem com as suas crianças. Iniciativas comunitárias espalhadas pelo país ajudam a ampliar o acesso à literatura de qualidade produzida para as infâncias.
Desde a infância, Helder Guastti foi movido por histórias, começou com as narradas pela mãe que resgatava as que ouvia de seu avô e as que ela mesma inventava. Também era instigado pelos livros da biblioteca pública que frequentava sempre depois das aulas na cidade de João Neiva (ES).
A paixão pelos livros acabou se transformando em profissão. Helder tornou-se professor e, incomodado com as práticas de leitura engessadas que encontrava na escola, passou a investir em mediações e rodas de conversa com seus alunos. Paralelamente, o desejo de ampliar o acesso aos livros em João Neiva e enfrentar a escassez de espaços de leitura na cidade o levou, junto com a mãe, a criar o Confabulando, uma biblioteca comunitária instalada na própria casa, em um bairro periférico conhecido como “morro”.
Há nove anos, o espaço reúne um acervo de mais de 2.200 títulos e promove círculos de leitura, estudos e mediações gratuitas itinerantes abertas à comunidade a cada quinze dias. Nas mediações, Helder monta ambientes lúdicos e usa acessórios para chamar a atenção do público, mas conta as histórias a partir da leitura e imagens do livro. “As mediações que eu faço são muito interativas, desde a hora que eu apresento o livro falando suas características até o final da narrativa”, diz.
A biblioteca no “morro” em João Neiva – hoje certificada pelo selo de Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura – levou Helder para longe. No ano passado, ele ficou entre os finalistas do Globo Teacher Prize, considerado o “Nobel da Educação”, que homenageia docentes que impactam suas comunidades no mundo todo.

Em Caxias do Sul (RS), o escritor Volnei Canônica também descobriu a paixão pelos livros ainda na infância. As primeiras obras em que teve acesso vieram do ferro-velho dos pais, eram livros descartados junto com papelão e papéis para a reciclagem. “Queria levar para ler, mas meu pai não deixava. Ele me ensinou que o livro tem o peso do papel e o peso da ficção, a mim interessava o da ficção”, lembra Volnei.
Em meio às dificuldades, Volnei construiu uma carreira sólida na gestão e promoção da leitura. Coordenou a implantação de bibliotecas comunitárias por todo o Brasil, foi diretor no Ministério da Cultura, escreveu livros, viaja o mundo para palestrar sobre literatura infantil e em 2014 fundou sua própria biblioteca comunitária: o Instituto de Leitura Quindim.
Localizado estrategicamente dentro de um shopping em Caxias do Sul, a ideia é que os visitantes “tropecem” nos livros, quando vão às compras, e acessem, de forma gratuita, o acervo de quase 8 mil títulos selecionados. “Há uma necessidade de que as pessoas tropecem nesse objeto que acabou saindo da vida delas. O livro nunca foi universal, seja pelo custo, acesso ou pela simbologia”, diz Volnei.
Em um país onde a leitura ainda ocupa pouco espaço na rotina familiar, iniciativas como as de Helder e Volnei ajudam a preencher uma lacuna importante. Segundo o IELS (Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 14% das famílias brasileiras leem com as crianças de 5 anos, entre três a sete vezes por semana, enquanto a média dos demais países chega a 54%.
Ao mesmo tempo, 53% dos lares brasileiros nunca ou raramente mantêm esse hábito, sinalizando um distanciamento preocupante entre as crianças e os livros desde os primeiros anos de vida.
As telas podem ter culpa neste cenário. O professor Helder observa que os pais de seus alunos reclamam que os filhos só querem saber do celular, mas ressalta que são os próprios adultos que dão o aparelho às crianças. Ele destaca que nas comunidades carentes, este se tornou o objeto de desejo central, ocupando o lugar que antes era da televisão.
“Digo isso sem julgamento, apenas como reflexão. Os dados são alarmantes, mas quem convive com criança no chão da escola, não se espanta porque sentimos isso no dia a dia”, complementa.
Volnei reforça a tese e salienta que as novas gerações de pais já foram criadas em um ambiente de streaming e telas, tendo “pulado” a etapa do contato com o livro. “O streaming, a tela, o livro digital, tudo isso é importante. As coisas não brigam entre elas, na verdade é uma questão de ter passado por experiências com elas.”
Helder também acredita que o baixo índice de leitura junto às crianças também se deve ao fato de que ler demanda esforço e tempo, e muitas vezes o sistema escolar torna a leitura uma prática mecânica e “sacra”, o que afasta o prazer e o gosto pela obra. “A escola talvez propague a ideia de algo superficial quando fala: ‘vai lá ler um livro’, mas a leitura envolve vários processos e quando a gente pensar em leitura em casa, demanda tempo.”
Muita gente invalida a experiência de ler para bebês pelo fato de eles “não entenderem nada.” Entretanto, Volnei explica que a leitura na “primeiríssima infância” vai muito além da aquisição de vocabulário, e é fundamental para a construção de vínculos afetivos e o entendimento do mundo. Ele defende que o processo é uma entrega de experiências e informações mediada pelo olhar do adulto.
“Quando você acolhe o bebê no seu colo ou deita na mesma cama que ele, usa o seu corpo para estar em diálogo com o corpo dele, isso é muito potente para o processo de aquisição de conhecimento”, diz o escritor.
Além disso, as tonalidades de voz, pausas, respiração e mudanças de tom que ocorrem quando se conta uma história potencializam o vínculo e ajudam a criança a entender as nuances e percepções de “um mundo que nos assombra e que assombra eles.” Por isso, Volnei afirma que o livro defende que o livro seja tratado como um brinquedo e deve ser entregue para o bebê manusear, morder e babar, pois esse contato físico é necessário para construir uma relação de intimidade com a obra.
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Como fortalecer o hábito da leitura em casa com as crianças:
Trate o livro como um brinquedo: Os livros podem ser manuseados, mordidos ou até rasgados (o que pode ser resolvido com fita), pois esse contato físico é essencial para que a criança construa uma relação com o objeto.
Seja o exemplo vivo: As crianças aprendem pela observação. É fundamental que elas vejam os adultos lendo, manuseando livros e se divertindo com eles, pois tudo o que os adultos fazem é entendido por elas como algo importante.
Não exija passividade ou silêncio total: Se a criança estiver se movimentando, subindo na cama ou caminhando pelo quarto enquanto você lê, continue a leitura. Ela não precisa estar estática para prestar atenção.
Leia “com a criança”: Isso é mais potente do que ler “para” ela. Transforme o momento em uma conversa, permitindo que a criança questione a obra e compartilhe suas próprias experiências e percepções.
Fortaleça o vínculo afetivo através do corpo: Aproveite o momento da leitura para o acolhimento. Ler no colo, deitar-se na mesma cama ou usar diferentes tonalidades de voz cria um encantamento que potencializa o vínculo entre o adulto e a criança.
Mantenha a frequência e a repetição: A formação de leitores depende da constância. Não se preocupe em ler apenas à noite, qualquer hora e lugar são adequados para abrir um livro. A repetição de histórias ajuda na aquisição de vocabulário e repertório.