Educação árida: mudanças climáticas dificultam acesso à escola

Alagoas e Pernambuco, estados no semiárido mais ameaçados pela desertificação, sofrem com o avanço da seca que passa a comprometer as próximas gerações
Foto: Daniel Lamir/Arte: Lunetas
  • Publicado em: 11.05.2022
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“Tem uma cobra que é a mãe d’água. Se matar ela, as torneiras vão ficar vazias. Um dia, meu primo Giovani matou uma cobra bem pequenininha. Tudo ficou seco. Depois, veio outra. Quando ela entrou na fonte que estava seca, voltou a água.” É de maneira lúdica que Ana Eloisa, 8, explica a falta de água durante os períodos de estiagem na comunidade do Sítio Sabonete, zona rural de Mata Grande, no sertão de Alagoas. 

O estado onde vive Ana Eloisa é um dos mais afetados pela desertificação (com 32,8% do território atingido pelo fenômeno, o maior percentual em todo o Semiárido brasileiro),  provocada pelas mudanças climáticas em curso no planeta, como mostra o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O relatório da ONU, publicado em março deste ano, pontua que o quadro pode ser “irreversível”, principalmente para os estados do Nordeste, caso o aquecimento global não seja parado desde já. 

O levantamento aponta que o Nordeste está entre as três regiões (ao lado do sudeste australiano e áreas mediterrâneas) onde os rios estão secando. O Nordeste é considerado a região de maior risco, pois concentra a maior população do semiárido do mundo, com cerca de 1,5 milhão de famílias rurais que sobrevivem da agricultura para subsistência e renda. Além disso, segundo o IPCC, a intensidade das secas pode provocar intermitência em rios nordestinos perenes e desaparecimento dos intermitentes, ameaçando peixes de água doce em habitats já caracterizados por calor e secas, tudo isso somado à perda de biodiversidade (estima-se que a perda de vegetação nativa da caatinga já chega a 30%). 

Os ataques à tal “cobra d’água” que simboliza a caatinga vêm sendo intensificados com o desmatamento desenfreado. Entre as consequências, temperaturas mais elevadas e secas mais intensas impõem desafios para crianças e adolescentes que vivem no bioma.

”O caminho é todo cheio de lama”, responde Lucas Emanuel, 6, sobre o trajeto para a Escola Municipal Santa Luzia, onde estuda. Para chegar à área urbana, ele leva cerca de uma hora, com trechos a pé e de caminhonete.

Além de Alagoas, que lidera o ranking dos estados mais castigados pela seca, outros oito estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais são afetados, atingindo mais de 1,2 mil municípios e 26 milhões de pessoas.

Os meninos e as meninas do semiárido brasileiro de três comunidades rurais que a reportagem visitou nos estados de Alagoas e Pernambuco enfrentam dificuldades comuns que vão desde falta de água para beber e para lavar o uniforme escolar, até os riscos no trajeto para a escola. 

A frequência e permanência nas aulas depende não apenas das condições climáticas, mas também da promoção de políticas sociais e da preservação da natureza.

“Os processos de uma agricultura degradadora, de queima, do monocultivo, do uso de agrotóxicos e do uso intensivo de máquinas sobre o solo tem provocado um aceleramento no processo de desertificação e um êxodo das famílias do campo para a cidade. Podemos dizer que são refugiados ambientais, porque o local já não permite mais as condições de vida”, diz o agrônomo Paulo Pedro de Carvalho, da ONG Caatinga.

Além da seca, as famílias lidam com a falta de recursos financeiros, grandes distâncias entre a casa e a escola, transporte escolar precário, ensino que não inclui saberes do território, falta de formação dos professores e também de políticas, como a de cisternas.

“Muitos pais e mães não sabem ler e escrever, porque tiveram que trabalhar. O pai e a mãe deles botavam eles para plantar feijão na serra, não tinha como estudar. Às vezes, não tinha como comprar o lápis e o caderno”, conta Valdenis de Souza, uma das lideranças da comunidade quilombola Jatobá II, zona rural de Cabrobó, em Pernambuco, que está entre os maiores núcleos de desertificação no Brasil, processo que se inicia quase sempre por conta do desmatamento da vegetação nativa.  

Apesar dos desafios impostos pelas características do próprio bioma de clima mais seco e árido, que tornam desafiador viver por lá, a vida dessas famílias tem se tornado mais difícil e pode piorar, não pela natureza em si, mas pelo desmatamento que continua em curso. As mudanças climáticas já são sentidas pelos mais jovens que vivem no semiárido, com a percepção da alteração no sistema de chuva que estão mais escassas e mal distribuídas. 

“O clima está bastante desregulado. Acontece todo ano de chover numa pequena área a alguns metros para frente daqui. Meu pai fala que antigamente não tinha isso, geralmente quando chovia era uma chuva pouca, mas geral. Hoje está dando uma chuvinha aqui, outra ali”, menciona Rafael de Souza Rodrigues, 24, da comunidade quilombola Jatobá II. 

Se viver um dia sem água é difícil, imagine uma vida inteira lutando para ter o recurso e também para acessar a educação. Esses problemas atravessam gerações.

No meio do caminho tem uma pedra

“Quando falta água na escola, eles avisam que tem que levar água de casa pra tomar lá”. A estudante Letícia, 15, conta que a escassez hídrica no sertão de Alagoas impacta a sua rotina escolar, situação que se agrava no inverno. 

“Muitas vezes eles não vêm pra escola, porque não têm água para tomar banho ou a roupinha está suja”, conta Renilse Alencar de Morais, 48, conhecida como Nicinha, que é professora da Escola Santa Luzia, também na zona rural de Alagoas. 

A 3,5 quilômetros da escola onde Nicinha atua, na Comunidade Serra do Urubu, mora Luzanete Pereira da Silva, 29, com seus três filhos. Ela tem árvores frutíferas no quintal e criação de pequenos animais, como porcos e galinhas para subsistência. A dona de casa, que também já foi aluna, relembra o passado e compara com as dificuldades em relação à falta d’água que ainda afetam o estudo de quem mora por lá.

“A gente saía cinco horas da manhã e chegava quase cinco da tarde. A caixa d’água era longe, tinha que esperar as roupas secarem, para poder trazer na cabeça. A gente perdia muita escola por conta disso. Depois foi aparecer a água que vem no jeguinho, aí foi dificultando menos, mas a dificuldade sempre foi enorme. Se não fosse esse problema com a água, muitas pessoas teriam ido mais à frente do seu estudo”, relata ela que cursou até o 5° ano e hoje luta para que os filhos não deixem de estudar.

Daniel Lamir

Caminho da comunidade Serra do Urubu para escola, em Mata Grande (AL)

Antes de ir para a escola, Letícia, que é sobrinha de Luzanete, se dedica aos afazeres domésticos e depois segue em um trajeto de duas horas para chegar até a Escola Monsenhor Aloysio Vianna Martins, na área urbana de Mata Grande, com séries que vão do 5º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. Para estudar, ela anda um trecho a pé, e pega uma caminhonete rural (disponibilizada pela rede de ensino municipal, é adaptada com bancos na parte do bagageiro e conhecida como “pau de arara”) e um ônibus escolar padrão.

“É perigoso porque tem uns que vem pendurado, apoiado no ferro, porque lá dentro tá cheio e eles não querem vir a pé”, relata o irmão de Letícia, José Cícero, 17, que também estuda na área urbana. Além do transporte escolar precário, sem comodidade ou segurança, as estradas são de difícil acesso, estreitas e esburacadas.

Leticia e Cícero fazem parte dos quase 28 milhões de estudantes matriculados no país, sendo mais de 10 milhões de crianças e adolescentes que estudam nas áreas que compõem o Semiárido brasileiro e a Amazônia Legal. As taxas de reprovação nesses grandes territórios são maiores do que as médias nacionais no ensino fundamental. 

Nas escolas públicas rurais e urbanas de Mata Grande, a média de atraso escolar entre os anos de 2006 e 2020 é de 10% nos anos iniciais e no ensino médio chega a 44%, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), de 2018. Letícia estuda em uma das três unidades do município, e a dela é a com maior número de alunos com distorção de série, com 11%, enquanto as outras duas estão com 0 e 2%, respectivamente. Há dez anos esse número era ainda maior, 38% de atraso escolar.

Até 2019, existia a Escola Municipal José Bernardino Correia, na comunidade Serra do Urubu, onde moram Leticia, Cícero e Luzanete, mas ela foi fechada no processo de nucleação, que consiste em reunir em uma única escola alunos de unidades desativadas, geralmente em áreas rurais. Os estudantes que cursavam o ensino fundamental foram transferidos para a Escola de Santa Luzia. Porém, essa unidade, que hoje atende até o 5º ano e que se tornou a mais próxima da região, também está ameaçada de ser fechada, segundo os moradores.  

O fechamento de escolas rurais nos últimos 21 anos chegou a 80 mil, de acordo com levantamento atualizado com base nos dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Foram quase 4 mil escolas rurais fechadas por ano. 

A reportagem visitou a Escola Municipal José Bernardino Correia, que foi desativada e está abandonada, suja e sem manutenção pela Prefeitura. “A pé leva 1h30 até a Escola de Santa Luzia, antes era menos de 10 minutos pra chegar. Agora tá muito longe. É muito difícil, principalmente esse ano, porque tem muito aluno pequeno que vai de caminhonete e não tem nenhuma tutora pra tomar conta dessas crianças”, comenta Luzanete. 

Ela conta que, no ano passado, o filho mais velho caiu da caminhonete indo pra escola. “Sorte que o trator tinha passado e a terra estava muito solta. Todo dia eu subo e boto eles no carro.”

A localização da escola ou da moradia também influencia nas chances de reprovação. Embora as áreas urbanas concentrem o maior número de estudantes e, consequentemente, o maior número absoluto de reprovações, proporcionalmente, é na zona rural onde mais se reprova: 8,6% dos estudantes enfrentam o fracasso escolar segundo dados do estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). No caso do abandono escolar, os percentuais são maiores nos anos finais, no ensino médio. 

José Cícero é um dos oito filhos de Ana Paula dos Santos Nascimento, 36, e escolheu terminar os estudos. Já o irmão mais velho, de 19 anos, parou no 5º ano e hoje trabalha com serviços informais pela região. Todos os dias Cicinho, como é conhecido, acorda às seis horas da manhã e vai trabalhar na roça da família, onde plantam feijão e milho para consumo próprio. Depois, se prepara para ir à escola. 

O jovem ainda não sabe qual profissão ou atividade quer realizar no futuro. Da escola, ele escolheu destacar apenas as dificuldades. “Teve umas ‘parações’ que cancelaram por causa da água. Aconteceu um bucado de vezes”. Os estudos de Cícero também foram prejudicados pela falta de transporte escolar: “o motorista não vinha”. 

Apesar dos avanços entre uma geração e outra, as dificuldades no acesso à educação de mães e filhos parecem se repetir. A mãe de Letícia, Ana Paula, teve que interromper os estudos no 4º ano por falta de água. “Quando tinha chuva o pessoal não conseguia ir na escola, por causa dos caminhos. Aí na seca, porque não tinha água. Hoje ainda acontece dos meninos não conseguirem tomar banho pra se ajeitar pra ir para escola”.

Daniel Lamir

Ana Paula e sua filha Samira, 11: duas gerações que enfrentam obstáculos para acessar à educação no semiárido

Dedicada aos trabalhos da casa e ao cuidado com os filhos, Ana Paula leva os pequenos até o ponto do transporte escolar pela manhã, busca na hora do almoço e depois busca os maiores no final da tarde. Ela sonha em voltar a estudar, mas vê isso como uma possibilidade distante.

“Eu queria voltar [a estudar], porque estudando a pessoa não precisa passar pelo que eu passo, ela tem um futuro. Hoje, muita gente fica dentro de casa, porque não pode trabalhar, porque a gente só vive aqui do Bolsa Família. Meu marido adoeceu há dois anos, está com depressão. O que eu queria ter era meus estudos, nunca tive uma escola pra seguir estudando pra se formar e ter meu emprego. A gente sonha, mas esse sonho nunca chega”, lamenta. O marido dela realiza trabalhos informais na região em lavouras de milho e na pecuária.

Alagoas tem a maior taxa de analfabetismo do país: 17,1%, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2019. São 337 mil pessoas de 14 anos ou mais que não sabem nem ler nem escrever – 160 mil são homens e 177 mil são mulheres. Outras 963 mil delas nessa mesma faixa etária têm apenas o ensino fundamental incompleto ou equivalente. A pesquisa revela ainda que três em cada cinco adultos não concluíram o ensino médio no estado. 

Uma das faces dramáticas da desertificação é que não é possível produzir alimentos e obter renda devido ao solo infértil e à falta de água. Segundo o Inquérito Nacional Sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, é também nesta região que se concentra 59,01% dos domicílios sem acesso ao básico para comer. Com isso, o agravamento da pobreza nessas regiões impacta a sobrevivência das populações rurais. Consequentemente, a falta de acesso à renda impacta na educação dessas famílias. 

A Secretaria Municipal de Educação de Mata Grande não se manifestou sobre as questões relatadas pelos estudantes e pais sobre o transporte, evasão e o fechamento de escolas.

“Chão é lava”

Há 283 quilômetros de Mata Grande (AL), está Cabrobó, município no interior de Pernambuco que aparece no relatório da ONU como uma área já desertificada. O estado tem mais de 80% do seu território no semiárido, somente a Zona da Mata não está dentro das áreas suscetíveis à desertificação do Brasil. O Rio São Francisco, único rio perene, está ameaçado por causa da desertificação. 

“Quando a siriema canta e as galinhas ainda estiverem subindo no pau, pode esperar que dali uns três dias a chuva chega.” Os saberes populares de Dona Joana Maria de Souza, 78, revelam a esperança de ter água para o consumo, para os animais e as lavouras, na comunidade quilombola Jatobá II, zona rural de Cabrobó. Dona Joana é benzedeira e agricultora, uma das pessoas mais antigas da comunidade. Recebeu a reportagem enquanto debulhava o feijão colhido na plantação no seu próprio quintal.

Por muito tempo, ela foi uma das únicas que sabia ler e escrever na região. “Tenho valor por saber ler, sabe por quê? Porque aqui na comunidade eu era procurada para ler bula de remédio de quem tava doente”.

Após 13 anos da transposição do Rio São Francisco, próximo à comunidade, o abastecimento de água ainda é irregular e não tem água encanada disponível na pia todos os dias. Um dos recursos mais valiosos nessa região é a cisterna, reservatório capaz de captar e armazenar a água das chuvas. Hoje, Dona Joana é a única da comunidade que possui uma.

“Eu já deixei de ir para escola por causa da falta de água. Não tinha água no banheiro, para fazer merenda, para limpar a sala, não tinha água para beber e essa questão atrapalhou as aulas”, comenta Rafael de Souza Rodrigues, 24, da comunidade Jatobá II. Rafael estudou na Escola Municipal Alexandre Parente de Sá que, até hoje, não tem água tratada nem esgoto, segundo dados do Censo Escolar de 2021.

Nesta região, passado e futuro se misturam. A maior seca da história, entre 2012 e 2017, colaborou para que ocorresse a expansão das áreas desertificadas. Além disso, os problemas de falta de água, que já tinham sido superados, voltaram a assombrar as comunidades rurais que aprenderam a viver e a conviver nas terras do semiárido. 

Esse cenário de seca relembrado por Dona Joana pode se repetir, e não só nesta região que já tem histórico de seca. Outras regiões do país estão sujeitas, caso as mudanças climáticas sigam avançando. 

“Apesar de ter vivido essa maior seca, ela não foi sentida nesse formato. As pessoas não tiveram o flagelo da miséria, da mortalidade infantil e materna, não tiveram necessariamente que migrar. Pelo contrário, havia a lógica de estoque de água e de sementes”. Segundo Antônio Barbosa, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), o semiárido pode retroceder, porque as políticas estão paradas. 

Na comunidade quilombola Jatobá II, onde vivem cerca de 130 famílias, a principal reivindicação é que meninos e meninas acessem uma educação que esteja conectada com o território, evidenciando elementos da cultura quilombola e a apropriação de identidade, além das disciplinas curriculares, como matemática e português. 

“É por meio da educação que as nossas crianças sentem que fazem parte da história, e não que foram inseridos nela. Um dos fatores para que a educação avance é a formação, não só dos professores, mas do corpo da escola para aprender a trabalhar a nossa própria história com o aluno”, explica Maria Ozeilde de Souza Rodrigues, coordenadora pedagógica da escola, natural do quilombo. 

Depois do processo de nucleação, cerca de 400 alunos de mais de 15 comunidades (entre elas Mandacaru, Curralinho, Jatobá II e Boqueirão) precisaram passar a frequentar a Escola Municipal Alexandre Parente de Sá. 

No questionário da prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicado para o 9º ano da escola há três anos, 91% dos alunos se declararam pretos. Apenas 36% disseram ter acesso à água tratada e à iluminação pública. Já 64% dos alunos disseram usar transporte escolar e 9% ônibus para conseguir chegar na escola. 

Como a escola da comunidade Boqueirão fechou, Davi Lucas, 7, foi transferido para a Escola Alexandre Parente. A brincadeira favorita é “chão é lava”, em que não se pode tocar o solo nem com os pés nem com as mãos. Ganha a brincadeira quem conseguir um lugar para se pendurar ou se abrigar da lava imaginária. “Lá era pertinho, era mais pequena. Eu acordo 5h20 para conseguir chegar aqui”, diz o menino que tem matemática e história como disciplina e brincadeiras favoritas.

Segundo o coordenador-geral da ONG Caatinga e representante da Articulação no Semiárido Brasileiro, Paulo Pedro de Carvalho, o acesso à internet abriu os horizontes em regiões rurais, porém os jovens não enxergam mais uma perspectiva interessante no campo, por causa dos limites do ambiente que não permite mais gerar uma boa produção agrícola, renda e qualidade de vida para famílias. “Os próprios pais estão encorajando, dizendo ‘acho melhor vocês irem buscar melhores condições.’”

“A gente traz muito forte essa questão que nossos antepassados deixaram: novenários, que é uma expressão de fé da comunidade em rezas realizadas uma vez por ano, trabalho coletivo, sobrevivência com aquilo que se tem. Diante da dificuldade econômica que a gente está enfrentando, podemos dizer que somos especialistas em ser resistentes”, comenta Ozeilde. 

A convivência com o semiárido pressupõe a adoção da cultura do estoque de água para diversos usos – consumo humano, produção de alimentos e para o manejo da natureza de modo que os efeitos das mudanças climáticas sejam melhor manejados. 

No ano de 1994, a comunidade de Cabrobó recebeu água encanada pela primeira vez. “Água é vida. Tendo água, você tem como buscar outros meios para sobreviver. A partir disso, qualquer comunidade pode se desenvolver”, diz João Evangelista, que é a terceira geração da família a nascer e crescer nas terras do território quilombola e ex-aluno da escola. 

Segundo levantamento do Unicef com base em dados do Censo Escolar 2020, 80% das escolas municipais têm acesso adequado à água, porém ainda há no país três mil escolas municipais sem água e outras 21 mil com acesso, mas de forma inadequada. 

Solicitamos esclarecimentos à Secretaria Municipal de Educação de Cabrobó sobre as questões relatadas, mas não obtivemos resposta até a publicação desta reportagem. 

Cisternas: uma política amiga da educação

“Na minha casa junta água. Tem caixa de água, duas caixas e acabaram de fazer uma cisterna. Da chuva de ontem, ela tá quase cheinha. O nome da cisterna é “Mainha”, conta a estudante Maria Daiene, 7, que vive na comunidade Santa Luzia, em Mata Grande, sertão de Alagoas. A obra para a construção da cisterna no quintal dela foi iniciada em dezembro de 2021, mas só foi finalizada agora, por se tratar de um local de difícil acesso. 

A promessa é de que outras famílias da região também sejam beneficiadas com cisternas para consumo individual por meio do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) do governo federal. O programa conta com a parceria e assistência da ASA, que desenvolveu a metodologia e capacita moradores das próprias comunidades para a construção das cisternas de placa, agregando saberes. A partir da mobilização popular, mais de 1 milhão de cisternas de 16 mil litros foram construídas, segundo a ASA. 

A gente aprendeu a economizar água, não gastar muito e também que a água serve para as plantas. Se não tiver água, as plantas morrem. E não sobra nada, só a gente”, afirma Maria Daiene. Por enquanto, na comunidade de Serra do Urubu, somente a família de Maria Daiene conta com esse sistema que lembra uma caixa d’água, mas é feito de alvenaria direto no solo. 

Em 2021, foram construídos 4,3 mil equipamentos, o menor número desde a criação do programa, em 2003. O governo Bolsonaro praticamente paralisou o programa de cisternas no ano passado: o total é 48% mais baixo se comparado às 8.310 unidades de 2020, segundo dados do Ministério da Cidadania. A ASA estima que existam pelo menos 350 mil famílias em zonas rurais sem uma cisterna de 1ª água (para consumo humano) e 800 mil sem a de 2ª água (para produção).

Luzanete, mãe de Maria Daiene, lembra dos desafios que a escassez impõe para garantir a frequência dos três filhos na escola. “Hoje a dificuldade é menos, mas ela ainda mexe muito com a gente. No ano passado, os meus meninos e os da minha vizinha não foram pra escola por conta que a cisterna estava seca, não tinha chovido. Quem fosse tinha que levar sua garrafinha de água. Foi preciso esperar quase duas semanas para o carro-pipa vir e despejar água na escola.”

A escola também recebeu uma cisterna recentemente, mas, devido a um problema de construção causado pelo solo irregular, o equipamento que garantiria água para beber e a maior permanência dos alunos não está funcionando. Sem previsão de conserto, a única maneira de obter água é através da chuva. 

“Filhos perderam as aulas em uma das secas e nós não encontramos água, era muita gente que não tinha cisterna e muita gente para pegar água. Aí os meus meninos perderam as aulas porque não tinha água. Numa reunião, a professora falou ‘quando não tiver água para dar banho, dá com cuspe, porque a escola não pode parar”, comenta Ana Paula, mãe de oito filhos. “Quando é seca demais, a fonte seca, e não tem como ir pra escola”, diz. 

Das comunidades visitadas, a quilombola Jatobá II, em Cabrobó, foi uma das beneficiadas do Programa Uma Terra, Duas Águas, que já construiu mais de 104 mil tecnologias para garantir segurança alimentar e renda às famílias de várias comunidades do semiárido, segundo a ASA.

“Hoje tá com insegurança, porque a adutora que tem na comunidade não é mais suficiente. A gente tem cisterna, tanto as de placa como as de plástico, e cisternas de produção, mas se faltar água uns 15 dias, um mês, já não vai ter água nem para o consumo humano”, relata com preocupação João Evangelista, morador de Jatobá II.

Então, o que é preciso para garantir qualidade de vida para as pessoas na convivência com o semiárido? 

Educação é onde o coração do semiárido começa a bater

A resposta mais recorrente à questão é a educação contextualizada, modelo de ensino inspirado nos valores do educador e patrono da educação brasileira Paulo Freire, que prioriza a realidade, a cultura e o meio em que vive o aluno. 

Manter a escola próxima da realidade dos estudantes também é estratégia para combater a evasão. No semiárido, os ensinamentos sobre como produzir alimentos diante da escassez de água, como preservar nascentes e fazer o manejo da terra é como aprender a ler o solo. 

“As queimadas e o desmatamento ainda são fortes na região. Então, a educação é importante para que se trabalhe com os jovens novas práticas para não agredir tanto o meio ambiente. Ensinar como se faz o adubo orgânico, não queimar”, ressalta Paulo Pedro.

A Escola Rural de Ouricuri, que leva o nome do município do sertão de Pernambuco, já foi exemplo desse modelo pedagógico. A unidade nasceu da mobilização da comunidade com o apoio da ONG Caatinga no ano de 1990. Hoje, conta com 348 alunos matriculados vindos de pelo menos 17 bairros do entorno, da educação infantil até o 9º ano. A escola foi municipalizada em 1999, mas ainda assim não conta com água tratada e faz uso de água de cacimba, uma escavação rasa para captação de águas subterrâneas, e com uma cisterna. 

“Teve um período muito bom da escola que nós fazíamos a agroecologia, aula prática de como cuidar do semiárido. É importante que essa capacitação volte”, conta Maria do Socorro, que foi aluna e hoje é a gestora da escola.

Na contramão, as escolas do semiárido vêm passando pelo processo de nucleação, que consiste em juntar diversas escolas em uma mesma unidade, deixando de lado a proposta multisseriada e com unidades dentro dos territórios dos estudantes. 

Apesar do trabalho tímido devido à municipalização, a escola de Ouricuri é a única, das três visitadas pela reportagem, que ainda leva em consideração o meio em que vivem os alunos, porém, ainda assim, algumas famílias escolhem deixar o território. 

“Os pais viajam muito para trabalhar nos projetos, na região de Petrolina, e levam as crianças. Eles simplesmente saem da escola e não têm essa de ‘vou transferir meu filho’, aumentando a evasão. No caso dos adolescentes, eles já fazem isso por conta própria”.

Para a realidade de Cabrobó, Ouricuri e Mata Grande, a proposta das prefeituras resultou no distanciamento dos alunos com os saberes da terra e longos trajetos para chegar nas escolas, que agora ficam nas áreas urbanas. 

Apesar das prefeituras oferecerem formação para os professores que atuam nessas regiões, a falta de conhecimento dos profissionais sobre os desafios das famílias é outra barreira. 

Segundo a coordenadora da escola, Diana Maria, outro desafio é convencer alguns pais sobre a importância da educação para as meninas. “Acham que a escola é um lugar que não tem valor e que elas [filhas] aprendem mais dentro de casa: na beira de uma pia, de um fogão”, relata a educadora. 

Apesar de receber as comunidades de todo o entorno, a escola ainda não consegue atender o ensino médio. Para a professora Geangela Maria, a nucleação atrapalha na formação da equipe escolar, que fica vulnerável às mudanças da gestão municipal. “Quando você municipaliza, a tendência é: entra um prefeito, uma equipe; muda a gestão, outra equipe. Então, isso se perde um pouco, a formação não é continuada.”

Com o processo de municipalização da escola, a agroecologia deixou de ser praticada enquanto método. Os pais e a comunidade também deixaram de ser incluídos no processo de ensino. Porém, alguns educadores compreendem as dificuldades enfrentadas pelos alunos e seguem firmes, em defesa da educação contextualizada, porque já percorreram os mesmos caminhos cheios de obstáculos que os meninos de agora.

“Eu estudava na cidade à noite e andava uns quatro quilômetros de bicicleta para pegar o ônibus para escola, minha nota baixou. Por que eu não quis desistir? Eu sou apaixonada pela educação”, conta Diana Maria, de Ouricuri. 

Há gerações, meninas e meninos sertanejos carregam no corpo marcas para conviver no bioma mais árido. Crianças podem se tornar homens e mulheres fortes, se a educação estiver de mãos dadas com saberes da agroecologia – um aprendizado que pode servir de cartilha para enfrentar as mudanças climáticas.

* Essa reportagem é fruto do 3º Edital de Jornalismo de Educação do Jeduca e do Itaú Social. Contou com a produção e fotografia de Daniel Lamir.

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Emergência climática e as infâncias: por um futuro no presente

Resumo

O acesso à educação é um direito de toda criança, mas, no semiárido brasileiro, as mudanças climáticas interferem diretamente na vida escolar de meninos e meninas que enfrentam desde falta d’água para beber e tomar banho até meios de transporte precários.
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