Árvores importam, mas sozinhas elas não vão salvar o planeta

Conter a emergência climática e garantir um futuro mais sustentável para esta e para as próximas gerações demanda mais que plantar, preservar e reflorestar
iStock/Arte Lunetas

Foi necessário cerca de quatro bilhões de anos até que as árvores passassem a existir. Estas “perfeitas esculturas vivas desafiam a gravidade e são os únicos elementos naturais em movimento perpétuo em direção ao céu”, narra o documentário Home. Elas são também uma “máquina mágica”, que se constrói sozinha e custa muito pouco, com a incrível função de absorver dióxido de carbono do ar (um dos principais gases do efeito estufa), aponta o ambientalista George Monbiot em vídeo produzido junto à ativista Greta Thunberg. Quando essas entidades são ameaçadas, todas as formas de vida se desestabilizam. 

Embora a natureza seja poderosa, apenas 3% do financiamento global para o clima são direcionados a soluções baseadas em recursos naturais, de acordo com a Conservação Internacional (CI). Para ajudar os ecossistemas a reencontrarem o equilíbrio, Greta indica três ações simples: “proteger, restaurar e usar a natureza” a seu favor. Contudo, elas só serão eficientes se executadas massivamente, e já.

Basta só plantar árvores?

Para conter o avanço da crise climática, campanhas incentivam o plantio de árvores como forma de equilibrar a “pegada de carbono” – termo que se refere ao quanto o nosso estilo de vida é – mais ou menos – danoso ao meio ambiente. 

Idealizador do projeto Plant-for-the-planet, o garoto alemão Félix Finkbeiner, na época com 9 anos, atingiu seu objetivo de plantar 1 milhão de árvores, em três anos. Agora, a meta é plantar 1 trilhão de árvores (do original “Together let’s plant a trillion trees!”). Para isso, ele conta com a ajuda de mais de 90 mil crianças e adolescentes, em 75 países. A prioridade são espaços públicos, periféricos e pobres – geralmente regiões desertas de árvores.

No Brasil, apesar de esforços como o Pacto pela restauração da Mata Atlântica e a Aliança pela restauração na Amazônia, perdemos 24 árvores a cada segundo, aponta a rede colaborativa de especialistas MapBiomas. Segundo o balanço anual, elaborado com medições de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Amazônia brasileira perdeu 13.235 quilômetros quadrados de árvores em um ano. Entre agosto de 2020 e julho de 2021, o desmatamento ilegal aumentou 22% em relação ao período anterior. É a maior perda de floresta registrada nos últimos 15 anos. 

Incomodada com as questões socioambientais, Lara Gonçalves Ferreira, 19, se juntou à Plant para lutar por justiça climática. Ela é coordenadora de projetos no Espírito Santo e conselheira global do grupo, o que lhe permite “ser parte da solução” e construir um futuro possível “para mim e para as futuras gerações”, diz. 

Embora plantar árvores nativas seja uma forma eficiente e barata de se atenuar os danos, Miriam Prochnow, vice-presidente da Apremavi, organização reconhecida pelo plantio de árvores no Brasil no combate à crise climática, sabe que “cada muda plantada importa, mas é preciso ampliar muito a escala da restauração para conseguir cumprir a meta estabelecida no Acordo de Paris, em que o Brasil deve restaurar 12 milhões de hectares de áreas desmatadas até 2030”. Esta é também a Década de Restauração lançada pela ONU.

Que árvore plantar?

Todas as espécies capturam carbono. É o mecanismo de crescimento das plantas. As que crescem mais rápido, chamadas pioneiras, capturam mais carbono no período inicial de crescimento, mas no médio e longo prazos, se igualam às outras, até porque as espécies conhecidas como secundárias têm porte e copas maiores. “Nos plantios de restauração é fundamental misturar as espécies e, assim, garantir também a biodiversidade”, alerta Miriam.

Para Lara, trata-se de ações paliativas que nos dão mais tempo para amenizar o impacto da crise climática, mas “de nada adiantará plantar árvores sem educação socioambiental”. Ela sugere “integrar, no currículo escolar, cada vez mais cedo e com mais frequência, uma conexão com a terra, por meio de atividades recreativas, aulas ao ar livre, participação em plantios, ou até estimular que a criança adote plantinhas para cuidar em casa, tornando-se responsável por elas. O contato com a natureza contribui para um senso de pertencimento. Só avançaremos ao entender como a vida cotidiana é afetada”, arremata.

“O plantio de árvores anda juntinho da educação”

Em paralelo à regeneração do que se destruiu em áreas florestais e diferentes biomas brasileiros, Lara sugere “a conservação das florestas que ainda estão de pé; zerar o desmatamento a partir de políticas públicas eficientes; e mudar a matriz energética para fontes limpas, como a solar e a eólica, eliminando o uso de combustíveis fósseis, fontes de energia não renováveis e que são poluentes em emissões de gás carbônico”.

A essa lista, Miriam adiciona a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs), especialmente nascentes e matas ciliares, onde não se deve construir novas edificações, a fim de evitar enxurradas e enchentes. Fala ainda sobre a importância de adotar soluções baseadas na natureza, aumentando a arborização das cidades, por exemplo, para seguir usufruindo de ‘serviços’ como ar limpo, água em abundância e de qualidade, polinização, conforto térmico, abrigo para a fauna”; e sobre a necessidade de “rever hábitos de consumo, sobretudo os alimentares, reduzindo o consumo de carne e procurando saber a fonte quando consumir”. Isso porque 28% do total de gases de efeito estufa do Brasil vêm de emissões diretas do setor agropecuário, fortemente ligadas ao rebanho bovino, apontam dados do Sistema de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, de 2019.

Ricardo Abramovay, especialista em bioeconomia da floresta, defende que “no Brasil, a urgência urgentíssima é zerar o desmatamento”, pois somos o único país do mundo em que quase metade das emissões de efeito estufa deriva do desmatamento – 44% do total, segundo o SEEG. “Não se trata apenas de atividades ilegais ou de uma economia informal, o desmatamento envolve uma rede internacional de criminalidade”, denuncia. De fato, 99,8% dos desmates têm indício de ilegalidade, apontou o relatório anual de desmatamento no Brasil, do MapBiomas, em 2020.

Enquanto a degradação ambiental avança, o governo federal segue enfraquecendo o sistema de fiscalização, com o desmantelamento dos órgãos de controle, como o Ibama, cuja atuação respondeu a apenas 2% dos avisos de desmatamento monitorados por satélites.

A Amazônia registrou o 1º semestre mais devastador desde 2015, quando a série histórica do Deter/Inpe começou. Entre janeiro e junho deste ano, 3.325,41 km² de floresta tiveram alerta de desmatamento – o dobro da área do município de São Paulo – um aumento de 8% na comparação com os primeiros seis meses de 2020 (3.080,95 km²).

“Uma das formas de inibir a derrubada da floresta, é tratar isso como crime”, sugere o especialista. “Quando há um assalto a banco, você prende o criminoso e não deixa ele com o dinheiro”. Mas, “quando o cara invade uma terra pública com equipamentos pesados e caros, você aplica uma multa e é proibido retirar dele o maquinário. Há uma sinalização verbal por parte do governo e políticos locais de acabar com o estado e deixar que a iniciativa dos particulares tome conta da região. Contudo, o que emerge daí não é o empreendedorismo e a riqueza, mas a máfia, a restrição da liberdade das pessoas, o domínio do território por milícias.”

“Seguir desmatando é não ter vergonha na cara, é compactuar com o crime”

Para ele, barrar o desmatamento seria mais simples do que parar de usar combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, ainda predominantes na matriz energética mundial por sua “alta concentração de energia e por garantirem a expansão da produção, embora respondam por eventos climáticos extremos profundamente destrutivos”. Adotar energias limpas requer uma “revolução no jeito de viver”, aponta. Isso envolveria, por exemplo, “eletrificar a frota de veículos, instalar postos com energia elétrica para abastecê-los, acabar com as oficinas mecânicas; criar novos padrões de consumo; melhorar a eficiência em aquecimento e refrigeração das residências; mudar a forma de produzir cimento, ferro; investir em inovações tecnológicas voltadas à redução drástica das emissões de gases de efeito estufa.”

Os impactos ao clima estão em curso

Os ambientes naturais já aguentaram séculos de destruição. Os últimos remanescentes de natureza estão no seu limite. Se não barrarmos o desmatamento, a grilagem e a apropriação de terras públicas, o garimpo, a mineração e a exploração dos recursos da floresta em territórios indígenas protegidos, “os impactos serão devastadores às populações e à biodiversidade, podendo chegar num ponto de ‘não retorno’, em que mesmo ainda tendo alguma natureza preservada, ela não conseguirá sobreviver, nem a espécie humana”, explica Miriam.

Ao ultrapassar esse limite de conseguir superar as agressões e se regenerar, a Amazônia deixa de ser a maior floresta tropical úmida e suas funções ecossistêmicas de permitir que os gases do efeito estufa não contaminem a atmosfera desaparecem. 

Em estudo recente publicado na revista científica Nature, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) descobriram que as queimadas e o desmatamento já estão fazendo com que parte da Amazônia emita mais gás carbônico do que pode absorver, acelerando ainda mais a emergência climática. 

Segundo os cientistas, a Amazônia armazena 100 a 120 bilhões de toneladas de carbono. Se ela deixar de existir, tudo isso é lançado na atmosfera e o esforço global para conter a crise climática poderá ser em vão. 

Na região sudeste da floresta, o processo de savanização já está acelerado, com mudanças na flora (aumento da mortalidade de árvores típicas do clima úmido, por exemplo) e na fauna (lobos-guarás, animal símbolo do Cerrado, sendo vistos em áreas degradadas da floresta; e a morte de filhotes de harpia, a maior ave predadora da Amazônia).

1 a cada 3 árvores no mundo está perto da extinção
Em relatório sobre o estágio de conservação de todas as 58.497 espécies de árvores do mundo, cientistas alertam que 30% delas estão sob risco de extinção. De acordo com o estudo, pelo menos 142 árvores já foram extintas. Uma das principais ameaças à proteção da flora são as ações humanas (perda de habitat impulsionada pela agricultura e pelo pasto; superexploração derivada da extração de madeira e de atividades de colheita; e disseminação de pestes invasoras e doenças). Apesar da grande diversidade de flora arbórea, o Brasil é o segundo país no ranking de espécies ameaçadas de extinção em números absolutos (1.788), atrás apenas de Madagascar (1.842).

Quando a perda de vegetação nativa alcança grandes proporções, a desertificação compromete a função reguladora do clima e afeta também drasticamente o regime de chuvas, que são importantes indicadores sobre o quê, quando e onde plantar. A Amazônia é a principal reguladora da chuva nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde está a maior parte da produção agrícola brasileira, em um fenômeno conhecido como “rios voadores”. Em poucos anos, a perda causada com a redução de chuvas será maior que o ganho de produção decorrente do aumento da área plantada. Então, financeiramente, não compensa desmatar para produzir.

Como consequência direta das mudanças climáticas, estão em curso a crise hídrica e apagões. Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Paraná enfrentam a maior seca dos últimos 111 anos. Como os níveis de reservatórios das hidrelétricas estão menores do que em 2015, as usinas térmicas, mais caras e mais poluentes, foram ligadas. Além disso, as projeções do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) de setembro, além das estiagens, fizeram uma previsão de afluência, o que significa um volume de água abaixo da média no país chegando nos reservatórios. Enquanto a porção sul da Amazônia sofre com a estiagem e o risco de queimadas, no norte, famílias ribeirinhas ficaram ilhadas por causa da cheia histórica nos rios Negro e Solimões.

Para onde caminha a pauta climática e a preservação das florestas?

“A luta climática surgiu em um ambiente de desconfiança, com muitos negacionistas, mas está cada vez mais fortalecida por suas evidências, inclusive com populações sendo realocadas, tendo de deixar seus territórios devido aos degelos e à elevação do nível do mar, por exemplo”, aponta Lara. “Mas ainda há um grande abismo entre os compromissos dos países em prevenir e mitigar a emergência climática e em realmente colocar em prática planos de ação para conservar florestas, a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas para a vida na Terra.”

“Por menor que seja a sua ação, ela terá um grande impacto”

Para Ricardo Abramovay, apesar dos potenciais gigantescos em termos farmacológicos, cosméticos, novas fontes de combustível que os produtos da floresta contêm, “a exploração dos produtos da sociobiodiversidade nas florestas tropicais ainda é muito precária, embora possa vir a ser uma imensa riqueza para os nove países da América Latina que detêm a floresta amazônica”.

“As formas principais de uso do território são predatórias, extrativistas e muito primitivas”

“O Brasil trata a Amazônia como se fosse uma espécie de almoxarifado, onde se vai buscar energia e matéria-prima baratas, deixando-a como se não tivesse 30 milhões de pessoas vivendo lá”, segue. “O desafio é fazer emergir – e fortalecer – em toda a Amazônia, inclusive em suas cidades, uma economia da sociobiodiversidade com o potencial de estimular a geração de renda e explorar oportunidades gastronômicas, por exemplo, como aconteceu com a rede de negócios sustentáveis em torno do açaí, e pode ser aplicado também em outros produtos como cupuaçu, cacau, castanha-do-Brasil, azeites finos de castanha, tucumã, buriti e patauá.

“A economia da destruição da natureza que foi praticada até aqui não teve como resultado melhorar a vida das pessoas”

Para tanto, Abramovay indica ser necessário o respeito à riqueza representada pela natureza, o diálogo com os povos que vivem na floresta, a valorização e investimento em ciência e tecnologia para conhecer essa biodiversidade, e poder fazer com que seja geradora de renda e criadora de empregos sem destruí-la, melhorando a vida das comunidades quilombolas, ribeirinhas e extrativistas.

O “mercado de carbono” é outra oportunidade a países e regiões que têm alto índice de floresta ao oferecer créditos de carbono a troco da redução do desmatamento e do aumento da restauração, beneficiando-os por manter a floresta em pé.

Como seria se não existisse mais nenhuma árvore?

O questionamento infantil não tem espaço nem na imaginação de Miriam, “porque este cenário não existe”, crava. “Evitar o desmatamento, conservar a floresta e plantar mais árvores é fundamental para a sobrevivência das espécies, inclusive a espécie humana”, diz.

“É a chance de todas as crianças terem um futuro digno. Somente juntos e de forma colaborativa poderemos construir um futuro sustentável”

Ricardo lembra a relação entre árvores e chuvas para dizer que, sem isso, não existiria mais a biodiversidade terrestre, a biodiversidade dos rios seria profundamente sacrificada, o equilíbrio climático estaria tão descompensado que a vida do planeta seria muito difícil. Ele então propõe o exercício e nos convida a pensar se:

“A inteligência humana seria capaz de produzir o que as árvores produzem? Quanto isso custaria? Os custos são sempre muito superiores à nossa capacidade de pagamento. Não se pode produzir artificialmente um sistema climático”

“Sem as árvores, simplesmente não teríamos mais a vida como conhecemos hoje”, arremata Lara. “Não conseguiríamos sobreviver em um ambiente superárido, sem oxigênio suficiente, sem outros seres vivos e sem nenhum bem-estar humano. A Terra existiria, mas as condições necessárias para habilitá-la não. Todos os elementos essenciais à vida (água, oxigênio, alimento, abrigo, clima) são frutos da biodiversidade, e as árvores são fonte ou complemento de muitos desses elementos.”

“Somos parte da natureza, não estamos à parte dela”

Por isso, cuidar do meio ambiente é também uma pauta de proteção à infância. Às 35,5 milhões de crianças brasileiras com até 12 anos de idade, que vão viver os desdobramentos desta crise, resta se conectarem a essas demandas como única alternativa possível para salvaguardar o presente e o futuro. O convite, que é também um alerta, se estende aos adultos. Afinal, como disse Barack Obama, parafraseando um governador norte-americano:

“Somos a primeira geração a sentir o efeito da mudança climática e a última que pode fazer algo a respeito”

Ao convocar para a ação, com a intenção de um estilo de vida mais simples e a promoção de relações mais colaborativas, a sugestão de Ricardo é o desenvolvimento de cidades amantes da natureza e que se aprenda com a sabedoria dos povos originários da floresta. “Esse conhecimento que vai se enraizando na forma de ver e sentir o mundo, com respeito, é um patrimônio muito importante para a realidade contemporânea, que tende à perda da diversidade.”

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Resumo

Pensar em um mundo sem árvores não cabe nem na imaginação. Não há futuro possível sem essas “máquinas mágicas” da natureza, fundamentais para conter a crise climática. Portanto, preservar as florestas significa proteger o presente e o futuro das crianças.
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