As crianças do Velho Chico e o respeito à natureza

Para pequenos ribeirinhos, a preservação do meio ambiente faz parte de uma vida à beira do rio
Foto Vitor Beltrão/Arte Lunetas
  • Publicado em: 10.11.2021
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As águas transparentes do rio São Francisco refletem nos olhos de Jonatas, 6, e de sua irmã Ana Júlia, 2. No alto da prainha de água doce, a estátua do Cristo Redentor abençoa mais um dia no Pão de Açúcar do sertão alagoano.

Composto pelo morro do Cavalete e circundado pelo rio, este cartão postal de belezas naturais para turistas é refúgio cotidiano para os pequenos. Barcos passam a todo instante, pescadores jogam suas redes ao alto em busca de peixe e pode-se avistar o povoado Niterói, do município de Porto da Folha, no estado de Sergipe.

Crianças das águas

Do lado de cá, o rio é o quintal desses alagoanos. O ensinamento de cuidar da “casa” é parte da história da família do servidor público Jonas do Santos. Ele aprendeu com os pais que, por sua vez, aprenderam com os avós, e hoje repassa aos filhos: para construir uma relação com as águas do Velhinho de mais de 500 anos é preciso, antes de tudo, respeitar a natureza.

Com a lição aprendida, Jonatas e Ana Júlia vêm todas as tardes e aos finais de semana correr, brincar na areia, nadar e tomar banho, sem temer as horas se indo. É pega-pega, castelo de areia, competição de natação e imitação de peixinhos mergulhando. De poucas palavras, o primogênito contou à reportagem do Lunetas o que mais gosta de fazer por ali.

“Eu gosto daqui porque posso me divertir na água com a minha irmã e com o meu pai. Venho sempre com eles. Foi meu pai quem me ensinou a nadar. Para mim, água daqui é tipo uma grande piscina”, compara.

Não tem um dia que os meninos não peçam para sair de casa e encontrar o Velho Chico. Jonas chega do trabalho e, depois do almoço, não demora muito para que o pedido venha: “painho, bora?”. O pai não consegue dizer não, porque, para ele, o gigante da integração nacional é da família. Como tal, deve ser visitado com frequência para que a saudade não tome conta.

“A gente não consegue não se apegar e respeitar ao máximo tudo isso. É como se fosse a continuação do nosso lar”

“As crianças são felizes aqui e já aprendem a nadar desde cedo por uma questão de proteção também. Tudo na nossa cidade gira em torno do rio. Até serve como ponto de referência. Então, esse sentimento vai passando. Não tem como negar”, ressalta. 

Com 2.800 quilômetros de extensão e 640 mil quilômetros quadrados, o Velho Chico é considerado o “rio da integração nacional” por interligar as regiões Nordeste e Sudeste, servindo como fonte de irrigação e meio de transporte, e por abastecer seis usinas hidroelétricas construídas ao longo do seu percurso.

Suas águas, ao atravessarem cinco estados (Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Pernambuco e Alagoas), 521 cidades e a vida de 14 milhões de pessoas, de acordo com dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desembocam num oceano de histórias. Algumas parecem irreais. Como explicar o fato de que muitas crianças aprendem a nadar sozinhas? Luan Davi, 8, virou peixinho logo cedo. Filho de pescador, o menino tagarela e de sorriso fácil adora viver na região e faz questão de dizer que deu as primeiras “braçadas” ainda aos 3 anos, só olhando o pai na beira do rio.

“Meus pais não precisaram ensinar. Eu ficava olhando pequenininho e consegui sozinho. Primeiro, eu boiava; depois, fui batendo as pernas no rasinho com ele de lado. Foi fácil. Gosto de brincar aqui, jogar futebol, nadar e pescar com os meus amigos porque é tudo limpo e a gente se sente bem assim. Prefiro sempre vir para cá do que ficar em casa na TV”, diz.

Em um ambiente de água abundante, cercado por saberes e possibilidades de troca com a natureza, é formada também a identidade cultural dos ribeirinhos. O livre acesso ao brincar, a pescaria, as tradições e as crenças fazem parte da vida das crianças”, conforme explica Hellen Caetano, doutoranda em antropologia social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Para a antropóloga, o relacionamento das crianças com o ambiente, o contato diário com o rio e as atividades relacionadas a ele moldam suas visões de mundo, possibilitando que elas percebam novos sentidos e responsabilidades diante da convivência com a natureza. “As vivências subjetivas e coletivas dos sujeitos são distintas dependendo do espaço em que estão inseridos. Isso contribui para o modo como experienciam essas relações ao mesmo tempo em que tornam-se parte da identidade de cada um”, pontua.

O brincar no Velho Chico

Brincar ao ar livre e integrado à natureza estimula a criatividade, a imaginação e a formação do ser, como explica a psicopedagoga e consultora educacional Amanda Pimentel, lembrando que cada região tem suas particularidades de acordo com o meio envolvido. Na beira do rio, o futebol revela o laço indissociável que as crianças mantêm com as suas raízes e o sonho de virar craque.

O pequeno José Alisson, 7, que o diga. Filho do jogador pão-de-açucarense Júnior, ele dá os primeiros dribles na Escolinha JR 22 (parceria com o maior clube da cidade e único time do sertão a disputar o Campeonato Alagoano 2021, o Jaciobá Atlético Clube), que tem à disposição o imenso campo de areia do São Francisco para treinar os pequenos. No dia em que a reportagem do Lunetas esteve na cidade, a garotada do Sub-10 se reuniu para fazer o famoso “rachinha” de sábado na areia.

“Prefiro jogar na areia do que no campo, porque a areia é bem macia e dá para tomar banho depois do treino e curtir o rio”, diz José Alisson, carinhosamente chamado de Juninho pelos amigos.

Para a especialista, “ao desfrutarem do brincar, meninos e meninas criados em ambientes ribeirinhos ou rurais exercitam aspectos emocionais e físicos que colaboram para seu desenvolvimento completo enquanto promovem a familiaridade com as margens do rio”.

“Conviver com a natureza é uma terapia e traz uma noção melhor sobre o meio ambiente. As crianças aprendem a ter um olhar mais humano para a fauna e a flora”

Cuidar do Velho Chico é preciso

Tardezinha, o sol vai se pondo, e as águas – valentes por natureza – deixam de ser habitadas. O dia foi longo. Permitir que o Chico descanse também é sinal de respeito. Mas a diversão ainda não acabou. Agora é a vez da areia virar cenário de pega-pega ou da pesca de pilombetas, para crianças como Luan, que não fogem às suas raízes.

“Quando chega essa hora fica mais calmo, porque todo mundo sai da água, principalmente os turistas, e eu sei que fica um monte de pilombeta na beira daqui, tudo em cardume. Aí aproveito para pescar. Nem sempre pego, mas às vezes dá sorte e consigo aproveitar para meu pai fritar depois. É uma delícia”, conta Luan.

O pai de Luan, Thiago Pereira, garante a proeza do filho. Pescador artesanal e dono de uma barraca na orla da Prainha, ele é um dos principais “carrancas”  na luta pela preservação do local, não apenas pela sobrevivência das suas duas atividades desenvolvidas a partir dali.

“Muita gente que vem de fora chega aqui e deixa o lixo que corre para a água. Tanto como pescador quanto como comerciante, estou sempre conscientizando para que isso não aconteça. Na barraca mesmo, sempre tem lixeiras. Quem nasce aqui sabe que é nosso dever proteger.”

“Meus filhos têm esse olhar para a preservação desde sempre. Veem uma sacolinha plástica no chão e já pegam para não correr para o rio. É que eles amam isso aqui”

O depoimento do pescador Thiago reflete bem um dos princípios da educação ambiental: é de pequeno que se aprende. Para o ambientalista Hildiberto Barbosa, diferente dos adultos que muitas vezes só aprendem após receberem uma multa ou algum tipo de punição, as crianças tendem a assimilar de maneira mais fácil as práticas sustentáveis e levá-las consigo ao longo da vida. Esse fator pode ser a chave para um futuro mais harmônico com a natureza, explica. É no contato com as águas que as crianças ribeirinhas aprendem a valorizar o espaço onde moram e tornam-se agentes de mudança”.

“Viver e crescer à beira de um manancial contribui muito para a construção de um ser humano mais sensível às causas ambientais”

Formando pequenos carrancas

Em 2015,
as carrancas foram escolhidas pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) para ser o símbolo da luta pela preservação do manancial, na campanha “Eu viro carranca para defender o Velho Chico”. Todos os anos, ações em escolas e locais públicos com crianças e adolescentes buscam conscientizar e mobilizar para a preservação do rio, conhecer sua fauna, flora, tradições e lendas. Cartilhas educacionais, manual de educação ambiental e material on-line com personagens da campanha podem ser utilizados em salas de aula de todo o país.

“A luta pela preservação do Velho Chico parte da premissa de que ele é fundamental para atender às necessidades do ser humano, mas também precisamos entendê-lo como essencial para o equilíbrio da biosfera. Portanto, cuidar dele é garantir o nosso futuro”, argumenta Anivaldo Miranda, presidente do Comitê. “As novas gerações de ribeirinhos precisam desenvolver esse olhar e lutar por ele. O próprio ser humano é, na sua composição, feito de água. Então, o rio está em todo lugar, principalmente na infância”, justifica.

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Resumo

No sertão de Alagoas, as águas doces do Velho Chico são parte do quintal das casas. Às margens do rio, crianças aprendem a respeitar a natureza desde cedo, entendendo que é preciso cuidar desta fonte de sustento e também de diversão.
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