Existe uma melhor forma de administrar os sentimentos dos filhos quando pais e mães começam um novo relacionamento amoroso?
Retomar a vida amorosa e trazer os filhos de maneira segura à nova relação é um desafio que pais e mães precisam encarar com sensibilidade. Para especialista, essa dinâmica leva tempo e deve considerar os sentimentos dos filhos em primeiro lugar.
Há quatro anos, a atriz e locutora Ana Paula Faria engatou um novo relacionamento após uma separação. O namoro ganhou novos passos quando os dois começaram a ter contato direto com os filhos de cada um. Ana Paula já era mãe de Tim, na época com sete meses, e Lucas, pai de Antônio, 2 anos, e Caetano, de 7.
“Para Tim, a chegada de Lucas foi natural pois ele era bebê, então não tem a ideia de como era a vida antes da presença do padrasto”, conta Ana. Por outro lado, com Antônio e Caetano a dinâmica foi diferente. O casal esperou seis meses para Ana fazer um primeiro contato, que aconteceu na presença da mãe dos meninos.
“A princípio, eu fiquei resistente com essa ideia. Mas, hoje, percebo o quanto isso foi importante para que as crianças entendessem naturalmente que estava tudo bem entre os adultos.”
Com o tempo, os meninos perceberam que não perderam o pai para ninguém, mas que, na verdade, ganharam uma madrasta, um irmão mais novo — e até uma cachorrinha. Ou seja, a família cresceu, e o afeto também.
“Toda essa dinâmica só foi possível acontecer positivamente por causa do tempo. Foi o elemento essencial para que tudo fluísse como estamos hoje”, lembra Ana. Ano passado, ela e Lucas celebraram a união em uma festa de casamento onde todos estavam presentes. “A gente se denomina uma família mosaico. Cada um veio de um pedacinho, se respeita e se dá bem.”
Segundo a neuroeducadora Priscilla Montes, especialista em desenvolvimento infantil, não há um prazo ideal para que a criança ou os novos parceiros estejam prontos para se conhecerem. No entanto, existe um tempo emocional do ponto de vista do desenvolvimento infantil. “O que importa não é quantos meses o relacionamento tem, e sim se ele já apresenta estabilidade, previsibilidade e intenção de continuidade”, diz.
Considerar esses pontos é cuidar da segurança emocional da criança para que ela também possa se organizar internamente. “Apresentar alguém muito cedo, quando o vínculo ainda é frágil ou instável, pode gerar confusão, ansiedade e até sensação de substituição”, diz Priscilla. Por isso, ela pontua que o critério central deve questionar se o novo relacionamento já está maduro o suficiente para fazer parte da rotina emocional da criança. Afinal, é um novo adulto que vai chegar na vida dela.
Nesse cenário, os sentimentos dos filhos são prioridade e demandam atenção especial. Em casos de separação, por exemplo, é necessário perceber se a criança já entendeu e aceitou a situação. Priscilla defende que a abordagem seja natural e honesta. “Crianças não precisam de detalhes da vida adulta, mas de verdade e coerência para se sentirem pertencentes a esse novo capítulo.”
Antes do primeiro contato, a especialista recomenda uma conversa simples para explicar quem é a pessoa e qual será o lugar dela. “Diga que é alguém importante para o adulto, mas que não substituirá o pai ou a mãe da criança.”
Para um primeiro contato, prefira um ambiente neutro, onde a criança já se sinta confortável e não crie expectativas exageradas. “Do ponto de vista neuroemocional, encontros tranquilos, curtos e previsíveis em ambientes em que a criança goste ajudam o cérebro infantil a processar a novidade, sem ativar sistemas de alerta.”
No caso de Ana Paula e Lucas, o primeiro encontro foi planejado de maneira sensível. “Combinamos um café da manhã na casa de Lucas e então todos estavam lá. O que ajudou muito foi ter levado a minha cachorrinha, que quebrou o gelo e fez os meninos se aproximarem mais.”
Após um primeiro contato com a criança, o ciúme e a resistência são respostas emocionais esperadas. Não há uma regra, pois muitas vezes todos se entendem bem conforme o tempo. No entanto, Priscilla Montes explica que pais e mães não devem tratar a resistência como um mau comportamento, mas como um impacto inicial. “Ciúmes na infância é o medo de perda de vínculo. Então, quando o adulto valida o sentimento da criança, ajuda a desenvolver autorregulação emocional.”
Dessa forma, não é necessário forçar interação se a criança ainda não quiser. Muito menos culpá-la por algum desentendimento. O ideal é entender o que ela sente, reafirmar o vínculo entre pais e filho ou mães e filhos, e respeitar o tempo emocional de cada uma. “Na infância, o que organiza não é o tempo do calendário, mas o tempo emocional.”
Nesse processo, existe também uma camada a mais de atenção para mães de meninas. Segundo Priscilla, não se trata de exagero, mas de uma condução responsável pela segurança das meninas ao introduzir na rotina delas a presença de um homem adulto. “Nunca force intimidade física ou emocional e preserve os espaços de privacidade das crianças”, orienta.
Além disso, observe se há mudanças no comportamento e mantenha sempre o diálogo aberto com as meninas para que estejam confortáveis em contar sobre qualquer desconforto. “Segurança emocional também é saber que existe escuta e proteção”, pontua Priscilla.
Quando o relacionamento entre os adultos é saudável e traz mudanças positivas para a vida da mãe ou do pai, a tendência é que os reflexos cheguem nas crianças. Desse modo, a nova dinâmica precisa ser gradual justamente para não mudar de maneira brusca a rotina dos filhos.
Enquanto pais e mães focam em administrar os sentimentos e a situação com as crianças, os novos companheiros também têm papéis importantes nessa configuração. Em primeiro lugar, precisam estar abertos a um contato sensível, sem forçar ou exagerar. A neuroeducadora Priscilla Montes reforça que a necessidade de entender que vão se tornar um adulto de referência na vida das crianças, e não necessariamente substituir o lugar do pai ou da mãe.
“A principal e mais importante orientação é não tentar ocupar um lugar que não é seu. Construir vínculo com crianças exige tempo, respeito e paciência. Por isso, as aproximações devem ser graduais, sem cobrança afetiva e aceitando a reação da criança.”
Com o tempo, a convivência constrói um vínculo de confiança sempre com os limites respeitados de todos os lados. A criança não é obrigada a amar essa nova pessoa logo de cara, mas é bom tratá-la com educação, assim como esse adulto tem que respeitar o espaço e o tempo da criança. “Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, vínculos seguros nascem da repetição de experiências positivas, não da imposição. Respeitar o ritmo da criança é o que mais facilita a conexão.”
A neuroeducadora Priscilla Montes, especialista em desenvolvimento infantil, destaca alguns pontos principais para conduzir tanto a primeira abordagem quanto a boa convivência entre os novos companheiros e as crianças. Para ela, a prioridade sempre é cuidar do emocional das crianças e esperar o tempo delas. Confira:
A primeira conversa:
O primeiro contato:
Conduzindo a rotina: