Cocô não é tabu: por uma infância livre de repressão e traumas

A Psicologia e a Pediatria infantil concordam: precisamos falar sobre cocô na infância
  • Publicado em: 01.11.2016
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Penicos que falam, cantam e até parabenizam a criança; redutores de assento, papel higiênico colorido, vasos sanitários de personagens infantis, músicas temáticas. Existe todo um mercado estruturado para ajudar as pessoas a lidar com ele desde cedo. Sim, estamos falando do cocô!

Porém, nada disso parece ter sido efetivo. A quantidade surpreendente de casos de adultos com traumas sérios, constipação crônica e até fobia (!) indica: (ainda) precisamos falar sobre o cocô.

Como a Psicologia, Freud, a literatura infantil e até mesmo o Cocoricó podem ajudar nessa tarefa de diminuir o tabu em torno desse tema tão comum ao ser humano?

De onde vem o tabu?

Quem não tem uma história constrangedora sobre cocô? A questão é: por que ainda temos tanto pudor de falar sobre o assunto abertamente?

Como a infância é o começo de tudo, é possível compreender muitas dessas questões  voltando a esse momento do desenvolvimento.

Segundo os estudos de Freud, a criança vive, aproximadamente entre dois e quatro anos, um período chamado de “fase anal”, em que estabelece uma relação de descoberta e exploração com a função de excreção. Na teoria freudiana, o ânus representa a zona de erotização, e a utilização dele está intimamente ligada ao controle dos esfíncteres.

Quando a criança descobre que pode controlar essa parte recém-descoberta do corpo, encontra uma nova fonte de prazer, sentindo o cocô e o xixi como algo feito por ela. Na série sobre sexualidade infantil produzida pelo Toda Criança Pode Aprender, o assunto é discutido em profundidade, clique aqui para ler.

Ou seja, a capacidade de “prender” ou “liberar” o cocô é algo que dá prazer corporal à criança. Além disso, muitas crianças retém as fezes, pois também sentem prazer na reação de atenção que recebem com a preocupação dos adultos. Quando finalmente liberam o cocô, a tranquilidade que os cuidadores responsáveis demonstram contribui para que os pequenos enxerguem as fezes como um ‘presente valioso’ produzido por ela.

Ou seja, é possível tratar o assunto com maior tranquilidade quando os próprios adultos compreendem que a criança não percebe o ato de defecar da mesma maneira que eles.

Para Isabel, o fato de o assunto ainda ser um tabu está ligado a um processo de construção de sentido. “Do ponto de vista cultural, encaramos as fezes como algo sujo e compreendemos a sujeira como um ‘desvalor’. Percebemos isso em vários aspectos ligados à infância, como por exemplo a preocupação excessiva dos adultos com o fato da criança se sujar ao brincar”.

O que acontece na infância não fica na infância

Para o pediatra Carlos Eduardo Correa, quando nos tornamos adultos, colocamos este tema em uma espécie de ‘esconderijo’ que pode trazer sérios problemas de saúde, como intestino preso, má digestão, hemorroidas e, em casos mais graves, até fobias patológicas.

A fala de Carlos faz pensar: que exemplos estamos dando às crianças em relação ao assunto? Costumamos reprimir quando a criança tem vontade de usar o banheiro na casa de terceiros, por exemplo? Principalmente em relação às meninas, é preciso ficar atento às mensagens transmitidas para que a criança não se torne uma mulher repleta de pudores com seu próprio corpo.

A jornalista Camila Horta teve sua infância marcada por um intestino preguiçoso e, por conta disso, as idas ao banheiro – principalmente em lugares estranhos – tornaram-se uma missão complicada. “Eu ficava dias sem ir ao banheiro, e me sentia muito mal com isso. Demorei muitos anos para conseguir ter naturalidade para usar o banheiro na casa de outras pessoas, e até mesmo quando havia visita na minha própria casa”.

Hoje, já adulta, ela lida melhor com esses momentos e destaca uma construção machista inerente – atrelada à imagem da “pureza da mulher” – como um fator relacionado a traumas e dificuldades dessa natureza. “Tenho muitas amigas que não conseguem ir ao banheiro se o namorado estiver por perto, é como se quisessem passar uma imagem de que não fazem cocô. Isso é muito sério do ponto de vista do estereótipo de gênero”.

Desfralde coletivo

Isabel aponta que o desfralde coletivo implantado em algumas creches e escolas pode acarretar em algumas complicações, e defende a importância de respeitar o ritmo de cada criança. “Para além da criança, isso pode afetar também as famílias, que vivenciarão com mais ansiedade e preocupação o processo de desfralde, transmitindo de alguma forma essas angústias à criança. Há também que considerar os efeitos que isso pode ter sobre a relação que se dá entre família, escola e criança”, explica. Já Dr. Carlos se posiciona contrário a qualquer processo de ‘generalização’ na infância.

“Nada coletivo deveria ser aplicado na infância. Nasce o bullying justamente quando os adultos propõe algo para o qual aquela criança não está pronta. Constipação intestinal ou fazer xixi na cama por muito tempo deixam marcas. A sensação de incapacidade por não dar conta de fazer o que outras crianças fazem, como se fosse obrigação ser capaz pior ainda”, explica o pediatra.

Artifícios lúdicos ajudam ou atrapalham?

Papel higiênico colorido, vasos sanitários de personagens infantis, músicas temáticas: afinal, tudo isso é benéfico para a criança? Na opinião de Correa que além de pediatra é especialista em Neonatologia, usar brincadeiras e a ludicidade para qualquer aprendizado não é o problema, e sim querer usar esses artifícios para apressar o processo.

“A questão é a tolerância dos pais em lidar com o tempo deste aprendizado para cada criança. A paciência de perceber que cada criança tem o seu próprio tempo”.

Tudo o que você sempre quis saber sobre cocô  (mas sempre teve vergonha de perguntar)

A literatura como aliada do desfralde Uma boa dica para iniciar as crianças numa conversa livre de pudores e preconceitos sobre o assunto é o livro “Cocô – uma história natural do indizível” (Editora WMF Martins Fontes), de Nicolas Davies com ilustrações de Neal Layton.

“Os adultos têm vergonha
os cavalos ignoram
os cachorros gostam de cheirar
e os bebês fazem na fralda”

Em tom de conversa, o livro constrói uma espécie de panorama do assunto na sociedade e no mundo animal, dividido em capítulos como “Viagem pelos cocôs”, “Para que serve tudo isso?” “Problemas resolvidos com cocô”, “Conversas de banheiro” e “Curiosidades sobre o cocô”.

Reprodução

O livro nos lembra que o cocô nada mais é do que o ‘lixo do corpo’, e oferece diferentes visões sobre esses dejetos entre as espécies animais.

Nas ilustrações, diálogos engraçados entre os animais revelam os diferentes usos dados às fezes. “Eu gosto de espalhar por todo lado”, diz o elefante. “Já eu faço a minha casa com ele”, diz o pássaro. “Nós usamos no jardim!”, defendem as formigas. A partir dessas narrativas, a criança constrói a sua própria e apreende aquela que o livro propõe: todo mundo faz cocô.

Os exemplos beiram o absurdo para alcançar a máxima empatia dos pequenos. No livro, as crianças ficam sabendo, por exemplo, que as baleias-azuis podem fazer cocô colorido, ou que as fezes mais esquisitas são as da mosquinha aleluia, simplesmente porque ela não faz cocô algum, já que só vive um dia e não precisa comer nada.

E, para quem quiser se aventurar a tocar no assunto de uma forma ainda mais leve e divertida, o clipe “A história do cocô”, do Cocoricó – que já tem mais de 4 milhões e meio de acessos, ou seja, muita gente querendo aprender a lidar com a questão – faz a brincadeira de ‘personificar’ o cocô para falar da sua importância para o corpo e até mesmo para os ciclos naturais da vida. Vale o clique, é muito divertido:

 

Resumo

De onde vem o tabu em torno do tema? Que problemas ele pode causar? Como conduzir um desfralde sem traumas? Ouvimos especialistas e famílias, e reunimos algumas dicas de como tratar o assunto com naturalidade.
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