Por que ficou mais raro ‘brincar lá fora’?

Contato com a natureza e atividades ao ar livre enriquecem as experiências da infância; veja como oportunizar esses momentos

Vanessa Fajardo Publicado em 03.06.2026 Atualizado em 03.06.2026
Crianças brincam e atravessam um circuito colorido ao ar livre, em meio à natureza, estimulando movimento, equilíbrio e interação.

Resumo

Brincar ao ar livre só é frequente para 37% das crianças das famílias brasileiras. O contato com a natureza é fundamental para enriquecer as experiências da infância. Nesta reportagem abordamos as consequências para as crianças que perdem essa oportunidade.

Desde que a médica Ana Murgel deixou o apartamento em São Paulo, no início deste ano, para morar em uma casa de um bairro rural de Botucatu, no interior, a rotina da filha Elena, de 5 anos, mudou radicalmente. Ela trocou as brincadeiras dentro da escola, nas áreas comuns do prédio e as idas esporádicas aos parques por um quintal com árvores, jardim, grama, tanque de areia e balanço sempre à disposição.

“Mudou muito a quantidade de sol que ela recebe por dia e o estímulo motor até para fazer alguma atividade que a natureza exige, como ultrapassar um obstáculo”, conta Ana. “Existe toda uma interação com o ambiente que não existia na nossa outra realidade, que era mais monótona.”

Image

Ana Murgel com as filhas Elena e Inez em momento ao ar livre. Foto: Arquivo pessoal

Inez, a irmã de Helena, de 1 ano, deu os primeiros passos na nova cidade e hoje até já anda descalça sobre as pedras. “Brincar fora de casa, andar de bicicleta, fazer caminhadas ao ar livre fazem parte da rotina diária delas”, conta a mãe.

O dia a dia de Elena e Inez é exceção se comparado ao das demais famílias brasileiras. Segundo o IELS (Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com crianças de 5 anos, a realização de atividades ao ar livre, como caminhadas, brincadeiras livres e outras opções de lazer importantes para o desenvolvimento infantil, é frequente para apenas 37% das famílias. A média dos outros países participantes do estudo é de 46%.

Entre as famílias brasileiras, 29% afirmam nunca realizar esse tipo de atividade ou fazê-la menos de 1 vez por semana. Outros 34% responderam que fazem isso somente entre 1 e 2 dias da semana.

Empobrecimento da infância

Para Ana Claudia Leite, gerente de Educação do Alana, o dado revela um “empobrecimento das experiências na infância.” Violência, sensação de insegurança e planejamentos urbanos que não priorizam a circulação de crianças e pedestres e, sim, a de carros, têm distanciado as famílias da convivência comunitária de seus territórios. 

Image

Ana Claudia Leite, gerente de Educação do Alana, fala da importância da atividade ao ar livre na infância

“As crianças diminuíram a sua relação com o espaço público e isso traz implicações para sua relação com a natureza, com a convivência comunitária e impacta tanto o pertencimento quanto sua maneira de brincar livremente”, diz Ana Claudia.

Ela reforça que o fato de as crianças estarem vivendo de forma mais “fechada” fazem com que percam a oportunidade de desenvolver sua criatividade, motricidade e habilidades socioemocionais, que são potencializadas pelo brincar livre na natureza.

Além disso, esse afastamento prejudica a criação de um vínculo afetivo com o meio ambiente, fundamental para o cuidado com a natureza e o enfrentamento de emergências climáticas.

‘Emparedamento digital’

O tempo excessivo em frente às telas, se tornou uma alternativa de entretenimento tanto para crianças quanto para famílias, substituindo o contato direto com a natureza e com o território.

Ana Claudia vê um “deslocamento” da relação intensa que a criança tinha brincando livremente na natureza, na rua e nas praças para um “emparedamento digital” por estarem muito mais tempo dentro de casa em frente à TV, ao computador ou ao celular.

O IELS também traz dados sobre o uso dos eletrônicos entre as crianças. Os responsáveis e cuidadores relataram que 50,4% delas utilizam dispositivos digitais em casa todos os dias. O estudo ainda relacionou, pela primeira vez, que o uso diário de tela está associado a níveis mais baixos de aprendizagem.

No quintal de Elena e Inez, a natureza ajuda a ocupar o lugar que muitas vezes seria das telas. Os pais, que desde cedo decidiram não oferecer dispositivos eletrônicos às filhas, dizem que o ambiente favorece a escolha. “É muito mais fácil porque tem muito mais possibilidade de brincadeira e estímulos da natureza e elas não se entendiam facilmente. Há mais espaço físico para criar as brincadeiras”, diz Ana. 

Image

Elena, filha de Ana Murgel, brinca ao ar livre

O que pode ser feito?

Quem não tem o privilégio de desfrutar de um quintal próprio ou fazer uma mudança brusca de vida em busca de qualidade de vida pode apostar em caminhadas curtas para atividades do dia a dia, como ir à padaria, passear com o cachorro ou coletar sementes pelo bairro, como sugere Ana Claudia.

Entretanto, mais do que isso, é fundamental cobrar políticas públicas que criem e promovam melhorias nos espaços públicos, especialmente aqueles destinados às crianças que garantem a convivência intergeracional. “É preciso aproveitar que estamos em ano de eleição para olhar as propostas dos candidatos sobre o que eles pensado para crianças e adolescentes dentro de seus planos de governo.”

Leia mais

Comunicar erro
Comentários 1 Comentários Mostrar comentários
REPORTAGENS RELACIONADAS