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Maternidades em luta: 16 coletivos de mães que lutam pelo futuro

O Brasil possui 67 milhões de mães, que representam 32% do país. Reunimos aqui 16 coletivos de mulheres focados em maternidade que lutam pelo direito à vida
Coletivos de maternidade Reprodução Mães pela Diversidade/Arte Lunetas
  • Publicado em: 08.05.2019
  • Atualização: 10.05.2019
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“Estamos diante de um homicídio massivo de meninos pobres e negros“. “Atlas da Desigualdade alerta: 16 milhões de meninas nunca irão às escolas“. Essas são manchetes publicadas pelo Lunetas. O que elas têm em comum? Por trás das notícias e números, há incontáveis mães em desespero por seus filhos.

Neste mês das mães, em que o país, a publicidade, a mídia e até mesmo as floriculturas do seu bairro, estão atentos a essa figura de afeto na vida de qualquer sujeito, relembramos uma faceta menos romantizada da maternidade, e por isso mesmo ainda mais digna de nota: a luta e resistência das mães trabalhadoras que se unem para salvaguardar a vida das suas crias.

Para honrar a coragem de mulheres que defendem direitos básicos de crianças e adolescentes no Brasil, mapeamos alguns coletivos de mães para apoiar e acompanhar o ano todo.

Afinal, quando falamos de garantir os direitos da criança, estamos falando, também, de garantir que os adultos de referência dessa criança tenham possibilidade de ter uma vida estável para oferecer o mesmo aos seus filhos. São eles que farão escolhas por sua vida – onde vão morar, o que vão comer, quando vão brincar, etc. No Brasil, enquanto não atingirmos a tão almejada igualdade de gênero, capaz de colocar o pai também na posição de responsabilidade pela criança, essa figura ainda é prioritariamente a mãe.

Os dados da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), do IBGE,  mostram que mulheres e negras e pardas sem cônjuge e com filhos compõem a parcela da população que mais sofre diretamente a pobreza (64,4%). Ou seja, a pobreza afeta majoritariamente a mãe solo negra e parda.

“Não basta falar que somos importantes para a sociedade e não garantir o mínimo que necessitamos. Não basta falar que nossos filhos e filhas são o futuro do país e seguir hostilizando as mães trabalhadoras”, diz o texto de apresentação do coletivo Mães na Universidade.

“Nenhum elogio pode substituir nossos direitos, pois apenas a garantia efetiva de nossas vidas de nossas crianças pode significar um apoio concreto”

Em sua maioria, são organizações independentes, feitas na unha e na coragem, por mães que trabalham para preencher lacunas de políticas públicas, e transformar realidades que diariamente violam a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no que diz respeito ao direito à segurança, alimentação, moradia, entre outros.

“Mulheres mães e crianças estão excluídas de participação política, economia e social, em uma sociedade que pouco tem feito para melhorar as condições de vida desses dois grupos. Nós, as mães, somos um terço da população do país, responsáveis por toda a reprodução e manutenção de vidas humanas, muitas vezes responsáveis sozinhas por nossos lares, e relegadas ao esquecimento nos espaços de poder”, afirma Anne Rammi, parte do coletivo Política é a Mãe e idealizadora do Mamatraca.

“Não aceitaremos mais a invisibilidade, enquanto nossas crianças arcam com os tipos mais cruéis de violência, como a morte por armas de fogo”

“Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. Constituição Federal/1988

Por isso, neste Dia das Mães – e em todos os outros – conheça, divulgue e ajude a fortalecer a luta das mães. Confira a lista de projetos:

  1. Mães de maio

Em maio de 2006, após um massacre ocorrido na Baixada Santista, um grupo de mães se reuniu para transformar seu luto em luta. Em 2018, uma das fundadoras do Movimento Mães de Maio, Vera Lúcia Gonzaga dos Santos foi encontrada morta em casa. O lema “Nossos mortos têm voz”, hoje absorvidos por uma série de outros movimentos sociais, passou a ser difundido a partir daí.

  1. Política é a mãe

O Política é a Mãe é um coletivo fundado em dezembro de 2018 por mulheres auto-organizadas em torno de pautas que priorizam a maternidade e a infância. O coletivo tem como pilares a pró-democracia, a garantia dos direitos humanos, redução da desigualdade, protagonismo das mulheres mães e crianças como prioridade. Atualmente, o grupo organizou uma petição online contra a flexibilização da posse de armas, e pela revogação do decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro. Acompanhe o projeto pelo Facebook e pelo Instagram.

“Somos mães.
Somos 67 milhões de mulheres mães no Brasil.
Somos 32% da população deste país.
Somos responsáveis pela vida dos outros 68%.
Somos seres políticos. E nossa voz será ouvida.”
– Política é a mãe (Fontes: Sociedade Brasileira de Pediatria, Fundação Abrinq, e Sistema de Informações sobre Mortalidade)

  1. Nana – Maternidade Preta

Visibilidade, cor, ancestralidade e maternidade. Esses são os quatro pilares que sustentam o coletivo, que luta contra o racismo estrutural e a favor da representatividade na criação dos filhos. “O Nana é alimentado por Nós, Mães, Pretas e Reais preocupadas com a representatividade cotidiana das n questões pertinentes ao nosso mundo!”, diz a descrição da página no Facebook.

  1. Iyá Maternância

O IYÁ Maternância é uma iniciativa que busca fortalecer os vínculos entre mulheres negras mães. “Queremos resgatar nossa essência, nossas origens, nossas ancestralidade através de atividades que aproximem mães negras. Maternância é a nossa maternidade ativa na busca por representatividade, e no combate às opressões racistas e machistas que tentam nos silenciar”, diz o texto de apresentação da iniciativa.

  1. A mãe preta

Idealizado pela nossa colunista, a socióloga Luciana Bento, o projeto A mãe preta é um site e uma página no Facebook, que abordam temas relacionados à criação de filhas e filhos negros em um país submetido diariamente ao racismo estrutural. Mãe das pequenas Aísha e Naíma, Luciana escreve sobre literatura, maternância e os impactos do racismo na infância.

  1. Milc (Movimento Infância Livre de Consumismo)

Desde 2012, o Milc trabalha pela regulamentação da publicidade infantil. Como? Sensibilizando a sociedade civil, o poder público e privado sobre o uso das telas na vida das crianças. Fora do ambiente online, o grupo tem presença pontual em eventos relacionados ao tema e frequentemente é convidado para debater em eventos sobre sustentabilidade, consumismo e publicidade infantil. Acompanhe a página da iniciativa no Facebook.

  1. Mães da Sé

Criada em 1996, a Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD) surgiu da iniciativa de duas mães de crianças desaparecidas, Ivanise Esperidião da Silva e Vera Lúcia Gonçalves. O objetivo foi criar uma entidade que atuasse em busca de soluções para um problema que atinge milhares de famílias no país: o desaparecimento de crianças.

  1. Parent in Science

Quantas mães você conhece que aliam a carreira acadêmica com a maternidade? Para lutar pelos direitos dessas mulheres, nasceu o projeto “Parent in Science“, uma iniciativa da pesquisadora Fernanda Staniscuaski, do Rio Grande do Sul. A luta do movimento é fortalecer os direitos das mulheres e evitar comparações com homens, que conseguem produzir mais.

Movimento Infância Livre de Consumismo

O Movimento Infância Livre de Consumismo (Milc) realiza diversos encontros para sensibilizar mães e pais sobre a questão do consumo, como feira de troca de brinquedos e piqueniques.

  1. Coletivo Mães da UFG

Formado por mães estudantes e professoras da Universidade Federal de Goiás, o grupo reivindica melhorias nos campus universitários, visando atender às demandas dos direitos da mãe e da criança. “Nós queremos conhecer as Mães da UFG, nos enviem mensagens contando suas histórias, seus anseios, seus desejos, suas frustrações, demandas como mães e expectativas com espaço acadêmico”, diz um post de engajamento na página do projeto.

  1. Mães na Universidade

“Dar visibilidade para a realidade e demandas das milhares de mães estudantes existentes nas universidades e escolas brasileiras”, diz a descrição da iniciativa. A página faz postagens a cada duas horas, dividindo histórias pessoais de mães na universidade, incluindo estudantes e professoras. Conversamos com uma das idealizadoras, Fernanda Moura. “Qualquer país deve garantir os direitos da mãe e da criança, principalmente, um país em que a maternidade é compulsória como o Brasil, onde o congresso tenta acabar com o direito ao aborto até nos casos de risco para a saúde da mãe e em casos de estupro. Se o Estado faz com que a maternidade seja compulsória, ele precisa fornecer meios para as mulheres que se tornam mães darem continuidade a suas vidas”, afirma.

“Uma mãe não deveria precisar de uma rede de solidariedade para cuidar de uma criança. Isso é tratar como privada uma questão que é pública. Essa é a função do Estado. Não podemos naturalizar a situação precária em que vivemos pelo fato do Estado não cumprir com suas obrigações básicas”

“Conciliar maternidade e pós-graduação é extremamente difícil, quase insano, mas é possível desde que haja uma rede de apoio. Foi vivenciando isso e me sentindo cada vez mais solitária que criei o grupo no Facebook chamado Mamães na Pós-graduação. Mesmo que virtualmente, me senti amparada e o peso diminuiu”, diz Vanessa Clemente Cardoso, historiadora e professora. O grupo Mamães na Pós-graduação tem atualmente mais de mil mães cientistas das mais diversificadas instituições de ensino superior brasileiro, dentre elas: UnB, UFRJ, UFG, USP, UFRN, UFBA, etc. Muitas contam seus relatos de superação, suas dificuldades, choram seus medos, suas dores e comemoram sua vitória. “É maravilhoso saber que não estou só e que tem muitas mulheres espalhadas pelo Brasil lutando diariamente contra as adversidades. Entretanto é triste constatar que nós, mães, somos negligenciadas deliberadamente.

“Eles sabem que existimos! Nós incomodamos! A universidade não foi pensada e criada para as mulheres. É muita ousadia querer ser cientista, ousadia maior ainda querer ser mãe e cientista”

  1. Mães de Manguinhos

Um movimento independente formado por Mães da comunidade de Manguinhos, no Rio de Janeiro. Formado por mulheres que têm seus filhos encarcerados ou que foram assassinados. Na página do Facebook, elas trocam denúncias e informações sobre a violência em Manguinhos, na zona norte da capital carioca. O canal funciona também como centralizador de manifestações e levantes organizados pelas mães.

  1. Rede de Mães e Familiares da Baixada Fluminense

“Nossos mortos têm voz” é um dos lemas do movimento, criado a partir da Chacina da Baixada, que ocorreu em 2005. O objetivo é formar uma rede de articulação de mães e familiares diante da violência de Estado, por meio de ações de valorização da justiça e da memória.

  1. AMPARAR – Associação de Amigos/as e familiares de presos/as

“O sofrimento compartilhado entre familiares e presos é naturalizado por já compor o cenário cotidiano de moradores das periferias” (Fonte: Fundo Direitos Humanos). É nesse contexto que foi criada a AMPARAR, que tem como missão a defesa dos direitos humanos de jovens e adultos encarcerados ou egressos do sistema penal.

  1. Põe no Rótulo

Coordenado por Cecilia Cury, Ana Maria Alvarez Melo e Fernanda Mainier Hack, o projeto trabalha para garantir rótulos com informações mais claras, tendo se destacado por sua atuação no processo de construção da legislação de alergênicos no Brasil, e encabeçou uma conquista histórica junto à Anvisa. Em 2019, o Põe no Rótulo lança a iniciativa Alergia Alimentar Brasil, para ampliar a conscientização sobre a alergia alimentar e avançar na conquista de políticas públicas que aumentem a segurança e inclusão das pessoas que convivem com este tema segue com as ações voltadas à promoção do direito à alimentação adequada.

  1. Mães pela Diversidade

Há mais de cinco anos, durante a Parada LGBT de São Paulo, a linha de frente é formada por mães de homossexuais, bissexuais e transsexuais. O objetivo é formar uma espécie de barricada de proteção contra a violência. O Movimento Mães pela Diversidade tem como objetivo pautar o respeito e aceitação, lutando em família contra a LGBTfobia. Em sua página no Facebook, o projeto divulga notícias ligadas à causa e recebe sugestões de cidades que queiram se aliar a essa luta.

A Equipe de Base Warmis-Convergência das Culturas, de São Paulo, é formada por mulheres imigrantes voluntárias que se reúnem para discutir ações de transformação da comunidade, tendo como preocupação central a igualdade de oportunidade para todos. A maternidade perpassa as discussões do grupo, entendendo as particularidades de ser uma criança imigrante diante de um contexto de discriminação e violência étnica. “Todas as violências que possa sofrer uma mulher as sofrem as mulheres migrantes”, diz uma das publicações da página, referenciando uma entrevista com a jornalista especializada em migrações Eileen Truax.

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Resumo

Segurança, saúde, respeito. São inúmeras as pautas da existência de um sujeito neste mundo. Todas elas fazem parte das preocupações de uma mãe que luta. Conheça 16 coletivos sobre maternidade para acompanhar e apoiar.
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