Coronavírus: 8 sugestões do Unicef de como conversar com crianças

As crianças podem estar confusas e ansiosas com a pandemia de covid-19, por isso, a orientação do Unicef é criar um ambiente seguro e com respostas sinceras
INTERVENÇÃO-FOFA iStock/arte Lunetas
  • Publicado em: 20.03.2020
da Redação

Por que a escola fechou? Por que as pessoas estão usando máscaras? Por que lavar as mãos de novo? Por que não podemos visitar a vovó? Pode ser que, a cada dia da quarentena, os porquês das crianças se multipliquem. Pode ser também que elas não consigam elaborar perguntas sobre a situação, mas expressem carência e ansiedade por meio da raiva, da agitação ou do silêncio. Cabe aos adultos perceber o impacto da mudança de rotina sobre elas e traduzir o que o mundo está vivendo com a pandemia de coronavírus.

Diante dessa demanda, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que busca promover a defesa dos direitos das crianças, organizou oito orientações para ajudar a iniciar uma conversa com os pequenos sobre o tema.  O conteúdo é destinado às famílias em geral, pais, cuidadores, educadores e outros profissionais que trabalham com infância. Confira:

1. Faça perguntas abertamente e ouça a criança

O momento pede escuta ativa, um gesto que envolve afeto, cuidado e, principalmente, disponibilidade. No dia 12 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma nota com considerações sobre a saúde mental e psicossocial da população durante a pandemia de covid-19, sugerindo uma série de atitudes para evitar sofrimentos, como buscar formas acolhedoras de expressar o medo.

Portanto, os adultos devem estar atentos aos sinais de tristeza ou ansiedade das crianças e convidá-las a falar livremente sobre o assunto. Elas precisam se sentir confortáveis em fazer qualquer tipo de pergunta. A dica é descobrir o quanto elas já sabem e seguir a partir deste ponto.

“Não minimize ou se esquive das preocupações da criança. Assegure-se de reconhecer os sentimentos dela e lhe garantir que é natural sentir medo dessas coisas”, sugere o Unicef.

Para compreender e desenvolver a escuta ativa, leia a entrevista do Lunetas sobre este tema com a antropóloga Adriana Friedmann, na matéria Muito além do ouvido: o que é efetivamente escutar uma criança?

Muito além do ouvido: o que é efetivamente escutar uma criança?

 

2. Seja honesto: explique a verdade

A criança deve ser reconhecida como indivíduo pleno, capaz e dotado de subjetividades que fazem dela um legítimo ator social; ou seja, a criança é um sujeito de direitos. Isso quer dizer que elas merecem respostas sinceras sobre o que está acontecendo no mundo. E o papel do adulto, nesse cenário, é protegê-las, utilizando a linguagem necessária e apropriada para cada idade.

A orientação do Unicef é não inventar informações, mas usar as perguntas das crianças para explorar respostas juntos. Sites de organizações internacionais como o UNICEF e a Organização Mundial da Saúde podem ser fontes de referência. Mas é importante lembrar que as notícias online nem sempre são precisas e, muitas vezes, o melhor caminho é consultar um especialista.

Pensando em como iniciar esse tipo de conversa de uma forma lúdica, com crianças entre dois e seis anos, a psicóloga e professora colombiana Manuela Molina publicou um livro em PDF com ilustrações divertidas e dados importantes sobre o coronavírus. O Covibook é gratuito e está disponível online em português, italiano, inglês e espanhol.

Créditos: divulgação COVIBOOK

 

3. Mostre à criança como proteger ela mesma e seus amigos

A conversa não precisa ser assustadora. Já se sabe até aqui que uma das formas mais eficazes de proteger as pessoas contra a contaminação do coronavírus é a higiene, principalmente, lavar as mãos de forma regular, com água e sabão. O aprendizado pode ser divertido. Por que não recorrer ao Palavra Cantada e realizar a ação juntos? Ou, quem sabe, fazer a dancinha sobre como lavar as mãos, com os vietnamitas Quang Đăng!

 

4. Ofereça segurança

Muita informação e imagens perturbadoras chegam por todos os lugares e, às vezes, pode parecer que a crise está muito próxima de todas as famílias. Se os adultos não estão sentindo se sentindo seguros, a sensação não é diferente para as crianças. “As crianças podem não distinguir entre imagens na tela e sua própria realidade pessoal, e podem acreditar que estão em perigo iminente”, afirma a nota do Unicef.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) também divulgou uma série de sugestões sobre como abordar o assunto com as crianças, sugerindo aos pais, famílias e profissionais da educação, honestidade e precisão ao abordar o tema, para evitar o pânico e o estresse.

O ideal é manter as rotinas regulares o máximo possível, especialmente na alimentação e horas de dormir. Se a agenda das famílias precisar ser reorganizada, a recomendação do Unicef é criar oportunidades para elas brincarem e relaxarem, quando possível. Os adultos devem tranquilizar as crianças, compartilhando que a situação pode ser tediosa ou assustadora por algum tempo, mas que seguir as regras ajuda a manter todo mundo em segurança.

Para ajudar as famílias com ideias criativas de brincadeiras nesse período, o Lunetas reuniu um série de dicas para a quarentena:

Xô, coronavírus: dicas e atividades para a quarentena

 

5. Verifique se elas estão sendo estigmatizadas ou espalhando estigmas

De acordo com o CDC e as Nações Unidas, o surto de coronavírus trouxe inúmeros relatos de discriminação racial. Por isso, as famílias, cuidadores e adultos de confiança das crianças, devem verificar se elas não estão enfrentando ou contribuindo para o bullying.

“Explique que o coronavírus não tem nada a ver com a aparência de alguém, sua origem ou o idioma que falam”, reforça o Unicef.

A literatura pode ajudar no combate ao bullying. Nem só de livros didáticos ou assinados por especialistas no assunto é feita essa discussão. Histórias de ficção acionam na criança outros sentimentos importantes para lidar com o problema. Já falamos bastante disso no Lunetas e você pode ler aqui as dicas do terapeuta familiar, Alexandre Coimbra Amaral, sobre como as famílias podem acabar com o bullying ou as dicas de como evitar que seu filho se torne o agressor. Também temos sugestões de dez livros para ajudar a conversas sobre o assunto:

10 livros para ajudar na conversa sobre bullying com as crianças

 

6. Procure quem pode ajudar

Mesmo diante da crise em vários setores, uma rede de apoio e cuidado tem se fortalecido no mundo: há um crescimento de profissionais da saúde, cientistas, professores, jovens e muitas outras pessoas que estão trabalhando para interromper a pandemia de covid-19. Aulas à distância, cursos online gratuitos, lives no Instagram com contação de histórias para as crianças e outras iniciativas, como a própria atitude do isolamento domiciliar, podem confortar as famílias e é importante compartilhar com as crianças que esse é um momento de cuidar de si e uns dos outros.

7. Cuide de você

A força do exemplo é pedagógica e as crianças podem buscar referências na atitude dos adultos. “Se você estiver ansioso ou chateado, reserve um tempo para si mesmo e procure outras famílias, amigos e pessoas de confiança em sua comunidade. Reserve algum tempo para fazer coisas que o ajudem a relaxar e se recuperar”, recomenda o Unicef.

“A educação das crianças acontece por meio das coisas que dizemos, das ideias que argumentamos, mas é, sobretudo, uma experiência que se dá por transmissão. É preciso fazer, realizar e deixar acontecer conosco o que estamos dizendo para elas que é correto e responsável”, afirma a psicanalista Ilana Katz.

Pesquisadora na área da infância, ela defende que os adultos estão diante de uma grande oportunidade de construir um diálogo construtivo com sobre responsabilidade coletiva e humanidade. Ilana Katz aprofunda a ideia em sua coluna no Portal Lunetas: O que vamos dizer às crianças sobre o corona vírus ? 

O que vamos dizer às crianças sobre o coronavírus?

8. Encerre as conversas com cuidado

Durante a conversa, os adultos devem ter em mente que, embora as crianças estejam fora do grupo de risco, elas podem ser contaminadas da mesma maneira e são veículos de transmissão que podem afetar as populações mais frágeis, incluindo os avós e os próprios pais. Por isso, a verdade sobre os riscos e a informação de qualidade sobre medidas de prevenção importa.

Vale desenho, contação de história, gincana da higiene, transformar álcool em gel em “spray anti-monstro” ou simplesmente uma informação sincera como “eu também não sei, filha, vamos descobrir”. Algumas famílias irão recorrer às informações científicas e outras ao mundo da fantasia para encontrar respostas. Independentemente da escolha, o importante nesse momento é o esforço coletivo por meio da prevenção. Então, por que não incluir as crianças desde já podem nessa missão?

Resumo

As crianças estão fora do grupo de risco, mas não deixam de ser atingidas pela sensação de medo diante da pandemia de covid-19. Como evitar o medo? O Unicef publicou 8 dicas de como conversar com elas sobre o assunto. Confira:
Ir para o início
Alguma dica ou sugestão? Encontrou um erro? Clique aqui e compartilhe com a gente!

Tenha Lunetas no seu e-mail ou WhatsApp