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Bullying
  • Publicado em: 09.04.2019
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A delicadeza não consegue morar nas sombras normalizadas de uma cultura violenta. Enquanto houver uma criança ou adolescente se sentindo exilada como estrangeira pelos próprios colegas, precisamos conversar com a exclusão para lembrar sua potência inclusiva. Somos os responsáveis por conversar com a humilhação, escutá-la para ela não se cronificar em pura acidez na alma e fazer o retorno violento ao mundo. Queremos vida nova entre os jovens? Somos parte de um movimento que ainda precisa ganhar mundos e mundos, para abrigar a indiferença que leva ao escárnio. Não adianta julgar a juventude que segrega, que avaliza estereótipos e constrói preconceitos, sem sentir-se parte do movimento sistêmico que gera tudo isso.

O bullying não está lá fora. Ele é parte do que aprendemos a ser.

Façamos, portanto, um abraço em nós, em nossos passados também aniquiladores de alguéns. Somos filhos de uma forma de estar no mundo violenta. E, talvez pela primeira vez em séculos, estamos fundamentalmente de cabeça baixa, admitindo nosso quinhão de responsabilidade coletiva e com vontade real de fazermos diferença.

#ÉDaMinhaConta, diz a Organização não governamental SaferNet, promotora de ações sobre Direitos Humanos na Internet, e o Unicef Brasil, na campanha que relembra o 7 de Abril, como o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. É mais do que uma hashtag, é um ruído que merecemos escutar como convocação. Um chamado para todo o país, entre jovens, educadores e famílias, para que se unam na feitura de uma mudança de paradigma sobre o fenômeno do bullying.

Aqui, nesta coluna, eu deixo algumas palavras direcionadas às famílias, que muitas vezes ficam sem bússola de como agir. Afinal, ver um filho cometendo ou sofrendo bullying é uma dor que atinge aos adultos, como uma sangria da esperança da criança como a habitante de um mundo novo. Ao vermos os filhos imersos na mesma cultura violenta que nos forjou, morremos um pouco por dentro, choramos o fim do olhar romântico renovado que nos inebria quando a criança chega aos braços pela primeira vez. O bullying é um luto, mas pode ser a morte também de uma postura passiva que tantas vezes nós temos, terceirizando para as escolas uma parte significativa da experiência de se fundar um coração cidadão nos filhos que dormem no quarto ao lado.

Mas, o que uma família pode fazer para acabar com o bullying? Como ser a semente que precisa ser plantada, regada, cultivada e colhida, e que vêm fazendo nascer novas práticas de conduta entre jovens? O que proponho, aqui, não são regras nem prescrições fáceis. São diálogos que precisam ser iniciados entre todos os membros da comunidade, e entendo família como tal. Quebremos as fronteiras entre os conceitos de família e comunidade, para que possamos sentir que todos somos parte dos problemas humanos que nos circundam, e não somente daqueles que acometem os que têm o mesmo sobrenome de nossa carteira de identidade.

O diálogo é a água que rega a semente do mundo novo.

Através de uma conversa interessada genuinamente no outro, fazemos com que ele possa acontecer para nós. As pessoas são pétalas fechadas de uma roseira com espinhos. Trazem sofrimentos que não conseguem colocar em palavras, por pura falta de confiança sobre o que possa lhes acontecer depois da fala reveladora. Vivemos em uma sociedade que anda piorando em sua capacidade empática, tratando a lágrima da dor mais abissal como vitimização barata. Esta é a receita para a derrota das relações sociais, da qualidade de vida e da saúde de todos nós. Abramos os corações e as mentes para pensarmos alternativas de diálogos que ampliem possibilidades, que tragam luz nova para as escuridões mais cotidianas. Aqui, a seguir, algumas sugestões de conversas que uma família pode desenvolver, de todos com todos, para criar um ambiente desfavorável às humilhações e aos sofrimentos do bullying:

1 – Escutar o jovem não como um adulto que sabe o que ensinar-lhe, mas como uma pessoa que também precisa aprender sobre ele, sua vida, seus desafios, suas potências e limites.

O autoritarismo, regente-mor da forma de ser mãe e pai há séculos, ensinou uma mentira: que escutar um jovem, permitir que ele se expresse, é poder ser manipulado por ele. Pode ser que ainda sejamos um pouco assim, pode ser que tenhamos aprendido, na condição de filhos, que a força bruta é a única alternativa para o não que tantas vezes precisa ser dito. Precisamos tentar, merecemos experimentar relações menos tirânicas com as crianças e adolescentes, e admitir que não sabemos escutá-los com o coração, deixando acontecer o encontro que pode fazer com que ambos saiamos transformados. Um filho pode ser um Mestre, se assim permitirmos que ele seja. Nós temos sim um saber, adquirido pela experiência de vida, o que não quer dizer que saibamos tudo sobre aqueles da nova geração. Não sabemos. Podemos ser antropólogos curiosos sobre o mundo que eles habitam, querer ser aprendizes de seus códigos, parceiros de uma expedição à vida cotidiana que eles vivem, inclusive à nossa revelia. Assim, podemos escutá-los como se dali pudesse nascer uma camada inédita de vida em nós. Eles têm muito a nos dizer sobre eles, basta que nos abramos para aprender a escutá-los.

“Precisamos tentar, merecemos experimentar relações menos tirânicas com as crianças e adolescentes”

2 – Rejeitar o uso da força, pelas autoridades escolares ou familiares, contra os participantes das cenas de bullying

A estratégia punitiva já se mostrou falha na sociedade em tantos âmbitos, e aqui não é diferente. Não adianta encarcerar e interditar o ato violento, sem que ele seja escutado como um sintoma das relações humanas naquela escola, família ou comunidade. A violência é um discurso, e não deve ser silenciado, e sim escutado. Tenhamos a coragem de escutar as raízes das violências que se escondem por trás das honoráveis fachadas humanas mais generosas. Ela faz parte de nossas pulsões, de nossa forma mais primitiva de lidar com o que não conseguimos sentir ou expressar. Calar à força bruta o discurso violento pode ser a maior nutrição para que ele se desenvolva como erva daninha silenciosa. Em algum momento ele explodirá em um ódio irascível, descontrolado, impossível de ser domado pela lucidez mais básica. Por que não sentar, em roda, para conversarmos sobre como já estivemos, todos, nas posições de quem sofreu, quem praticou e quem testemunhou o bullying?

A violência é um discurso, e não deve ser silenciado, e sim escutado

3 – Mostrar como se resolvem conflitos de maneira não-violenta

As crianças e adolescentes são cientistas observadores do humano. Seus olhos nos fitam e filtram a verdade ou a mentira das palavras que proferimos como sábios incontestáveis. Elas sabem de nossas contradições, sabem quando não conseguimos ser o que nossos valores dizem para sermos. Somos faróis, apontando caminhos na prática cotidiana. As palavras sussurram, o que fala realmente alto são as ações que eles podem sentir como naturais em nós. Se fomos criados de forma violenta e sentimos que não conseguimos agir de forma diferente, é hora de aprender a encontrar o humano em outra perspectiva. Não há problema algum em admitir que somos aprendizes no retorno à empatia e à convivência cidadã, desconstruidores eternos das violências que aprendemos a normalizar desde o século passado. Para sermos farol, precisamos mostrar-lhes como os conflitos podem ser resolvidos de maneira não-violenta. Os olhos devem servir como o alicerce da escuta, olhos que olham com vontade, com amor e com desejo de contribuir com a dor do outro. A escuta merece ser o desejo de compreender o mais incompreensível. E o diálogo, o terreno milagroso em que as palavras podem finalmente sair dos corações, deixando os cárceres das opressões e ganhando o mundo da aceitação e da convivência dignificante entre todos.

4. Permitir a expressão das emoções em crianças e adolescentes, mas também em nós, adultos

As emoções são pássaros de asas cortadas na sua casa? Quais são as emoções que a sua cultura familiar não permite que se expresse? O que acontece com quem transgride esta norma, e ousa falar do que sente? A raiva, o medo, a tristeza, a alegria, a saudade, o desespero, o desencanto, e tantas outras sensações, fazem parte do aprendizado emocional dos pequenos, na aventura de fazer a cartografia mais madura de um mundo que mal começam a conhecer. E nós, adultos, tantas vezes somos igualmente incapazes de abraçar estes fenômenos em nós, porque não nos foi concedida a liberdade para expressar o que sentimos. É sempre hora de uma revisão do letramento nas emoções, é sempre tempo de aprender a ler o que sente um coração. Podemos fazer isso junto com os filhos, olhando para eles, naquela forma espontânea que têm de manifestar tudo o que lhes cala fundo. Basta testemunhar este movimento neles e querer ser banhado das águas da verdade do coração. É uma das necessidades humanas mais básicas o direito a se expressar o que se sente. Façamos do momento presente um resgate do direito que não nos foi dado lá atrás, junto com eles. É assim, de mãos dadas, que o mundo novo chega a acontecer.

As emoções são pássaros de asas cortadas na sua casa? Quais são as emoções que a sua cultura familiar não permite que se expresse?

5. Acolher a vítima de bullying não significa vitimizá-la, dar espaço para mimimi ou fazer dela uma figura superprotegida e mimada

Quando deixamos a vítima sozinha, quando fomentamos seu ódio ou quando não escutamos sua dor, produzimos mais confusão e mais despreparo para lidar com o problema. Acolher a dor de quem sofre é legitimar o incômodo que pode ser acessado em outro momento, e assim evitar que a violência se repita numa mesma história humana. Para que a vítima possa se sentir autorizada a não permitir que a violência aconteça com ela, precisa ser escutada, e autorizada a sentir raiva, tristeza, medo, humilhação, vergonha. São expressões genuínas das pessoas que sofrem violência. Quando alguém nos escuta, há algo em nós que se acalma, há mais possibilidade de não fazermos vingança a partir da dor, sentimos que há esperança no humano sendo construída ali, naquele olhar, abraço ou palavra. Acolher uma vítima é dar a ela lugar de existência, é entender que, ao sentir-se vítima, pode justamente responder à violência sem se transformar num justiceiro. Saber-se vítima é parte da organização emocional de quem vive a violência, é parte da elaboração da experiência e do aprendizado que ela pode deixar como legado.

6. Conversar sobre violências culturais, que são as formas naturalizadas de se fazer exclusão, de se construir os preconceitos e as discriminações.

Estamos no século da consciência sobre o dano que provocamos sem perceber ou sem dar valor ao que fizemos como humanidade. As pessoas invisíveis do tecido social estão se levantando para a tribuna, e falando sobre o que viveram secularmente: violências de gênero, conjugais, contra crianças e adolescentes, racial, contra pessoas com deficiência, contra idoso e todas as identidades mais vulneráveis e tidas como alternativas, marginais ou menos importantes socialmente. Faz parte da pauta da educação cidadã nestes tempos o diálogo que amplie estas consciências, que prepare a nova geração para tratar a diferença como diferença, e não como inferioridade. Faz parte de nosso dever cívico alertar-lhes como ainda somos violentos sem perceber, e que todos os dias podemos fazer uma análise sincera dos aprendizados que vamos colecionando, à medida que desvelamos nossas atitudes menos nobres.

7. Exercitar a flexibilidade nas relações familiares. Ser família é um dos desafios mais grandiosos da existência.

Somos muitas pessoas diferentes, compartilhando um sobrenome, ideais supostamente comuns de vida, desejos divergentes e vontade de estar juntos – tudo ao mesmo tempo e agora. A única forma de conseguir isso é decidir abraçar a plasticidade como parte da estrutura familiar. Ou seja, admitir que a família é uma matéria sempre em transformação, em tudo o que ela compõe: formas de interagir, de conversar, as regras que norteiam a convivência, e sobretudo o direito de um adulto pedir desculpas a uma criança ou adolescente, e fazer daí um novo ciclo de reparação da relação. A família, ao ser compreendida como uma metamorfose ambulante, está mais suscetível a ser espaço de abrigo e conforto para todos os tipos de pessoas que ali transitam. E permitir-se errar, na condição do adulto da relação, é a revolução mais suprema que podemos viver, na pele de cuidadores que, de fato, poucas certezas portam diante das complexidades da vida.

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Resumo

O terapeuta familiar Alexandre Coimbra lista 7 caminhos que as famílias podem seguir no combate ao bullyng. "O que proponho não são regras nem prescrições fáceis. São diálogos que precisam ser iniciados entre todos os membros da comunidade", diz.
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