Evasão escolar: pós-pandemia e os desafios de voltar às aulas

Com a determinação de alguns governos sobre o retorno às aulas presenciais, educadores e gestores apostam na busca ativa para garantir o regresso dos estudantes

Alice de Souza Publicado em 27.10.2021
Na foto, um menino negro encara a tela de um computador, que está junto de folhas de papel
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Resumo

Entre os inúmeros desafios na retomada das aulas presenciais pós-pandemia - determinada por alguns governos ao redor do Brasil - a evasão escolar é uma realidade que ameaça afastar os alunos da educação formal.

Quando as escolas adotaram o ensino remoto por causa da pandemia, não havia nenhum computador na casa da desempregada Dharla Correia, 32 anos. Seus quatro filhos – uma adolescente de 13 anos, um menino de 10 e duas meninas de 5 e 4 anos, respectivamente – precisavam dividir o único celular da casa para estudar. Depois de alguns meses, graças à ajuda de um professor, a família ganhou um computador e dois celulares. Passados 1 ano e oito meses do início da crise sanitária, entretanto, nem todas as crianças da casa voltaram ao ensino presencial e as dificuldades permanecem. Dharla luta contra o desestímulo do filho, mas teme ver a criança abandonar a escola.

Dos quatro filhos de Dharla, apenas a adolescente voltou ao ensino presencial. O menino, lamenta a mãe, nunca conseguiu acompanhar as aulas virtuais. No começo, por falta de equipamentos. Depois, por desinteresse. Quando a escola municipal onde estuda, localizada na cidade de Camaragibe (PE), avisou que retomaria o presencial, a criança não demonstrou interesse em voltar. “Ele perdeu muito e ainda não recuperou. Meu medo é ainda maior no próximo ano, quando ele vai para uma escola estadual. Não sei se vai conseguir acompanhar”, conta Dharla.

A percepção dela é a mesma de pais e responsáveis de 40% dos estudantes da educação básica, segundo um estudo publicado em maio pelo Datafolha, Fundação Lemann, Itaú Social e BID: a de que os filhos não estão evoluindo na aprendizagem, não estão motivados e já admitiram interesse em abandonar os estudos. Ainda não há dados oficiais no Brasil sobre taxas de abandono e evasão escolar neste segundo ano de pandemia, mas o fantasma que aos poucos estava sendo vencido voltou a rondar a educação do país.

Até 2019, segundo dados divulgados em abril na pesquisa sobre o cenário da exclusão escolar no Brasil, da Unicef, havia cerca de 1,1 milhão de crianças e adolescentes em idade escolar fora do ensino formal. Em novembro de 2020, o número era de 5,5 milhões. Destes, 40% eram de crianças na mesma faixa etária do filho de Dharla, de 6 a 10 anos, período em que a educação já estava praticamente universalizada antes da covid-19.

Agora, o país segue com risco de regredir cerca de duas décadas nos índices de acesso à educação. “O Brasil é um dos países que permaneceu mais tempo com as escolas fechadas, 13 meses aproximadamente, enquanto em outros países esse período foi de três meses. Estudos, nacionais e internacionais, indicam que mesmo os fechamentos de curta duração causam impactos significativos nos níveis de aprendizagem, no aumento do abandono escolar”, afirma a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social, Patricia Mota Guedes. 

De acordo com estudo feito pelo DataFolha, divulgado em junho, 3% das crianças e adolescentes entre 6 e 18 anos estão fora da escola, sendo 2% com indícios de interrupção dos estudos neste ano, ou seja, que não renovaram a matrícula. Isso totaliza 1 milhão de pessoas. “Na nossa leitura, o desânimo dos estudantes vem de um esgotamento do modelo não presencial, que era emergencial e se estendeu. Não há como substituir o funcionamento da escola. Na educação básica, a presença do professor, a convivência em sala de aula e a interação são parte do processo de ensino-aprendizagem”, afirma o diretor de Políticas Educacionais da Fundação Lemann, Daniel de Bonis.

A escola do filho de Dharla retomou as aulas, em setembro, em um modelo de rodízio. Uma semana, o menino vai para a escola e, na seguinte, assiste às aulas de casa, o que amplia os receios da mãe. Exemplos de abandono escolar no entorno da família não faltam. Uma amiga da filha mais velha chegou a ganhar um celular para estudar remotamente, mas acabou desistindo. O mesmo ocorreu na turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) onde Dharla assiste aula. “Eu sei que meu filho vai ter dificuldade, pois o ensino estadual é mais puxado.”

Até pensei em deixar para ele voltar ano que vem, mas qualquer gotinha de conhecimento já é alguma coisa, né?”

As desigualdades acentuadas

De acordo com o estudo do DataFolha, 8% dos estudantes com indícios de interrupção dos estudos tinham como motivação a falta de acesso à internet. Parte desse problema foi resolvido na casa de Dharla quando a família ganhou os aparelhos eletrônicos, porém outros motivos falam mais alto para a insegurança dela quanto ao retorno das atividades do filho. O menino está entre os 36% de estudantes que aguardavam um retorno do órgão responsável sobre a matrícula. 

Também faz parte do perfil em que o desinteresse e o risco de abandono escolar é mais presente: os estudantes de famílias com renda de até um salário mínimo, negros e da região Nordeste. Enquanto 38% dos estudantes de escolas de alto nível socioeconômico tiveram as escolas reabertas para atividades presenciais no primeiro semestre, o mesmo só foi possível para 16% dos estudantes de escolas de baixo nível socioeconômico. “Com a pandemia, nós vimos um acirramento das desigualdades que já existiam antes – disparidades econômicas e sociais históricas, com efeito de curto e longo prazo no campo educacional”, afirma Patricia Mota Guedes.

A pesquisa do DataFolha mostrou que as dificuldades em manter a rotina de estudos passou de 58% para 69% em um ano, entre 2020 e 2021, e foi mais expressiva nos anos iniciais e na região Nordeste, etapa e região onde estão o filho de Dharla, que cursa o 5º ano do ensino fundamental. “Com certeza, as crianças de escola particular, que voltaram desde o começo do ano, estão muito mais na frente daquelas que ficaram esperando o governo”, opina a mãe. 

O menino faz parte dos 40% de estudantes que precisaram dividir os aparelhos eletrônicos para estudar. Na casa de Dharla, segundo ela, tudo converge para a desatenção. A televisão ligada, as duas irmãs querendo brincar e por vezes brigando, as necessidades da irmã mais velha em usar os aparelhos. “A gente vive numa casa pequena, qualquer barulho desconcentra. Então, ele deixou as atividades”, conta.

“O que eu pude ensinar pelo livro, eu fiz, mas não é a mesma coisa da professora, né?”

Não ter a presença dos docentes é um dos motivos para o desestímulo dos alunos de escolas públicas, sobretudo quando consideradas as desigualdades. “Quando você fecha a escola, você tira um fator de redução de desigualdades. A escola tem esse papel porque lá todos os alunos estão na mesma sala de aula, com os mesmos recursos, com acesso a refeições, espaço seguro”, pondera Daniel de Bonis. 

Segundo o presidente da Undime, Luiz Miguel Martins Garcia, o abandono é facilitado por fatores como a perda de frequência no acompanhamento das atividades, o ritmo de interação e o vínculo com a escola. “Às vezes, as famílias também precisam reorganizar e recompor a parte financeira. Muitas estão destroçadas, inclusive com a perda do próprio arrimo familiar, e crianças estão indo para o mercado de trabalho”, afirmou. 

Essa é a realidade de Fernanda*, que abandonou a escola aos 16 anos, no ano passado. Moradora de Londrina, no Paraná, ela chegou a cursar uma semana de aula presencial em 2020, no terceiro ano do Ensino Médio, mas perdeu a mãe logo no início da pandemia e precisou se mudar para outra cidade, menor, para viver perto do pai. Como não tinha acesso à internet, não pôde acompanhar as aulas presenciais na escola em que estudava. Tampouco se sentiu motivada a se matricular em uma nova instituição. 

O desejo de Fernanda era terminar a escola e entrar na faculdade, mas a desmotivação a fez trocar os planos para trabalhar e ter uma renda, já que as contas em casa apertaram. Primeiro, trabalhou por um mês como cuidadora de idosos, mas sofreu racismo e preferiu sair para trabalhar na roça, em uma plantação de frutas. Agora, trabalha como vendedora, sem vínculos trabalhistas e ganha por comissão. 

Para ela, a principal desmotivação com a continuidade da vida escolar veio da falta de apoio da família e da comunidade. “Quando uma pessoa nasce, não são só os pais que têm que arcar com a vida dela, porque não é só em casa que você aprende. Eu pedi ajuda na minha família, na escola, mas não tive”, explica Fernanda.

“É mais fácil largar a escola do que continuar estudando”

No Recife, para garantir a educação da filha de 8 anos, a artesã Tatiane Silva, de 35 anos, fez um esforço e conseguiu o retorno da filha à escola. Sem renda durante o primeiro ano da pandemia, ela tirou a menina da escola particular onde estudava. Em consequência, diz, a criança teve a saúde mental comprometida. “Ela desenvolveu dermatite atópica emocional (uma espécie de alergia que aparece em situações de estresse emocional), ficava muito triste vendo os amigos estudando”, diz. 

Pagar uma educação privada é a solução para garantir o ensino da menina, já que a comunidade onde mora, o Passarinho, triplicou nos últimos anos, passando de 12 mil para 40 mil pessoas. A única escola pública local não consegue absorver todas as crianças. Tatiane, apesar de tudo, se sente privilegiada em relação a outras mães do bairro e luta pela educação local. “Principalmente as crianças menores estão sem creche. Não existe creche na nossa comunidade. Eu tenho que pagar a escola para a minha filha ter onde estudar, só que existe um custo inclusive de transporte. E tenho uma luta por outras mulheres negras com filhos aqui”, diz.

A busca ativa e as limitações de infraestrutura das escolas

Antes da pandemia, um estudo com adolescentes, realizado pela Fundação Roberto Marinho (FRM) em parceria com a instituição Plano CDE, mostrava que alunos com baixo rendimento escolar têm o dobro de chances de largar os estudos. Metade dos estudantes de 14 a 19 anos já haviam abandonado a escola em algum momento, depois regressado. Esse foi o cenário de onde partiu a educação brasileira na pandemia. Por isso, o desafio atual tem sido o trabalho de busca ativa dos educadores e gestores de escola para garantir o regresso dos estudantes às salas de aula, o que demanda uma rede de articulação estadual e deve se estender por muito tempo”, diz Luiz Miguel Martins Garcia, presidente da Undime.

Em junho, a Unicef, em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), iniciou um trabalho de suporte à busca ativa, com uma plataforma e guias de estratégia pedagógica para motivar os alunos. A proposta é mobilizar a comunidade escolar e traçar estratégias para apoiar o regresso dos estudantes. Contudo, a coordenadora pedagógica de uma escola de referência da rede estadual de ensino em Pernambuco, Itally Andrade, 34 anos, diz que, por enquanto, o abandono escolar é mais perceptível entre os estudantes do ensino médio. De turmas com 40 alunos, às vezes, só aparecem três nas aulas. “A ida de alguns, a gente percebe, tem muita relação com a disponibilidade da merenda.”

Segundo ela, no ensino fundamental o problema que prevalece são as questões de saúde mental, com muitos alunos apresentando crises de ansiedade. Segundo Itally, “o maior desafio hoje é motivar os estudantes”. Sobre a busca ativa, ela explica que, “de boa parte dos alunos, temos o contato registrado na nossa caderneta eletrônica. Mas alguns, a gente vai em sala perguntando quem conhece. Criamos um grupo de WhatsApp com todas as turmas para manter contato, dar informações”.

Para Luiz Garcia, a reorganização para o retorno presencial faz parte de uma série de problemas que o ensino municipal vem enfrentando desde o início da pandemia. Hoje, faltam instrumentos para que as instituições façam uma avaliação diagnóstica das necessidades e há limitações no alinhamento com o Ministério da Educação, o que tem feito os municípios se ajudarem. “Há uma exclusão sistêmica na sociedade brasileira. Algumas escolas já tinham dificuldades estruturais não resolvidas antes da pandemia que comprometem o retorno das aulas presenciais. Foi preciso pensar em protocolos”, diz.

Além de uma busca individualizada, Daniel de Bonis lembra que as escolas precisam de foco na recepção e acolhida dos alunos neste momento. “Se a gente deixa passar muito tempo, começa a ter uma chance real de que isso se consolide em abandono, uma completa quebra de vínculo com a escola.”

“Precisamos ter recursos disponíveis para garantir possibilidades múltiplas e não reducionistas”

Neste momento, segundo os especialistas consultados pelo Lunetas, alguns movimentos são importantes no sentido de viabilizar o retorno dos alunos de escolas públicas ao ensino presencial, o que inclui estudos diagnósticos precisos das necessidades de infraestrutura das escolas, apoio psicológico e técnico para os profissionais de saúde, e respeito às dificuldades dos estudantes, sem pressão. “Não vai ser em um ano, dois anos, que vamos recuperar as aprendizagens. Os alunos irão precisar de um prazo maior, de pelo menos três anos, para recuperarem os conhecimentos”, concluiu o presidente da Undime. 

* Nome fictício para a personagem que preferiu não se identificar.

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