Uma semana sem ar: como estão se sentindo as famílias do Amazonas

Ouvimos relatos de pais e filhos sobre os dias em que faltou oxigênio nos hospitais de Manaus e a capital, outra vez, protagonizou cenas dramáticas da pandemia
iStock/Arte Lunetas
  • Publicado em: 18.01.2021
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O barulho das sirenes aumentou. A televisão mostra que, do lado de fora, pessoas correm por toda a cidade à procura de oxigênio. As portas voltaram a fechar. Na última semana, quando o sistema de saúde colapsou e Manaus virou cenário de guerra por oxigênio para tratar pacientes contra a Covid-19, não faltaram perguntas das crianças. A muitos pais, como a vários brasileiros, faltam palavras.

O Governo Federal foi avisado sobre a escassez de oxigênio no dia 7 de janeiro. Cinco dias depois, os hospitais manauaras começaram a registrar o fim do estoque a pessoas internadas pela Covid-19. Na internet, circularam vídeos de profissionais de saúde pedindo ajuda para salvar a vida de pacientes. Naquela primeira semana do ano, a média móvel de mortes no Amazonas aumentou 183% e o número de internações nos primeiros 12 dias do ano superou o maior índice registrado até então, em abril de 2020.

Pais e crianças amazonenses tentavam retomar o mínimo da rotina, mas voltaram a viver as incertezas, isolados dentro de casa. O que dizer aos pequenos? Como evitar que esta “nova” onda da pandemia deixe um rastro de crianças traumatizadas? Essas são apenas algumas das perguntas que passaram pela cabeça dos adultos, muitos deles assustados também com a perda de amigos e parentes próximos.

O músico e jornalista Mencius Melo relata que ficou dias com medo de olhar os filhos Benjamin, 9, e David, 8.

“Quando o vírus se alastrou e invadiu ruas, praças e avenidas, achamos que ele não entraria porta adentro. Mas entrou, nos sequestrou a paz e levou amigos e parentes”

O caçula teve febre justo na semana de caos nos hospitais. “Fiquei com medo de ter levado o vírus para casa. Cabem todos os sentimentos de culpa do mundo, em uma fração de segundos, quando se é pai em meio a uma guerra cujo inimigo é microscópico e o governante da nação é menor ainda”, critica.

Desde o ano passado, a psicóloga clínica do Amazonas, Cynthia Lima Montenegro, já vinha atendendo várias crianças que queixavam-se principalmente de medo, ansiedade, dificuldade para dormir e comer. Diante desse cenário, ela lembra que as crianças estão sujeitas aos mesmos sentimentos dos adultos.

“As crianças, mesmo que não estejam assistindo televisão, ouvem as sirenes e entendem que algo está passando. Muitas estão com medo de que aconteça algo com os próprios pais”

A psicóloga aconselha os pais a cuidarem das próprias emoções para poder cuidar também dos filhos. “Recomendo que façam um diário, escrevam como estão se sentindo, o que podem fazer para melhorar. Também oriento atividades lúdicas, como criar um potinho da positividade para que, todos os dias, possam depositar nele uma palavra ou frase. Ao sentir angústia, leiam as mensagens. A gente precisa mostrar [aos pequenos] que coisas boas e ruins existem.”

Cynthia reforça ainda que o melhor caminho é explicar os fatos às crianças, mas “em vez de histórias mirabolantes, opte por contar a verdade de forma mais suave. Os pais podem, por exemplo, dizer que Manaus está passando por uma nova onda da Covid-19, que é uma situação mais complicada e muitas pessoas ficaram doentes.” Também é melhor evitar imagens ou assuntos sobre o número de mortes.

Covid em Manaus: a pandemia pela visão das famílias

Para tentar entender a situação, o Lunetas conversou com pais e crianças amazonenses sobre a semana de caos na capital e outras cidades afetadas pela falta de insumos médicos, como Itacoatiara e Parintins. Com um agravante: Manaus é a única com leitos de UTI para atender os 62 municípios que se espalham por uma área territorial maior que a região Sul e Sudeste juntas. Se não houver uma mobilização efetiva, teme-se que o rastro de mortes por asfixia chegue a outros municípios.

Entre os adultos entrevistados, o sentimento – além da insegurança na forma de abordar o tema com os filhos – é de ressentimento com o descaso na implementação de políticas públicas e a negligência individual no cumprimento das normas de isolamento social.

Joelma Muniz e Maria Eduarda

Vivendo a 500 metros de um hospital, Joelma, mãe de três meninas, já ouviu mais de uma vez a filha do meio, Maria Eduarda, 12, dizer: “Isso está acontecendo por causa da humanidade, a culpa é nossa”. A menina também foi tomada pela tristeza na última semana:

“Me sinto triste e magoada pelas famílias que perderam seus entes queridos, pelas pessoas que perderam seus amigos, pelas mães que perderam seus filhos ou os filhos que perderam suas mães”

Nas duas últimas semanas, Joelma notou o aumento considerável do barulho de sirenes perto de sua casa.

“As crianças estavam começando a respirar a rua e, do nada, precisaram voltar a ficar completamente distanciadas, em casa”

“Diante do que está acontecendo, a gente precisou conversar e explicar. Começamos a nos reunir para momentos de meditação, de oração.” Para tentar distrair as filhas, ela passou a inseri-las mais nas atividades de casa. 

Arquivo Pessoal

Joelma Muniz com a filha Maria Eduarda, 12, e Amanda Louise, 5. “Diante do que está acontecendo, a gente precisou conversar e explicar. Começamos a nos reunir para momentos de meditação, de oração”

 “A minha filha caçula, de 5 anos, tem muito medo que o pai e a mãe contraiam a doença. Quando vem uma dor de cabeça, ela já fica preocupada”, diz Joelma. 

Allan Rodrigues e Sofia

Da janela de casa, os três filhos de Allan viam os colegas brincando livremente sem máscaras na área de lazer do condomínio. A família era uma das únicas do conjunto de prédios a seguir os protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS). No fim do ano passado, os pequenos ganharam liberdade parcial para encontrar os amigos, usando máscara e álcool gel. Mas, com o colapso do sistema de saúde, eles voltaram ao isolamento total.

“O condomínio fechou e as crianças queriam saber o motivo. A gente teve que explicar que o coronavírus voltou, que há pessoas morrendo. Com os menores, a conversa parou por aí. Mas a mais velha assiste ao noticiário comigo”, explica Allan. Para ele e a esposa, os últimos dias têm sido difíceis. “Não havíamos perdido nenhum amigo, mas agora há várias pessoas do nosso convívio que contraíram a doença e morreram. É claro que isso a gente não fala para as crianças.”

Arquivo Pessoal

Allan Rodrigues, com os filhos Aleksander, 7, Sofia, 13 e Isadora, 5. ‘O condomínio fechou e as crianças queriam saber o motivo, a gente teve que explicar”

A maior preocupação de Allan, neste momento, é com a saúde de seus pais e com a falta de medicamentos nas farmácias de Manaus. 

“Também me preocupo caso meus filhos precisem ir ao hospital por qualquer outro motivo. Por isso, cuido deles mais que nunca, imaginando o que pode acontecer”

“Fico o tempo todo ‘não corre’, ‘não sobe’, ‘não pula’. Isso deixa a gente ansioso e as crianças percebem.” 

Isadora, 5, está com saudades da avó. Alexsander, 7, está triste com as notícias sobre tantas mortes . Sofia, 13, viu nas reportagens que falta oxigênio em Manaus. “Minha mãe está muito preocupada, meu pai também”, diz ela, que espera tudo isso acabar para poder sair com os amigos.

Djane Sena e Helena

“É uma situação muito triste, por causa do coronavírus. Isso me deixa furiosa”, conta Helena, 10. Ela tem muitas contas a acertar com o vírus, o responsável por levar o seu pai embora no primeiro semestre do ano passado.

Helena é filha de Djane Sena, que viu quatro amigos falecerem e oito se internarem na mesma semana em que faltou oxigênio no Amazonas. “Tentei não transparecer a tristeza para meus filhos, mas não consegui segurar mais. Um dia, Helena quis saber o que estava acontecendo e contei que um amigo havia falecido. Ela perguntou: 

‘Ele virou estrela como o papai?’

Arquivo Pessoal

Djane Sena com a filha Helena, 10. ““Eu quero salvar o mundo. A gente pode fazer o antídoto, a vacina e, então, entregar para os médicos de todos os países”

Com o som ininterrupto de sirenes, Helena e os irmãos – Celeste, 11, e Joaquim, 5, – ficaram mais melancólicos. Para tentar amenizar a situação, as crianças têm passado os últimos dias vendo filmes e desenhos na televisão. “Não deixamos mais que eles brinquem na rua. Só que as crianças já estão há um ano trancadas em casa, então, haja repertório para encher o dia.” 

Djane também não conta tudo o que está acontecendo e tem medo de deixar os filhos ainda mais traumatizados. “É difícil, pois todos têm celular, às vezes acabam se informando mais do que eu. Sabem, por exemplo, tudo sobre a vacina, quando chega, quem vai usar, quais as empresas. A única preocupação deles é quando vão poder sair.” É o desejo da Helena:

“Eu quero salvar o mundo. A gente pode fazer o antídoto, a vacina e, então, entregar para os médicos de todos os países”

Keynes Breves e Keynes Filho

O segundo pico da pandemia no Amazonas chegou de uma forma inesperada para Keynes: há cinco dias antes do Natal, ele contraiu a Covid-19. No dia da celebração da festa, precisou ir ao hospital. Por causa disso, o filho passou quase um mês longe do pai e da mãe, morando com a avó. 

Na semana em que a criança voltou para casa, depois de passar três dias montando uma placa com a mensagem “meu pai venceu a Covid-19”, foi justamente quando o sistema de saúde amazonense colapsou, mais uma vez. A cidade de Manaus está cinza, descreve.

“O clima está pesado, chove o dia todo, o que deixa a cidade ainda mais melancólica. Um dia, meu filho me viu chorando e chorou também”

Para evitar que Keynes Filho, 8, absorva o clima ao redor, a família fez uma pequena reforma no seu quarto, para deixar o ambiente mais acolhedor. Além disso, tem deixado o menino à vontade para ver televisão e ler. “O clima aqui é muito duro, é de guerra mesmo. A gente vai para a rua e vê pessoas com medo. Quem não estava consciente, agora está”, conta Keynes.

Arquivo Pessoal

Keynes Breves e o filho, Keynes Filho, 8, com o desenho que ele fez quando o pai se recuperou da doença: ‘Meu pai venceu a Covid’

Embora evitem contar detalhes dos acontecimentos para o filho, foi mais difícil blindar a criança na última semana. Keynes quis saber por que viaturas da polícia foram fiscalizar o condomínio. A família também mora perto da base aérea, onde o tráfego de aviões aumentou. “Ele falou: ‘olha, mais pacientes indo para outro estado, para serem curados.’”

Além da preocupação se o filho adoecer e precisar do sistema de saúde com capacidade esgotada, a família considera eventuais traumas.

“Quase todo dia ele pergunta se vai ser vacinado”

*Colaborou com a apuração desta reportagem a jornalista Chris Reis, correspondente do Lunetas, que vive em Manaus (AM).

Resumo

Conversamos com pais e filhos para saber como foi viver os dias em que Manaus protagonizou momentos dramáticos da pandemia, com a falta de oxigênio nos hospitais. ‘Mesmo que não vejam as notícias, as crianças ouvem as sirenes e sabem que algo está acontecendo’
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