Bonecas Abayomi: o perigo de contar uma história hegemônica

Rever a história das bonecas abayomi é uma forma de combater a dominação do colonialismo acondicionada em discursos únicos
Social Bauru/Arte Lunetas
  • Publicado em: 30.08.2021
  • Atualização: 19.09.2021
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Muito se fala que as bonecas abayomi eram feitas por mães em navios negreiros, como forma de gerar segurança e transmitir afeto para os filhos que as acompanhavam no trajeto. Vendida como “símbolo de resistência” da cultura negra em diáspora, a narrativa que sustenta as abayomis, apesar de fortemente presente no ideário popular, é uma história romantizada que deve ser repensada e colocada em debate, por não existir registro histórico que associe a origem das bonecas ao período colonial.

Esta versão recente da abayomi foi criada pela brasileira Waldilena “Lena” Serra Martins, artesã maranhense nascida em 1950. Em um contexto no qual os Centros Integrados de Educação Pública (Ciep) estavam em plena expansão, na década de 1980, e o cargo de animador cultural era o principal mediador entre a cultura local e o contexto pedagógico, foi no Rio de Janeiro, cidade onde Lena cresceu, que a produção de abayomis tomou forma. Embora existam outras bonecas similares, a artesã desenvolveu a técnica para criação das bonecas em 1987, enquanto era coordenadora de animação cultural no Ciep Luiz Carlos Prestes, localizado na Cidade de Deus, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro.

A história romântica é mais fácil de ser digerida

Para Carlos Machado, historiador e autor do livro “Gênios da humanidade – ciência, tecnologia e inovação africana e afrodescendente”, a disseminação da narrativa da boneca oriunda de navios negreiros “se insere nessa sociedade que prefere o conto de fadas, que prefere o mito”. Em um país tão desigual, violento e cruel como o Brasil, onde ainda há pouca reparação histórica para a população afrodescendente e indígena, o mito surge “para aplacar um pouco a culpa, a responsabilidade, do que foi feito com essas populações”. Nesse sentido, a narrativa romantizada sobre as abayomis também é cruel por invisibilizar o trabalho de Lena Martins, negando a autoria de um símbolo cultural à autora ainda viva.

Para a historiadora e pesquisadora de religiões afrodiaspóricas Luciane Adriano, “sendo trágica ou horrível, precisamos ter o compromisso de contar a história da forma que ela é, para não ser repetida erroneamente”.

“O Brasil tem uma tradição de história hegemônica, contada pelo ponto de vista dos vencedores”

A versão distorcida da história da abayomi deve ser refutada, por idealizar uma visão romântica da diáspora africana com a intenção de amenizar acontecimentos bárbaros. “Não temos nenhum registro documentado das mães levarem seus filhos [nos navios negreiros]. Os traficantes de escravos geralmente não traziam crianças pequenas porque elas não tinham ‘valor’ nenhum”, explica a historiadora.

“As mulheres eram separadas de suas famílias, e algumas das crianças menores que entravam nos navios eram jogadas no mar, o que torna a diáspora africana ainda mais trágica”

Para Lena Martins, a versão popular das bonecas abayomi terem nascido em navios negreiros surge de um comportamento de sempre “querer colocar o povo preto e descendente em ambientes péssimos, associando nossa vida e tudo o que se faz nela ao pior lugar”. A criadora das bonecas conta que o processo foi muito orgânico: antes de chegar às abayomis, a artesã confeccionava bonecas de pano e de palha de milho. “Eu não tinha um projeto em mente, só estava vivendo o momento. A boneca não tinha nome, quando eu comecei a fazer a abayomi, a ganhar um formato, um jeito, era só ‘boneca negra sem cola e sem costura’”, diz.

De acordo com Gomes, Bizarria, Collet e Sales, pesquisadores responsáveis pelo ensaio fotográfico “A boneca Abayomi: entre retalhos, saberes e memórias”, o nome da boneca surgiu pela professora e militante Ana Gomes, que integrava um dos primeiros grupos de produção de abayomis. Na época, ela estava grávida e dizia que, caso nascesse um menino, se chamaria “Abebe”. Se fosse menina, “Abayomi”, nome cuja uma das interpretações possíveis é “meu presente”, em yorubá. Com o nascimento do menino Abebe – de quem Lena é madrinha – o trabalho de múltiplas mulheres negras foi batizado de “Abayomi”, um nome repleto de identidade e força ancestral.

Ancestralidade por meio da arte

Além de coordenadora de animação cultural, Lena integrava o Movimento de Mulheres Negras. As abayomis foram criadas em 1987, um ano antes do centenário da abolição da escravidão. Discussões sobre a redemocratização do país estavam em erupção, tornando o envolvimento com as abayomis cada vez mais intenso. O resultado desse profundo contato com a boneca resultou no nascimento da Coop Abayomi, uma cooperativa de artesãs negras organizadas como “Artesãs Livres Associadas”, que virou um espaço referência na época.

Feita de retalhos, sem uso de cola ou linha, e dando um novo destino para o que primordialmente seria tratado como lixo, Lena Martins ressalta que as bonecas abayomi surgem da sequência de acontecimentos em que a busca por identidade é constante: “Mistura o momento em que eu me envolvo com o movimento de mulheres negras e abro a minha consciência vendo palestras do movimento negro. Então, eu acho que a inspiração vem daí”, diz. Luciane Adriano reforça que “a abayomi tem o seu valor como objeto de resistência por mostrar um ciclo da vida”, além de “gerar possibilidades por meio da criação de autoestima”. A boneca se tornou um instrumento capaz de fomentar elementos de matriz africana na educação formal, fortalecendo a autoestima do povo preto por meio da afetividade e reconstruindo histórias de pessoas marginalizadas da periferia do Rio de Janeiro.

“A história não é uma ciência neutra. Talvez a narrativa da Lena Martins não vendesse. Quando a história já vem pronta, principalmente quando ela é romantizada, é mais fácil de contá-la”, diz Luciane

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Resumo

A narrativa sobre a criação das abayomis, fortemente presente no ideário popular, é uma história que deve ser colocada em debate por não existir registro histórico que associe a origem das bonecas ao período colonial.
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