Em Guardiões do Pantanal, Marianna Muzzi narra a união de animais diante de um incêndio e aponta caminhos para falar de natureza com honestidade e esperança
O livro Guardiões do Pantanal mostra como a literatura infantil pode abordar queimadas, biodiversidade e educação ambiental, incentivando a empatia, a cooperação e o cuidado com a natureza.
Na capa de Guardiões do Pantanal, um tuiuiú de asas abertas sobrevoa a água, um tucano cruza o céu e, rente ao chão, labaredas alaranjadas sobem pelo capim. A ilustração antecipa a jornada que o livro oferece às crianças. Diante de um incêndio, um grupo de bichos precisa escapar das chamas, proteger uns aos outros e, assim que o fogo recua, reconstruir o pedaço de mundo que sobrou.

Terceiro título da escritora, linguista e educadora Marianna Muzzi, a obra sai pela editora Zouk com ilustrações de Tiago Giora, ilustrador e educador que assina as imagens de todos os livros da autora, incluindo Pela estrada afora e O sul é para lá!. Na trama, o tuiuiú, ave-símbolo do Pantanal, lidera o bando em meio a perdas, reencontros e desafios, numa aventura que coloca a literatura infantil para conversar com um dos temas mais urgentes do país.

Por trás da história de bichos, o livro toca numa dúvida comum a famílias, educadores e cuidadores. Como apresentar a biodiversidade, as queimadas e a crise ambiental a quem ainda aprende a dar nome às coisas, sem esconder a gravidade dos fatos e sem deixar como saldo apenas medo e impotência? Em entrevista ao Lunetas, Marianna compartilhou as escolhas que fez para responder a essa pergunta, e elas ajudam a pensar a conversa também fora das páginas.
O assunto já ocupa o noticiário que chega às casas brasileiras. Entre janeiro e novembro de 2024, o fogo atingiu 1,9 milhão de hectares do Pantanal, área 68% maior que a média dos cinco anos anteriores, segundo o Monitor do Fogo do MapBiomas. Esses números compõem o pano de fundo da crise climática que meninos e meninas acompanham pela televisão, pelas redes sociais e, em muitas regiões, pelo próprio ar que respiram.
Um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgado em junho de 2026 dimensiona essa exposição. De acordo com o levantamento, 16 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, o equivalente a 3 em cada 10, convivem com três ou mais riscos climáticos, como ondas de calor e secas. Quase todos, 95%, vivem expostos à poluição do ar.
Para a autora, adiar a conversa não poupa as crianças do assunto, e o tema precisa circular por todos os espaços da infância. “Incêndios, perdas e destruição ambiental são temas difíceis e duros que precisam ser abordados com as crianças na sala de aula, em casa, em todos os lugares”, afirma Marianna, que soma mais de 20 anos de experiência nas áreas editorial e educacional.
A chave, na visão da escritora, mora no equilíbrio. “O segredo é conseguir equilibrar a verdade dos fatos com mensagens de otimismo e esperança”, resume. Por isso, a narrativa não suaviza o perigo. Os bichos sentem medo, se preocupam com o próprio lar e encaram perdas, sentimentos que crianças pequenas reconhecem com facilidade.
O que muda é o destino desse medo dentro da história. Em vez de congelar os personagens, o perigo os aproxima, e a saída aparece no trabalho conjunto para apagar o fogo. “O medo não pode nos paralisar, mas deve nos mobilizar para agirmos em equipe, porque a responsabilidade de salvar o meio ambiente é de todos. É essa a mensagem que queremos passar”, explica Marianna.
A escolha conversa com uma premissa que o Lunetas adotou na série Educação climática em quadrinhos, criada para falar da emergência climática com os pequenos a partir de soluções e do acolhimento do que eles sentem. Nos dois casos, o medo ganha nome, espaço e direção, e a criança encontra na história um lugar seguro para elaborar emoções difíceis.
Outra decisão de Marianna e Tiago foi contar tudo a partir do ponto de vista dos animais. “A ideia principal é mostrar para as crianças que o ser humano não é o centro de tudo”, diz a autora. O recurso aproxima o livro de saberes que povos indígenas transmitem há gerações, nos quais a criança cresce como parte da natureza, ao lado de rios, plantas e bichos.
Ao enxergar o fogo com os olhos de um tuiuiú ou de uma onça, o pequeno leitor mede a perda a partir de experiências que conhece bem, como ter uma casa, uma família e comida na mesa. “Quando elas enxergam os incêndios através dos olhos dos animais, elas também percebem que as queimadas implicam em perda de casas, de famílias, de alimento”, explica Marianna. “Ou seja, acionamos a habilidade de empatia.”
O terceiro efeito toca diretamente o conceito de biodiversidade, palavra que nomeia a variedade de seres vivos de um lugar e, sobretudo, as relações que mantêm entre si. Segundo a escritora, a leitura ajuda a criança a compreender “que o Pantanal é um organismo vivo onde a sobrevivência depende da manutenção, do bem-estar, da saúde do todo: todos dependem de todos”. Com os menores, a ideia cabe numa ciranda, em que basta uma mão soltar para a roda inteira balançar.
A coletividade organiza a trama de ponta a ponta. Marianna conta que preferiu um bando a um protagonista que resolve tudo sozinho porque enxerga no cuidado coletivo a resposta mais honesta para a crise ambiental. “Acredito que as crises climáticas só são resolvidas na cooperação, no esforço coletivo em prol de um bem comum”, afirma.
O convite se estende às crianças leitoras, chamadas a entrar no bando. “A história convida as crianças a se unirem a essa equipe. Ou seja, convida as crianças a refletirem sobre a manutenção dos biomas para a preservação dos seres vivos, o ser humano incluído, é claro! Essa é uma responsabilidade compartilhada, uma responsabilidade de todos”, diz a autora.
Longe da ficção, estudantes do próprio Pantanal já ocupam esse lugar. Alunos do 6º ao 9º ano de uma comunidade rural de Corumbá (MS) levaram à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, um projeto audiovisual sobre como evitar as queimadas e se proteger delas, como mostrou a cobertura do Lunetas.
A escola ganhou um novo marco para essa conversa em 2024. A Lei 14.926 alterou a Política Nacional de Educação Ambiental (Pnea) e passou a assegurar temas como mudanças do clima, proteção da biodiversidade e riscos socioambientais nos projetos pedagógicos da educação básica e da superior, o que reforça o lugar do assunto desde a educação infantil.
Marianna, no entanto, fez questão de manter o livro no território da literatura. “Queríamos contar uma história, nossa ideia nunca foi produzir um material didático”, conta. “Nossa intenção sempre foi sensibilizar as crianças para um tema urgente, preocupante. Acreditamos que a arte é a ferramenta mais potente para atingir esse objetivo.”
Encontrar esse ponto exigiu idas e vindas entre texto e imagem. “O difícil é encontrar esse equilíbrio entre o ‘pedagógico’ e a ‘arte'”, reconhece. Segundo ela, os dois autores revisaram palavras e ilustrações diversas vezes até chegar a um tom capaz de envolver a primeira infância e os leitores um pouco mais velhos. “Queríamos que as crianças se apaixonassem pelos personagens e se emocionassem pela aventura: que abraçassem o livro e não quisessem mais largá-lo.”
Depois da última página, a conversa precisa ganhar fôlego, na avaliação da autora. Marianna considera insuficiente o repertório de pequenas tarefas domésticas que costuma resumir a educação ambiental. “Já não podemos mais nos contentar com as conversas sobre ‘reciclagem’, ‘feche a torneira ao escovar os dentes’, ‘apague a luz ao sair do quarto’. Tudo isso é importante, é claro, mas não é suficiente.”
A proposta dela amplia as perguntas. “Temos que ir mais além: repensar (urgentemente) hábitos de consumo, por que alguns lugares são destruídos, quem cuida do meio ambiente, por exemplo. Esses temas têm que fazer parte da nossa rotina, das rodas de conversa com as crianças.” A questão sobre quem cuida, por exemplo, abre espaço para apresentar comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas que protegem rios e florestas, como mostram as reportagens sobre a resistência indígena no Tapajós e sobre a infância ribeirinha.
No horizonte da escritora, a criança ocupa o lugar de cidadã. “As crianças precisam entender seu papel como cidadãs e pensar no que podem fazer (o que está ao alcance delas), na cooperação com outros ao seu redor, para trabalhar na preservação da vida”, afirma. A ideia ecoa o protagonismo infantil que marcou a conferência de Belém, que o Lunetas descreveu como a COP das Crianças.
Caminhos para conversar sobre natureza com as crianças
A entrevista com Marianna e experiências que o Lunetas acompanha em praças, ruas e quintais do país sugerem algumas pistas para famílias e educadores levarem a conversa adiante.
Começar pelos bichos. Perguntar o que cada personagem perdeu com o fogo e o que ofereceu ao grupo ajuda a criança a ligar empatia e interdependência, as duas ideias que sustentam o livro.
Dar nome ao medo. Acolher o que a criança sente, sem minimizar nem ampliar a preocupação, e mostrar o que adultos e comunidades fazem para proteger a natureza oferece segurança, um cuidado que dialoga com a atenção à saúde mental na infância.
Sair das páginas. Praças, parques e margens de rio permitem que a biodiversidade deixe de soar como palavra abstrata. O desemparedamento da infância e o brincar ao ar livre aproximam os pequenos de formigas, folhas, chuva e vento.
Seguir o caminho das coisas. Descobrir de onde vem a comida e como ela chega à mesa, inclusive cozinhando junto, traduz para o cotidiano a reflexão sobre hábitos de consumo que a autora propõe.
Respeitar cada idade. Na primeira infância, sensações, cores e bichos costumam abrir a conversa. Com crianças maiores e adolescentes, o diálogo pode avançar para causas, responsabilidades e formas de participação.
Com as chamas já distantes, os animais de Guardiões do Pantanal recebem uma nova missão, a de reconstruir o que se perdeu e preservar o que resistiu. O desfecho entrega às crianças uma imagem rara nas notícias sobre queimadas, a de um lugar ferido que ainda pode se recompor com a ajuda de muitos.
A partir dessa imagem, o livro sugere uma resposta para a pergunta sobre como falar de natureza e biodiversidade com quem está começando a vida. A conversa pede honestidade sobre o fogo e generosidade sobre o depois. No Pantanal de Marianna Muzzi e Tiago Giora, a esperança chega pelas asas de um tuiuiú e pela certeza, partilhada entre bichos de todos os tamanhos, de que ninguém atravessa as chamas sozinho.
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